“(...) do fundo do poço: aquele momento talvez até fosse um pouco além do fundo do poço. O pós-poço. (...) Continuava telefonando em vão de dentro do táxi, o taxista comentando qualquer coisa que ela não ouvia sobre a violência na cidade. Um olho na janela e outro no taxímetro correndo. Nenhuma alma penada nas ruas, nenhum carro parado no semáforo fechado naquela madrugada de meio de semana. No ouvido, a mesma voz de sempre pedindo um recado.
Íris também foi apresentada ao autonojo naquele momento. Aquele homem fedia, e era por ele que ela atravessava toda a cidade, ela e aquele taxista, coitado, que já podia estar em casa se não fosse aquele telefonema. Ou talvez transportando alguém feliz, recém-saído de uma festa ou de uma foda. E aquele telefone na caixa. Não explicou muito bem o destino: disse o bairro e complementou com ‘é perto do posto de gasolina, ali na principal’. Foram. E a surpresa que nem havia mais: o bar atrás do posto fechado, nenhum pio, vivalma não tinha. Tudo escuro, com jeito de fechado há horas. ‘E então, senhora?’. ‘Agora pode voltar, só queria ver uma coisa’. O homem no volante já devia ter entendido tudo, um clássico, mais uma mulher que corria atrás de homem. Muitas já sentaram no banco traseiro daquele Siena. Só que agora era ela.”
“(...) Então bora ver o poeta. É quem? Castro Alves. E poeta é o que, vó? É quem escreve poesia, texto bonito, que emociona as pessoas. Hum. Vó? Oi. Então eu também sou? O quê? Poeta. Porque quando eu escrevi aquele cartão de natal dizendo que nunca queria que você morresse você chorou. Foi poesia? É, é mais ou menos isso. Sabe aquele caderno azul que eu tenho? Aquele do Josafá, de quando eu era diretora de lá? Sei, vó. Apois, ali eu escrevo poesia. Tem rima. Então você é poeta? Sou. Igual a Castro Alves? Igual que nem não. Mas parecido, porque ele é melhor. Eu sou sua avó e aposentada. Quer aprender um versinho?”
“(...) ele me viu. Eu tinha saído com a menina pra comprar uma coca pro almoço e um homem bonito que parecia um príncipe me chamou pra conversar. O cabelão na cintura, os olhos verdes, falei meu nome e ele repetiu todo torto. Louis. LOOOOOUIS. Repeti. Ele me chamou pra conversar na varanda de sua casa de praia e eu fui, ficamos lá se conhecendo. O tio passou na rua, eu nem vi, mas quando cheguei em casa com todo mundo começou uma guerra, sua putinha, você não sabe a sorte que tem você tá aqui pra mudar de vida mas é coisa dessa gente mesmo tinha que ser ela a fruta não cai longe do pé eu te disse que não pegasse ela essas neguinha são assim sua tia te botou na escola e você desperdiçando uma chance dessa se fosse por sua mãe você ainda tava passando fome no mangue e sabe-se lá Deus fazendo o que isso não é coisa de menina direita vocês fizeram o quê? pode contar que não vai acontecer nada tá vendo que eu te disse que ela não prestava veja meu marido como anda estranho botando em risco nossa família com uma pessoa dessa aqui dentro ainda bem que ela usa outro banheiro. Vou ligar pra sua mãe e avisar que vou te devolver. Ô tia não me devolva que a gente não devolve nem bicho que dirá gente não aconteceu nada eu só tava conversando e eu amo a senhora e o tio. Já decidi eu e seu tio a gente vai te levar de volta semana que vem, depois a gente manda seu histórico escolar por alguém pra você poder estudar lá. Mas tia, se mainha já deu até Fernandinha, como é que eu vou voltar pra lá?”
“Sabia que o filho da dentista morreu assim? Por todo lugar alguém morria. Todos os dias, mamãe dizia. Morria-se de tudo: de velotrol distraído passando por um vidro na varanda da casa da avó, de vontade de se pendurar na janela e ver o que tinha lá embaixo, de andar de bicicleta perto da rua, de descer pra brincar com os vizinhos, de mordida de cachorra grande, de mar brabo. Criança morria. Foi o que aprendi pequena: de noite podia até ser que mamãe contasse história de final feliz pra ninar a gente mas eu lembrava mesmo era daquelas que ela dizia de dia, quando tava tudo claro, do filho de fulaninha que morreu porque desobedeceu, morreu porque tava longe dos pais, morreu porque. E o jeito de não morrer era sempre o mesmo, estando perto dela.”
“Nenhum beijo e seis filhos nenhum beijo e dois que não vingaram nenhum beijo e ele que chegava querendo descansar entre suas pernas como se ela fosse uma cadeira muito confortável e escura onde ele se deixasse cair inteiro (...) Nenhum beijo nenhum domingo nenhuma sexta-feira à noite nenhum carinho nenhum amor nenhum segredo dito ao pé do ouvido nenhuma mão na dela nenhum peito pra se aninhar depois do fim nenhum (...) Nenhuma música nenhum motel barato nenhum sonho de padaria trazido de surpresa nenhuma dança devagarzinho nenhum minuto a mais na cama depois do despertador (...) Só a vida repetida, bota mesa, tira mesa, arruma cama, desarruma e vai dormir de novo, hoje tem malassada com farofa de cenoura pro almoço, às vezes uma fulana ou outra da rua ligando para dizer eu tô com seu marido e aquilo ficando barato entre tantos outros segredos guardados com o tempo. Nair subindo e descendo rua vendendo roupa de cama para outras gentes que ela queria que tivessem sorte diferente da sua, indo de porta em porta oferecendo colcha de babado, esse cerzido é bonito, talvez um lençol com barra de ponto de cruz para ver se enfeitava um pouco a vida”
“A vó e Zelíto ainda ficam um pouco no sofá, a luz apagada, a TV ligada começando a novela, até que enfim vão para o quarto cheirando a limpo, com os lençóis da cama muito esticados. A vó se banha, bota alfazema no pescoço e no colo, veste uma camisola e encontra Zelito já espojado na cama. Hoje eu tô cansado, mulher, peguei muita estrada, meus olhos chega a estar vesgo de tanto carro que vi. Bora amanhã. Você fica amanhã? Faço gosto! E a vó se debruça sobre Zelito para um beijo estalado nos lábios suados dele. Em cinco minutos, ela já ressona alto. Tem o sono pesado a mulher.
Meia hora depois, a maçaneta do quarto das meninas se mexe. Nara ouve, virada pra parede, e continua em silêncio. Os passos arrastados no chão, o cheiro azedo de suor no ar já abafado do quarto. Os barulhos do elástico da calcinha sendo puxada pro lado, as pernas se movendo no colchonete, Cacá falando aaaaaaaaaaa aaaaaaa aaaaaa num choro descompassado. O quarto inteiro feito da pior espera.
Agora era a vez de Nara.”
Mariana Paiva (foto: Iracema Chequer)
“Caminhavam as três pela calçada em silêncio. Aquele instante fugaz em que a mão já não segurava nada, ia de encontro ao ar. A mãe andando de mão dada ao vento. O carro passando depressa (de que modelo teria sido? o motorista parou? havia mais gente na rua?).
A menina no chão. A outra ainda segura pela mão. O que fazer com uma menina sim e uma menina não? Como contaria aos vizinhos, como avisaria na escola que a menina maior não iria mais? O que faria com aquela cama arrumada antes de sair de casa? Como seria agora que havia uma menina sim, uma menina não, onde antes havia duas meninas sim?
(...)
A menina sim ia ficar no lugar da menina não. Naquele instante, a mão no vento o carro veloz menina no chão, a outra menina virou a mais velha. Era pequena e cresceu ali, de repente, no meio da rua. Fez dezoito anos tendo quatro. Podia dirigir, responder criminalmente, ter título de eleitor, conta em banco.”
“Tinha rato na casa. Ela devia ter parado quando descobriu a bandeja de queijo roída sobre a pia, e depois o barulho de bicho se esgueirando atrás do sofá. Mas nem todo sinal basta quando a pessoa precisa se lascar na vida. Teve também as palavras da Bíblia coladas na porta, de plástico vagabundo pintado pra parecer metal: o dono antigo deixou e ele não mexeu. Era proteção certa sem ter que precisar rezar, que ele chegava de cabeça cheia todo dia. Um azedume desgramado, molho de chave pesando no cós da calça, preguiça de banho. Esse era o homem que ela amava, a casa dele, a vida dele. E ela nesse bolo.”
“Tudo isso pra eu falar do tio. Porque esse não era o tio que morava lá, mas um que vinha às vezes, ficava pra dormir, e é quando eu ficava rezando de trás pra frente e de frente pra trás pra vencer o sono. Nesse dia eu queria ficar era bem acordada. Porque era a casa ficar toda azul ele vinha, e eu não entendia muito mas tentava espantar ele com as mãos, mexendo as pernas, me tirando do lugar. Ele falava que se eu gritasse ou dissesse qualquer coisa ia ser pior pra mim, que eu vim do nada, e que ia ser rapidinho. Que eu me acalmasse. Ficava ali passando os dedos em minha calcinha até se contorcer todo, e eu chorando calada com o travesseiro na cara. De dia ele tinha uma filha pequena e brincava com ela. Era assim ter um pai?”
“Ou eu peço a um freguês que me atravesse e a gente vai tomar água de coco com milho cozido no Brotascenter, mostro a música que eu gosto, que é uma do Raça Negra, conto a história do penico de Dalva um monte de vezes mas não quero é ficar abafada em caixão que nem o homem do barco, e também não acho que essa seja uma hora boa de morrer porque alguém tem que colher o tomatinho, o bichinho é planta mas sente.
E tem Naninha, que sempre ia miando me levando pra casa, Naninha, que tem outro nome mas eu gosto de Naninha e só chamo assim, tem sorvete de ameixa. empada que eu gosto, tem que fazer almoço pros meninos lá em casa quando tudo isso acabar e a maré baixa no Taquary então avise a ele que eu vou mas que agora não, dê seu jeito de bater aí, que agora eu não vou de jeito nenhum.”
Presentes no livro de contos “Minhas meninas” (P55, 2025), de Mariana Paiva, páginas 33, 19, 41-42, 13, 16-17, 28-29, 10+11, 31, 39-40 e 50, respectivamente.
,%20de%20Mariana%20Paiva.jpg)

Comentários