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Dez passagens da biografia “Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário”, por Dado Villa-Lobos, Felipe Demier e Romulo Mattos



“Eu não sou um saudosista em relação aos meus anos de Legião. A vida é feita de etapas, sendo necessário que cada uma acabe para que a outra possa começar. Nada ou quase nada é para sempre, e eu sempre tive a consciência disso. A história do rock parece indicar que quase todas as bandas, mesmo as de grande sucesso (ou talvez justamente elas), cedo ou tarde implodem. Existe o desgaste natural ao próprio processo. Certos favores, é claro, podem acelerar o estrago e um deles, certamente, é a estrada — que deteriora, mina, mata qualquer grupo (ou, pelo menos, a maioria deles). Cientes disso, nós três sempre procuramos evitar que a Legião entrasse em uma rotina febril de shows. Com o tempo, passamos a tocar menos ao vivo, e a nos concentrar basicamente em compor e em gravar discos. O estúdio sempre foi o nosso principal palco — isso pode até soar antipático, mas é a mais pura verdade. Possivelmente, esse nosso cuidado em evitar fatores desgastantes, como o das grandes turnês, ajudou-nos a preservar a nossa integridade física, psíquica e social. Não teríamos chegado aonde chegamos se tivéssemos entrado em uma frenética rotina de shows. Por consequência, essa nossa atitude contribuiu para preservar a própria banda enquanto tal. Mas, apesar de todas as precauções que adotávamos, eu sempre soube que a experiência da Legião — como qualquer experiência na vida — seria finita. Sem dúvida, isso ajudou a me preparar, em todos os sentidos, para o dia em que o grupo acabasse. Nem por um instante eu sou tomado pelo desejo de retornar a um passado perfeito e, logo, idealizado (‘L’âge d’or’): aquela onda de que ‘eu era feliz e não sabia’ está bem longe da minha cabeça.”


“Grande ironia da história: muita gente não votou em Lula com medo do comunismo, mas foi um playboy da direita que promoveu a apropriação do dinheiro alheio pelo Estado. O mais incrível é que esse sujeito veio do nada. Ninguém sabia quem era esse aventureiro que aparecia no horário político obrigatório em cima de um barco, como se estivesse em uma expedição filmada para o Globo Repórter. E ele ainda declarou à imprensa, em dezembro de 1990, que gostava muito da Legião! O cara nunca deve ter ouvido ‘Que país é este’... Enfim, o seu pacote econômico foi um choque. O Renato tinha 150 mil dólares no banco e estava prestes a comprar o apartamento dele, em Ipanema. Por sorte, eu já havia pago o meu, mas, de toda forma, todo mundo foi prejudicado. Chegamos até a ter dúvidas sobre a viabilidade da turnê. Mas tudo isso acabou nos dando mais força. Eu me lembro do Renato falando: ‘Eu vou recuperar cada centavo que esse desgraçado me tirou e vou comprar o meu apartamento.’ Nós voltamos a ensaiar com gana e logo botamos o bloco na rua. Houve grandes apresentações, que envolveram produções de altíssimo nível.”


“(...) Quando ele começou a cantar o primeiro verso de ‘Tempo perdido’, eu olhei a primeira fila e vi que as pessoas estavam chorando. Fiquei impressionado por vê-las se entregarem dessa forma ao ouvir nossa música. Eu tinha assistido a vídeos de shows dos Beatles, em que eles não se ouviam porque havia muita gente chorando e gritando. Só que, no Projeto SP, eu percebi que aquilo não era uma simples histeria, em que o público grita, chora e se rasga porque está vendo o seu ídolo de perto. Não, aquilo era realmente uma comunhão sentimental, emocional. O público tinha absorvido a nossa mensagem e estava totalmente envolvido. Aquilo tinha tocado fundo o pessoal, que parecia ter um sentimento muito forte em relação ao que dizíamos. Eu logo tive a intuição de que seríamos obrigados a lidar com esse sentimento sempre. Ele estaria presente entre os nossos fãs até o fim da banda, e certamente existe ainda hoje para muitas pessoas.”


“‘Clarisse’ conta a história de uma menina deprimida de 14 anos envolvida com drogas. A letra sugere aquele cenário do filme Cristiane F., de jovens entregues ao vício e à desesperança. ‘E Clarisse está trancada no banheiro/ E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/ Deitada no canto, os seus tornozelos sangram.’ Enquanto o Renato cantava, era nítida a forma como ele se punha no lugar daquela menina que, apesar de muito jovem, estava à beira da morte. A letra é muito forte, sombria, e a interpretação dele parece fazer o mundo desabar. ‘Cara, o que está acontecendo?’, nós pensávamos, sentados na técnica, onde assistíamos à sua emocionada performance. Desabei, estava acabado, destruído. Ao fim dessa gravação, o Renato estava quase chorando, como se dissesse: ‘A hora chegou, não tem mais volta.’ Como era triste ver um grande amigo naquela situação, a sua vida sendo extraída aos poucos, diariamente, minuto a minuto. Mas eu me agarrava a uma esperança, e procurava a tal luz no fim do túnel. A minha crença, mesmo abalada, era a de que ele ficaria conosco.”


“A Legião foi um caso ainda mais notável, uma vez que ultrapassou o nicho social normalmente atingido pelo rock e alcançou as grandes massas populares. Hoje em dia, vendo a força que ela ainda tem, eu consigo ter uma noção mais parecida do trabalho que realizamos. Gostos à parte, é inegável a importância da Legião na história da música brasileira. Para a nossa geração, somos tão importantes quanto Tom Jobim foi para a dele. Por que não? No seu berço, a banda foi uma das expressões musicais de um amplo movimento de redemocratização do País. A década de 1980, com o gradual declínio da ditadura, representou um momento particular na história do Brasil. Foi um movimento de virada, no qual havia muita esperança e expectativa. O movimento musical do qual eu fiz parte — capitaneado por Cazuza, Renato Russo, Paralamas e Titãs, entre outros — expressou, a seu modo, o espírito da época. Na década de 1990, a frustração se tornou praticamente incontornável, e nós a cantamos também. Em todos os momentos, porém, nós sempre abordamos temas como o amor e a amizade. Com toda a melancolia das letras do Renato, e de certos temas musicais que eu e o Bonfá compusemos, nós sempre tentamos exprimir as coisas boas da vida. ‘Ter bondade é ter coragem.’”

Dado Villa-Lobos (foto: Fernando Schlaepfer)

“(...) O Scott era um californiano louro, todo fortão, mas bronco e pouco confiável. Não demorou para ele começar a se envolver com a mulherada brasileira. E o Renato fantasiando que aquela figura seria o deleite, o amor de sua vida, enfim, tudo aquilo que ele desejava. O nosso vocalista era incapaz de descrever nas suas letras uma situação estável entre as pessoas. Mas, na verdade, o que ele almejava era ter alguém para dividir uma casa, para brigar e se reconciliar em seguida — para amar, enfim. Então o Renato pegou esse cara (sobre o qual pouco sabia) e o levou para o fundo do palco, ao lado da Fernanda e da Simone. (...) Mais tarde, comentou aos amigos mais próximos (como a já citada Leo Coimbra, fonte de inspiração para ‘Eduardo e Mônica’) que o Scott lhe havia transmitido o HIV. Conforme lemos na matéria ‘Renato Russo: do inferno ao céu’, escrita por Cláudia Carneiro e André Barreto — e publicada pela IstoÉ Gente (edição 34, ano 2000) —, antes do Renato, o gringo namorara um paciente terminal de aids.”


“(...) Eu estava com 21 anos de idade e havia ampliado o meu universo musical: entendia um pouco mais de teoria musical e já ia além do ‘do it yourself’. E isso tinha a ver, principalmente, com as aulas de guitarra que eu tomara com o Júlio Costa, cunhado da minha já citada amiga Rosa Amélia. Ele era um desses guitarristas virtuosos formados pela Berklee College of Music; tocava jazz, MPB e ainda fora empresário da Beth Carvalho. (...) Foi uma experiência bacana e proveitosa porque comecei a entender mais de acordes, inversões e progressões harmônicas. Passei a tocar João Gilberto, por quem fiquei fascinado: passava horas percebendo as melodias em suas músicas e o modo como os acordes passeavam por elas. Fui incorporando essas novas referências ao meu universo musical, e, de certa forma, elas estiveram presentes no Dois. ‘Tempo perdido’, por exemplo, começa com um dedilhado em Dó com sétima maior — e esse tipo de intervalo era, digamos assim, proibido no rock, embora fosse bastante comum no jazz e na MPB. ‘Andrea Doria’ é outra que tem uns acordes dissonantes. Se não bastasse, há todo um trabalho com violão nesse disco, mas isso foi mais mérito do Renato do que propriamente meu.”


“Eu encontraria o Caetano outras vezes. Nos dias 27 e 28 de janeiro de 1988, a Legião lotou a Concha Acústica de Salvador. Os shows foram cedo, das 18h às 20h, e lembro que, em um deles, chovia muito, a ponto de eu ver a minha pedaleira boiando na enxurrada que invadia o palco; o Renato, empolgado, ficou rolando no chão, apesar dos riscos de choque elétrico. Naquela mesma noite, o Caetano iria se apresentar na cidade, em outro lugar (...) Após o nosso show, fomos eu e o Rafael (que já atuava como empresário da banda) assistir ao artista baiano. (...) O show terminou, e eu, empolgado, fui falar com o Caetano no camarim. Eu me apresentei encabulado e, gaguejando, não consegui falar nada. Fui reverenciar um sujeito de quem eu gostava muito. Na época, eu não conhecia muito a trajetória político-cultural dele, e nem o via propriamente como um vanguardista ou um iconoclasta. Simplesmente as músicas do cara haviam entrado em mim de uma forma muito positiva. Então, lá no camarim, o Caetano, surpreendentemente, disse a mim e a Rafael: ‘Vamos lá para casa?’ E, quando eu vi, lá estava eu na casa do cantor, em Ondina. A certa altura, o violão dele estava encostado numa poltrona e não tive dúvidas: peguei o instrumento e fiquei um tempo tocando. A casa de Caetano e Dedé estava aberta a quem quisesse chegar, e muita gente apareceu por lá.”


“(...) O lance é que o Renato tinha a força do discurso, do afago e do convencimento. Acima de tudo, conseguia transmitir muita segurança na exposição de suas ideias e tinha uma vibração que nos levava a acreditar que a razão estava com ele. Comportava-se como uma liderança que deveria ser seguida em toda e qualquer ocasião e isso, de fato, acontecia. As pessoas costumavam se dobrar a ele e a se entusiasmar com a sua personalidade. Nesse sentido, podemos dizer que o Renato tinha, sim, um lado messiânico, que se mostrava muitas vezes eficaz. ‘É isso que você quer? É isso que a gente vai fazer, então’, costumávamos dizer-lhe. O Renato era um desses caras especiais que, quando queria, podia fazer mal ao outro, ou deixá-lo com a moral lá em cima.”


“O Renato e o Bonfá chegaram à conclusão de que o nome Legião Urbana seria perfeito para a banda porque sintetizaria o momento vivido por nós em Brasília. Aquela coisa de andar sempre em turma, de morar na cidade... Na hora de explicar publicamente o porquê de a dupla ter optado por aquele nome, o Renato viajava. Dizia que Legião Urbana teria a ver com o filme Brigade mondaine (A brigada mundana), do Jacques Scandelari, de 1978, e com as Brigadas Vermelhas, uma organização guerrilheira italiana dos anos 1970. Ele citava também a Legião Romana e assim acabava dando um jeito de incluir a Bíblia nessa história. Os soldados de Roma eram figuras comum no cotidiano da ‘Terra Santa’, e metáforas acerca dos militares são encontradas no Novo Testamento. Embora as explicações pudessem ser confusas, o nome me parecia simplesmente algo que eu tinha que abraçar para acreditar — e foi o que eu fiz.”

Da esquerda para a direita: Felipe Demier, Dado Villa-Lobos e Romulo Mattos (foto: Matheus Salgado).

Passagens presentes na biografia “Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário” (Mauad X, 2015), de Dado Villa-Lobos, Felipe Demier e Romulo Mattos, páginas 253, 165-166, 148, 234, 252, 172/176, 88, 114-115, 93 e 47, respectivamente.

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