domingo, 17 de abril de 2016

Seis passagens de Otto Lara Resende no livro As pompas do mundo

Otto Lara Resende (foto daqui)


"— Como é mesmo que eu durmo? — queria saber qual a posição que habitualmente tomava para dormir. A postura que usava no sono, insabida. Probleminha idiota, mas que o desorganizava mentalmente e súbito o lançava numa aflita perplexidade física. Deste lado: não era. Virou-se do outro lado: também não era. Estendeu as costas: as mãos sobravam, os braços não se incorporavam à rotina. Como distribuir o corpo na cama? Cruzou os braços no peito e sentiu-se estranho, ridículo. Cruzou as mãos e pareceu sinistro, fúnebre. Era como se antecipasse o defunto que não queria ser. Angustiante ideia da morte. (...) Ajeitou o travesseiro, a cabeça alta demais. Afastou o travesseiro e enfiou a cara no colchão como se procurasse com alívio uma forma de sufocação. Insustentável, esticou as pernas e dividiu-se em dois. Recolheu as pernas, dobrou os joelhos, mas ainda assim não conseguiu retomar a naturalidade. Buscava um ponto de equilíbrio e não o achava. (...) De barriga para baixo, a cabeça sobrava, pesava, descomprometida. Não era assim. Nunca foi assim. E o tempo passava, o sono não vinha. Sentado na cama, passou a mão pelos cabelos ralos e procurou controlar-se. Que é que estava acontecendo? Ansiedade sem sentido, tolice. (...) Tinha a sua graça. Um cidadão morto de sono esquecer como é que costuma dormir. (...) Num princípio de tonteira, a cabeça cresceu de volume e desprendeu-se do corpo, que agora lhe parecia estranho, como se não fosse dele. (...) Enfiou as mãos entre os joelhos, enroscado em si mesmo, fetal. Suportou aquela disciplina por alguns minutos, resistindo ao desejo de se levantar, fugir da cama, do sono, de si mesmo. Vontade de esquecer-se, abandonar o próprio corpo, com que já não se sentia solidário. (...) Não reencontrava a perdida intimidade consigo mesmo. Não sabia mais deitar-se e dormir. (...) Deflagrada, a insônia recusava-se a apagar dentro dele a sua luz amarela. Desejo de absorver-se, reorganizar-se, pedaço por pedaço. Membro por membro. Reintegrar-se. Esquecer-se para dormir. Recostado contra o travesseiro, meio sentado, a noite tinha ancorado para sempre num porto de fadiga e torpor. Noite longa, lenta, oleosa, de silêncio e vácuo."


"Uma família não é apenas uma certa cor de olhos, um tom de voz que passa de pessoa a pessoa. Um ríctus de boca orgulhosa, um jeito de sorrir ou de andar. Não é só um silêncio partilhado, nem uma forma de, se amando, magoar-se. Não é um punhado de amarelecidos retratos no fundo do baú, algumas receitas de doces, uma velha cômoda ou um fino colar. Não é um camafeu avoengo ou uma medalha de lavor. Desbotadas lembranças ou uma devoção fiel a Nossa Senhora das Dores. Não são somente os nomes, os enredos e os casos a repetir-se. Uma família reclama um testemunho, um documento, uma prova. Um bem de família, ao menos um, íntimo perfume que se distingue de todos os demais perfumes do mundo."


"Zequinha, seu natural era estar doente, rotina. Ficava horas sozinho, no recolhimento do quarto, obediente, caladinho. O quarto cheirava a menino doente, a poção feita fiado na farmácia, a lençol que só vai ser mudado sábado que vem, mesmo que uma vez ou outra, distraído, sonhando, ele mije quentinho na cama de madrugada. O pijama cheirava a corpo de menino doente — ou era o menino que cheirava a pijama suado? O catre estalava. (...) — Papai — aventurava, cabeçudo, enfezado, finos gambitos, bracinhos com as veias azulando em cima dos ossos, as costelas aparecendo. Dava dó. O pai olhava-o com pena, quase asco. Raio de guri que parou no tempo, não espichava. Não ajudava. Um traste. Tralha. (...) — O número da minha febre é mais bonito do que — e parou, olhou o pai severo, tristonho, com os bigodes pretos que pesavam. Acabou não perguntando ao pai, que mais uma vez viajou, sumiu. Até que um dia sumiu de vez, para sempre. E Zequinha nunca tirou a limpo se o número da sua febre era mais bonito do que o número da febre do Canhoto."


"A mãe do Tibúrcio, consta que foi uma sá Rita do Pau d’Angola, mulher de barba e sem coração, com ruindades que ninguém viu iguais no peito de uma filha de Eva. Já madurona, essa sá Rita virou o juízo e começou a enxergar umas chicotadas de fogo na parede de sua casa. Apesar de solteira, mal se deitava, ouvia um arfar a seu lado, em riba do colchão, como se um companheiro invisível compartilhasse o seu leito. Foi assim, sem marido, que sá Rita do Pau d’Angola emprenhou. Trouxe o peso da gravidez na barriga só por seis meses. E morreu no parto. Daí dizerem que Tibúrcio é filho do Belzebu. Nasceu antes do tempo porque tinha pressa de vir neste mundo cumprir a sina de amealhar à custa de seus semelhantes. Se é que alguém se assemelha a esse filho do enxofre, concebido, parido e criado de forma que dá tanto o que pensar."


"Na chegada como na saída, o Doutor Gervásio pacientemente lavou as mãos na pia com sabão de coco e muita espuma — esfregava uma mão na outra como se quisesse modelar a água. E em silêncio sério receitou a poção, que no mesmo dia veio da farmácia Nossa Senhora dos Remédios: um frasco com rótulo, chapeuzinho de papel de seda frisado, preso com barbante em torno do gargalo, rolha de cortiça novinha — e o gosto açucarado, pra disfarçar o amargo que curava. Tinha de ser ruim de gosto pra ser bom pra saúde. Na vida, desconfiava, tudo para ser bom tinha primeiro de ser ruim."


"(...) Era penoso viver com saúde naquela casa doente. As vasilhas tinham de ser esterilizadas com cuidado. Um saco de água quente não bastava. Eram necessários dois e três, que se alternavam. Mamãe reclama silêncio, tinha o ouvido apurado para qualquer barulho. Não podia ouvir vozes nem passos. O leiteiro evitava de madrugada tilintar as garrafas na nossa porta. O padeiro não se anunciava com voz cantante por cima do portãozinho. Mamãe estava doente. O ar viciado, era preciso evitar as correntes e os golpes de ar. As tias queimavam essências pelos cantos, fumigações. A casa cheirava a eucalipto e a incenso, tal câmara ardente. Mamãe estava doente. Ao aproximar-se da nossa casa, todo mundo policiava os pés, controlava os movimentos bruscos, prendia a respiração e, com ar compungido, exprimia solidariedade e comiseração."





Presentes no livro de contos As pompas do mundo
(Rocco, 1975), páginas 30-31-32-33, 12, 41 e 43,
118-119, 45 e 90, respectivamente.





Seleta dos contos

01) O elo partido
02) Viva la Patria
03) Bem de família
04) Mater dolorosa
05) O guarda do anjo
06) A cilada

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