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Vinte passagens do livro de crônicas Impressões, de Tuzé de Abreu



“É o tema da nossa vida [‘A pergunta sem resposta’] cheia de contradições, conflitos, confusões, etc., diante da imensidão cósmica que chega até nós como uma formidável quietude. Cientistas (entre eles, Stephen Hawking) têm constatado que essa imensa quietude não é tão quieta quanto nos pode parecer. Não importa. O que vemos, cotidianamente, é o céu imenso, espaço vastíssimo, dia ou noite. É certo que há chuvas e tempestades, mas estas são periféricas à Terra. Os terremotos e maremotos são convulsões do próprio planeta que, além disso, vem sofrendo, cada vez mais, nossas intervenções nocivas. (...) Assim, a imensa maioria do tempo que passamos na vida é sob a misteriosa e profunda quietude sideral. (...) desde menino, um pouco esquisito, tive (e ainda tenho) momentos de, mesmo no meio da maior muvuca carnavalesca, olhar para o céu e sentir que não passamos de vírus em agitação, menos que poeira, diante da imensidão que nos cerca.”


          “De repente, vi sentar, próxima ao piano, uma garota, talvez um pouquinho mais velha que eu, muito magra, com um vestido preto, cabelos muito pretos e presos em cima da cabeça, morena, com um nariz interessante e uma expressão de pessoa muito determinada, com certa aparência de indiana. Começou a cantar, acompanhada por Perna, uma canção que considerei a mais bonita que jamais ouvira. Dizia: ‘Na minha voz, trago a noite e o mar...’. Falava de um ‘Sol negro’ e de Iemanjá. Fiquei muitíssimo impressionado. Tão impressionado que consegui vencer a timidez e me dirigir àquela pessoa que me pareceu, ao mesmo tempo, muito interessante e muito distante de mim, do que eu era. Perguntei de quem era aquela canção. Ele respondeu, com alguma rispidez, que era do irmão dela e que eu não o conhecia.
          Vocês já devem ter percebido que ela era Maria Bethânia, uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos. Cantora, meio atriz, grande intérprete, também de poesia. Grande profissional. Tive a sorte de trabalhar com ela no disco Drama, nos Doces Bárbaros e na inauguração do teatro homônimo. No entanto, talvez por uma questão de ‘santo’, apesar de ser um grande admirador dela — tenho muitos dos seus discos e DVDs —, nunca fiquei seu amigo como sou de Caetano, Gil e da saudosa Gal. Sempre nos tratamos bem, porém formalmente. Acho engraçado e mantenho como uma espécie de tradição.”


“(...) toquei cerca de 50 carnavais em clubes, blocos de rua, trios elétricos, praças públicas, no Casino (com um ‘s’ mesmo) Estoril, em Portugal, em várias cidades do Canadá e do interior da Bahia, e tenho certeza de que a canção carnavalesca é como o copo plástico que, embora seja ecologicamente incorreto, é extremamente adequado às circunstâncias que lhe cabem. (...) Não se vai ao Carnaval para curtir Jobim ou Vila Lobos. Claro, tem coisas musicalmente primorosas, como os frevos (...) as brilhantíssimas canções de Moraes Moreira (...) mas o grosso da tropa é a canção debochada, e assim é que é. Isto é Carnaval. Fico chateado quando alguém da minha geração diz ‘no meu tempo, as músicas eram melhores, o Carnaval era melhor’. Se esquecem de que, ‘naquele tempo’, tinham vigor, energia, hormônios e sexualidade à flor da pele, etc. Hoje, dizem ‘ah, as uvas estavam verdes’, como a raposa de Esopo. (...) O Carnaval, com todas as mudanças, permanece o mesmo, como no livro de Lampedusa: ‘Se vogliamo che tutto rimanga com'è, bisogna che tutto cambi’. Ou seja, é preciso que alguma coisa mude, para que tudo permaneça como está.”


“É interessante saber que o termo ‘brega’ é oriundo de Salvador, Bahia. Em meados do século passado, antes da reforma que gerou o atual Pelô, havia uma zona de meretrício no centro histórico da cidade, frequentada por pessoas de baixa renda. Uma das suas ruas mais famosas, cujo nome foi provavelmente trocado, por não estar na lista das ruas atuais da cidade, era a ‘Manoel da Nóbrega’, ironicamente homenagem a um padre jesuíta que trabalhou no Brasil no século XVI. Algumas letras da placa com o nome da rua estragaram-se, restando as cinco últimas, ‘brega’, termo que acabou denominando toda a região. Como nessas casas tocavam-se muito canções românticas de dor de cotovelo, interpretadas por artistas queridos dos seus frequentadores, esse tipo de música passou a ser chamada de música do (ou de) brega; depois, música brega.”


“O grande legado de Smetak, para mim, está na infinitude de possibilidades de uso e variações dos seus instrumentos e também do que está expresso nos seus trabalhos de artes plásticas, poesia, composições, sugestões para improvisações, teatro e dança e, mais ainda, na leitura e ‘decifração’ (tarefa difícil) dos seus trinta livros inéditos, sem falar nas suas propostas do ‘Ovo’ e da universidade. É muita coisa! Pessoalmente, o que mais me chamava a atenção nele, e que me faz ainda pensar no que a Eubiose fez com ele, é o que chamei de ‘vulcão’. Ele jamais sofreu de algum tipo de bloqueio. Ele tinha ideias incessantes, que se atropelavam. Muitas vezes, o vi parando de fazer um instrumento para escrever algo, ou vice-versa, e ouvi sua lamentação: ‘Queria ter muito mais anos de vida para realizar as ideias que tenho’. Ele dizia que isso se devia aos muitos anos de práticas eubióticas, que lhe abriram muitos canais de percepção. (...) Smetak, certa vez, disse, seriamente, a um grupo de compositores: ‘Eu estou cinquenta anos na frente’.”


“Em 1987, fui chamado para ser o curador musical da então Feira do Interior, que eu queria que fosse chamada de Feira da Bahia (...) Sofri muito. Pressões as mais variadas de quem não foi escolhido, pressão do programa de TV de Fernando José, que queria que eu colocasse nomes indicados por ele e, por não ter sido atendido, tentou sabotar a estreia com a Orquestra Sinfônica, não apenas tentando impedir o ônibus de ir buscar os músicos, mas também colocando (até hoje, não sei como) música bem diferente tocando forte em todos os alto-falantes espalhados pela feira enquanto a orquestra tocava. Disse ainda que a feira estava pagando um milhão de ...... (não lembro o dinheiro da época) a JG [João Gilberto]. Muita gente, inclusive Batatinha, ligou para mim horrorizada. É claro que era mentira. JG aceitou de primeira — inclusive o valor (não lembro quanto) foi bem menor do que o cachê usual dele. Ele estava vindo também para batizar nossa filha (de Greice e minha) Isabel, que tinha dez meses de idade. Trouxe para nós, mais para ela, uma mala de presentes. (...) As vibrações negativas sobre mim eram muitas. Mesmo assim, tive que ir ao Rio negociar com artistas. Os mais amigos e/ou compreensivos não apenas me trataram muito bem como também apoiaram o evento, colaborando na negociação com outros. Mas teve artista, não vou dizer o nome, embora esteja tentado, que eu conhecia desde sua infância, tendo tocado com ele algumas vezes, que sequer me recebeu quando fui à sua casa. Mandou um papel com as exigências que fazia para participar da feira. Maiores que as de JG, Caetano, Gil, Gal, etc. É claro que não aceitei. Fui embora. Já perto da estreia, recebi um recado dele dizendo que queria participar. Nem respondi.”


          “Todos sabem que vacinas têm beneficiado a humanidade desde o século XVIII, quando o médico Jenner descobriu uma vacina antivaríola. Desde então, foi descoberta uma grande quantidade dessas substâncias imunizantes. Há vacinas que protegem contra poliomielite, febre amarela, alguns tipos de hepatite, sarampo, caxumba, gripe e, agora, as anticovid. (...) Vacinas salvaram, salvam e salvarão vidas de bilhões de pessoas, ou, pelo menos, atenuam a virulência de inúmeros agentes patógenos. São perfeitas? Claro que não. São feitas pelo homem. Falham? Sim. Mas, estatisticamente, são eficientes em mais de 97% das vezes.
          Viajar de avião é seguro? Assim é tomar vacina. Às vezes, o avião cai. Temos a tendência de rir das pessoas que têm medo de viajar de avião. E que atitude tomamos diante de quem nega a vacina? Vacinas vêm sendo produzidas há mais de duzentos anos por cientistas dedicados a isso. Gente séria e bem preparada, cada vez mais. Com que autoridade umas ilhotas pseudocientíficas, parecendo latidos de cachorro na noite ou terroristas fanático-religiosos, querendo travar a marcha normal da humanidade, com seus gestos isolados, contestam isso? Algumas vezes, recebo mensagens de antivacinistas dizendo: ‘Ah, agora na Holanda, ou na Pensilvânia, ou em Arembepe, ou em Lyon, o(a) cientista fulano(a) de tal descobriu que a vacina mata, aleija’. Sempre vão ter terroristas no mundo, infelizmente.”


“(...) Certa feita, soube que ele tinha gravado uma das obras-primas de Tom e Vinícius, ‘Eu Sei que Vou te Amar’, gravada também por muitos intérpretes geniais como Milton Nascimento, Gal Costa, Caetano Veloso e muitíssimos outros e outras, além de ótimos amadores cantarem bem essa canção por todo o Brasil. Quando soube que JG [João Gilberto] tinha gravado essa obra, fiquei ansioso para ouvir o disco, porque tinha certeza absoluta de que uma revelação ocorreria. Não deu outra. Todos os outros, sem exceção, sempre cantaram ‘eu SEI que vou te amar...’, refastelando-se no ‘SEI’, fazendo um repouso longo e grandiloquente. JG faz um breve encadeamento de acordes, à guisa de introdução, e entra um ‘pentelhinho de sapo’ (gíria de músico) atrasado, quase falando como um ator dizendo ‘tô fud....do’. ‘Amar você é como um vício do qual não posso me livrar. Quero, mas não posso.’ Resignado e quase pianíssimo, confessa, com um desabafo minimalista e profundo: ‘eu sei que vou te amar’, sem destacar nenhuma sílaba, sem alongar nada. Para mim, nem precisava ter o resto da canção. Tudo já é dito ali, daquela maneira.”


          “Na festa, a nossa orquestra esteve soberba. Fizemos um sucesso extraordinário. Nilton tocou tão bem que, já perto do fim, depois de um improviso excelente, bateu várias vezes com a campana do trompete contra a parede, quebrando o instrumento. Todos nós entendemos intuitivamente, e ninguém o censurou.
          Anos mais tarde, vi esse fato se repetir com guitarristas de rock. Jimi Hendrix chegou a pôr fogo na guitarra. Continuamos a tocar sem Nilton, faltava pouco para acabar. Quando tocamos o tema final, veio um senhor se dizendo prefeito e pediu que tocássemos mais. Carlito, o chefe da orquestra na época, disse a ele que estávamos cansados e viajaríamos cedo. Ele abriu o paletó e apontou para um revólver. Imediatamente, voltamos a tocar, e ele nos pagou mais que o combinado.”


“(...) Em alguma hora da manhã, o telefone tocou. O recepcionista disse que o senhor Paulo Leminski queria ver o senhor Tuzé de Abreu. (...) Fiquei muito feliz. Conhecia os milagres, mas não conhecia o santo. Ficamos na sala conversando horas. Ele me deu um exemplar autografado do Catatau e fez um poema manuscrito para mim: ‘Tu és Zé e sobre esta pedra edificaremos a nossa música — a não-música’. Tenho tudo guardado. (...) Uma curiosidade: todos já viram aquele monte de garrafinhas de bebidas que ficam sobre os frigobares dos hotéis. Leminski TOMOU TODAS, literalmente. Não olhava nem que bebida era, nem mesmo saboreava. Metia a mão, abria e bebia. Paguei uma grana na saída, mas o benefício foi infinitamente maior que o custo.”


Tuzé de Abreu (foto: Uanderson Brittes)


“Quando ele fez seu show baseado no primeiro LP (‘A Música Livre de Hermeto Paschoal’) no Teatro da Lagoa, no Rio de Janeiro, eu estava trabalhando em SP, mas consegui comprar ingresso para a primeira sessão e fui, de SP para o Rio, especialmente para isso. As duas sessões lotaram. Não havia mais ingresso. Entrei e sentei, os lugares não eram numerados. Fiquei absolutamente apaixonado pelo show. Quando acabou, fiz uma loucura. Escondi-me debaixo da cadeira e não saí do teatro. Quando o público começou a entrar para a segunda sessão, saí de baixo da cadeira e sentei normalmente. Peço desculpas a quem sobrou na segunda sessão. (...) Conversei com Hermeto apenas uma vez, numa casa noturna no Rio Vermelho, em Salvador. (...) Como eu sabia que ele tinha estado em Berlim com Smetak, num evento a que eu fui, mais tarde, por duas vezes (2005 e 2017), perguntei-o sobre Smetak. Hermeto disse: ‘A minha música vai da terra pro céu, a dele vem do céu pra terra’.”


“Caetano, Gil e Tom Zé, originalmente, têm um pensamento de esquerda, sendo que, no caso de Caetano, a definição não é tão simples. A partir das ações deles no chamado Tropicalismo, esse viés político-social se abre enormemente, colocando (como já disse antes) a política numa amplitude tal que torna pequena a questão esquerda/direita. A liberdade proposta por eles no movimento, e assimilada consideravelmente pela sociedade, enseja novas abordagens existenciais e, portanto, sociais e, portanto, políticas. No momento, o Brasil atravessa considerável dificuldade política, econômica e moral. No entanto, (...) apesar do enorme contingente de desempregados, do número de assaltos, dos estupros, da imensa quantidade de pessoas marginalizadas, sobretudo economicamente, o que, de modo algum, é bom, a maioria do país funciona com admirável normalidade. Basta compararmos com outros países em crise na América do Sul, na Ásia e na África. Gosto de pensar que o Movimento Tropicalista, de algum modo, contribuiu para isso. (...) O Movimento Tropicalista rompeu fronteiras. Hoje, algumas vezes, nem percebemos mais que elas existiram, sobretudo os mais jovens, que já nasceram neste ‘território expandido’. Por um lado, podemos dizer que o Movimento Tropicalista acabou. Por outro, podemos afirmar que ele não acabou e vai continuar expandindo-se. Afinal, a Terra continua girando em torno do Sol...”


          “Foi uma amizade, podemos dizer, instantânea. Logo começamos a sair juntos e viver muitas aventuras. (...) Moraes e Galvão conheceram Paulinho através de mim, provavelmente na casa da minha família, à Praça dos Tamarindeiros, perto do Porto da Barra. A esta casa, pela sua fama de centro contracultural, também chegou a garota niteroiense Bernadete, dezessete anos, futura Baby Consuelo (e Baby do Brasil) — foi a primeira casa que conheceu na Bahia. Entretanto, não foi através de mim que ela conheceu Moraes e Galvão. Foi em Salvador, mas não sei como, nem onde.
          Tive muitas aventuras com os Novos Baianos. Eu estava inclinado a fazer parte do grupo. Cheguei a participar do primeiro show deles, ‘Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal’, no Teatro Vila Velha, onde lancei minha canção icônica, ‘Meteorango’. Era muito bom cantar, acompanhado por Pepeu e Jorginho Gomes. Não lembro se Didi já estava. Esse show era muito original. Nós cantávamos, muitas vezes, mascarados (em geral, máscaras de bicho). (...) O show tinha um super-homem que voava com cordas, um disco voador, inúmeras participações inusitadas, muita gente no palco, muito happening. O que eu fazia não era, nem de longe, o mais estranho. Foi um sucesso.”


          “Raul era um pouco mais velho que eu. Na pré-adolescência, quando nos conhecemos, nos identificávamos por não sermos escolhidos para o baba do clube, porque éramos ruins no futebol. Mais tarde, já músicos iniciantes, eu me julgava superior por ser da bossa-nova e ele, do rock. Nós, bossanovistas, achávamos o rock menor, pois usava poucos acordes — imbecilidade pura que foi desmontada pela Tropicália. Ainda bem.
          (...)
          Um belo dia, estava na Praça da Sé esperando o ônibus para ir pra casa, quando ele apareceu. Magérrimo, de calças jeans, camisa de caubói abotoada até o pescoço. Um verdadeiro almofadinha. (...) Qual não foi minha surpresa vê-lo dirigir-se a mim, sorrindo amistosamente e dizendo mais ou menos assim:
          — Oi, Tuzé, tudo bem? Quero lhe convidar pra vir comigo à minha casa ouvir o compacto que acabei de comprar, Ray Charles cantando ‘Stella by Starlight’.
          Eu agradeci e disse a ele que ia para casa. Ele insistiu:
          — Não! Vamos comigo!
          Insistiu tanto que eu fui, morrendo de vergonha. Lá, a mãe e a mulher dele me trataram superbem. Fizeram lanche para nós. Ouvimos o disco — aliás, soberbo — e ficamos conversando. Depois de algum tempo, eu disse que queria ir para casa. Ele, então, disse:
          — Soube que você está tocando com Caetano Veloso. Nos conhecemos há muito tempo, nossas famílias se conhecem (eu não sabia disso), por isso, lhe digo: muito cuidado com o ambiente de maconha do Rio de Janeiro.”


“Outro dia, caminhando pela Rua do Salete em busca de material de informática, fui abordado por um homem mestiço, magro, com cabelos grandes estilo rastafari, tendo um machado de Xangô impresso na frente da camisa e exalando cannabis sativa. Este cidadão me abraçou e disse (não lembro bem das palavras, mas o sentido foi este) que há muito não ouvia uma música como ‘Olho Lustroso’ (a minha composição). Ele a ouviu pelo rádio e ficou muito impressionado e comovido. Brotaram imediatamente lágrimas dos meus olhos.”


“Mostrou-me a guia policial que solicitava a perícia e contou que teve uma desavença com um vizinho, que o feriu no rosto. Certamente, estava sem a máscara. Pedi para ele me mostrar o local, ele retirou o capacete/máscara. Era um homem jovem, cerca de trinta anos, mulato, bem apessoado. Apresentava uma escoriação leve em um dos lados do rosto. Feita a perícia, comecei a conversar com ele, um sujeito muito normal, falando bem e calmamente. Me explicou que era um artista, vivia de fazer design publicitário para pequenas empresas e tinha criado aquele personagem, conhecido como Jayme Figura, como uma forma de arte ambulante. Conversamos muito, ficamos meio amigos com o verão mais adiante. Quando ele estava saindo, chegava a colega que era a especialista em clínica médico-legal, na nossa gíria, exame ‘dos vivos’, e logo me perguntou: ‘Tuzé, este cara é completamente louco, não é?’. Respondi: ‘Por incrível que pareça, não é. É um homem muito sensato, trabalhador, artista conceitual que usa sua figura como sua arte’.”


“(...) eu era ligado em horóscopo. A todos que conhecia perguntava logo o signo e ia fazendo minhas inferências. Calhou de ter sido eu a abrir a porta para [Luiz] Melodia. Imediatamente, perguntei qual o signo dele. Ele disse: ‘SAPO’. Curei-me para sempre daquela ligação. Devo isto a ele.”


“No som de Buenos Aires, ayer (ontem) fica sendo ‘axer’, o que me levou a pensar que a ‘axé music’ pode ser ‘a música de ontem’.”


“(...) fui à escola para ver meus ídolos tocarem para eles. Cheguei cedo e fiquei numa das salas de estudo, improvisando no mixolídio como sempre. A porta estava entreaberta. Muito concentrado na flauta, não vi que uma pessoa estava me observando. De repente, a pessoa falou: ‘Não quer tocar comigo para os músicos alemães?’ (...) Tomei um susto. Era Gilberto Gil, da televisão. Fiquei sem saber o que dizer, ele insistiu. ‘Vamos’. Fui. Foi uma emoção imensa improvisar ‘música nordestina’ com aquele cara me acompanhando ao violão. Claro que ficamos amigos. Depois, toquei com ele e outros num show na Sociedade Israelita, e logo ele veio improvisar com Smetak. Assim começou muita coisa...”


          “A leitura tornou-se um vício. Era impossível dormir sem ler antes. Certa vez, viajando para o Rio com o amigo Zeca Freitas, no carro dele, fomos dormir em uma pensão sobre um posto de gasolina. Agoniado, precisei pegar uma bula de remédio para ler e, então, conseguir dormir. Outra vez, lendo no cais da Ilhota, em Mar Grande, com a cabeça encostada no poste de luz (nas casas, não havia luz ainda), sob o céu maravilhosamente estrelado, senti-me caindo para cima! Contei isso a um amigo frade franciscano, e ele me chamou de místico. Hoje, penso que todo mundo é, de alguma maneira.
          Anos depois, voltei a cair para cima, de dia, numa coroa, na maré vazia, também na Ilhota. Conversando com Smetak, disse: ‘Você não é uma Tartarararuga’ (que é uma arara com os pés presos ao casco de uma tartaruga e que, por isso, não pode voar). Contei isso a algumas pessoas. Uma delas foi à Nigéria, onde eu também fui, muitos anos depois, e vi uma miniestátua de bronze: um pássaro soldado pelos pés ao casco de uma tartaruga. Trouxe para mim.”


Presentes no livro de crônicas “Impressões” (P55, 2025), de Tuzé de Abreu, páginas 105-106, 93-94, 135-136, 181, 122-123, 55 a 57, 69, 38-39, 66, 92, 148-149, 232-233, 83 a 85, 99-100, 224, 154, 165, 168, 173 e 108-109, respectivamente.


Aforismos de Tuzé de Abreu em “Impressões”

“O mestre Smetak me disse que o que importa da música é o efeito produzido em nós assim que ela acaba”

“Como temos que ser criativos, uma vez que no brejo a vaca já está, caminhemos na garimpagem do impossível”

“Desde que me entendo, tenho sido um assíduo frequentador do fundo do poço”

Aforismos presentes no livro de crônicas “Impressões” (P55, 2025), de Tuzé de Abreu, páginas 127, 220 e 221, respectivamente.

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