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Dez poemas de Martha Galrão

Martha Galrão [foto daqui]

O homem de gelo

O que não combinava
era o homem de gelo parecer um mouro,
não na beleza, mas na cor.
O homem de gelo sentou-se
em frente a mim
e me olhou.
Com seus olhos
frios de gelo.
Nada disse.
Por força da tentativa
aproximei minha alma dele.
Doeu.
Você já tentou aproximar sua alma
de um homem de gelo?
Não tente.
Queima.
Não como fogo, mas como gelo.
Em frente ao homem de gelo
as palavras perderam força.
E eu que sou mulher de palavras
me desfiz.
Marulhosa, eu marejei.
Fiz silêncio.
Desci pelas escadas,
vertiginosa, espiral,
com a mão na parede para não cair.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 63

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Você sabe que vai cair
e se debruça.
Você quer a vertigem.

Se joga
e
voa
até o solo.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 77

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XXXIII

Água,

Água
transforme minha dureza
em correnteza

Água
transforme minha queda
em cachoeira

Água
transforme meu medo
em corredeira

Água
me transforme em vapor
me alivie por inteira.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 62

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Saudade

o que me mata
é o silêncio
e o beijo
não ser na boca

o que me mata
é a falta
de seus olhos
nos meus

o que me mata
é a ausência
de mãos
e palavras

o que me mata
é esse breu.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 34

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Chove
Não resiste acesa
nenhuma fogueira

Noite austera
escura, erma
nem uma fogueira
acesa

Cumpro a sina
de nomear tochas
para iluminar meu enigma

O silêncio torna a encobri-lo

Tudo é noite
não posso dizer
mais do que posso.

Presente no blog Muadiê Maria [post de 21/06/2016]

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A melhor parte da festa
foi você
beliscando meu vestido
à altura da coxa
me puxando pelo tecido
dizendo pela segunda vez:
“Vestido lindo”.
Tão rápido
só nós dois sentimos
Tão sutil
só nós dois sabemos.
Protegidos por Nossa Senhora do Silêncio.

Presente no “Um rio entre as ancas”,
Coleção Pedra Palavra, pg 10

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II

Daqui de casa
seguro a noite em meu peito.
Agarro a noite à unha
como um grande e velho touro negro.
Com um fio de voz
mantenho a lua suspensa
(imensa).

Se eu dormir
a noite desmorona.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 16

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V

O mistério me espreita — impassível.
(Eu na solidão do que não conheço.)

De repente, eu lembro:
Valdelice colocando o dedo
dentro da galinha
para saber se tinha ovo.

Quando o mistério vem
eu não me furto
Me entrego
e ele me inunda.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 20

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A voz é como um rio

Na cabeceira desse rio
a terra firme cede
sob meus pés.

A chuvarada traz
a voz do seu peito
Minha bacia aceita.

Porque chama com gosto
meu nome
oferto meu colo
Entre minhas curvas
suas lágrimas correm.

Nas entrelinhas
a sedição do seu silêncio.
O maior dos perigos
seu torrencial silêncio
conduzindo o arroio
dos meus fonemas.

Presente no “Um rio entre as ancas”, 
Coleção Pedra Palavra, pg 10

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IV

Estremeci quando ela disse:
“Cuide bem de seu abismo”.
Pensava estar sob um véu
e descubro que arrasto (in)visível
meu precipício.

Faço cipó de letras
e desço.
Teço corda de texto
e retorno.
No despenhadeiro
marcas de unha
e memória.

Presente no livro “A chuva de Maria”, pg 19

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