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Doze passagens de Noemi Jaffe no livro O que os cegos estão sonhando?

Noemi Jaffe - foto daqui


“(...) O corpo e a alma — que alma? o que é a alma de um prisioneiro faminto, de qualquer pessoa faminta? a fome faz pensar que a alma é simplesmente uma invenção do corpo, para aqueles que estão abastecidos e não precisam pensar em comida — de uma pessoa com fome são uma demanda permanente por comida. Como se os humanos se tornassem parasitas, bactérias enlouquecidas, girando desnecessariamente num vácuo, desesperadas atrás de migalhas, não para viver, mas simplesmente para comê-las. (...) Muitos israelenses condenam os judeus dos campos de concentração por não terem resistido mais e melhor; por terem se submetido tão brandamente, animalescamente, por uma ração de sopa, por um pedaço de pão. Há uma inversão e uma perversão nessas ideias. Ninguém, que não esteja passando ou tenha passado fome, tem a mais remota noção do que ela é e dos efeitos que ela provoca no comportamento de um homem, por mais ético que ele seja. Ninguém sabe se a vida, ou, mais absurdamente ainda, os valores de alguém, são mais importantes do que comer, quando não se tem comida.”


“A força de vontade é, para ela, o valor maior. Como se tudo pudesse ser controlado e determinado por ela: dores, desejos, problemas, infortúnios. A força de vontade é maior até do que o próprio destino; quem sabe ela até o encaminhe. E, muito em função disso, a fraqueza não se perdoa. Aqueles que se dobram diante dos problemas, que fraquejam, que não suportam as dores, estes ela não perdoa. De alguma maneira, pode-se pensar que sua capacidade de esquecer seja compensada por sua condenação à fraqueza. Como se essa fosse sua forma de lembrar. A autoridade do sofrimento atroz, incomunicável permite a ela odiar a fraqueza. É possível ver, em suas atitudes, com muita delicadeza e só para quem realmente a conhece, como suas filhas, que ela guarda algumas superstições com relação à fraqueza de caráter ou — o que é mais complicado e dolorido — com relação à alegria e ao prazer. Se alguém próximo insiste em demonstrar sofrimento excessivo por alguma perda ou alguma dor, ela fica travada. Como que comandada por uma força externa que a proibisse terminantemente de se compadecer. Um misto de condenação do sofrimento alheio e de medo de se misturar, de se deixar contaminar. Então ela se aproxima e diz: aguenta. E o tamanho dessa palavra, independente dos conteúdos subterrâneos que ela contenha, é sim capaz de exterminar ou, pelo menos, de diminuir a dor.”


“O trágico corta, seco; o drama afia, lento. O trágico faz; o drama desfaz e refaz. O trágico sabe; o drama quer saber. O trágico não pensa; o drama interpreta. O trágico é; o drama imita. (...) O drama do dramático é que ele não viveu a tragédia. Ele é um segundo, um secundário, um atrás, uma sombra, um porém. O dramático escreve sobre o trágico, porque o trágico não é nem escrito, ele é só um espelho das coisas que acontecem; não, ele é a própria coisa acontecendo. O dramático do dramático é que ele escreve, ele é depois. Como é ser depois? O depois engasga, não entende, só quer entender, sempre muito mais do que o trágico foi capaz. (...) O dramático não sabe nada. Ele vai para Auschwitz no inverno, porque quer sentir minimamente o frio que o trágico sentiu. Mas ele vai encasacado. Seria ridículo demais tirar os agasalhos. Seria um capricho excessivo querer sentir o que os prisioneiros sentiram. (...) É ridículo querer experimentar o sofrimento que alguém muito próximo sentiu, para conhecer minimamente sua dor? É ridículo querer ou, de forma inevitável, viver atrás do conhecimento dessa dor?”


“(...) Da parte dos nazistas, sua tática consistia em transformar os efeitos da carência de tudo — a fome, a sede, o frio, a sujeira — em causa; como se tudo estivesse acontecendo porque os judeus fossem originalmente como animais, e não o contrário. Essa é a formação básica do processo de alienação: trocar os efeitos pelas causas. E as outras pessoas, os não nazistas, que criticam os prisioneiros, cometem o mesmo engano, sem serem perseguidores. Comprazem-se em julgar, fazer perguntas: coisa que só quem come pode fazer. Pouca gente reconhece a força da resistência de suportar a humilhação, de buscar estratégias para lidar com a fome, de se tornar um inseto, com alguma pequena voz ainda dizendo, no fundo de algum resto de vida que ainda dorme em algum lugar, que o humano persiste. Há dignidade em entregar-se, em suicidar-se, em humilhar-se, em qualquer lugar. A dignidade não é matéria rígida.”


“(...) O esquecedor escorrega para fora do tempo. Fica à margem do fluxo. Ele observa o tempo de outro lugar: um lugar privilegiado e relegado pelos lembradores. Os lembradores não aceitam que o esquecedor esqueça tanto. Eles brigam com ele: lembre-se! Agora, lembre-se. Mas como você não sabe isso? O lembrador tem algo compulsivo, obsessivo; ele não se conforma. Ele ganha os jogos de memória, ele lembra listas, ele organiza planilhas, ele avisa, adverte e diz o pior: ‘depois não diga que eu não avisei’. Ele lembra até do futuro e avisa o esquecedor de que ele fatalmente irá esquecer aquilo que deve lembrar. O esquecedor esquece mesmo. Ele fica em dívida com o lembrador. Depois pede perdão. O lembrador pode ou não conhecê-lo. A memória é uma tirana e a memória daqueles que lembram muito é a pior delas.”


“(...) Saber que ela sustentou uma pedra durante um dia inteiro, que machucou para sempre o joelho, e tudo isso porque sua prima, e não ela, tinha roubado um pedaço de manteiga, provoca, na memória de quem ouve esta história, na memória de suas filhas, um empuxe gravitacional permanente, uma fisgada para baixo, como uma âncora em constante e lenta operação. (...) no entanto, não se deve sobrevalorizar, transformar a pedra em ícone, em motivo de sofrimento e choque, se ela mesma não permite que seja assim. Que direito têm os outros de sofrer mais do que ela mesma? (...) a impressão de que a compaixão, ou a ideia de que é possível sentir plenamente a dor do outro, é um engodo, porque não há como sofrer as coisas no lugar de outra pessoa, não há como se compadecer. Quem se compadece compreende a dor, e a dor não pode ser compreendida; quem sofre não compreende nada.”


Noemi Jaffe com a sua mãe Lili
e a sua filha Leda Cartum
(o livro contém o diário de Lili e
é encerrado com um texto de Leda)
foto daqui


“(...) É uma mistura de grande apego à vida e à própria vida; aceitação de que a morte é simples e inevitável e ausência de medo. É o esquecimento em ação total; quando ela sabe da morte de alguém próximo, aciona o motor do esquecimento. É preciso esquecer, é preciso esquecer. O esquecimento está relacionado à ausência de medo. Quem lembra, teme. A memória é que é fonte da dor presente; o presente fica carregado da lembrança da dor passada e desperta o medo, como defesa física contra a repetição da dor. O medo é passado e futuro. Quem só vive no presente, como ela, não sente, ou sente menos medo.”


“Por que alguns tiveram sorte e outros não? Por que as felizes coincidências só ocorreram a tão poucos? Eles eram escolhidos? Não, certamente não. Seria o pensamento mais sórdido para alguém que pensa sobre a guerra. Ela mesma admite a mão do destino, mas não quer comentar e não aceita que tenha sido escolhida; seria, segundo ela, muita presunção. Não sabe o porquê; só aceita. Para ela, deve ter havido alguma razão. Talvez a única razão seja a forma como cada um pôde e soube lidar com os acasos, aproveitar as mínimas oportunidades. Talvez nem isso. Tantos astuciosos morreram e ela mesma sempre foi tão inocente. Dizem que a sorte abençoa os tolos; quem não espera conseguir é o único que consegue. Ela não esperava mais nada, mas provavelmente ninguém espera mais.”


“Toda a estratégia nazista de liquidação, de extermínio radical, além do assassinato direto, consistia em produzir fome. A fome é a pior privação, a mais bestial de todas e era ela que sustentava todo o processo paranoico e de extermínio da identidade humana e cultural dos prisioneiros. Não era somente uma dificuldade material e logística de enviar todos para as câmaras de gás; era uma etapa necessária do trabalho de diluição do homem no homem. Os campos de concentração são a fome; mais do que tudo é ela a determinante de todos os outros acontecimentos.”


“(...) Esquecer e perdoar. Isso porque, quando um pecado é perdoado por Deus, ele é esquecido. No judaísmo, Deus lembra de tudo. Os judeus são a memória de Deus e Deus é sua memória. No cristianismo, não. O Deus cristão esquece. Esquece assim que perdoa. Perdoar deve ser ‘para dar’. Deus dá, concede o perdão e daí esquece o pecado. Isso significa que, quando um humano se esquece de alguma coisa, ele se perdoou, ou perdoou quem lhe infringiu uma dor? Esquecer-se é perdoar? Para os humanos, esquecer pode ser nunca perdoar. Esquecemos porque não podemos perdoar.”


“Para a filha, quantos relatos forem feitos sobre histórias de sobreviventes, nunca será o suficiente. Todo e cada relato é bem-vindo. Faltam, no máximo, vinte anos para que os sobreviventes desapareçam, morram. Quando isso acontecer, outra etapa desta história vai começar e é preciso preparar-se para ela. O que serão os campos de concentração daqui a cinquenta anos? Um nome? A história deve preparar-se para isso? A palavra Auschwitz será como a palavra Troia, a palavra Peloponeso, a palavra Manchúria? Se esse é, inevitavelmente, o caminho da História — tornar-se uma palavra — os habitantes do presente devem já, de antemão, contar com isso e banalizarem as coisas antes que o tempo o faça, já que isso vai acontecer de qualquer maneira? A resposta é não. Os homens e mulheres de agora não são os homens e mulheres do futuro e não se pode, nem se deve, exercer pela história o papel que ela possivelmente fará. Deixe que ela o faça, da forma que lhe couber. Aos vivos de agora cabe somente sermos o que somos agora. Falíveis em nossa necessidade de repetir e repetir, mas genuínos na necessidade de querer contar. Não somos deuses, nem antecipadores realistas do tempo. Mas formigas atrofiadas e perdidas, querendo encontrar o caminho de volta para casa.”


“Um dia, ao telefone, ela, que gosta de ficar imaginando situações, perguntou (...) ‘Filha, o que os cegos estão sonhando?’. De início, a filha não entendeu. (...) Ela acrescentou: ‘Sim! O que eles estão sonhando, se eles não enxergam? Como podem ver imagens nos sonhos?’. Então a filha entendeu e se lembrou que a mãe confunde os usos do presente simples e do presente contínuo. ‘O que os cegos estão sonhando?’, na verdade, é ‘Com o que os cegos sonham?’ Mas, de uma forma inesperada e subitamente bela, aquela frase, em sua suspensão do tempo, em seu deslocamento gramatical e semântico e em seu significado autônomo, como que independente de qualquer lógica narrativa, sintetiza exatamente o estar-no-mundo da mãe. Como se ela estivesse fincada no presente contínuo, num eterno vir-a-ser, maravilhada com as possibilidades do mundo e da natureza. Houve a guerra, houve o exílio, o sofrimento, tudo. Mas esse passado, que houve e que não é negado, mas esquecido, se mistura, em sua memória, a uma disposição perene para o presente, sem o domínio perfeito da gramática, mas como uma apropriação deslocada, em que a percepção das coisas importa mais do que as coisas mesmo.”




Presentes no livro O que os cegos estão sonhando? (Editora 34, 2012), de Noemi Jaffe, páginas 108, 128-129, 143-144, 108-109, 165-166, 113, 161, 100, 111, 167, 186-187 e 183, respectivamente.

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