segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dez passagens de Pepetela no romance A gloriosa família – O tempo dos flamengos

Pepetela (foto daqui)


"(...) No fundo, devo constatar, a única coisa que se acumula numa vida são as dúvidas."


"(...) Ngola Kiaito saiu dali muito satisfeito, pois até o governador reconhecia o valor do sábio Sukeko, os filhos da terra começavam a ganhar notabilidade. E trouxe o kimbanda em grande estilo, com um séquito numeroso de dançarinos com ngomas, marimbas e pandeiros, enquanto o Sukeko vinha numa rede transportada entre dois cavalos, o mesmo sucedendo com o soba. Os bailarinos davam grandes saltos, brandindo azagaias, apontando escudos de pede de antílope, imitando gestos guerreiros, numa prova de grande alegria pela honra feita ao incomparável kimbanda. Só que, ao tentarem atravessar o rio Lucala para entrarem na vila, foram cercados pela infantaria portuguesa e com alguns tiros foi afastada a multidão que os acompanhava. O kimbanda e o soba foram presos. (...) Sukeko foi para as masmorras. Vários padres falaram com ele, tentando doutriná-lo para renegar as suas práticas diabólicas. Mas Sukeko dizia com grande arrogância, não sei o que é isso de diabo, eu apenas curo as pessoas com os conhecimentos que tenho das ervas desta terra e ajudado pelos espíritos dos antepassados. Duas vezes lhe disseram para renegar as suas práticas e duas vezes ele disse que essas práticas realmente curavam. Vendo que não podia convencer o feiticeiro a abraçar a religião cristã, mandou o governador erguer enorme pira de lenha num alto junto da igreja de São Benedito, para queimar Sukeko na fogueira, como mandava a sagrada Inquisição. (...)"


"(...) a atracção do sexo é mais forte que o medo da morte, o que não deixava de ser muito optimista quanto ao futuro da raça humana. (...)"


"(...) Os brancos são mesmo engraçados, de tudo fazem um drama. Se um homem é apanhado em adultério, se desafiam para duelos, têm pelo menos de se ferir, senão o marido enganado deixa de ser considerado homem, é um miserável cão. Complicam enormemente as coisas, dá divórcio, depois é preciso saber com quem ficam os filhos e como vão dividir as propriedades e os bens, enfim, uma trabalheira. (...) Na terra da minha mãe é tudo muito mais fácil, o enganador apanhado em flagrante tem de pagar uma multa, que alguns chamam macoji, e pronto, com a galinha ou o cabrito entregue fica reparado o dano provocado na família. Continuam todos amigos, a paz reina. Se do acto nascer um filho, é pertença da casa onde nasceu, e o pai é evidentemente o marido da mulher. Quem pode mesmo saber se o acto provocou a gravidez? E porquê haveria a criança de pagar pelo erro dos outros, ficando bastardo como entre os brancos? Depois, eles é que são os civilizados..."


"(...) Os predikant bem tentavam imitar os papistas, com quem no fundo aprenderam. Talvez não chegassem a mandar os católicos para a fogueira, se os deixassem. Mas lhes tiravam a língua. Ora, o conde Maurício pensa de maneira radicalmente diferente. E nunca deixou que as razões religiosas interferissem na política de Estado. Sempre tentou separar a religião da política, o que é crime para um espírito estreito. Por vezes falhava, os predikant ganhavam uma batalha. Mas de um modo geral conseguiu manter a liberdade de crença para os católicos, o que foi importante para nos aproximar dos moradores. Como é que podíamos corrigir a política fanática e bárbara dos portugueses se agíssemos de forma fanática e bárbara contra eles?"


"– Como estrangeiro, não devia intervir na política local. Você mesmo o disso.
– Não está a perceber. Eu apoio o governador. Estou no meu direito, pois ele é a autoridade. Os outros é que não têm o direito de fazer política contra ele.
– Já percebi. Se é para defender o poder, é permitido ao estrangeiro fazer política. Mas se for contra o poder, então é proibido. Não é isso?"


"(...) E vi naquele crepúsculo trágico que caía sobre a cidade os soldados entrarem no colégio vazio, pilharem tudo o que puderam e depois trazerem papéis e mais papéis para o largo, onde os queimaram em verdadeiro auto da fé, pois eram escrituras dos demoníacos hereges calvinistas, os mais peçonhentos que há, adoradores do diabo, que conspurcam tudo o que tocam e por isso só o fogo pode purificar as coisas que as mãos deles seguraram, excepto as moedas, claro está, essas são benvindas porque imunes a todo o contágio, metais tão nobres como os corações da verdadeira fé. E vi o lençol de gravuras que era o mapa que desenhamos se contorcer em dores no meio do fogo criminoso, fogo que me queimava por dentro, labareda a labareda, mais destruidor que o do próprio inferno. Desconsegui de salvar o projecto e o mapa, meu pai, e a nossa cidade continuará a sofrer da sede, por mais quanto tempo? Séculos, respondeu Matilde. (...)"


"(...) a Companhia nunca viu com bons olhos o que se gastava com o estudo do país e com as obras feitas para melhorar o Recife. Era uma aldeia infecta no tempo dos portugueses, passou a ser uma cidade agradável de se viver. (...) Para os Dezanove, melhorar o modo de vida dos habitantes é esbanjamento inútil. (...) E ter um grupo de cientistas e de artistas para conhecerem e darem a conhecer as realidades do Brasil é luxúria. (...) Porque para a Companhia das Índias Ocidentais, a ciência e a arte estão a mais e os cientistas e artistas são parasitas, ociosos vivendo das migalhas dos poderosos. Para os Dezanove, a única ciência válida é a mecânica, que ajuda a melhorar o rendimento do trabalho, o resto é especulação, arte do demônio. (...) Pode uma colonização ser exitosa se feita apenas em função do lucro dos accionistas? Pode uma companhia colonizar sozinha um território? Não terá de haver uma política de Estado, concebida por políticos e não por comerciantes? Porque está é a questão essencial. Quem manda nos territórios é a Companhia. E esta só pensa nos benefícios dos accionistas, senão estes desistem, os capitais são aplicados noutra coisa."


"– Do que aprendi no Brasil, é chocante a maneira como os portugueses tratam os habitantes da terra, os negros – disse Marcgraf. – Pensam que não têm alma. É também a sua opinião que nós tratamos melhor os habitantes, senhor Van Dum?
– Sem dúvida, há outro respeito. Veja o meu compadre, Dom Agostinho Corte Real. É tratado com a deferência que um aristocrata merece. Os portugueses só não o venderam como escravo porque não puderam."


"– Não sei como é com os católicos, nem me interessa. A cerimônia com o padre foi apenas um estratagema. O que importa é que a sua filha me traiu. Acha que tem sentido manter um casamento, depois disso, só porque ele foi celebrado por um padre? Tenho de ficar todos os dias a reabrir a ferida, sempre que olhar para ela, ou a ouvir? Para satisfazer a sua religião, ou uma religião qualquer? Não, senhor Van Dum, o senhor não tem o poder de me obrigar a manter este casamento que já morreu.
– Tenho, sim. Vou mandar a Matilde voltar para esta casa. O que você pense não me interessa. Nem o que vocês façam por trás das paredes, até se podem matar. Mas ficam aqui a viver juntos, como um casal. Por isso casaram. E você tem de trabalhar para a sustentar. Portanto, o mais fácil é mesmo fazer a farsa à frente do major, para não perder o emprego. (...)"





Presentes no romance A gloriosa família – O tempo dos flamengos (Nova Fronteira, 1999), páginas 356, 154-155, 398, 161, 152-153, 273, 400-401, 151, 152 e 171, respectivamente.

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