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Dez passagens de Haruki Murakami no romance Crônica do Pássaro de Corda

Haruki Murakami - foto daqui 

“(...) ao ouvir os detalhes da batalha da boca de um velhinho de roupas sujas e à beira da morte, essas histórias perdiam o senso de realidade e passavam a ser como contos de fada. Quase meio século atrás, os soldados japoneses travaram uma sangrenta batalha na fronteira entre a Manchúria e a Mongólia Exterior, disputando um pedaço de terra deserta onde nem grama crescia direito. Até ouvir as histórias do sr. Honda, eu não sabia quase nada sobre a Batalha de Nomonhan, uma batalha tão cruel que ia muito além do que eu sonhava. Os soldados japoneses enfrentaram as preparadas tropas blindadas soviéticas praticamente de mãos vazias e foram esmagados. Várias tropas foram completamente devastadas. Os comandantes que decidiram recuar para evitar a aniquilação total foram obrigados a se suicidar pelos superiores, perdendo a vida em vão. Muitos soldados capturados pelo exército soviético se recusaram a participar da troca de prisioneiros no pós-guerra, com medo de serem acusados de deserção, e morreram na Mongólia, sem nunca retornar ao Japão. Quanto ao sr. Honda, perdeu a audição, foi dispensado do serviço militar e se tornou vidente. (...) Muitos sobreviventes da Batalha de Nomonhan morreram nas ilhas do sul, para onde foram enviados depois. Como foi uma humilhação para o exército imperial japonês, todos os sobreviventes foram enviados aos campos de batalha mais violentos, como se recebessem uma sentença de morte. Os oficiais que comandaram de modo irresponsável a Batalha de Nomonhan ascenderam mais tarde, no governo central. Teve até um que se tornou político depois da guerra. Já os soldados que lutaram arriscando a própria vida foram massacrados.”


“Uma escuridão profunda me envolvia. Por mais que eu tentasse ver as coisas, não enxergava nada, nem minhas mãos. Tateei as paredes, encontrei a escada às palpadelas e puxei. Ela continuava presa com firmeza. Quando eu mexia as mãos em meio às trevas, sentia que a obscuridade oscilava um pouquinho, mas talvez não passasse de ilusão de ótica. (...) Que sensação curiosa não ser capaz de enxergar o próprio corpo, bem diante do nariz. Ao permanecer imóvel na escuridão, ficava cada vez mais difícil para mim vislumbrar minha existência real. Por isso, de vez em quando eu dava uma leve tossida ou passava as palmas das mãos no rosto, para que meus ouvidos confirmassem a existência do minha voz, para que minhas mãos confirmassem a existência do meu rosto. (...) No entanto, por mais que me esforçasse, meu corpo foi perdendo gradualmente a densidade e o peso, como areia sendo carregada pelo vento. Era como se um feroz cabo de guerra estivesse sendo travado nas profundezas silenciosas do meu ser, e aos poucos minha consciência arrastasse meu corpo ao seu território próprio. A escuridão estava provocando esse grande desequilíbrio. O corpo, em última análise, é apenas um recipiente provisório que abriga dentro de si a consciência, pensei de repente. Se os cromossomos que compõem o meu corpo fossem ordenados em outras sequências, eu provavelmente habitaria um corpo diferente. (...)”


“(...) Não se trata de ser melhor ou pior. Você não deve obstruir o fluxo: deve subir quando tiver que subir e descer quando tiver que descer. Quando o fluxo estiver para cima, basta encontrar a torre mais alta e subir até o topo. Quando o fluxo estiver para baixo, basta encontrar o poço mais fundo e descer até as profundezas. Quando não existir fluxo, basta ficar parado. Se você obstruir o fluxo, tudo seca. Se tudo secar, o mundo vira um lugar de trevas. ‘Eu sou ele, ele sou eu, noite de primavera.’ Quando abandonamos o eu, o eu se manifesta.”


“(...) quem ouvisse e lesse com cuidado a opinião dele, perceberia que faltava consistência aos argumentos. Ele não tinha uma visão aprofundada, nem convicções embasadas. Seu mundo era formado por uma combinação complexa de sistemas de pensamentos superficiais, que ele mudava e combinava de acordo com a necessidade do momento. (...) Se havia algum tipo de consistência na sua opinião era não ter nunca consistência, e se ele tinha algum tipo de visão de mundo era não ter nenhuma visão de mundo. Essas ausências, por outro lado, podiam ser consideradas sua marca intelectual. A constante mudança de pontos de vista dos meios de comunicação, que dividiam o tempo em fatias, não exigia consistência, e o fato de ele não carregar esse fardo era seu grande mérito. (...) ele era uma espécie de camaleão intelectual, que mudava de cor de acordo com o adversário e criava uma lógica eficaz para cada momento (...) como sempre tinha uma resposta pronta para tudo, como discorria com habilidade e precisão, como se fosse um mágico, era quase impossível apontar na hora as inconsistências de sua fala. Mesmo que alguns debatedores percebessem aquela lógica fraudulenta, o que ele dizia chamava muito mais atenção das pessoas e parecia muito mais novo do que os argumentos sólidos dos opositores (...) O mais importante era despertar a emoção de quem estava do outro lado da tela. (...) era capaz de enumerar uma série de palavras que pareciam termos técnicos difíceis, cujo significado correto, naturalmente, quase ninguém sabia. (...) conseguia criar um ambiente que sugeria que a culpa não era dele se alguém não entendia isso. Costumava citar estatísticas e mais estatísticas. Sabia de cor todos aqueles números, que pareciam bem convincentes. Entretanto, mais tarde, percebia-se que nenhuma vez tinha sido discutida a autenticidade ou a confiabilidade da fonte daqueles dados. (...) como a estratégia dele era muito sutil, a maioria dos telespectadores não conseguia perceber com facilidade a artimanha. (...) E foi assim que Noboru Wataya passou a ser considerado um grande intelectual, como se para a opinião pública a consistência não tivesse muita importância. O que os telespectadores queriam eram discussões acaloradas, derramamento de sangue. Nesse contexto, pouco importava se alguém falasse algo na segunda-feira e se contradissesse completamente na quinta.”

Haruki Murakami - foto daqui

“Sabe o que pensei olhando essa exposição das águas-vivas? Que a paisagem que vemos nada mais é do que uma pequena parte do mundo. Costumamos achar que estamos vendo o mundo, mas não estamos. O verdadeiro mundo fica num lugar mais profundo e escuro, e a sua maior parte é povoada por criaturas como as águas-vivas. E a gente acaba se esquecendo disso. Não concorda? Os oceanos cobrem dois terços da superfície terrestre, e o que conseguimos enxergar a olho nu não passa de uma espécie de pele do mar. Não sabemos quase nada do que existe nas profundezas.”


“Como não entendi direito aonde ela queria chegar, mudei de posição sem soltar a barra do vagão e encarei May Kasahara. (...) — Morrer aos poucos, a conta-gotas? Em que situação, por exemplo? (...) — Por exemplo... hum... quando você está preso, sozinho, em algum lugar escuro, sem comida, sem bebida, e morre aos poucos, bem devagar. (...) — Algo assim deve ser bem dolorido e sofrido. Não gostaria de morrer desse jeito. (...) — Mas, Pássaro de Corda, acho que a vida é assim, não? Todos acabam presos em algum lugar escuro, sem comida e sem bebida, e morrem aos poucos, bem devagar. A conta-gotas. (...) Eu ri. (...) — Você é nova, mas às vezes tem umas ideias bem pessimistas. (...) — Pessi... quê? O que é isso? (...) — Pessimista, uma pessoa que vê apenas o lado negativo da vida. (...) Ela repetiu a palavra algumas vezes, em voz baixa. (...) — Pássaro de Corda — disse ela, levantando os olhos para mim, como se me encarasse. — Eu posso ter apenas dezesseis anos e não conhecer muito do mundo, mas, se eu sou pessimista, todos os adultos deste mundo que não são pessimistas não passam de uns bobões. Tenho certeza.”


“(...) Não sinto nenhuma estranheza. Pelo contrário, trabalhando de maneira compenetrada, como uma formiguinha, sinto até que estou me aproximando cada vez mais do meu verdadeiro eu. Como posso dizer, não consigo explicar direito, mas acho que, justamente por não estar pensando em mim, estou me aproximando cada vez mais da minha essência. (...)”


“Seguindo em silêncio por uma paisagem desoladora como essa, às vezes eu era invadido por uma falsa sensação de que o meu corpo perdia a consistência e se desprendia aos poucos. Como o cenário à nossa volta era muito vasto, ficava cada vez mais difícil manter o equilíbrio da consciência. (...) Era como se a consciência se expandisse cada vez mais, se tornasse dispersa como a paisagem, e não conseguíssemos mais prendê-la ao corpo carnal. Essa era a sensação que eu experimentava na planície da Mongólia. Pensava em como tudo ali era vasto. Para mim, parecia mais um oceano do que uma estepe. O sol despontava do horizonte leste, cruzava devagar o firmamento e se punha no oeste. Era a única alteração visível que conseguíamos distinguir. (...) O amanhecer da Mongólia era esplêndido. Em poucos minutos, o horizonte todo se iluminava em um raio de luz e subia devagar em meio às trevas, como se uma grande mão estendida do alto do céu puxasse devagar a cortina da noite. Era uma cena magnífica, cuja grandeza ia muito além da minha consciência. Vendo essa paisagem, eu tinha a impressão que minha própria existência se dissolvia aos poucos e quase desaparecia. Nada nesse quadro, nem a mais ínfima trivialidade, fora criado pela mão humana. A mesma cena tinha se repetido durante centenas de milhões de anos, durante bilhões de anos, desde os tempos remotos quando não existia nenhuma forma de vida. Até me esqueci que estava de sentinela e observei impressionado a alvorada.”


“(...) Infelizmente não há mais esperança para nós. A época do czar ainda era um pouco melhor. Pelo menos ele não precisava gastar os neurônios para pensar em teorias complicadas. Nosso querido Lenin aproveitou apenas as partes que conseguiu compreender da teoria de Marx, e nosso querido Stálin também só fez uso das partes que conseguiu compreender, uma parcela bem pequena. Na sociedade soviética, quanto menor grau de compreensão, maior o poder. Quanto menos a pessoa compreender, melhor. Veja bem, tenente Mamiya, só existe um jeito de sobreviver em uma sociedade como a nossa: ser totalmente desprovido de imaginação. Os russos que têm imaginação com certeza vão se arruinar. É claro que eu não tenho imaginação. Meu trabalho é fazer os outros imaginarem. Esse é meu meio de sobrevivência. (...) Quando tiver vontade de imaginar, se lembre do meu rosto, entendeu? E pense: não, não posso, porque imaginar pode custar a minha vida. Esse é meu conselho de ouro. Você tem que delegar o trabalho de imaginar aos outros.”


“(...) as pessoas precisam pensar a fundo no sentido da vida justamente porque sabem que vão morrer um dia. Não concorda? Se o ser humano vivesse para sempre, se pudesse manter os hábitos sem problemas, quem pensaria no sentido da vida? Seria algo necessário? E bom, mesmo se fosse necessário, as pessoas deixariam para depois: ‘Ainda temos bastante tempo, vamos pensar nisso mais tarde’. Só que não é assim que acontece. Precisamos pensar nessas questões agora, no presente, porque ninguém está livre de morrer atropelado por um caminhão na tarde de amanhã, ou na manhã de depois de amanhã. (...) Precisamos da morte como combustível para a evolução. (...) Quanto mais forte a presença da morte, mais desesperadamente pensaremos sobre as coisas.”



Presentes no romance Crônica do Pássaro de Corda (Alfaguara, 2017), de Haruki Murakami, páginas 62-63, 271-272, 60, 87 a 89, 266, 132, 557-558, 162 e 171, 710 e 302-303, respectivamente, na tradução de Eunice Suenaga.

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