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Dez passagens do livro Crônicas para beber, de Joana Rizério



         “Sou capaz de negar uma rola dura porque finalmente entendi que homem gostoso mesmo é aquele que quer transar com a minha boca, com meu quiquiu, com a minha barriga e até com o meu querido pé, que me aguenta o dia inteiro.
         Eu sinto que aquele cara que, nas conversas com minhas melhores amigas, ganha o apelido de Madeirada Luxo (nunca pelo tamanho, sempre pela magia) me conquista por querer transar com nada menos do que o maior órgão do meu corpo.
         Me ganha quem quer transar com a minha pele, meu dourado couro de mina — que eu nem preciso medir para saber que é bem, bem maior do que qualquer projeto de surucucu real que só sobe se ficar hipnotizado pela flauta de uma cartela de Tadalafila.”


“O solteiro não nasceu para ter paz. Para corroborar essa tese infeliz, criaram os aplicativos de paquera, que nos conectam a monstros e rendem mais enredo que histórias de Hollywood.”


“Em anos pares ou ímpares, em dias úteis ou santos, eu quero sempre ver o oco. Eu quero futucar toda e qualquer chance de topar com uma maluquice.”


         “Assis preenche, em Baixio das bestas (2006), quase todo o gabarito da miséria humana, especialmente no que diz respeito à exploração das mulheres, retratadas por lentes fetichistas em cenas que eu defendo serem desnecessárias tanto para a apreciação do espectador, que não precisa de cortes tão gráficos para assimilar a crueza da trama, quanto para o conforto e a segurança das grandes atrizes do elenco, ali desmanteladas em nome da arte. Mas isso é só a minha opinião e a minha ideia de elegância. O problema é que Assis encontrou-me a conversar com um ator de seu filme após a sessão, nos abraçou com um largo sorriso e foi perguntar o que eu achava da sua nova película. ‘Com todo o respeito, eu não consegui apreciar o seu filme’, eu disse a ele, com o rosto quente de vergonha. Eu deveria ter mentido.
         Eu deveria ter dito que tinha adorado aquele desperdício de rolo de câmera. Assim, evitaria o que sucedeu: Assis interrompeu minha fala e apertou forte as minhas bochechas, o que fez meus lábios se abrirem em um bico forçado, à maneira que gente sem noção faz aos bebês para aferir fofura. Com meu rosto preso em sua mão, ele gritou, exibindo seus caninos de Satanás e lançando perdigotos como foguetes na minha garganta: ‘Então você não entende nada de feminismo mesmo. Esse filme eu fiz para vocês, mulheres. minha filha!’.
         Fiquei paralisada. Pelo ódio. Pela audácia do infeliz. Pela certeza de que seria mais fácil eu amestrar meus dois pés esquerdos a sambar do que um homem como ele me ensinar algo sobre o que é ser mulher.”


         “Mas vou falar apenas da menstruação. De como eu estava no fluxo, como ensina o funk, e você nem desconfiava. Do flagrante de pavor que faz a minha cara ao ver que um animal de quatro patas e faro agudo vem ao encontro dos meus países baixos quando estou naqueles dias. De como requer habilidade de ginasta conseguir enxugar-se do banho sem sujar a toalha de sangue. De todas as calcinhas lindas que manchei e descartei dolorosamente no lixo por preguiça de lavá-las. De como naquele dia eu tirei com pressa uma ainda molhada de detrás da geladeira, o absorvente não pôde aderir direito e ficou sambando entre minhas coxas por todo o caminho, o que me deixou de perna assada até depois do fim do ciclo. Do tanto que eu maltrato o meu ecológico coração por gastar quilômetros de papel higiênico só para enrolar, enrolar e esconder de você qualquer vestígio de vermelho na lixeira.
         (...)
         Não gosto de vampiro: o cara com nojinho de sexo menstruado não passa mal comigo porque eu também prefiro evitar ter que lavar lençol sujo de sangue. Prefiro esperar que passe o Mar Vermelho, que deságue na privada o velho rio São Francisco do meu vale de fertilidade, a ter que, no meio da madrugada, esfregar água gelada em lençóis de amor que parecem ter sido palco de uma batalha sem sobreviventes.”


         “Se o cara é macio, eu transo com a mão. Se é cheiroso, eu transo com o nariz. Ele vai embora e eu fico me fungando todinha, respirando fundo quando ninguém vê para notar se sobrou um pouquinho daquele maravilhoso perfume em mim.
         Os sem-nojinho, sempre os melhores homens, dizem que não lavam a mão depois para passar o dia a revisitar o momento do amor fortuitamente. Coçar a barba e cheirar os dedos é, de repente, outra viagem de volta para dentro daquela mulher.”


         “Houve um caruru feito para as gêmeas uma única vez. Foi antes de nascermos ou no nosso aniversário de um ano, nunca consegui confirmar a informação. Não há fotos, só uma boa história que tia Teca protagonizou quando estava na Feira de São Joaquim a comprar ingredientes como castanha de caju, cebola e camarão seco. Ela queria também comprar um baú de vime para colocar os presentes que íamos receber e achou um vendedor com lindos itens, mas eram todos caros demais. Tia Teca só tinha dinheiro para comprar um, talvez um e meio, e pediu desconto para levar dois, mas o homem não deu. Ficaram debatendo um tempo, mas ele era ruim de jogo. Minha tia apelou: os baús eram para um caruru de gêmeas, mas o homem era evangélico e falou que tava repreendido.
         No fim, tia Teca levou para a nossa festa apenas um. Já em casa, ao abrir o baú, surpresa: ela encontrou um outro dentro dele. Não se pode brincar com a magia mabaça de setembro, vendedor pão-duro!”


         “Porque eu não queria denunciar esse cara, eu queria empalá-lo com um cabo de vassoura empanado em cerol até ele me pedir desculpas. O que faria com o gerente do condomínio seria parecido com Cidade de Deus. ‘Quer um tiro na mão ou no pau?’, eu questionaria. Tremendo, ele diria na mão. Eu atiraria no pau. Depois, voltaria andando para a delegacia.
         Chegaria, lavada de sangue, e desarmaria com um chute o desgraçado que quase me enquadrou por conta de um copo de cerveja na cara de um puto merecedor. Eu o colocaria numa piscina sem água rodeado de todas as mulheres que ele assediou. Elas não jogariam ácido. Não bateriam nele. Apenas dariam gargalhadas de sua estatura diminuta sem uma pistola. Assim, eu estaria vingada.”


         “Agora, eu estava sendo enquadrada por reagir a uma agressão naquela atroz delegacia de polícia. Como fui de vítima a algoz mais rápido do que o cozimento de um miojo? O delegado tarado e o denunciante falavam a mesma língua e tentaram, de todas as formas, me descredibilizar. Começaram pela cerveja que eu bebia. ‘Mas eu mal bebi, joguei nele!’, falei. O advogado me deu um beliscão.
         E se eu fosse denunciar a passada de mão do cara primeiro? Bem, o delegado ia logo perguntar o que eu estava fazendo lá sozinha. Depois, perguntaria se eu não estava dando em cima do homem e que roupa eu vestia. Também questionaria o fato em si, duvidando de mim para dar razão ao seu parceiro de gênero. Não sabemos, todos, como são tratadas como culpadas as vítimas de assédio?”


         “Ao menos esse dia prometia algo de bom no final, com o jantar com o espanhol gente boa. Ele me buscou no jornal e seguimos para um bistrô caro de sua escolha. Logo descobri que o técnico em projeção era nada menos que o presidente da UCI Cinemas. O cara era amigo até de Hugh Jackman, o ator que faz Wolverine.
         Depois que revelou a sua verdadeira identidade, bebeu meia cerveja e falou um pouco de si, a próxima coisa que ele fez foi me parabenizar pela reportagem. ‘O quê? Quase fui demitida por causa dela’, me espantei. Ele quis saber os detalhes de tudo e riu quando eu expliquei como errei de forma tão estúpida. Então, ele falou: ‘Sua matéria foi usada como barganha por seu chefe para aumentarmos a nossa publicidade no seu jornal. Ninguém falou em erro, só em lucro!’.
         Ou seja: não só todo mundo erra, como também erros não têm importância, a não ser para o seu chefe tirano que te quer macambúzio. A maioria das falhas passa despercebida. Quem se importa se enfiarmos um ‘x’ ou dois em cochichar? Se ‘mim’, de vez em quando, conjugar verbo, e se ‘mais’ for trocado por 'mas' um pouco mais?
         Por isso é que o alto-falante pode até virar contrabaixo-falante, mas não me tira mais do sério. Eu, você, todo mundo vai errar enquanto alguém enche o bolso.”


Presentes no livro “Crônicas para beber” (P55, 2026), de Joana Rizério, páginas 16-17, 17, 18, 13-14, 37+38, 16, 29, 09, 08-09 e 50-51, respectivamente.

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