Pular para o conteúdo principal

Postagens

Os melhores trechos do doc A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos

“A minha mãe vive no pôr do sol e todos os dias mergulha no fundo do mar.” “Aquilo que o ser humano não consegue explicar, inventa.” “O mar despreza os meus problemas. Mas ele tem tanto com que se preocupar (...) São tantas as ondas que tem de criar todos os dias. São tantos os peixes que o usam como casa. São tantas as almas que ficarão aqui para sempre. Não tem tarefa fácil, o mar (...) Sei que ele já estava cá antes de nós e que, quando nós já formos tão velhinhos que não nos sobra nada mais do que morrer, ele vai ficar aqui. Deixa-me sempre muito espantado como é que uma coisa tão infinita consegue entrar por nós adentro.” “Os outros filhos parecem rios. E lembro-me daquela frase: ‘Toda a gente fala da violência dos rios que tudo arrastam, mas ninguém fala da violência das margens que os comprimem’.” “Um dia, Jacinto, perguntou a Triz o quanto gostava dele. Triz respondeu: ‘Experimenta contar as penas dos pássaros, os grãos de areia, as estrelas do céu, as ondas no mar. Experimenta...

Dez passagens do livro O alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822-c. 1853), de João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J. M. de Carvalho

“Rufino não seria avis rara a bordo dos navios negreiros em que embarcou, pois africanos neles se empregavam em grande número. Além de trabalhar como marinheiros, eles conheciam as regiões fornecedoras de escravos, serviam como intérpretes e podiam melhor convencer, acalmar, organizar e controlar cativos cujas línguas soubessem falar. Geralmente esses homens do mar tinham sido escravos no Brasil e ali conseguido sua liberdade, como acontecera com o próprio Rufino. (...) Esses personagens, que um dia tinham sido vítimas do tráfico luso-brasileiro, uma vez libertos passaram a ocupar vários postos na hierarquia do mesmo negócio, e não apenas nas escalas mais inferiores. Só não os encontramos, ainda, na condição de capitães e donos de navios empregados na rota transatlântica. (...) Uma vantagem adicional para que os traficantes empregassem africanos era a maior resistência destes às doenças tropicais, muitas vezes letais, que infestavam a costa africana, em uns mais que noutros lugares, e...

Os meus livros prediletos do mestre Jorge Amado

Entre 2022 e 2023 , tive a sorte de ler doze romances e um livro de crônicas do mestre Jorge Amado . Até então, só havia acessado dois livros dele na escola, e morria de vergonha dessa pendência, ainda mais por ser baiano. Que presente! Os meus prediletos foram os romances “ Tenda dos Milagres ”, “ Tieta do Agreste ” e “ Mar morto ”, e também gostei de “ Tereza Batista cansada de guerra ” (leitura difícil, por ser uma história muito triste, sofrida demais), “ Dona Flor e seus dois maridos ” e o milagreiro “ O sumiço da santa ”. Porém, como sou fã de crônicas, o que eu mais gostei mesmo foi “ Navegação de cabotagem ”, o livro de memórias que ele jamais escreveu. Ao longo de 2022 e 2023 , peneirei e divulguei trechos hilários, impactantes, geniais, de imensa beleza e construção da baianidade nagô que ainda encanta quem acessa (mesmo com todos os dilemas surgidos com o olhar de hoje sobre uma obra produzida no século passado). Seguem abaixo, uma coleção dos seus melhores momentos. Amado...

Quinze passagens de Jorge Amado no romance O sumiço da santa

“Inclusive sobre esta terra da Bahia para onde o destino o conduzira para nela viver e trabalhar. Terra onde tudo se mistura e se confunde, ninguém é capaz de separar a virtude do pecado, de distinguir entre o certo e o absurdo, traçar os limites entre a exatidão e o embuste, entre a realidade e o sonho. Nas terras da Bahia, santos e encantados abusam dos milagres e da feitiçaria, e etnólogos marxistas não se espantam ao ver imagem de altar católico virar mulata faceira na hora do entardecer.” “No regaço do golfo, na brisa da península, plantada na montanha, eleva-se a Cidade da Bahia, de seu nome completo Cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos, enaltecida por gregos e troianos, exaltada em prosa e verso, capital geral da África, situada no oriente do mundo, na rota das Índias e da China, no meridiano do Caribe, gorda de ouro e prata, perfumada de pimenta e alecrim, cor de cobre, flor da mulataria, porto do mistério, farol do entendimento.” “Na praça em torno à basílica e nas r...

Quinze passagens de Jorge Amado no romance Tieta do Agreste

          “— Me diga: é mesmo a primeira vez?           — Com mulher, é, sim.           — Andou botando em algum menino?           — Só na cabra.           — Em Negra Flor, não foi?           — Foi nela, sim.           Bicha safada, ordinária. Peto é o terceiro, entre recentes, a lhe contar da cabra. Mais uma vez Negra Flor a precedera.           — Com mulher é diferente, tu vai ver.           Muda de posição, agora de barriga para cima, abre as pernas, os olhos de Peto pousam-se na senda de pelos negros. A mão de Zuleika Cinderela vai buscá-lo.           — Vem, meu macho, traz essa rola gostosa para comer sua mulherzinha.           Beija-o ternamente, acaricia-o...

Dez passagens de Victor Mascarenhas no romance Sete dias em setembro

Victor Mascarenhas (foto daqui )           “— Como soldado, obedeço ao príncipe, mas não concordo com nada disso. Rei é rei, ora. Ele manda, o povo obedece e quem não obedecer que sofra com as consequências. Sempre foi assim, para que mudar agora?           — Mas não achas melhor que existam regras e limites para o rei? E se um dia tivermos um governante que resolva distribuir armas a todos, que persiga seus inimigos, brigue com outros países ou nos deixe à míngua no meio de uma epidemia, por exemplo? Não deveria existir alguém que limitasse os poderes dele ou a quem pudéssemos recorrer para nos defender?           — Rei não se questiona, se obedece e meu rei é o de Portugal. É isso ou virar logo uma República, como querem os maçons.           — Então não achas errado o Brasil voltar a ser colônia e ficar submetido a um rei do outro lado do oceano?           — Ach...