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Quinze passagens de Carlos Marcelo na biografia Renato Russo — O filho da revolução



          “(...) ao longo da carreira, Renato Russo soube se comunicar com maior desenvoltura com os fãs do que com os colegas de palco. Talvez pelo fato de sua força se concentrar mais na poética do que na busca de uma nova sonoridade — que, para muitos músicos, era demasiadamente simples e assemelhada ao formato consagrado no rock internacional. Mas a cada disco, a cada improvável sucesso radiofônico, Renato foi ampliando o seu espaço. E nem a morte o impediu de prosseguir. Nos últimos vinte anos, versos legionários foram cantados em toda parte: festivais de rock, trios elétricos, feiras agropecuárias, rodas de pagode, churrascos, festas de debutantes, karaokês, manifestações de esquerda e de direita, nas favelas e nas coberturas. Assim, por mérito próprio, Renato Russo passou a integrar o primeiro escalão da música popular brasileira. ‘Que país é este’, ‘Pais e filhos’, ‘Faroeste caboclo’, ‘Será’... Não se iluda, elas não pertencem a você. Nem a mim. Pertencem a todos. São incontornáveis.
          (...)
          Renato Russo foi o ponta-de-lança de uma turma que capturou no exterior a moldura sonora que julgava mais adequada para externar o descontentamento com o que ocorria no país. Na capital brasileira, a partir da observação do cotidiano nacional e do contato direto com os Estados Unidos e a Inglaterra, eles adicionaram à urgência punk uma poética incisiva e insurgente. Assim, surgiram as crônicas de um Brasil silenciado e de uma juventude desorientada: adolescentes na capital utópica, precocemente desvirtuada. Sincronizados com o tempo, porém perdidos no espaço.”


          “(...) Junior foi matriculado em uma escola pública e impressionou a professora quando, instado a listar os livros que já tinha lido, relacionou mais de trinta títulos. A direção da escola chamou a mãe do aluno brasileiro:
          — Creio que está havendo uma confusão, seu filho tem dificuldades de compreender a tarefa. Não são os livros que ele gostaria de ler, mas os que ele já leu.
          Carminha esclareceu, para espanto da professora:
          — Não, ele entendeu direito. Ele já leu todos esses livros.”


          “O ano letivo do Marista chega ao fim. É hora de enfrentar o vestibular. Renato sonhava com um curso que estimulasse a expressão artística, com possibilidade concreta de obter o que desejava: dinheiro, fama e sucesso por meio do manejo da palavra. Sonhava ser escritor. (...) Renato também queria ser cineasta, a cada transmissão do Oscar pela TV, se imaginava na cerimônia, recebendo estatuetas de melhor direção e melhor roteiro. O pai, porém, logo o alertou:
          — Para fazer cinema no Brasil tem que ter dinheiro, meu filho.
          Tentaria, então, jornalismo. Cursaria comunicação social.”


          “(...) Ao voltar para casa no Passat da amiga Cássia Portugal (...) Renato se mostra bem mais expansivo. Especialmente ao falar sobre música internacional. Fã de MPB e com o sonho de se tornar cantora ou escritora, Cássia um dia perde a paciência:
          — Que saco, Renato, você só fala de música americana! Por que esse desinteresse pela música brasileira?
          — Mas eu faço música brasileira, Cássia! Minha banda, o Aborto Elétrico, é música brasileira! Por que não?”


          “(...) Renato Manfredini Junior consegue, pela primeira vez, driblar a censura. Por conta da letra de ‘Heroína’, porém, ele acaba fichado em outra divisão da Polícia Federal, a de Repressão a Entorpecentes. E a letra de ‘Veraneio Vascaína’, apresentada em outro momento, rende uma convocação para os autores, Flávio e Renato. Devem prestar explicações sobre a letra, mas nem cogitam a possibilidade de ir. Os amigos lembram:
          — Quem vai não volta.”


          “(...) Durante uma festa, Bonfá encontra Dado e confirma o convite:
          — Vamos fazer um som, você está a fim?
          Logo em seguida, é a vez de Renato injetar entusiasmo na proposta:
          — Vamos fazer, vamos nessa!
          Dado aceita. Desiste de ir morar na França com o pai para ficar em Brasília cursando sociologia na UnB e tocando com a Legião.
          (...)
          Ao saber da novidade, Dinho Ouro Preto, o outro morador do apartamento 213 Sul, tem sua segunda grande decepção. A primeira tinha sido há alguns meses, quando Bonfá mostrara o nome ‘Legião Urbana’ na parede do bar Papos e Panquecas e revelara:
          — É o nome da nova banda do Renato. Eu tô tocando com ele.
          Na ocasião, Dinho tentou disfarçar a perplexidade. Gostava de Bonfá, mas ele não ia aos filmes, às exposições, não participava das discussões, não debatia os grandes temas da atualidade. Por que Renato o escolhera?  (...) Por que, para o lugar de seu irmão, ele tinha convidado alguém que não sabia tocar? Se era assim, por que não ele? Por que Renato não o escolheu? De novo, a frustração. Dinho Ouro Preto não se conforma (...) quer entrar em uma banda.”


          “(...) Quando consegue a sonoridade desejada para a bateria, a banda comemora:
          — Tio Amaro tirou o som da batera. Tio Amaro é o cara!
          O que não impede o surgimento de novas reclamações por parte de Bonfá.
          — Pô, não gostei do meu som!
          O técnico de som retruca:
          — Então, você tem que tocar melhor.”


          “Antes de iniciar mais um show da Legião Urbana no Circo Voador, no dia seguinte à morte de Médici, Renato faz um pronunciamento aos fãs:
          — Muitas vezes eu penso que só morre gente boa, gente que faz bem ao mundo. No entanto, a morte de um ditador me conforta, e, creio, conforta todas as pessoas que sonham com um Brasil livre e bonito. Então, vamos fazer deste show a celebração da morte de mais um fascista.”


Carlos Marcelo (foto daqui)

          “Renato, por sua vez, está de olho na produção dos colegas. Entusiasma-se com ‘Educação sentimental’, do Kid Abelha. Comenta com Jorge Davidson:
          — As pessoas ainda não perceberam, mas eles dizem as mesmas coisas que eu, só que de uma maneira um pouquinho diferente.
          Ao ver um pôster dos Paralamas na gravadora, deixa escapar, em tom maroto:
          — Se eu fosse o vocalista, seria a maior banda do Brasil.”


          “Ao Jornal do Brasil, queixa-se da fama adquirida em menos de três anos: ‘Quando você faz sucesso com uma banda de rock‘n’roll, você tem que conviver justamente com as pessoas de quem queria fugir ao fundar uma banda de rock‘n’roll’. Constata uma ‘empatia trocada’: o boyzinho que ia aos shows cantar ‘A dança’ (‘Tratando as meninas/ Como se fossem lixo’) voltava para casa e batia na namorada.”


          “‘Faroeste caboclo’, música de nove minutos e 159 versos, torna-se o mais improvável hit radiofônico da história da indústria fonográfica brasileira. Ao narrar a paixão e morte de João de Santo Cristo, saga conhecida da turma da Colina desde o início da década e apresentada pela primeira vez fora do Distrito Federal em 1983, no Morro da Urca (‘sob vaias iniciadas dos punks’, frisa o vocalista no encarte), Renato move montanhas. As rádios que tocam no início da noite as canções mais pedidas pelos ouvintes são obrigadas a tomar uma decisão drástica: cortar três músicas para acomodar ‘Faroeste’. Quando faltam dez minutos para as sete da noite, não adianta girar o dial. É impossível desviar de Santo Cristo, Maria Lúcia, Pablo, Jeremias, luzes de Natal, generais de dez estrelas, lote 14, Winchester 22, sangue, perdão. Renato Russo é a voz do Brasil.”
 

          “Matias, então, pergunta sobre o futuro da Legião. Renato responde: ‘Eu não tenho ideia. Eu não vejo como a gente vai seguir o que está fazendo sem se repetir. Depois de ‘Perfeição’, eu vou escrever o quê? Depois que você fala ‘Vamos celebrar a estupidez humana’, o que você vai falar?’.”


          “— Renato, você fica repetindo o tempo inteiro ‘A Legião são vocês, a Legião são vocês’. Mas, se é isso mesmo, por que você não atende nenhum pedido de música durante os shows?
          Imperturbável, Renato esclarece:
          — A Legião são os fãs. Mas as músicas e os shows são meus.”


          “Letra, música e outras conversas chega às livrarias em 1995. Na introdução do capítulo dedicado a Renato, Leoni comenta que a entrevista foi ‘muito mais fácil, fluente e divertida’ do que poderia supor, por ter sido com ‘uma pessoa do bem, preocupada com valores morais e éticos, que não se rendeu ao cinismo’. O músico-autor detalha o que mais o impressionou: o método de trabalho da banda.

          A partir do segundo disco os arranjos nascem sempre antes das canções, o que explica os milhões de variações da melodia e os formatos atípicos. As canções começam em estúdio (seja de gravação, seja nos estúdios pessoais de cada um da banda), normalmente pela bateria, depois vêm a linha de baixo, o teclado, o violão, a guitarra e o que mais entrar no arranjo. Depois disso define-se o formato. Quantas vezes entra tal parte, quantas entra a outra, quando volta para a primeira, até estar definido. Até aí o Renato não cantou uma nota, nem escreveu uma sílaba. Eles gravam uma fita com diversas bases e decidem quais vão entrar no disco, provavelmente já sabem a ordem em que vão entrar. Só então o Renato pega aquelas bases e vai para casa colocar melodia e letra só nas escolhidas. Detalhe: a regra número um é a de não alterar o formato que está na fita. Se a parte A se repetir cinco vezes na primeira vez e seis na segunda, ele escreve a letra para onze partes As, que não precisam ter a mesma melodia. As outras bases ficam guardadas esperando a sua chance no próximo trabalho. É estranho, mas é um método. Isso é tipicamente Legião Urbana, é quase uma forma exclusiva deles.”


          “Ao perceber a fragilidade dos registros da voz-guia, Dado tenta convencer Renato a refazer algumas gravações, mas ele não aceita. Muito contrariado, o cantor retorna ao estúdio para regravar um dos versos do primeiro single, ‘A via láctea’, cuja gravação da voz-guia tinha sido danificada, sem possibilidade de recuperação. Faz a regravação, depois decreta:
          — Chega, não aguento mais.
          (...)
          Ao encerrar as gravações, exausto, o vocalista afirma:
          — Pronto, agora não tenho mais o que botar pra fora.
          (...)
          Encerrada a mixagem, Renato pergunta a Reginaldo Ferreira qual deveria ser o single o disco. O assistente cita sua faixa predileta: ‘Esperando por mim’. Renato retruca:
          — Não. Vai ser ‘A via láctea’. Tem mais a ver com o meu momento.
          (...) O vocalista convida os colegas para escutar A tempestade em seu apartamento. Muito magro, o anfitrião parece satisfeito com o que sai das caixas de som:
          — Nossa, o som tá lindo.
          Quando eles chegam aos momentos em que o vocal fraqueja, como em ‘A via láctea’, Renato desencoraja qualquer ressalva ao afirmar:
          — Essa voz tá linda.
          Nenhum dos presentes o contesta.”


Presentes na biografia “Renato Russo – O filho da revolução” (Planeta, 2018), de Carlos Marcelo, páginas 10-11, 45, 118-119, 146-147, 183, 230, 258-259, 281, 282-283, 298, 300-301, 356, 359, 362 e 378-379, respectivamente.

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