Trinta passagens do livro de ensaios deus não é grande — Como a religião envenena tudo, de Christopher Hitchens
“(...) Deus não criou o homem à sua imagem. Evidentemente foi o contrário, e essa é a explicação indolor para a profusão de deuses e religiões e o fratricídio entre religiões e no interior delas que vemos ao nosso redor e que tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização.”
“Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância.”
“(...) Nossa crença não é uma crença. Nossos princípios não são uma fé. Nós não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque esses são fatores mais necessários que suficientes, mas desconfiamos de tudo o que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muitas coisas, mas respeitamos a livre investigação, a mente aberta e a busca do valor das ideias. (...) Não somos imunes à sedução do encanto, do mistério e do assombro: temos a música, a arte e a literatura, e achamos que os sérios dilemas éticos são mais bem abordados por Shakespeare, Tolstói, Schiller, Dostoiévski e George Eliot do que pelas histórias morais míticas dos livros sagrados. É a literatura, e não as Escrituras, que sustenta a mente e — como não há outra metáfora — também a alma. Não acreditamos em céu ou inferno, mas nenhuma estatística irá revelar que sem essas promessas e ameaças nós cometemos menos crimes de ganância e violência que os fiéis (Na verdade, caso pudesse ser feita uma correta pesquisa estatística, tenho certeza de que ela indicaria o contrário.) Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acreditamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião. E acreditamos devido a um fato que o corolário demonstra ser verdade — que a religião fez com que incontáveis pessoas não apenas não se comportassem melhor do que outras, mas concedeu a elas a permissão de se comportarem de modos que fariam ruborizar um proxeneta ou um defensor da limpeza étnica.”
“Não temos a necessidade de nos reunir todos os dias, ou a cada sete dias, ou em qualquer dia elevado e auspicioso, para proclamar nossa retidão ou rastejar e chafurdar em nossa miséria. Nós, ateus, não precisamos de sacerdotes, ou de alguma hierarquia acima deles, para policiar nossa doutrina. Sacrifícios e cerimônias são abomináveis para nós, assim como relíquias e a adoração de qualquer imagem ou objeto (inclusive na forma de uma das mais úteis inovações do homem: o livro encadernado). Para nós, nenhum ponto da Terra é ou pode ser ‘mais sagrado’ que outro: ao absurdo ostentatório da peregrinação ou ao absoluto horror de matar civis em nome de algum muro, gruta, templo ou pedra sagrados, contrapomos uma caminhada relaxada ou apressada de um lado da biblioteca ou da galeria ao outro, ou um almoço com um amigo agradável, em busca de verdade ou beleza. Algumas dessas excursões à prateleira, ao restaurante ou à galeria obviamente irão, se forem sérias, nos colocar em contato com crença e crentes, dos grandes pintores e compositores devocionais às obras de Agostinho, Aquino, Maimônides e Newman. Esses grandes estudiosos podem ter escrito muitas coisas maldosas ou muitas coisas tolas e ter pateticamente ignorado a teoria dos germes para a doença ou a posição do globo terrestre no sistema solar, quanto mais no universo, e essa é a simples razão pela qual não há mais deles hoje, e por que não haverá mais deles amanhã. A religião disse suas últimas palavras inteligíveis, nobres ou inspiradoras há muito tempo (...) Não teremos mais os profetas ou os sábios do passado, e é por isso que as devoções hoje não passam de ecos de ontem, algumas vezes transformados em gritos para disfarçar o terrível vazio.”
“(...) A decadência, o colapso e o descrédito da adoração a Deus não começam em nenhum momento dramático, como a afirmação histriônica e contraditória de Nietzsche de que Deus estava morto. Nietzsche não podia saber disso ou supor que Deus tinha estado vivo mais do que um padre ou um médico-feiticeiro poderia declarar que conhecia a vontade de Deus. Na verdade o fim da adoração a Deus se revela no momento, que é de certa forma mais gradualmente revelado, em que ela se torna opcional, ou apenas uma dentre muitas crenças possíveis. É preciso insistir em que durante a maior parte da existência humana na verdade não havia essa ‘opção’. Sabemos, pelos muitos fragmentos de seus textos e suas confissões queimados e mutilados, que sempre houve seres humanos que não estavam convencidos. Mas desde a época de Sócrates, condenado à morte por espalhar um ceticismo pernicioso, foi considerado arriscado seguir seu exemplo. (...) Hoje muitas religiões se apresentam a nós com sorrisos insinuantes e mãos estendidas, como um comerciante melífluo em um mercado. Elas oferecem consolo, solidariedade elevação, competindo no mercado. Mas temos o direito de lembrar como elas foram bárbaras quando eram fortes e estavam fazendo uma oferta que as pessoas não podiam recusar. E se por acaso esquecermos como deve ter sido, só precisamos observar aqueles estados e aquelas sociedades em que o clero ainda tem o poder de estabelecer os termos. Os vestígios patéticos disso ainda podem ser vistos, nas sociedades modernas, nos esforços feitos pela religião para assegurar o controle sobre a educação, para conseguir isenção de impostos ou aprovar leis proibindo as pessoas de insultar sua divindade onipotente e onisciente, ou mesmo seu profeta.”
“Nossa espécie nunca ficará sem insensatos, mas eu ouso dizer que deve ter havido pelo menos tantos idiotas crédulos que professaram fé em Deus quanto tem havido parvos e simplórios que concluíram o contrário. Pode ser pouco modesto sugerir que as chances beneficiam bastante a inteligência e curiosidade dos ateus, mas o caso é que alguns humanos sempre perceberam a improbabilidade de Deus, o mal feito em seu nome, a probabilidade de que ele seja feito pelo homem e a disponibilidade de crenças e explicações alternativas menos danosas. Não temos como saber os nomes de todos esses homens e mulheres, porque em todas as épocas e em todos os lugares eles foram submetidos a uma repressão impiedosa. Pela mesma razão, também não temos como saber quantas pessoas ostensivamente devotas eram secretamente descrentes. Ainda nos séculos XVIII e XIX, em sociedades relativamente livres como as da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, descrentes seguros e prósperos como James Mill e Benjamin Franklin consideravam recomendável manter suas opiniões para si. (...) Galileu poderia ter ficado fazendo em paz seu trabalho telescópico se não tivesse sido imprudente o bastante para admitir que ele tinha implicações cosmológicas. (...) Dúvida, ceticismo e absoluta descrença sempre tiveram em essência a mesma forma que têm hoje. Sempre houve observações da ordem natural que destacaram a ausência ou a falta de necessidade de um iniciador. Sempre houve comentários contundentes sobre a forma como a religião refletia os desejos e os projetos humanos. Nunca foi difícil ver que a religião era causa de ódios e conflitos, e que sua preservação dependia de ignorância e superstição. Satiristas e poetas, bem como filósofos e homens de ciência, foram capazes de apontar que se triângulos tivessem deuses, seus deuses teriam três lados, assim como os deuses dos trácios tinham cabelos louros e olhos azuis.”
“(...) A religião é criação do homem. Mesmo os homens que a criaram não conseguem concordar sobre o que seus profetas, seus redentores ou seus gurus realmente disseram ou fizeram. Muito menos podem esperar nos explicar o ‘significado’ de descobertas e desenvolvimentos posteriores que foram, quando de seu surgimento, obstruídos por suas religiões ou denunciados por elas. E ainda assim os crentes insistem em alegar que sabem! Não apenas sabem, sabem tudo. Não apenas sabem que Deus existe e que criou e supervisionou toda a empreitada, mas também sabem o que ‘ele’ exige de nós — de nossa dieta a nossas obrigações, passando por nossa moral sexual. Em outras palavras, em uma vasta e complicada discussão na qual sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, mas ainda podemos esperar por alguma luz durante o processo, uma das facções — ela mesma composta de facções mutuamente rivais — tem a enorme arrogância de nos dizer que já temos todas as informações de que necessitamos. (...) A pessoa que tem certeza, e que alega mandato divino para sua certeza, pertence à infância de nossa espécie.”
“(...) a religião não se satisfaz, a longo prazo não pode se satisfazer, com suas próprias alegações maravilhosas e garantias sublimes. Ela precisa tentar intervir na vida dos não-crentes, dos hereges ou dos que professam outras crenças. Ela pode falar sobre a bem-aventurança do próximo mundo, mas quer o poder neste. E isso é de se esperar. Afinal, ela foi inteiramente feita pelo homem. E não tem confiança em suas variadas pregações para sequer permitir a coexistência entre diferentes crenças.”
“(...) Se Deus era o criador de todas as coisas, por que deveríamos ‘louvá-lo’ de forma incessante por fazer o que para ele tinha sido tão natural? Isso, além de qualquer outra coisa, parecia servil. Se Jesus podia curar um cego que tinha conhecido, por que não podia curar a cegueira? (...) Apesar de todas aquelas orações constantes, por que não havia resultados? Por que eu deveria continuar a dizer publicamente que era um miserável pecador? Por que o tema do sexo era considerado tão venenoso? Desde então eu descobri que essas objeções vacilantes e pueris eram extremamente comuns, em parte porque nenhuma religião consegue oferecer uma resposta satisfatória a elas.”
“(...) os chamados mandamentos não aparecem como uma lista organizada de ordens e proibições. Os três primeiros são variações do mesmo, nos quais Deus insiste em seu próprio primado e sua exclusividade, proíbe a produção de imagens esculpidas e proíbe dizer seu nome em vão. Esse pigarro prolongado é acompanhado de alguns alertas muito sérios, incluindo um aviso terrível de que os pecados dos pais serão lançados sobre seus filhos ‘até a terceira ou quarta geração’. Isso nega a ideia moral e razoável de que as crianças são inocentes dos crimes de seus pais. O quarto mandamento insiste na obediência a um dia sabático santificado e proíbe todos os crentes — e seus escravos e empregados domésticos — de realizar qualquer trabalho nesse dia. Acrescenta que, como é dito no Gênesis, Deus fez todo o mundo em seis dias e descansou no sétimo (abrindo espaço para especulações sobre o que ele fez no oitavo dia). O ditado então se torna mais conciso. ‘Honra teu pai e tua mãe’ (não pelo seu valor em si, mas a fim de que ‘se prolonguem os dias na terra que o Senhor teu Deus te dá’). Apenas então vêm os famosos ‘nãos’, que proíbem explicitamente assassinato, adultério, roubo e falso testemunho. Finalmente, há um veto à cobiça, proibindo o desejo por casa, escravo, escrava, boi, jumento e outros bens do ‘teu próximo’.
Seria difícil encontrar maior prova de que a religião é criação do homem. Há para começar, um rosnado monárquico sobre respeito e medo, acompanhado de duro alerta sobre a onipotência e a vingança ilimitada, do tipo que um imperador babilônico ou assírio teria ordenado que os escribas usassem para iniciar uma proclamação. Há depois uma recomendação direta de continuar a trabalhar e relaxar apenas quando o absolutista determinar. Seguem-se algumas poucas recomendações legais bem definidas, uma das quais normalmente é mal apresentada porque o hebraico original na verdade diz ‘Não cometereis assassinato’. Porém, por mais que se menospreze a tradição judaica, certamente é insultuoso ao povo de Moisés pensar que ele teria chegado até aquele ponto com a impressão de que assassinato, adultério, roubo e perjúrio eram permissíveis. (...) Nenhuma sociedade conhecida falhou em se proteger de crimes óbvios como os supostamente definidos no monte Sinai. Finalmente, em vez de uma condenação de atos maldosos, há uma condenação estranhamente elaborada de pensamentos impuros. Também é possível dizer que isso é um produto humano do suposto tempo e lugar, porque coloca a ‘mulher’ juntamente com as outras propriedades, animais, humanas e materiais, do próximo. Mais importante ainda, ele exige o impossível: um problema recorrente de todos os éditos religiosos. A pessoa pode ser contida em relação a atos iníquos, ou ser impedida de cometê-los, mas proibir as pessoas de contemplá-los é demais. É particularmente absurdo esperar banir a inveja dos bens e da sorte das outras pessoas, no mínimo porque o espírito de inveja pode levar a emulação e ambição, e ter consequências positivas. (Parece improvável que os fundamentalistas americanos, que desejam ver os Dez Mandamentos entronizados em todas as salas de aulas e tribunais — quase como uma imagem esculpida —, fossem tão hostis ao espírito do capitalismo.) Se Deus realmente quisesse que as pessoas fossem libertadas de tais pensamentos, deveria ter tido o cuidado de inventar uma espécie diferente.”
Christopher Hitchens
(foto: Christian Witkin)
“(...) Mais uma vez se vê a gigantesca falácia criada pelo homem que molda nossa história do ‘Gênesis’. Como é possível provar em um parágrafo que esse livro foi escrito por homens ignorantes e não por qualquer deus? Porque o homem recebeu o ‘domínio’ de todas as bestas, as aves e os peixes. Mas não são especificados dinossauros, plesiossauros ou pterodáctilos, porque os autores não sabiam de sua existência, quanto mais de sua criação supostamente especial e imediata. Também não é mencionado nenhum marsupial, porque a Austrália (...) não estava em nenhum mapa conhecido. Mais importante ainda, no Gênesis o homem não recebe o controle de germes e bactérias porque a existência dessas criaturas necessárias mas perigosas não era conhecida ou compreendida. E, se fosse conhecida ou compreendida, teria ficado imediatamente claro que essas formas de vida tinham ‘domínio’ sobre nós, e continuariam a desfrutar dele sem contestação até os padres serem colocados de lado e a pesquisa médica finalmente ter uma oportunidade.”
“(...) a ideia de uma expiação por delegação, do tipo que muito perturbou C.S. Lewis, é um refinamento da antiga superstição. Mais uma vez temos um pai que demonstra seu amor sujeitando um filho à morte por tortura, mas dessa vez o pai não está tentando impressionar Deus. Ele é Deus, e está tentando impressionar os humanos. Pergunte a si mesmo qual é a moral do que vem a seguir: falam a mim de um sacrifício humano que aconteceu dois mil anos atrás, sem que eu o desejasse e em circunstâncias tão horrendas que, se eu estivesse presente e tivesse qualquer influência, estaria obrigado a tentar impedi-lo. Em consequência desse assassinato, meus próprios numerosos pecados são perdoados, e eu posso esperar desfrutar da vida eterna.
Vamos agora ignorar todas as contradições entre aqueles que contam a história original e supor que ela é basicamente verdade. Quais são as implicações? Elas não são tão tranquilizadoras quanto parecem inicialmente, Para começar, para conquistar o benefício dessa oferta maravilhosa, eu tenho de aceitar que sou responsável pelo açoitamento, pelo deboche e pela crucificação, na qual eu não tive voz nem participação, e concordar em que todas as vezes que eu evito essa responsabilidade ou que peco em palavra ou ato estou intensificando sua agonia. Ainda mais, é exigido que eu acredite que a agonia era necessária, de modo a compensar um crime anterior no qual eu também não tive participação, o pecado de Adão. É inútil objetar que Adão parece ter sido criado com insatisfação e curiosidade insaciáveis, e depois proibido de dar vazão a isso: tudo isso foi estabelecido muito antes até mesmo do nascimento de Jesus. Dessa forma, minha própria culpa na questão é considerada ‘original’ e inescapável. Contudo, ainda assim me é concedido livre-arbítrio para rejeitar a oferta de expiação por delegação. Se eu exercer esse direito, porém, enfrentarei uma eternidade de tortura muito mais tenebrosa do que qualquer coisa suportada no Calvário, ou qualquer coisa usada para ameaçar aqueles que pela primeira vez ouviram os Dez Mandamentos.”
“‘A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espirito Santo.’ Sim, e o semideus grego Perseu nasceu quando o deus Júpiter visitou a virgem Danae na forma de um banho de ouro e a engravidou. O deus Buda nasceu através de uma abertura no lado do corpo de sua mãe. Coatlicue, a serpente, pegou uma pequena bola de plumas do céu e a escondeu em seu seio, e assim o deus asteca Huitzilopochtli foi concebido. A virgem Nana pegou uma romã da árvore banhada pelo sangue do assassinado Agdistis, colocou-a em seu seio e deu à luz o deus Attis. A filha virgem de um rei mongol acordou certa noite e se viu banhada por uma luz grandiosa, que fez com que ela desse à luz Gengis Khan. Krishna nasceu da virgem Devaka. Hórus nasceu da virgem Ísis. Mercúrio nasceu da virgem Maia. Rômulo nasceu da virgem Rhea Silvia. Por alguma razão, muitas religiões se obrigam a pensar no canal de nascimento como uma rua de mão única, e até mesmo o Corão trata a Virgem Maria com reverência. Contudo, isso não fez diferença durante as Cruzadas, quando um exército papal partiu para retomar Belém e Jerusalém dos muçulmanos, incidentalmente destruindo muitas comunidades judaicas e saqueando a cristã herética Bizâncio no caminho, e promoveu um massacre nas ruas estreitas de Jerusalém, onde, de acordo com cronistas histéricos e encantados, o sangue jorrava até a brida dos cavalos.”
“A primeira coisa a dizer é que o comportamento virtuoso de um crente não é de modo algum prova — de fato não é sequer argumento — da verdade de sua crença, Eu poderia, apenas para continuar a discussão, agir de forma mais caridosa se eu acreditasse em que o Senhor Buda nasceu de uma incisão no flanco de sua mãe. Mas isso não faria meu impulso caridoso depender de algo muito tênue? Da mesma forma, eu não digo que se eu flagrar um sacerdote budista roubando todas as oferendas deixadas pelo povo simples em seu templo, o budismo estará, portanto, desacreditado. E de qualquer forma, esquecemos de quão fortuito é tudo isso. Das milhares de possíveis religiões do deserto, assim como das milhões de espécies em potencial, um ramo por acaso deitou raízes e cresceu. Passando por mutações de uma forma judaica a uma cristã, ela acabou sendo adotada, por razões políticas, pelo imperador Constantino e foi transformada em crença oficial com — no final — uma forma codificada e obrigatória de seus muitos livros caóticos e contraditórios. (...) Poderíamos ser devotos de uma crença inteiramente diferente — talvez hindu, asteca ou confucionista —, e nesse caso ainda nos seria dito que, sendo ou não verdade, ela ainda assim ajudaria a ensinar às crianças a diferença entre certo e errado. Em outras palavras, acreditar em um deus é de certa forma exprimir exatamente a disposição de acreditar em qualquer coisa. Porém, de modo algum rejeitar a crença é professar a crença em nada.”
“(...) O princípio fundamental do totalitarismo é produzir leis que são impossíveis de obedecer. A tirania resultante é ainda mais impressionante se puder ser conduzida por uma casta ou um grupo privilegiado que seja altamente zeloso na identificação do erro. A maioria da humanidade, ao longo da história, viveu sob alguma forma dessa ditadura ignorante, e uma grande parcela dela ainda vive. (...) O mandamento do Sinai que proíbe as pessoas até mesmo de pensar em cobiçar bens é a primeira pista. Ele é repetido no Novo Testamento pela injunção que determina que um homem que olha para uma mulher da forma errada na verdade já cometeu adultério. E é quase igualado pela atual proibição muçulmana e antiga proibição cristã de emprestar dinheiro a juros. Tudo isso, de formas diferentes, tenta colocar restrições impossíveis à iniciativa humana. A primeira é por um contínuo tormento e mortificação da carne, acompanhados por uma luta incessante contra pensamentos ‘impuros’ que se tornam reais assim que são identificados, ou mesmo imaginados. Isso produz histéricas confissões de culpa, falsas promessas de melhoria e estridentes e violentas denúncias contra outros apóstatas e pecadores: um estado policial espiritual. A segunda solução é a hipocrisia organizada, em que comidas proibidas recebem novos nomes ou em que uma doação às autoridades religiosas compra algum espaço de manobra, a ortodoxia ostentatória compra algum tempo, ou em que conta bancária determinado valor pode ser depositado e depois devolvido — talvez com uma pequena percentagem acrescentada de forma não usurária — a outra. Poderíamos chamar isso de república de bananas espiritual. Muitas teocracias, da Roma medieval à moderna Arábia Saudita wahabita, conseguiram ser Estados policiais espirituais e repúblicas de bananas espirituais ao mesmo tempo.”
“Em muito poucos casos, como o da Albânia, o comunismo tentou extirpar a religião inteiramente e proclamar um Estado por completo ateu. Isso apenas levou a cultos ainda mais extremados de seres humanos medíocres, como o ditador Enver Hoxha, e a batismos e cerimônias secretas que comprovaram a absoluta alienação das pessoas comuns do regime. Não há nada no moderno argumento secular que de longe sugira a proibição da observância religiosa. Sigmund Freud estava certo de descrever o impulso religioso, em O futuro de uma ilusão, como essencialmente inextinguível até, ou a não ser, que a espécie humana consiga vencer seu medo da morte ou sua tendência ao pensamento positivo. Nenhuma das duas situações parece provável. Tudo o que os totalitários demonstraram é que o impulso religioso — a necessidade de venerar — pode assumir formas ainda mais monstruosas se reprimido. Isso não necessariamente deve ser um cumprimento a nossa tendência à veneração.”
“(...) Em uma grande região da África animista e muçulmana, meninas são submetidas ao inferno da circuncisão e da infibulação, que consiste na retirada do clitóris e dos lábios, frequentemente com uma pedra amolada, e depois na costura da abertura vaginal com uma corda forte que só pode ser removida ao ser rompida pela força do macho na noite de núpcias. Enquanto isso, a compaixão e a biologia permitem que seja deixada uma pequena abertura para a passagem do sangue menstrual. O mau cheiro, a dor, a humilhação e o sofrimento consequentes excedem qualquer coisa facilmente imaginável e inevitavelmente resultam em infecção, esterilidade, vergonha e a morte de muitas mulheres e crianças no parto. Nenhuma sociedade iria tolerar tal agressão a suas mulheres e, portanto, a sobrevivência, se essa prática abjeta não fosse sagrada e santificada. (...) Pais que disseram acreditar nas alegações absurdas da ‘ciência cristã’ foram acusados, mas nem sempre condenados, por negar cuidados médicos urgentes a seus filhos. Pais que se imaginam ‘testemunhas de Jeová’ recusaram permissão para que seus filhos recebessem transfusões de sangue. Pais que imaginam que um homem chamado Joseph Smith foi guiado a um conjunto de placas de ouro enterradas casaram suas filhas ‘mórmons’ menores de idade com tios e cunhados que algumas vezes já tinham esposas mais velhas. Os fundamentalistas xiitas do Irã reduziram a idade de ‘consenso’ para 9 anos, talvez em uma emulação admirada da idade da ‘esposa’ mais jovem do ‘profeta’ Maomé. Meninas noivas hindus na Índia são açoitadas, e algumas vezes queimadas vivas, se o dote patético que elas trazem é considerado pequeno demais. Apenas na década passada o Vaticano e sua vasta rede de dioceses foram obrigados a admitir cumplicidade em um enorme número de casos de estupro e tortura de crianças, principalmente, mas de modo algum exclusivamente, homossexuais, em que pederastas e sádicos conhecidos eram protegidos da lei e transferidos para paróquias onde a colheita de inocentes e indefesos frequentemente era melhor.”
“(...) Quanto esforço é necessário para afirmar o inacreditável! Os astecas tinham de abrir uma cavidade peitoral humana todo dia simplesmente para garantir que o sol iria nascer. Monoteístas devem importunar sua divindade mais vezes que isso, pois talvez ela seja surda. Quanta vaidade precisa ser dissimulada — sem grande eficácia — de modo a fingir que alguém é o objeto pessoal de um plano divino? Quanto amor-próprio precisa ser sacrificado para que alguém possa sofrer continuamente na consciência do próprio pecado? Quantas suposições inúteis são precisas e quanta ginástica é necessária para receber cada nova descoberta da ciência e manipulá-la de modo que se ‘ajuste’ às palavras reveladas de antigas divindades criadas pelo homem? Quantos santos, milagres, concílios e conclaves são necessários para que primeiramente seja possível estabelecer um dogma e depois — após infinita dor, perda, absurdo e crueldade — seja necessário abandoná-lo?”
“Uma questão hipotética. Como homem de cerca de 57 anos de idade, eu sou flagrado chupando o pênis de um bebê. Peço que você imagine seu próprio ultraje e sua náusea. Ah, mas eu tenho minha explicação pronta. Eu sou um mohel: um circuncidador oficial e removedor de prepúcio. Minha autoridade provém de um antigo texto, que determina que eu pegue o pênis do bebê em minha mão, corte ao redor do prepúcio e complete o ato colocando seu pênis em minha boca, sugando o prepúcio e cuspindo o pedaço amputado juntamente com um punhado de sangue e saliva. Essa prática foi abandonada pela maioria dos judeus, por causa de sua natureza anti-higiênica ou suas associações perturbadoras, mas ainda resiste entre os fundamentalistas hassídicos, que esperam que o Segundo Templo seja reconstruído em Jerusalém. Para eles, o rito primitivo do peri'ah metsitsah é parte do acordo original e irrevogável com Deus. Descobriu-se que em Nova York, no ano de 2005, o ritual, realizado por um mohel de 57 anos de idade, transmitiu herpes genital a vários meninos e causou a morte de pelo menos dois deles. Em circunstâncias normais a revelação teria levado o Departamento de Saúde Pública a proibir a prática e o prefeito a denunciá-la. Mas, na capital do mundo moderno, na primeira década do século XXI, não foi o caso. Em vez disso, o prefeito Bloomberg ignorou os relatórios de respeitados médicos judeus que alertavam para o perigo do costume e determinou a sua burocracia sanitária que adiasse qualquer veredicto. A questão fundamental, disse ele, era assegurar que a livre prática da religião não estivesse sendo infringida.”
“É preciso deixar claro. A religião vem de uma época da pré-história humana em que ninguém — nem mesmo o grandioso Demócrito, que concluiu que toda a matéria era feita de átomos — tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Vem da infância assustada e chorosa de nossa espécie e é uma tentativa infantil de atender a nossa inescapável necessidade de conhecimento (bem como de conforto, garantia e outras necessidades infantis). Hoje, o menos informado de meus filhos sabe muito mais sobre a ordem natural que qualquer dos fundadores da religião, e é bom pensar — embora a ligação não seja plenamente demonstrável — que é por isso que eles parecem tão pouco interessados em enviar colegas humanos para o inferno.
Todas as tentativas de conciliar a fé com a ciência e a razão estão condenadas ao fracasso e ao ridículo exatamente por essas razões. Eu li, por exemplo, sobre algumas conferências ecumênicas de cristãos que querem mostrar como são abertos e convidam físicos a participar. Mas sou compelido a me lembrar do que sei — que, para começar, não haveria igrejas se a humanidade não tivesse temido o clima, o escuro, a peste, o eclipse e todas as outras coisas hoje facilmente explicáveis. E também se a humanidade não tivesse sido compelida, com uma dor de consequências atrozes, a pagar os exorbitantes dízimos e impostos que ergueram os imponentes edifícios da religião.”
Christopher Hitchens
(foto: Marvin Joseph)
“O desejo de morte, ou algo não muito diferente disso, pode estar secretamente presente em todos nós. Na virada do ano 1999 para 2000 muitas pessoas educadas disseram e publicaram infinitos absurdos sobre uma série de possíveis calamidades e dramas. (...) a religião legitima tais impulsos, e alega ter o direito de oficiar no final da vida, assim como espera monopolizar as crianças no início da vida. Não pode haver dúvida de que o culto à morte e a insistência nos presságios do fim sejam fruto de um desejo oculto de vê-lo acontecer e acabar com a ansiedade e a dúvida que sempre ameaçam o controle da fé. Quando há o terremoto, o tsunami inunda ou as Torres Gêmeas explodem, você consegue ver e ouvir a secreta satisfação dos fiéis. Eles dizem alegremente: ‘Veja, é isso o que acontece quando você não nos ouve!’ Com um sorriso melífluo eles oferecem uma redenção que não cabe a eles conceder e, quando questionados, adotam a expressão ameaçadora que diz: ‘Ah, então você recusa nossa oferta de paraíso? Bem, nesse caso temos um outro destino guardado para você.’ Quanto amor! Quanta preocupação!”
“(...) há a questão bastante importante do que os mandamentos não dizem. Seria moderno demais perceber que não há nada acerca da proteção das crianças contra a crueldade, nada sobre estupro, nada sobre escravidão e nada sobre genocídio? Ou seria rigorosamente ‘no contexto’ perceber que alguns desses crimes são quase positivamente recomendados? No versículo 2 do capítulo imediatamente posterior, Deus diz a Moisés para instruir seus seguidores sobre as condições nas quais eles podem comprar ou vender escravos (ou trespassar suas orelhas com um furador), e as regras referentes à venda de suas filhas. Isso é seguido por regulamentos loucamente detalhados sobre bois que chifram e são chifrados, incluindo os famosos versos estabelecendo ‘vida por vida, olho por olho, dente por dente’. A microadministração de disputas agrícolas é momentaneamente interrompida com o versículo abrupto (22-18) ‘Não deixarás viver a feiticeira’. Esse foi durante séculos o mandato para a tortura e a morte na fogueira, pelos cristãos, de mulheres que não se conformaram. Eventualmente há injunções que são morais e também (pelo menos na adorável versão do rei James) memoravelmente redigidas: ‘Não tomarás o partido da maioria para fazeres o mal’ foi ensinado a Bertrand Russel por sua avó, e permaneceu toda a vida com o velho herege. Contudo, há poucas palavras simpáticas aos esquecidos e apagados hivitas, cananeus e hititas, todos supostamente parte da criação original do Senhor, que devem ser impiedosamente expulsos de seus lares para abrir espaço para os ingratos e rebeldes filhos de Israel. (Essa suposta promessa de Deus é a base para a alegação irredentista do século XIX de direito à Palestina que nos deu infinitos problemas até hoje.)”
“Este é o melhor argumento que conheço para a altamente questionável existência de Jesus. Seus discípulos sobreviventes analfabetos não nos deixaram qualquer registro, e de qualquer forma nunca poderiam ter sido ‘cristãos’, já que nunca iriam ler esses livros posteriores em que os cristãos precisam afirmar a crença, e de qualquer forma não teriam qualquer ideia de que alguém iria um dia fundar uma igreja com base nos pronunciamentos de seu mestre. (Também não há uma só palavra em qualquer dos Evangelhos posteriormente montados que indique que Jesus queria ser o fundador de uma Igreja.)”
“(...) as religiões nunca poderiam surgir, quanto mais florescer, a não ser pela influência de homens tão fanáticos quanto Moisés, Maomé ou Joseph Kony, ao passo que caridade e trabalho humanitário, embora possam ter apelo a crentes de bom coração, são herança do modernismo e do Iluminismo. Antes disso, a religião se espalhou não pelo exemplo, mas como força auxiliar dos métodos mais antiquados de guerra santa e imperialismo.”
“(...) minha posição geral de considerar a ‘fé’ uma ameaça. (...) Podem acontecer duas coisas: aqueles que são inocentemente crédulos podem se tornar presa fácil para aqueles menos escrupulosos que buscam ‘liderá-los’ e ‘inspirá-los’. Ou aqueles cuja credulidade levou sua própria sociedade à estagnação podem buscar a solução não estudando a si mesmos, mas culpando os outros pelo seu atraso. As duas coisas aconteceram ne sociedade mais consagradamente ‘espiritual’ de todas. (...) Embora muitos budistas hoje lamentem essa tentativa deplorável de provar sua própria superioridade, até agora nenhum deles foi capaz de demonstrar que o budismo estava errado em seus próprios termos. Uma fé que despreza a mente e o indivíduo livre, que prega a submissão e a resignação e que considera a vida algo pobre e transitório está mal equipada para a autocrítica. Aqueles que se cansaram das religiões da ‘Bíblia’ convencionais e buscam ‘iluminação’ por intermédio da dissolução de suas próprias faculdades críticas em alguma forma de nirvana devem ficar alertas. Eles podem pensar que estão abandonando o reino do desprezível materialismo, mas ainda está sendo pedido que eles adormeça seu raciocínio e descartem suas mentes juntamente com suas sandálias.”
“A espécie humana é uma espécie animal sem grande variedade interna, e é vão e fútil imaginar que uma viagem, digamos, ao Tibete revele uma harmonia inteiramente diferente com a natureza ou a eternidade. O Dalai Lama, por exemplo, é total e facilmente identificável como um secularista. Exatamente da mesma forma como um principezinho medieval, ele alega não apenas que o Tibete deve ser independente da hegemonia chinesa — uma exigência ‘perfeitamente boa’, se posso apresentar assim na linguagem cotidiana —, mas que ele mesmo é um rei hereditário escolhido pelos céus. Quão conveniente! Seitas dissidentes de sua fé são perseguidas; seu governo personalista em um enclave indiano é absoluto. Ele faz pronunciamentos absurdos sobre sexo e dieta e, quando em suas visitas a arrecadadores de recursos de Hollywood, unge grandes doadores como Steven Segal e Richard Gere como santos. (Na verdade, o sr. Gere fez um beicinho quando o sr. Segal foi investido como tulku, uma pessoa de grande iluminação. Deve ser chato ser superado por um lance em um leilão espiritual como esse.) Devo admitir que o atual ‘Dalai’, ou lama supremo, é um homem de algum encanto e presença, como admito que a atual rainha da Inglaterra é uma pessoa de mais integridade que a maioria de seus predecessores; mas isso não invalida a crítica à monarquia hereditária, e os primeiros estrangeiros em visita ao Tibete ficaram imediatamente chocados com o domínio feudal e as punições hediondas que mantinham a população em permanente servidão a uma elite monástica parasitária.”
“(...) O livro sagrado em uso há mais tempo — a Torá — ordena ao praticante agradecer a seu criador todos os dias por não ter nascido mulher. (Isso mais uma vez levanta uma questão insistente: quem além de um escravo agradeceria a seu mestre pelo que ele decidiu fazer sem se dar o trabalho de consultá-lo?) O Velho Testamento, como os cristãos o chamam com condescendência, apresenta a mulher como sendo clonada do homem para seu uso e conforto. O Novo Testamento apresenta São Paulo expressando temor e desprezo pelas mulheres. Ao longo de todos os textos religiosos há um medo primitivo de que metade da raça humana seja simultaneamente corrompida e impura, ainda assim uma tentação ao pecado ao qual é impossível resistir. Isso poderá explicar o culto histérico à virgindade e a uma Virgem, e a ameaça da forma feminina e das funções reprodutivas femininas? Talvez haja alguém que consiga explicar a crueldade sexual e outras crueldades dos religiosos sem fazer qualquer referência à obsessão pelo celibato, mas esse alguém não sou eu. Eu me limito a rir quando leio o Corão, com suas intermináveis proibições relativas ao sexo e sua promessa corrupta de infinita devassidão na próxima vida: é como ver através do ‘vamos fingir’ de uma criança, mas sem a indulgência presente em assistir aos inocentes brincando. Os lunáticos homicidas — ensaiando para serem lunáticos genocidas — de 11 de setembro talvez fossem tentados por virgens, mas é muito mais revoltante pensar que eles, como tantos de seus colegas jihadistas, eram virgens. Como os monges de antigamente, os fanáticos são afastados cedo de suas famílias, ensinados a desprezar suas mães e irmãs e chegam à idade adulta sem nunca haverem tido uma conversa normal, quanto mais um relacionamento normal, com uma mulher. Isso, por definição, é doença. O cristianismo é reprimido demais para oferecer o sexo no céu — de fato, ele nunca conseguiu desenvolver um céu tentador —, mas tem sido pródigo em sua promessa de punição sádica e eterna para os transgressores sexuais”
“(...) Há poucos anos, Madre Teresa denunciou a contracepção como o equivalente moral do aborto, o que ‘logicamente’ significava (já que ela considerava o aborto um assassinato) que um preservativo ou uma pílula também eram armas letais. Ela era um pouco mais fanática até mesmo que sua igreja, porém mais uma vez podemos ver que o dogmático persistente é o inimigo moral do bem. Ele exige que acreditemos no impossível e pratiquemos o inalcançável. Toda a defesa da extensão da proteção aos não-nascidos e à definição de uma tendência a favor da vida tem sido arruinada por aqueles que usam crianças não-nascidas, assim como as nascidas, como meros objetos de manipulação de sua doutrina.”
“Não sabemos quantas pessoas morreram ou morrerão na África por causa do vírus da aids, que foi isolado e se tornou tratável, em um grande feito da pesquisa científica humana, pouco depois de ter feito sua aparição letal. Por outro lado, nós sabemos que fazer sexo com uma virgem — uma das ‘curas’ locais mais populares — de fato não impede ou elimina a infecção. E também sabemos que o uso de preservativos pode pelo menos contribuir, como uma forma de profilaxia, para a limitação e a contenção do vírus. Não estamos lidando, diferentemente do que os antigos missionários podem ter gostado de acreditar, com médico-feiticeiros e selvagens que resistem as dádivas trazidas pelos missionários. Estamos, ao contrário, lidando com o governo Bush, que, em uma república supostamente secular do século XXI, se recusa a dar uma parcela de seu orçamento de ajuda externa a instituições de caridade e clínicas que trabalham com planejamento familiar. Pelo menos duas grandes religiões estabelecidas, com milhões de fiéis na África, acreditam que a cura é muito pior que a doença. Elas também acalentam a crença de que a praga da aids é de alguma forma um veredicto dos céus sobre os desvios sexuais — particularmente sobre o homossexualismo. Um único golpe da poderosa navalha de Ockham eviscera essa selvageria inconsistente: homossexuais femininas não contraem aids (exceto se tiverem azar com uma transfusão ou uma agulha), e elas também são muito mais livres de todas as doenças venéreas que até mesmo os heterossexuais. Mas as autoridades religiosas teimosamente se recusam a ser honestas até mesmo sobre a existência das lésbicas. Agindo assim, elas comprovam mais uma vez que a religião continua a ser uma ameaça urgente à saúde pública.”
“Eu não me apresento como um exemplo moral, e seria facilmente desmascarado se o fizesse, mas, se fosse suspeito de estuprar uma criança, torturar uma criança, infectar uma criança com uma doença venérea ou vender uma criança como escrava, sexual ou não, pensaria em cometer suicídio, fosse culpado ou não. Se eu realmente tivesse cometido o crime, aceitaria a morte de qualquer forma que ela tivesse. Essa náusea é inata em qualquer pessoa saudável, e não precisa ser ensinada. Como a religião se provou exclusivamente delinquente na única questão em que a autoridade moral e ética pode ser considerada universal e absoluta, acho que temos direito a pelo menos três conclusões provisórias. A primeira é que a religião e as igrejas são fabricadas, e que esse fato evidente é óbvio demais para ser ignorado. A segunda é que a ética e a moralidade independem de fé, e não podem derivar dela. A terceira é que a religião é — porque alega ter uma imunidade especial e divina para suas práticas e crenças — não apenas amoral, mas imoral. O psicopata ou o ignorante violento que trata mal seus filhos deve ser punido, mas pode ser compreendido. Aqueles que alegam ter um mandato divino para a crueldade foram corrompidos pelo mal, e também constituem um perigo muito maior.”
Presentes no livro de ensaios “deus não é grande — Como a religião envenena tudo” (Ediouro, 2007), de Christopher Hitchens, traduzido por Alexandre Martins, páginas 18-19, 211, 16-17, 17-18, 68-69, 234-235, 21, 26-27, 15, 96-97, 87-88, 192-193, 31-32, 171, 195-196, 226, 55-56, 18, 54-55, 66, 63, 97-98, 109, 177-178, 186-187, 183, 58-59, 204, 54 e 56-57, respectivamente.
Christopher Hitchens
(foto: Eric Luse)
Aforismos de Christopher Hitchens em
“deus não é grande — Como a religião envenena tudo”
“A religião é criação do homem”
“A decência humana não deriva da religião. É anterior a ela”
“A filosofia começa onde a religião termina, assim como, por analogia, a química começa onde a alquimia acaba e a astronomia assume o lugar da astrologia”
“A mente literal não entende a mente irônica e sempre a identifica como fonte de perigo”
“As ciências da crítica literária, da arqueologia, da física e da biologia molecular mostraram que mitos religiosos eram falsos e criações humanas, e também conseguiram produzir explicações melhores e mais iluminadas”
“A Bíblia pode ter, e de fato tem, um mandato para tráfico de humanos, limpeza étnica, escravidão, preço das noivas e massacre indiscriminado, mas não somos obrigados a nada disso, porque foi produzido por mamíferos humanos incultos”
“Todas as religiões tomam o cuidado de silenciar ou executar aqueles que as questionam (e eu prefiro ver essa tendência recorrente como uma prova de sua fraqueza, e não de sua força)”
“Nunca, em nenhuma época, houve uma tentativa de desafiar ou mesmo pesquisar as alegações do islamismo que não tenha sido recebida com uma repressão extremamente dura e rápida”
“A religião monoteísta é plágio de um plágio de um ouvir dizer de um ouvir dizer, de uma ilusão de uma ilusão, que retrocede até a falsificação de alguns não-acontecimentos.”
“Os três grandes monoteísmos ensinam as pessoas a pensar em si mesmas de forma abjeta, como pecadoras infelizes e culpadas prostradas frente a um deus raivoso e ciumento”
“Uma forma fácil de identificar um assassino desumano era perceber que ele era guiado por uma observância sincera e literal da instrução divina”
“O objetivo de aperfeiçoar a espécie — que é a própria raiz e a fonte do impulso totalitário — é essencialmente religioso”
“Deveríamos ficar felizes por nenhum dos mitos religiosos ser verdade”
“Humanos não são constituídos de modo a se preocuparem com os outros tanto quanto consigo mesmos”
“A religião levanta suspeitas ao tentar provar demais”
“A pessoa que tem certeza, e que alega mandato divino para sua certeza, pertence à infância de nossa espécie”
“Atrocidades religiosas passadas e presentes acontecerão não porque somos maus, mas pelo fato de a espécie humana ser, biologicamente, apenas parcialmente racional”
“Se o ensino religioso fosse proibido até a criança ter chegado à idade da razão, estaríamos vivendo em um mundo bastante diferente”
“Todos os grandes confrontos sobre o direito ao livre-pensar, à liberdade de expressão e de pesquisa tiveram a mesma forma — uma tentativa religiosa de afirmar a mente literal e limitada sobre a mente irônica e investigativa”
“Violenta, irracional, intolerante, aliada do racismo, do tribalismo e do fanatismo, baseada na ignorância e hostil à livre reflexão, depreciativa das mulheres e coerciva para com as crianças: a religião organizada tem muito em sua consciência”
“O argumento de que a crença religiosa melhora as pessoas ou ajuda a civilizar a sociedade costuma ser apresentado quando as pessoas já esgotaram suas justificativas”
“Essa deferência à força da opinião religiosa deve implicar o reconhecimento de que fé e adoração podem fazer as pessoas se comportarem realmente muito mal”
“Os milagres supostamente acontecem por ordem de um ser que é onipotente, além de onisciente e onipresente. Seria de esperar um desempenho mais grandioso do que sempre costuma ocorrer”
“As pessoas têm o direito de concluir que a aparente unidade e a confiança da fé são um disfarce para uma insegurança muito profunda e provavelmente justificável”
“Um pequeno passo à frente por parte do conhecimento e da razão; um enorme avanço ameaçador das forças da barbárie”
Aforismos presentes no livro de ensaios “deus não é grande — Como a religião envenena tudo” (Ediouro, 2007), de Christopher Hitchens, traduzido por Alexandre Martins, páginas 21, 244, 235, 37, 141, 98-99, 119 (2x), 255, 73, 191, 213, 98, 196, 110, 21, 19, 201, 237, 60, 170, 221, 140, 119 e 257, respectivamente.
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