quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Ângela Vilma no livro A solidão mais funda

Ângela Vilma (foto daqui)


Para Lívia Natália
Ângela Vilma

Tenho nesse corpo – aparentemente frágil –
uma raiz longa, úmida, selvagem.
Minha carne negra
vislumbra o que há de mais secreto
no céu:
a noite.

Sou maré alta, amiga. E também sou árvore.
Um bambu, cai não cai, e embora eu venha do rio
tenho o sal do mar no meu corpo magro,
assim como tens no corpo
o mar e a tempestade
das águas escuras do rio Gafanhoto
e do Paraguaçu: moradias de Oxum,
encobrindo o excesso de claridade
de todas as manhãs.

Temos as mesmas águas na alma
feita de peixes, marés, e pedras:
frenéticas, nos levam ao fundo
ao fundo
onde moram
os enterrados
vivos.


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Para Rimbaud
Ângela Vilma

A lua zombou amarelo nesse sol de setembro.
Meus braços se abriram negros para o amor
e a branca nuvem, que é a morte, me enlaçou.
A branca nuvem das ausências e escolhos
solapou o vermelho sangue dos sortilégios
amorosos, e o mais azulado fogo fátuo
das promessas. Eu grito em lilás, como as violetas,
com a tez viva, embora morta, e a silhueta
espiritual em cinza. Realmente, Rimbaud acertou:
o A é negro, profundo, abissal; eu sou.


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Para Rita Santana
Ângela Vilma

Vem, homem, deitar sobre "meus seios flácidos",
minha barriga percorrida por riachos e quedas d'água,
minhas carnes plissadas pelos tempos que passaram.
Tenho o escandaloso furor de mulher guardada
            [em convento,
e minhas roupas de baixo são o vazio de uma
            [luz de dentro
que esconde o que é mais duradouro.

Na minha pele, doidas celulites sensualizadas; um
            [trocar de pernas
de um lado para o outro, e uma virtude dessas rugas
embelezaram meu rosto.
Vem, homem, que sou a mulher que lhe banhará
com o sal grosso das marés.
Recolherá seu rosto no meu íntimo
mais côncavo, onde as ondas se escondem
atônitas


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Para José Paulo Paes
Ângela Vilma

Na imensa casa de meus avós, que desapareceu, há
insistentes fantasmas:

Uma jarra de copos de alumínio, com nomes gravados
em letras bordadas, sobre um pote encostado na sala.
Um rádio que falava a voz do Brasil em meio aos grilos
e canto dos sapos, como se detivesse a noite.
Uma cama de patente e seu colchão de mola, cheirando
à cerimônia.
Uma penteadeira com o retrato de um menino
gordo, de paletó e gravata, pintado em pincel, cores
esmaecidas, pois muito velho na vida aquele menino
           [estava.
Na outra sala, um guarda-louça e um oratório: santos
antigos, perdidos em sua fé com as caras
           [desbotadas.
Nos imensos quartos, uma vastidão de vazio e de gente
ausente que foi tudo para São Paulo.

Na cozinha, minha avó acocorada, pitando seu
cachimbo fantasma.

Tudo, tudo ali está morto, tudo ali morreu,
até minha caneca de tomar café com bolacha
           [e coalhada.
Meu avô desapareceu em sua bicicleta, numa das
curvas do mato; com o bolso cheio de bala: de mel e
amendoim, bala de roça, revestida de papel barato.
Nas costas ele levava um pacote de requeijão – que era
só de mãe, sua filha amada.

Minha avó assiste a tudo isso, com seu cachimbo
           [fantasma.

Nem mais carros passam ali, o mato tomou tudo; a
casa enorme e seu fogão de lenha, e as caçarolas de
alumínio, os vidrinhos de perfume, tudo tudo como
sino tocam com o vento da madrugada.

O fantasma de minha avó não se rende:
pita seu cachimbo, acocorada no nada.


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Para Ferreira Gullar
Ângela Vilma

Não vi quando enterraram Clarice
no cemitério judeu de S. Francisco Xavier,
mas eu estava, Gullar, do teu lado
e também vi os grandes olhos dela
resistindo à terra.
Dois grandes olhos abertos
vendo as nuvens, a vida e a morte,
principalmente vendo, a custo,
a enorme ingratidão do vento,
do vento que não se abaixava
à cova, a fim de refrescar-lhe
o rosto.


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"Ninguém mais chora,
nem se espanta.
Tudo virou apenas
curiosidade."


"Já fiz quase tudo a fazer nesse mundo.
Doei meu beijo e meu abraço mais íntimos
minhas roupas e meus sapatos, meus cabelos
doei ao vento, ao redemoinho, às tempestades.
Entrei na fuzilaria da morte, no muro
com a idade certa. Para que arrumar a casa?

(...)

Oh Patativa, como eu queria tuas rimas, tua pureza
tua inocência, tua vida eterna!
Sou nordestina ingrata, farta de vida íntima!
Nunca fui, não sou, nem serei, voz de nenhum povo
nem de minha voz, mouca, ínfima ilusão
a falar sem oitiva, recitando em silêncio
a solidão para mim mesma."


"O silêncio que aqui mora
é duro, e se houvesse pedra
            por aqui
            e não ferro

eu abriria a porta."





Presentes no livro de poemas A solidão mais funda (Mondrongo, 2016), páginas 38, 65, 54, 43-44 e 64 respectivamente, além dos trechos dos poemas Para Carlos Drummond de Andrade (p. 13), XI (p. 83-84) e Para Mariana Botelho (p. 16), presentes na mesma obra.

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