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Quinze passagens de Elisa Lispector no livro de contos O tigre de Bengala

Elisa Lispector


“Cérebro de um movimento que depressa ganhou os mais ardorosos adeptos, via-se reduzido à inação. Fizera-se lema, transformara-se em mito, e tinha excedido a grandeza em que ele próprio e os outros o haviam enquadrado. Não mais se pertencia. A máquina que ele montara, acionavam-na agora seus sectários, cujas decisões já se antecipavam às suas. E nesse instante o homem projetava seu pensamento para além da contenda que se tratava, a considerar o quão pouco requeriam sua participação, e até que ponto os demais se encarregavam de conduzir os acontecimentos. (...) Melancolicamente percebia ser apenas um motivo em torno do qual seus companheiros se afanavam, mas um motivo tão impessoal e destituído de interesse quanto o seria um objeto inanimado. Nenhum laço de afeto os unia, empenho algum, senão o da autossuficiência e o desejo de supremacia de uns sobre os outros. E de repente teve uma extrema sensação de isolamento.”


“Ele anuíra. Deixava-se ir e vir, afanar-se até não mais poder. E, a exemplo de um cavalo soberbo que com paciência consente a um minúsculo pássaro pousar-lhe no dorso vez por outra, até deixava-se amar. (...) Ela, por seu turno, mirava-se nele, a ver se se encontrava, e o mais que conseguia era identificar a fonte de sua paixão, não a própria. Mas mesmo isso lhe bastava. Ao menos tinha a que apegar-se para justificar o seu viver, porque é tão rasa a existência, e tão destituída de sentido, que é preciso a gente agarrar-se a um motivo, real ou imaginário, para não se deixar destruir.”


“(...) as pessoas nunca acreditam quando é verdade. Se dissesse uma mentira, sou capaz de apostar como ainda haveriam de me cantar louvores.”


“(...) eu queria dizer que tudo dura tão pouco, ou se prolonga demais (...) ou é o fulgor que depressa se apaga, deixando a ilusória sensação de que poderia perdurar para sempre (o que é para sempre?) ou é a angustiosa monotonia das repetições do que não acaba nunca. O inconstante e o inconsistente sempre de mãos dadas com o paradoxal.”


“(...) Neste ponto deteve-se para considerar o mar em relação ao tempo — o mar, que não conhece os dias, nem os anos, pulsando ritmada e seguidamente das auroras aos crepúsculos e destes àquelas, em movimento de sístole e diástole, como um grande coração infatigável. (...) o tempo não conta para o mar. Nem conta o espaço, tampouco ideias ou sentimentos, que o mar não os tem. (...) a duração pura e simples está em nós, na sucessão e justaposição de nossos estados de alma, ou de consciência, como queiram. (...) O tempo está em você, perdura em você, enquanto você for. E para onde você for.”


“(...) o surgimento dessa nova estrela era sinal de que a criação do mundo continuava. (...) Isto realmente excedia a tudo quanto pudesse imaginar, e deixou-a a um tempo tão fascinada quanto rendida. Completamente vencida, quebradas todas as suas resistências. (...) Pois se nem no cosmo encontramos a certeza de uma ordem das coisas assentada, definitiva, que sentido tinham os anseios sem diretiva e os sentimentos contraditórios de uma mínima criatura como era ela? perguntou-se.”


“(...) não porque tivesse algum motivo especial para ter apego à vida, mas pelo que a morte implicava para mim na ideia de caos. De destruição. E me agarrava à vida com todas as forças, a querer reter cada instante, como na inútil tentativa de quem quer segurar uma borboleta de asas finas e delicadas, pegar a aragem que tange a corola de uma flor, ou reter o breve piscar de uma estrela. (...) Mesmo admitindo-se que o meu medo à morte tivesse sido apenas o da travessia, é um medo que ainda persiste, como a sensação vertiginosa da percepção do risco à beira de um precipício.”


“(...) oh, a monotonia das repetições, a ineficácia das juras de amor, que em seguida seriam mentira, injúria. Não, não é isto. O que desperta é o ingente esforço da tentativa de reverter a um tempo que já não é mais aquele, a sentimentos que já não o são. Melhor dizendo, o sentimento, que primeiro foi amor, depois aborrecimento. Agora tortura. Remorso.”


“(...) Só temia mesmo era por ele. Receava que um dia se deixasse prender a uma só mulher e ficasse aprisionado dentro de uma liberdade fictícia que não lhe permitisse projetar-se a novas e ilusórias buscas, o que seria a estagnação dentro da tediosa convivência do dia-a-dia, uma vez que o sabia sem dimensões para o aprofundamento demorado de uma mesma criatura. Apesar, e talvez por isso, ela o amava. Essa era a deficiência dele. A sua marca. O lado frágil que o integralizava na sua individualidade. Porque fora sobretudo na medição de sua ânsia pelo ilimitado que o amara, até muitas vezes de longe, embora sabendo que mais dia, menos dia, ele a deixaria para seguir na esteira dos finitos sucessivamente renovados”


“(...) a vida sempre se encarrega de subtrair-nos boa parte de nossas conquistas.”


“(...) eis que de entre a folhagem espessa me surge um enorme tigre, um autêntico tigre de Bengala de boca escancarada, de enormes dentes afiados. Deve ser de Bengala. Não sei por que os de Bengala sempre me parecem os tigres mais terríveis (...) E o tigre de Bengala é grande e raivoso, de olhos faiscantes e de garras afiadas apontando para mim. Não o visualizo de corpo inteiro, e assim me escapa à visão o fascínio do misterioso desenho do seu pelo e as nuances variegadas de seus matizes. (...) Ai, o desespero que se enraíza no fundo de cada um. E morde, e rói e corrói, e põe toda a nossa miséria íntima à mostra, e nos deixa desarvorados, como o desvairado olhar amarelo do tigre de dentes afiados, de garras afiadas. Ah, a náusea da estagnação no presente, ah, os escondidos temores, as inviáveis buscas no passado, as angústias pelo jamais alcançado, e a ausência de perspectivas futuras, porque o tempo já acabou e não há mais estrada por percorrer.”


“Alice tinha por lema o acerto. Conhecia as pessoas até o lastro, era o que presumia, por mais de uma vez lançando-lhe em rosto o seu egoísmo, a insensibilidade — Mesmo quando você pratica uma boa ação, disse-lhe um dia com aspereza, é por pura vaidade. (...) Alice, a mais ciosa: assine aqui e eu recebo o ordenado de Alberto para você. E tem mais o terreno de Maricá a desembaraçar — ia falando como se a morte dele já fosse fato consumado — tem também parte das ações da fábrica, ia inventariando, fria, calculista. — Mas você nunca ligou para isso, jamais entendeu de nada. (...) Ela assinava, concordava, pasma diante da atitude de Alice. Talvez porque nunca tivesse irmãos, imaginava a relação fraterna mais do que o correr do mesmo sangue nas veias de um e de outro. Idealizava amor, ternura, em vez de desconhecimento.”


“Pois já não foi uma tentação o convite do casal para acompanhá-lo a ver a casa, logo a casa que sempre desejara que fosse sua? (...) toda vez que olhava aquelas janelas gradeadas, os arcos bonitos, as altas colunas, o jardim, sobretudo o jardim, ficava sonhando com aquela casa. E por dentro ainda é mais bonita. Até lareira tem. E ver o par enamorado — seus lábios sorriam, seus olhos sorriam, as mãos entrelaçadas, numa alegria tão pura, tão nova como um raio de sol acabado de surgir, ele a perguntar-lhe: ‘Este não é o lugar perfeito para vivermos?’ e ela a responder: ‘Perfeito, querido’ — fiquei emocionada. (...) vê-los sorrindo, se amando, apossando-se da casa de meus sonhos doeu-me, a mim, velha, só e sem esperanças. Foi quando vi o livro sobre a mesinha redonda coberta por um pano de veludo grená. (...) Então não sei o que me deu. Só me lembro de que no exato momento em que entraram em acordo sobre a compra da casa, e o par abraçou-se, feliz, e o corretor também ficou muito contente — como uma sonâmbula, quase sem sentir, agarrei o livro depressa e o meti na sacola. (...) não sei que fazer dele, ou a quem transferir o que num certo momento pareceu-me um tesouro raro que me acobertaria de todas as minhas frustrações, de todas as minhas dores.”


“— Meu Deus, que me está acontecendo? Por que esta dificuldade? (...) Meu Deus, como não somos nada”


“(...) ela repentinamente compreendeu que permanência é ilusão, apenas algo que começa e depois acaba. E que a vida é feita toda ela de dias. Somente de dias, que por sua vez se fracionam em horas, em minutos, e em segundos, que se dissipam como o ar por entre as frestas. (...) nunca antes ter tido uma noção tão nítida do fluir irremissível do tempo, e da inutilidade de pretender dar a si mesma uma existência em termos de grandeza, como se a vida devesse ser longa, durável, e, ainda por acréscimo, pressupor que devesse vir a ser gloriosa.”


Presentes no livro de contos “O tigre de Bengala” (José Olympio, 1985), de Elisa Lispector, páginas 90-91, 19, 84, 25, 27, 47, 10-11, 26, 52, 79-80, 97-98, 31-32, 85-86, 87 e 05-06, respectivamente.

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