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Dez passagens do livro Sob o mesmo teto, de Victor Mascarenhas



“Como todo velho, Olegário vivia repetindo que antigamente tudo era melhor. Dizia que a juventude de hoje não tinha educação, que os governantes, políticos e juízes eram todos ladrões, a imprensa era vendida, a família estava destruída e bom mesmo era o passado. Quanto mais passado, melhor. Olegário fazia força para ignorar o fato de que o pretérito provavelmente era tão ruim ou pior que o presente e seria invariavelmente tão terrível quanto o futuro. O velho acreditava, como muitos dos que dobram o Cabo da Boa Esperança, que seus muitos anos de vida lhe garantiam a prerrogativa de estar sempre certo e ser inquestionável, esquecendo o fato de que um velho pode ser simplesmente alguém que é estúpido, canalha ou mau-caráter há mais tempo do que um jovem.”


          “Por alguma razão misteriosa, para seu Olegário os fatos perderam a importância e ele passou a acreditar apenas no que lhe convinha. Se a notícia não lhe agradasse, mesmo que fosse comprovadamente verdadeira, era só procurar algum site, blog, perfil, jornal, revista, rádio ou canal de televisão que dissesse o que ele queria ouvir e essa seria a sua verdade, apregoada e defendida com unhas e dentes. Para o velho, veículos de comunicação com décadas de atuação, endereço, CNPJ, e que precisavam de alguma credibilidade para continuar atraindo audiência e anunciantes, eram menos confiáveis que uma mensagem apócrifa repassada por um parente no grupo da família, um vídeo de alguém indignado berrando ou um texto escrito sabe Deus por quem.
          O pior é que o comportamento de seu Olegário encontrava eco em toda parte. Os ânimos estavam cada vez mais acirrados e o Brasil inteiro parecia ter resolvido deixar de ser uma terra em transe para se tornar uma terra em surto.”


“Para alguém como seu Olegário, a aposentadoria e a velhice não trouxeram o tempo livre para se dedicar a novas atividades, ler os livros e ver os filmes que não conseguiu no passado, viajar, descobrir novos interesses ou fazer novos amigos. Para ele, a velhice trouxe o ostracismo, a solidão, o amargor de quem faz um balanço do que realizou ao longo dos anos e descobre que o saldo não é dos melhores, o que provoca uma sensação de inutilidade e uma revolta por se ver como carta fora do baralho em um mundo dominado pelos mais jovens. Essa constatação, mesmo que não admitida ou sequer percebida, acaba gerando um ressentimento que vai se acumulando em algum lugar, corroendo e carcomendo por dentro, até ser expelido em golfadas amargas como a que o jovem estudante acabara de ouvir e ouviria cada vez mais dali em diante.”


“(...) Podia-se dizer que o velho até gostava dele, embora não demonstrasse isso nem sob tortura, como era de se esperar de um homem ressequido e castigado pela vida. (...) Os dois, tão diferentes nas idades e opiniões, eram muito parecidos nas suas dores e na luta pela sobrevivência em um mundo onde um parecia condenado ao ostracismo por obsolescência e o outro à mediocridade média de uma vida classe média, que consistia em basear sua existência na conquista de objetivos preestabelecidos pelo senso comum: ter um diploma, um emprego, casar com uma moça distinta, ter filhos, um carrinho razoável, casa própria, celular e todo o pacote de felicidade pré-fabricada disponível no mercado. Porém, nada disso garantiria que, ao fim da viagem, ele não acabaria como o velho Olegário, matando o tempo até a hora do embarque para o país não descoberto, de cujos confins jamais voltou nenhum viajante.”


“Eram pessoas que não gostavam de mortadelas, coxinhas, tucanos, petralhas, gente de esquerda, de centro ou de direita que não defendesse sua agenda belicista-moralista-neopentecostal. Eles não gostavam da Europa, porque odiavam seu multiculturalismo e ideias supostamente comunistas. Também odiavam argentinos, árabes, muçulmanos e asiáticos, em especial chineses, a quem acusavam de ser ladrões de nióbio. Nada fazia muito sentido, já que coisas como sentido, bom senso e racionalidade pareciam estar sendo banidas do território nacional. Eles detestavam índios, gays, trans, negros, cientistas, professores, filósofos, sociólogos, atores, cineastas, escritores, humoristas, jornalistas e qualquer pessoa que se interessasse ou ousasse praticar alguma coisa que desagradasse o que eles chamavam de valores da família. Somando toda essa gente — e vários outros grupos não citados — essas pessoas odiavam grande parte da humanidade e só gostavam deles mesmos. Um leitor mais atento poderia dizer que eles poderiam ser definidos pelo verso de uma canção de Caetano Veloso, que diz: ‘Narciso acha feio o que não é espelho’. O problema é que eles odiavam Caetano também.”


          “— E você quer que ele faça o quê, rapaz? Ele é presidente, não é coveiro!
          Já no limite da sua paciência com o velho, o presidente, a pandemia, a falta de dinheiro, e movido pelo desespero, pela angústia e pelo medo de adoecer, morrer ou perder as pessoas que amava, Claudinei explodiu de vez:
          — Podia começar fazendo o mínimo que se espera de qualquer ser humano, que é mostrar preocupação, empatia e respeito pelas vítimas. Podia parar de ficar minimizando uma tragédia dessas e de ficar prescrevendo remédios como se fosse médico. Podia usar máscara, para dar exemplo a gente maluca feito o senhor, que sai por aí colocando a sua vida e a dos outros em risco. Podia não ficar estimulando e participando de manifestações idiotas no meio da rua. Ele podia fazer tanta coisa... Aliás, era melhor que ele não fizesse nada, calasse a boca e sumisse, que é o que eu vou fazer agora.”


“(...) Relembrou quando era jovem e passou por agruras semelhantes às que afligiam seu inquilino, e de como trocou seus sonhos por escolhas pragmáticas para garantir seu sustento. Lembrou-se de quando sentiu a velhice chegando, esfregando na sua cara a decadência física depois de subir uns degraus, e de como ela continuava relembrando sua presença na calvície que aumentava a cada dia, na ereção meia bomba que se transformou em quase total impotência, na memória falhando, no desaparecimento da palavra certa no momento preciso e nos remédios de uso contínuo. Lembrou-se ainda de quando a velhice se instalou de vez e ele foi apresentado àquele sujeito estranho no espelho, que apareceu um dia e nunca mais foi embora.”


“(...) a memória é traiçoeira e costuma se reorganizar para reinventar histórias que nos acalentem nos momentos difíceis.”


“Parece inacreditável que num mundo onde há tanto acesso à informação, ainda existam pessoas que parecem viver como os personagens de Platão em o Mito da Caverna, de costas para a luz e enxergando a vida através de sombras projetadas numa parede rochosa. Hoje, essas cavernas estão em casas e apartamentos por aí, como o de um velho solitário que aluga quartos para estudantes.”


          “— E minha vida presta pra quê, seu Olegário? Vivo num quartinho alugado na sua casa, sou um estudante de merda, tenho um emprego de merda, não tenho namorada, não tenho dinheiro, vou terminar a faculdade ano que vem e não sei o que vai ser de mim. Agora tô aqui todo sujo de vitamina de abacate e não tenho nem coragem de xingar o senhor e ir embora. Minha vida é uma merda total!
          — Ô seu porra! Eu, que sou um corno velho, muito mais pra lá do que pra cá, posso dizer se a vida é uma merda ou não, porque já vivi. No meu caso, posso afirmar com todas as letras: a vida é uma merda mesmo e ponto final. Mas você, um moleque donzelo desses, já decretou que a vida não presta? Vá viver antes! Depois você vê se sua vida prestou pra alguma coisa ou não. Você é cartomante que sabe o futuro? É peru para morrer de véspera?
          (...)
          “‘Coitado desse menino’, pensou Olegário. ‘Vai acreditar nessa conversa fiada e ficar cheio de esperança, pelo menos até descobrir que sou só um velho idiota que acreditava que a vida dele podia ser melhor. O pior é que vai pensar assim até o dia em que descobrir que eu estava mentindo. E vai chegar a essa conclusão quando estiver mentindo para alguém mais jovem, usando esse mesmo argumento que usei hoje. Mas é assim mesmo. Sem essas mentiras a gente não  consegue aguentar essa vidinha de merda’.”


Presentes no livro “Sob o mesmo teto” (Villa Olívia, 2025), de Victor Mascarenhas, páginas 16-17, 21, 18-19, 28-29, 22-23, 36-37, 32, 40, 44 e 30+31, respectivamente.

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