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Oito passagens de Antonio Prata no livro de crônicas Trinta e poucos

Antonio Prata (foto daqui)


"(...) trinta e poucos. Ainda temos o vigor da juventude – o vigor necessário pra solar uma guitarra imaginária, pelo menos –, mas já deixamos pra trás o pudor da adolescência – pudor de contrariar as diretrizes do grupo, de não se encaixar na moldura da época. Até os vinte e nove você ainda tem esperanças de se tornar outra pessoa. Depois dos trinta, você simplesmente aceitar ser quem é, relaxa e goza. (...)"


"Lá por 2184, imagino, haverá entre os olhos e a boca apenas um calombinho, metade de um gogó, sem furos, mas ainda não estaremos satisfeitos. Depois do nariz, serão as orelhas. Depois as unhas. Depois os dedos. Depois as mãos, os braços, as pernas, o tronco. Por algumas décadas, seremos apenas um olho – azul – a planar por um mundo holográfico. Até que os cientistas conseguirão a proeza de prescindirmos mesmo do olho. Iremos nos converter num retângulo de plástico, num iPhone preto, sem fluidos, sem odores, imunes às rugas, ao amor, ao sexo, à fome, à sede, à saudade, e o sentido da vida será enfim claro e comum a todos: encontrar a tomada mais próxima."


"Dentre as inúmeras manifestações da hipocrisia, a que mais me irrita é o sustinho. Falo daquele falso assombro interrogativo que certas pessoas demonstram ao ouvir uma pergunta que, embora tenham entendido, não foi feita de maneira precisa. (...) Há pessoas que, de tanto usar o sustinho, acabam viciadas. Não conseguem ouvir um 'que horas são?' sem arregaçar os beiços e soltar seu mini-horrorizado 'Ãhm?!'. (...) Muito triste, meus amigos, o sustinho: não só por tratar-se de uma pequena agressão, um peteleco na orelha de nossa esperança na humanidade, mas porque usa as roupas e maquiagem do verdadeiro espanto, da surpresa genuína, que em grandes ou pequenas doses são sinal de saúde da alma e abertura do espírito – bem diferentes dessa falsa careta de incompreensão, com que infelizes nos brindam diante das mais simples perguntas, com o único intuito de dividir conosco um pouco de suas amarguras."


"(...) por maiores que tenham sido suas conquistas nos últimos cem anos, por mais emancipadas que estejam, ainda querem, no fundo, um homem controlado e seguro, um homem que – elas sonham, do alto de seus saltos e de seus cargos – seja capaz de apaziguar seus anseios, aplacar suas angústias, um tipo sereno e calado, enfim, nada a ver com o sujeito que, depois do segundo uísque, com as pernas flexionadas e as costas tombadas pra trás, chacoalha a calva como se balançasse a cabeleira do Slash, contraindo os dedos convulsivamente, emulando as primeiras notas de 'Sweet Child O'Mine'."


"O exagero das poses me remeteu diretamente à sauna de 8 e 1/2, do Fellini, onde Guido/Mastroianni se queixa a um cardeal: 'Eminência, eu não sou feliz'. O pontífice, meio indignado, responde: 'Quem disse que você veio ao mundo pra ser feliz?'. (...) Na gravidade da foto de 1927 vejo a indignação do cardeal. A felicidade é frívola: os lábios cerrados recusam os prazeres terrenos e as mãos, que servem para agarrá-los, se cobrem de pudor. Já na foto da semana passada vejo o desespero de Guido/Mastroianni e é como se lutássemos contra a infelicidade mandando à lente do iPhone os nossos sorrisos forçados, nossos gestos de surfistas, rappers, caubóis e candidatos recém-eleitos – tão desamparados que é até possível nos imaginar levando à boca, depois do clique e do almoço, em vez de charutos, chupetas."


"Há na cultura do chutão algo de profundamente brasileiro e essencialmente corintiano. Assisti, por esses dias, a um ou outro jogo da Eurocopa. Poucos são os chutões e, quando há, jamais vêm acompanhados por palmas. Séculos sob a influência de Descartes, Kant e Maquiavel fazem com que o torcedor aplauda lançamentos longos, inversões de jogo, a tática, enfim, as vitórias do intelecto sobre o instinto, do treinamento sobre o falível corpo humano. A vitória do europeu é a vitória da lógica. Já para o brasileiro e, mais ainda, o corintiano, trata-se do contrário. País de traficantes, cativos e degredados, time de maloqueiros e sofredores, a vitória pra nós é a coroação da improbabilidade, da reversão de expectativa. Não vencemos 'por causa', vencemos 'apesar de'."


"Faz uns dois anos que o celular se tornou ubíquo. Pelas ruas e ônibus, pelas escolas e repartições, parques e praias, só se veem seres humanos curvados, de cabeça baixa, servis como cachorrinhos a babar sobre as telas de cristal líquido, para onde quer que se olhe – mas quem olha?  Daí pro extermínio por inanição será um passo. Ou melhor, um clique."


"Como eram felizes os peladões de antanho, livres e despropositados, ziguezagueando entre jogadores perplexos, fugindo de policiais furibundos. Agora, até os peladões têm objetivos, estratégias, método. Desnuda-se pelo fim da corrupção, contra a pesca do atum, por mais ciclovias na cidade. Tudo bem, é sempre melhor ver ativistas em pelo (ou sem pelo nenhum) defendendo uma causa nobre do que ruralistas vestidos (felizmente) atacando as leis ambientais. (...) O ponto é que, anarquistas ou sojicultores, despidos ou de burca, fomos todos cooptados pela cartilha do cálculo. No século XXI, até adestrador de cachorro tem assessor de imprensa, pipoqueiro faz coaching, refém de assalto a banco imagina, com uma arma na cabeça, como vai capitalizar a experiência ao sair dali: palestra motivacional? Biografia? Autoajuda? (...)"






Presentes no livro de crônicas Trinta e poucos (Companhia das Letras, 2016), páginas 68, 87-88, 106 a 108,
68, 160, 115, 142-143 e 22, respectivamente.


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