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Dez passagens de Clarice Lispector no romance O lustre

Clarice Lispector (foto daqui)


“(...) Havia uma luta entre os dois que não se resolvia nem por palavras nem por olhares — e também ela sentia, surpreendida e obstinada, que procurava destruí-lo, que temia os momentos de pureza do homem, não suportava seus instantes de solidão como se lhe fosse desagradável e perigoso o que neles havia. Era uma luta despercebida que no entanto os ligava num mesmo meio de atração, desentendimento, repulsa e cumplicidade. Apesar de tudo ele lhe ensinara muito. Ouvindo-o admirar-se do caminho percorrido pelos homens até descobrirem a transformação do grão úmido e doce do café numa infusão amarga — sim, ela aprendia uma nova forma de surpreender-se. O jeito que ele tinha de apanhar as palavras comuns e delas fazer um pensamento. Ela dizia: chovia muito, Vicente, parecia que o mundo ia acabar; ele retrucava brincando: e se acabasse você sofreria? ela era lançada num mundo maior e mais profundo, ou estaria enganada? de tudo ele partia para um lugar. Ele dizia de alguém: que modo de gastar a vida... E ela se gritava: mas não, jamais se tratara de gastar a vida, isso não existia... ele precipitara as coisas num plano estranho e irremediável. Eu não era feliz, me faltava alguma coisa que me desse satisfação — dizia ele e outra vez descobria para ela quase uma forma de pensar, tão nova que lhe doía como se arrancasse o curso de um rio para fora do leito. Ele sem palavras fazia com que ela soubesse de coisas que jamais vira.”


“(...) Vestia-se com tanto cuidado como se fosse encontrar uma multidão esperando à porta. Saía à rua, andava lentamente pelo passeio mostrando-se, os olhos atentos, a sensação de que fulgurava ardente, séria. Era um duro inseto, um escaravelho, voava em linhas súbitas, batia de encontro às vidraças cantando com estridência. E realmente, apesar de sua aparência modesta e de suas faces pálidas, algumas pessoas olhavam-na com curiosidade, muitas vezes com mais de um momento de atenção. Ela se animava com secreta brutalidade; de repente era de tal modo a única verdade que as pessoas se preparavam, se enfeitavam, tomavam a atitude da roupa, saíam para a rua, entrecruzavam-se luminosas e se apagavam de novo em casa — ela compreendia com segurança e ardor a cidade. Orgulhava-se de não ser Esmeralda. Um instante ou outro era olhada como se fosse ter um grande destino. Subitamente a um olhar parecia-lhe: este homem sabe alguma coisa sobre mim! mas que lhe importava afinal? para algo existir não precisava ser sabido — era essa a sensação, as sobrancelhas franzidas e então uma rápida calma seguia-se hesitante após aquilo que não chegara a ser um pensamento. Voltava para casa cansada como se deixasse a festa onde fora coroada. Passava dias lendo; lia como uma prostituta pintada, cheia de avidez e de um tédio que ardiam sua alma e ressecavam-na rapidamente.”


“(...) Eu te sinto em alguma parte e não sei onde estás — conseguia ela pensar em palavras. Seu amor era tão fino que ela sorriu constrangida (...) Parecia-lhe extremamente estranho que nessa mesma noite ela vivesse nesse mesmo mundo, que não estivessem juntos e ela não visse o que ele fazia, tão mais forte que a distância era o seu pensamento de amor. Amor era assim, não se compreendia a separação — concluía com docilidade. Mas não sabia também se queria ter ao seu lado nessa noite aquele médico pálido e de barba crescida, o único homem de quem ela sentia a inexplicável, ansiada e voluptuosa necessidade de ter um filho; sentiu sua vida apertar-se de amor por ele, seu coração pensava com força, com timidez e sangue, vem para mim, vem para mim, por um longo instante veloz. (...) O que nele amava não se poderia realizar como uma estrela no peito — sentira tantas vezes o próprio coração como uma dura bolha de ar, como um cristal intraduzível. Sobretudo o que nele amava, tão pálido e malicioso, era de uma qualidade impossível, pungente como um agudo desejo ridículo; ela se sentia docemente capaz de ser dos dois. E Vicente era perfeito (...) eu o amo como ao que faz bem, ao que dá bem-estar mas não ao que está fora do corpo e que jamais o apaziguará e que se quer alcançar mesmo com a desilusão; meu coração não se inflama nesse amor, minha ternura mais íntima não se usa; seu amor era quase uma dedicação conjugal. Doía-lhe porém pensar assim, tanto era terno, pressuroso e cheio de vida alvoroçada ele existir nela, respirar, comer, dormir e não saber que ela poderia pensar assim dele. Forçava-se severa a uma fidelidade de cuja espécie secreta só ela entendia. Meu amor, meu amor — dizia”


“(...) Trêmula de asco encaminhou-se para ele entre o ar e o espaço — e parou. Também ele estacou, os olhos velhos aguardando. Nada no rosto dela fazia-o supor o que apenas aguardava para suceder. Ela teve que falar e não sabia como dizer. Disse:
— Tome-me.
Os olhos do homem mulato abriram-se. E em breve recortado contra o ar puro e o vento, contra o verde claro e escuro da relva e das árvores, em breve ela ria entendendo. Ele ergueu-a mudo, rindo, os cabelos embranquecendo, rindo, e atrás estendia-se a campina sob o vento. Ele ergueu-a mudo rindo, um cheiro de carne guardada vinha da boca, do ventre através da boca, um hálito de sangue; da camisa entreaberta surgiam pelos longos e sujos e ao redor do ar era vívido, ele ergueu-a pelos braços e a sensação de ridículo endurecia-a com ferocidade — ele balançava-a no ar provando-lhe que ela era leve. Ela empurrou-o com violência e ele mudo rindo mudo caminhou e arrastou-a e invencível beijou-a. Porém ele ainda ria quando ela se ergueu e serenamente, como o final de sair dos limites da sua vida, pisou-lhe com calma força o rosto enrugado e cuspiu-lhe por cima enquanto ele mudo, olhando não entendia e o céu se prolongava num só ar azul. Ela acordou imediatamente e quando abriu os olhos estava quase de pé, o rosto límpido e ansioso. Imóvel sentia o próprio corpo até o fim, grande, os músculos mansos e contentes. Não experimentava torpor mas uma possibilidade de mover-se com equilíbrio. O que sucedera?”


“(...) A impressão de que estava só no mundo era tão séria que ela temia ultrapassar seus próprios conhecimentos, precipitar-se em quê. Seria fácil, sem ninguém ao lado e sem um modelo de vida e de pensamento pelo qual se guiar. Descobriu que não possuía bom-senso, que não estava armada de nenhum passado e de nenhum acontecimento que lhe servisse de começo, ela que nunca fora prática e sempre vivera improvisando sem um fim. Nada do que lhe sucedera até então e mesmo nenhum pensamento anterior comprometiam-na para um futuro, sua liberdade crescia a cada instante pensativa, ar frio invadindo e varrendo um quarto vazio. Sua vida era feita de um dia pôr o vestido pelo avesso e dizer com surpresa curiosa como a uma notícia: ora essa, há tanto tempo que isso não me acontece, ora essa. Queria ocupar-se de pequenas coisas que enchessem seus dias, procurava mas perdera o encanto ágil da infância, rompera com o próprio segredo. Cada vez no entanto ficava mais minuciosa. Antes de apagar um cigarro pensava se devia. Depois sentia mesmo necessidade de contar isso a alguém de algum modo e não sabia como. Parecia-lhe então que tragava o pequeno fato mas que nunca ele se dissolvia inteiramente no seu interior. Ela trabalhava o seu dia suportando-o profundamente.”


“(...) Um peso apertava-lhe de leve o pescoço, os braços, ela sentia um informe gosto de sangue na garganta e na boca como sempre que tinha medo e esperança — poderia derrubar alguma ideia e aceitar a aventura, sim, a aventura que ele não lhe oferecia. De um centro novo no seu corpo, do ventre, dos seios renascidos propagou-se um pensamento agudo, desesperado e profundamente feliz, sem palavras ela o queria, tornava num instante a ser alguma coisa anterior a Vicente. Sem tristeza, como em férias, lançar-se ao futuro! e como ele se aproximasse um pouco mais ainda, ela desajeitadamente, rápida, encostou sua boca naquela face áspera como um homem, perto da orelha... Ele olhou-a depressa espantado e curioso! ela hesitava de olhos abertos, o consultório girava vermelho, um rubor pesado e grave subiu-lhe ao pescoço e ao rosto enquanto ela tentava justificar-se com um sorriso difícil e tolo. Ele olhou-a atentamente um instante, com sabedoria tocou em certas palavras comuns e de súbito tudo se dissolvia numa simples brincadeira. Fitou-o seca e ardente, estendeu-lhe a mão, ele disse conduzindo-a: não vá se zangar, o enjoo nada significa, pode dizer ao seu amigo..., ela saiu do consultório entrou no elevador escuro, rubro, sombrio, luxuoso e tão fresco. Quando recebeu o ar poeirento, luminoso e estridente da rua caminhou depressa, livre.”


“Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo. Nunca saberia pensar nele em termos claros temendo invadir e dissolver a sua imagem. No entanto ele formara no seu interior um núcleo longínquo e vivo e jamais perdera a magia — sustentava-a na sua vaguidão insolúvel como a única realidade que para ela sempre deveria ser a perdida. (...) Era um dia violento e seco, em largas cores fixas; as árvores rangiam sob o vento morno crispado de céleres friagens. O vestido ralo e rasgado de menina era atravessado por estremecimentos de frescura. A boca séria premida contra o galho morto da ponte, Virgínia mergulhava os olhos distraídos nas águas.”


“Fazia profundamente ignorante pequenos exercícios e compreensões sobre coisas como andar, olhar para árvores altas, esperar de manhã clara pelo fim da tarde mas esperar só um instante, acompanhar uma formiga igual às outras no meio de muitas, passear devagar, prestar atenção ao silêncio quase pegando com o ouvido um rumor, respirar depressa, pôr a mão expectante sobre o coração que não parava, olhar com força para uma pedra, para um pássaro, para o próprio pé, oscilar de olhos fechados, rir alto quando estava sozinha e escutar então, abandonar o corpo na cama sem a menor força quase doendo toda de tanto esforço por se anular, experimentar café sem açúcar, olhar o sol até chorar sem dor — o espaço em seguida tonto como antes de uma terrível chuva —, carregar na palma da mão um pouco de rio sem derramar, postar-se debaixo de um mastro para olhar para cima e ficar tonta de si mesma — variando com cuidado o modo de viver. O que a inspirava era tão curto. Vagamente, vagamente, se tivesse nascido, mergulhado as mãos nágua e morrido, esgotaria sua força e teria sido completo o seu mover-se — era essa a impressão sem pensamentos.”


“— Olhe, Daniel, dissera Virgínia, olhe o que eu vi: o vaga-lume desaparece.
Ele olhou-a, viu seu queixo inchado e vermelho através da luz triste do candeeiro pousado no quarto.
— Como?..., perguntou sem prazer.
— Assim: quando a gente vê um vaga-lume a gente não pensa que ele apareceu, mas que desapareceu. Como se uma pessoa morresse e isso fosse a primeira coisa dessa pessoa porque ela nem tivesse nascido nem vivido, sabe como? Pergunta-se assim: como é o vaga-lume? Responde-se: ele desaparece.
Daniel compreendeu e os dois permaneceram calados e satisfeitos. Ela bem sabia às vezes amarrar uma coisa pela mão distante da outra e fazê-las perplexas dançar, malucas, doces, arrastadas. Confiante e morna, ela prosseguiu:
— Você queria ser assim, menino?
— Assim como?
— Como o vaga-lume é para a gente... Sem ninguém saber como se é, se está aparecendo ou desaparecendo, sem ninguém adivinhar, mas pensa que a gente não vive enquanto isso? vive, tendo história e tudo como o vaga-lume.
— Pela primeira vez você diz uma coisa que eu também penso: seria bom, disse Daniel e de novo silenciaram olhando.”


“(...) Num relance o chão ameaçava subir até seus olhos, sem violência, sem pressa. Ela o esperava quieta mas antes que pudesse compreender, o solo já descera até onde não o poderia enxergar, caindo no fundo de um abismo, longe como uma pedra lançada do alto ao mar. Seus pés dissolviam-se em ar e o espaço era atravessado por fios luminosos, por um som frio e nervoso como o vento escapando violento por uma fresta. Depois grande calma envolvia o mundo leve. E depois não havia mundo. E depois, numa redução final e fresca, não havia ela. Só ar sem força e sem cor. Ela pensava numa longa linha trêmula — estou desmaiando. Nascia uma pausa sem cor, sem luz, sem força, ela esperava. O fim da pausa encontrava-a abandonada no chão, o vento claro penetrando pela janela imóvel, o sol manchando seus pés. E aquele silêncio sem peso, zumbido e sorridente de tarde de verão no campo. Ela se erguia do chão, vagamente ia tomando forma, tudo esperava ao redor mansamente inorgânico”


Presentes no romance “O lustre” (Rocco, 2019), de Clarice Lispector, páginas 171-172, 151-152, 247-248, 69-70, 135, 166-167, 07, 25-26, 39-40 e 42, respectivamente.

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