“Amor! Por que você existiu, onde existe? De que é feita sua natureza jacarta, desconhecida, como terras em que nunca estive? Por que me é tão difícil lançar-me ao mar, à aventura de enfrentar baleias e monstros marinhos no percurso até avistar sua praia, marcar o pé em sua areia depois de tempestade e calmaria, dobrados cabos do medo e da boa esperança, tendo-os atravessado avariada mas destemida, movida pela cãibra insone do meu vazio?
Por que, como Colombo, como Cabral, como espanhóis e portugueses e ingleses ou americanos, como uma mulher de ação, não conquistá-lo, não explorá-lo, não lhe arrancar as riquezas? Não escravizá-lo, não foder com o seu time, não lhe trazer uma nova civilização? Não recuperar a porção onde mora a falta que você me faz desde que nos beijamos e ouvi silencioso o meu baço prescindível?
Este é um mero pretexto para declarar meu amor por você, inesquecível e incurável, desmedido e deslavado, sozinho em algum órgão que aí te dentro não dói, quem sabe seu fígado. Quem sabe seu baço, que vive sem mim.”
“O Cosmo não é como a mãe que sucumbe aos caprichos de um bebê, comovida com as exigências da criaturinha nova em folha, movimentando olhos e membros curiosos. O Cosmo tá se lixando, meu irmão. O Hamster Superior é capaz de devorar seus filhos por razões que não compreendemos mas que tentamos, desesperadamente, explicar. Queremos encontrar respostas. Precisamos acreditar que temos Pai, temos Mãe, que não estamos sós, que Alguém ou Algo nos rege e tem seus motivos.”
“Tomou a primeira de uma talagada só, ordenou a segunda. Era, claramente, frequentador assíduo do lugar. Da segunda, só um gole. Devia estar de mau humor, não respondendo aos cumprimentos dos conhecidos. De repente olhou em volta, muito sério. Com certeza estranhou Carmela em suas tentativas de juntar todos os elementos no garfo sem que caíssem, parecendo bêbada, mas nem deu risada dela.
— Alguém aqui foi ao enterro de Tonico Zarolho?
Os clientes, mesmo os das poucas mesas, tentaram disfarçar o sobressalto. Silêncio.
O homem soltou um risinho — de sarcasmo? Desprezo?
— Ninguém foi, né?
Os novos bifes de fígado que a lourinha fritava voltaram a chiar a pulso, como se a fim de disfarçar o constrangimento geral.
— É verdade...
Olhando primeiro para o dono do boteco, sentado do outro lado do balcão, ao computador, e depois mirando os outros, de um em um.
— A vida inteira Tonico Zarolho almoçou aqui... Encheu esse aí de grana! — apontando para o dono atrás do balcão já com a cara mexendo.
— Todo dia vinha um pra atrapalhar o feijão do coitado, chorando desgraça, pedindo dinheiro... Tonico Zarolho interrompia o almoço se atrasava pro trabalho, mas sempre tinha ouvido pros amigos, emprestava sem nunca receber de volta e sem cobrar...
Carmela não conseguia mais engolir o fígado; ficou mexendo no prato, treinando o equilibrismo.
— Aí o cara morre e ninguém vai no enterro dele?!”
“Bem que a vida é até passível de organização, se a Sorte deixar. Mas é temeroso saber que somos regidos por essa Força indiferente, que não obedece ao Bem, não obedece ao Mal, que se amanceba com o Tempo e nos suga a juventude devagarinho, como se prazer lhe desse nos ver murchar afinal e ir nos dissolvendo... de novo ao encontro da Imensidão.”
“A mim me conhecia do bate-papo do UOL, onde uma galera frequentava assiduamente a sala 30-40 A. Nunca soube por que certa feita resolveu abrir seu coração comigo; talvez porque seu coração já não mais aguentava se calar, de tão apaixonado por um rapaz de 18 anos, curitibano de ascendência chinesa, interno num daqueles colégios da Suíça que abrigam jovens estrangeiros endinheirados. Fazia meses que conversavam e La Pasionaria! não conseguia conter a ansiedade até conhecê-lo em carne e osso, em hálito, em pele e em cheiro, uma vez que ele logo viria ao Brasil visitar os pais.
Durante algumas semanas fez de mim sua confidente, me dando a acompanhar os batimentos cada vez mais profundos de um estranho em seu peito; o gelo crescente comprimindo sua barriga; a incontinência de nervos superexcitados, os músculos aos saltos triplos e súbitos. Eu ficava imaginando: ‘Que viagem louca! Tão particular: exclui marido, exclui filhos, exclui mesmo quem ela é de fato, no sentido de sua vida concreta do dia a dia. Talvez revele quem ela seja verdadeiramente. Quem sabe mostre que até hoje apenas interpretou uma personagem, e La Pasionaria! a livrou da mentira que lhe vendava os olhos, obrigando-a a perceber que todos esses anos foram um equívoco, que o homem de quem pariu os filhos é ninguém em sua alma, que seus filhos têm mesmo o pai errado.’”
“— Mas você não frequentou a Praia da Onda não, né?
— Aí, não; era coisa de surfista, eu nunca gostei de esporte.
— Ah!... Ali nasceu a primeira geração de surfistas da Bahia, e eu sou da primeira geração das ratas de surfistas da Bahia. A gente tinha de 14 a 16 anos, mais ou menos... foi um pouco antes do lance do Farol. Eu chamo de ‘primeira geração’ porque antes parece que só tinha tido três caras que faziam surf, que eram reverenciados como deuses: Alex, Tourão e Catharino. Mas uma galera de peso só rolou mesmo por ali: 72, 73... E o ‘departamento social’ era na Praia da Onda, ali onde Ondina emenda com o Rio Vermelho. Logo antes do Morro da Sereia.
— Praticamente todos esses lugares ainda existem, né, só o tempo passou. Ou nós que passamos? Ou qual a natureza dessa mudança? Pergunta filosófica...
— É como quando eu vejo fotos da Salvador antigona, as pessoas na rua vestidas daquele jeito, as condições de vida naquele tempo...Os lugares são os mesmos e é como se contemplassem as mudanças todas, sendo que em essência continua tudo igual. E o Farol também tinha sido moda antes da gente.”
“Um dia encomendei um ‘croissant completo’ na cantina da ACBEU, e como sei que leva um tempo pra ficar no ponto, comentei que iria à barraca de Darcy até que esse tempo se desse.
— Darcy?!? — estranhou Rose, imediatamente. O cara das frutas?
— Ele mesmo.
— Não é ‘Darcy’, não! É ‘Tássio’.
Falou com tamanha autoridade que eu achei que tivesse entendido mal quando ele me dissera seu nome, meses antes. Cheguei à barraca chamando: ‘Tassio!’
Lá veio o sorriso já empunhando o facão.
— Ô, rapaz! É ‘Darcy’ ou ‘Tássio’ seu nome?
— É Ivan.
— ‘Ivan’ ??!?!?!
— Meu nome mesmo é Ivan, mas cada um me chama de uma coisa.
— Qual você prefere?
— Pra mim tanto faz, senhora!”
“Era, de longe, o mais bem-sucedido de todos os amigos. Entendia a vida como uma empreiteira onde só havia duas opções: se dar bem ou se dar melhor ainda. Nascera com uma espécie de blindagem na alma, bênção que o protegia de frescuras e fraquezas como os antolhos que não permitem aos cavalos urbanos se intimidarem com os automóveis à sua volta, fazendo com que nada mais exista senão o que se exibe adiante. Quando levava à frente um projeto, não existiria obstáculo pequeno ou grande que detivesse sua energia hercúlea. Isso não significava que fosse desonesto ou desleal, absolutamente: apenas não se deixava afastar do seu objetivo por razão alguma. Não sofria de dores nem de pruridos, não se conformava a regrinhas tolas que se plantavam como pedra no meio do caminho de gente sensível como poetas, por exemplo, um rebanho de fracos que vivia sendo exaltado pelos professores de português e de literatura, botando merda na cabeça das meninas, dos otários e dos viados.
(...)
— Diz-que não é ‘fantasy’, é ‘cóstiun’... Escreve C-O-S-T-U-M-E.
O Mirobaldo irritou-se mais ainda, se possível fosse:
— ‘Costume’? Que porra é essa??!?!?? ‘Costume’ é outra coisa!! Quem é que vai entender ‘Costume Party’? Manda esse viado se fuder e bota ‘Fantasy’, mesmo!
— Mas é inglês...
— Inglês?!?!?!? TÔ CAGANDO pra inglês! A gente tá é no Brasil É ‘Fantasy Party’ e acabou!
Ficou ‘Fantasy Party’ mesmo e fez o maior sucesso, engordando a conta bancária do Mirobaldo no equivalente a milhões de tímidos porquinhos com poucas moedas e farto conhecimento de que ‘Festa à Fantasia’, em inglês, se diz ‘Costume Party’.
Para capitalistas audazes é COMO EU QUISER, MERMÃO! e as mulherzinhas que vão chupar uma pica bem grossa!”
roã
“(...) Todos me estranhavam e me olhavam com reprovação; o único olhar que interpretei como algo solidário veio de um jovem vendedor de quiabos em saquinhos, que me alcançou enquanto eu subia arduamente, pés incertos, uma escada de metal muito estreita. Bem perto de mim, sorriu com rosto seboso e eu senti a inhaca que exalava. Antes de que eu me desse conta, já tinha a língua em minha boca e já puxava a calcinha do meu biquíni e me enfiava a rola. Depois de gozar, afastou-se do meu corpo o quanto lhe permitia o exíguo do espaço e passou a sibilar, como uma serpente, uma cobra, uma víbora, uma naja: Que eu era muito folgadona! Que já devia ter dado pra uns 5 mil e 500 milhões de homens desde o início dos tempos! E saia da minha frente, vagabunda!”
“Franziu a testa incrédula:
— 43 anos??!?!?
— Faço 44 no fim de setembro.
— Poxa, mãe! Você é velha!!! — No tom de brincadeira se insinuava alguma decepção.
— A outra alternativa é morrer. Melhor ficar velha, né não? — Respondeu Clarinha, e no tom de graça se escondia uma resignação coroada de certa amargura.”
“— Nunca me casei nem tive filhos.
— Ué? Por alguma razão em especial?
— Não. Circunstâncias.
— Não encontrou a mulher certa?
Ele sorriu:
— Elas que não encontraram este homem errado.”
“— E eu, que faço TUDO por você!!!! Me diga uma vez, u'azinha só, que eu não tenha me virado pra te satisfazer!!! Todas as horas de chá-de-cadeira que já passei na porra do dentista porque você tem medo de ir sozinho!!! Faltei até trabalho quando você foi botar aquela desgraça do pino pro implante!!!!
E as vezes que você mijou na cama, seu débil mental??!?? Ter que botar o colchão na janela pra tomar sol, parecendo que tinha um bebê em casa??!? Eu aguento suas merdas há 18 anos, você faz o maior auê só porque eu quero espremer uma espinha!
Você devia se sentir feliz por poder me dar um prazer de graça, sem fazer nenhum esforço! Mas não, tem que ficar se fazendo de besta, me criticar! Tem que ficar me torturando!
O que é que custava deixar eu espremer essa porcaria na hora?!? Você sabe como eu ia adorar! Mas prefere me espezinhar! Se esquece da sua companheira desse tempo todo, pro bem e pro mal!!!! VÁ SE FUDER!!!!!!!!!!!!!!!!!! VÁ SE ESTOURAR NO CARALHO QUE O PARTA!!!!!!!!!!!!!!”
“Bebela faria 61 anos dentro de alguns meses. Era viúva há nove, tinha quatro filhos adultos e duas netinhas. Lourenço era sete anos mais velho e solteirão convicto, sem descendência direta. Toda essa informação já havia sido trocada enquanto conversaram através do computador, depois que Lourenço viu uma mensagem de Bebela na página de uma amiga e pediu que ela o adicionasse. Durante alguns meses batendo papo, marcaram encontro numa tarde de sábado, embora ambos estivessem receosos com o rever-se depois de tantos anos e ao mesmo tempo ansiosos feito pré-adolescentes que nunca ficaram com ninguém. A propósito, jamais a conversa no Facebook trafegara por vias românticas, e nem um nem outro tinha, nesse sentido, perspectivas que fossem dignas de menção aqui. O que havia de mais forte era a curiosidade de estar outra vez um em frente ao outro, como se dessem um salto no tempo. As fotos publicadas em suas páginas mostravam que tanto ele quanto ela ainda lembravam bastante os jovens que tinham sido no século e milênio anteriores; as marcas do tempo, naturalmente ausentes no passado, eram agora naturalmente presentes: os corpos mais redondos, as linhas perpetuando as expressões alegres e tristes, pele e cabelos com menos viço e menos entusiasmo tolo e destemido.”
“Manhã livre, resolveu bater perna pela vizinhança e pela primeira vez testemunhou policiais conversando animadamente com vendedores de DVDs certamente piratas, como se a função de uns não fosse a de coibir a prática dos outros; como se gatos e ratos se houvessem esquecido da briga que até uma criança esperava que cultivassem.
— Mas ela é casada, solteira ou dá umas pancadinha? — perguntava um PM ao camarada.
Parecia que a mesma cordialidade praticada entre judeus e árabes brasileiros se estendia a outras dimensões daquela sociedade, ao mesmo tempo fazendo com que todos perdessem o orgulho ou respeito por suas origens e deveres, como se transformados em seres carentes de identidade mas nem por isso foscos: a metamorfose lhes conferia um brilho outro, uma certa condição em que nuances muitas se mesclavam e adquiriam uma natureza nova, comum entre todas as cores. Ninguém era mais alguém propriamente, todos traziam em si um pouquinho de cada um e aparentemente se entendiam. ‘Que país mais incompreensível!’”
“— Agora, tento me entender mais com a morte do que com a vida, e te juro que é um processo bem mais tranquilo.
— Eta! Você fica pensando na morte?
— Com você na minha frente ou sem você na minha frente?
Bebela ficou sem graça: jamais teria imaginado essa pergunta. O cara estava botando as manguinhas de fora. Tô acordada.
— Faz alguma diferença?”
Presentes no livro de contos e crônicas “Dor de facão & brevidades” (2016), de roã, páginas 76, 20, 134-135, 58, 166-167, 110-111, 31-32, 47-48+50, 25, 69, 108, 86, 113-114, 178 e 116, respectivamente.
Aforismos de roã em “Dor de facão & brevidades”
“O tempo é que nem um liquidificador, transformando mais ou menos tudo em mais ou menos a mesma coisa, e a gente prefere se lembrar do que foi bom”
“As mulheres têm especial apreço por aqueles que as fazem rir”
“Relógio não mede desespero”
“É este o encantamento e a beleza das brevidades: a consciência do efêmero, onde viver é melhor que sonhar”
“Envelhecer traz uma tranquilidade que prescinde de respostas”
“Sempre gostei dos números pares, quando ninguém ficava sobrando”
“Andar de ônibus é uma das melhores maneiras de se antenar com a língua, os hábitos e a vida de nossos conterrâneos.”
Aforismos presentes no livro de contos e crônicas “Dor de facão & brevidades” (2016), de roã, páginas 114, 119, 23, 129, 107, 169 e 149, respectivamente.
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