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oroboro baobá por Wesley Correia e Breno Fernandes


Indicação de Wesley Correia
no jornal Correio de 02/01/2022


Oroboro Baobá (Ed. Penalux, 2020)
Indicação completa sem cortes por Wesley Correia

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, 2021, na categoria melhor Romance de Estreia em 2020, o livro de Emmanuel Mirdad investe no estilo fantástico-realista, passando pela complexa elaboração de uma narrativa histórico-ficcional, em que a Mística do Tempo se presentificará como grande protagonista, até alcançar, em muitos momentos, status do que se pode classificar como obra de formação. Para isso, o autor opera personagens densas, repletas de magnetismo e estofo psicológico, em torno das quais experiências civilizatórias estabelecidas entre o Brasil e algumas regiões do continente africano serão reencenadas.







O escritor, jornalista e curador Breno Fernandes publicou a sua crítica ao meu romance no álbum “Leituras de 2022” do seu perfil no Facebook (aqui), sincronicamente na hora/minuto oroboro de 13:31. Maktub! Segue abaixo, na íntegra:

Oroboro baobá (romance)
Emmanuel Mirdad (Brasil), 2020
Penalux, 2020, 324 p.
Crítica por Breno Fernandes

Oroboro baobá”, o romance de estreia de Emmanuel Mirdad, é uma espécie de “Dark” homérico: uma história na qual o tempo se contorce e interconecta personagens que se revelam peças de um plano dos deuses. É uma história de núcleos múltiplos, passada entre o sul da Bahia, o norte de Minas Gerais e o centro-sul do continente africano, em especial a ilha de Madagascar. Gostei muito de ver a região onde cresci transformada em palco do livro, assim como gostei de ver outras cosmogonias africanas, que não as da costa oeste, predominantes na cultura baiana, adentrando o imaginário da literatura local. Só senti falta mesmo de uma barriguda, o baobá do sertão, nessa história que tem os baobás como um dos elementos simbólicos mais importantes.

A trama envolve uma série de personagens que se entrelaçam direta ou indiretamente por causa de duas figuras de origem misteriosa: Miwa, uma jovem negra, filha de ex-domésticas que recusaram a participação dos homens em sua vida familiar, e Montanha, um calado homem negro saído do meio da mata de Caraíva e transformado em goleiro intransponível do time de Porto Seguro.

Eu disse há pouco que “Oroboro baobá” tem um traço homérico, mas na verdade ele me remete mais a “Deuses americanos”, de Neil Gaiman, tanto pelo modo como os deuses agem e transitam pela Terra quanto porque os personagens que esses deuses transformam em peças de xadrez são tão passivos quanto Shadow Moon, o protagonista da história gaimaniana. Talvez Miwa e Montanha sejam até mais passivos — ou vai ver isso é impressão causada pelo fato de que o narrador parece se recusar, na maior parte do tempo, a nos contar o que se passa dentro da cabeça deles. Quando muito, o leitor resvala com algum sentimento superficial — no sentido de estar na superfície, estampado na cara ou na dinâmica das relações sociais desses personagens.

Tal recusa me parece ao mesmo tempo uma estratégia de manutenção do mistério da trama e um efeito estético — um empurrão de vá-para-longe toda vez que o leitor se debruça sobre um personagem para observá-lo melhor, para que assim o leitor nunca perca de vista o todo, o tabuleiro completo. Mas essa é uma situação que não se sustenta quando você não consegue entender o porquê do jogo. Não há uma guerra a ser vencida nem o retorno à casa a ser cumprido mesmo com todos os imprevistos, os motes de Homero. Não há o terror moral que cresce com a inevitabilidade das conexões, como em “Dark”, nem há a força do sangue que faz alguém se sacrificar por um pai que nunca o amou, como em “Deuses americanos”. Não há resistência organizada que se construa, mesmo localmente, como em “Bacurau” — embora talvez haja uma resistência individual, pescada em personagens secundárias aqui e ali.

Já que estou tão comparativo nesse comentário, sigo com as comparações e afirmo que a história que para mim mais se aproxima de “Oroboro baobá” é “Mãe”, o filme de Darren Aronofsky. Os capítulos curtos criam um efeito de multidão de personagens, nos quais os protagonistas se esbarram e mal têm tempo de processar a causa e a consequência de tais encontros, seguindo assim até o fim. A única diferença é que o narrador de “Oroboro baobá” faz isso acontecer não num espaço confinado como no filme, mas numa ampla zona geográfica — a ponto de ele se sentir na obrigação de dar detalhes de guia turístico de todas as áreas.

Nesse contexto, tanto “Mãe” quanto “Oroboro baobá” dão por certo que somos marionetes de algo (deuses) ou alguém (o outro) nessa vida. E talvez a grande jornada seja aceitar a primeira condição, mas não a segunda.

Até aqui tentei, sem espóileres, dar informações sobre as escolhas do autor sem fazer julgamento delas. Agora passo a falar da minha experiência de leitura, de como o livro tocou no meu gosto:

Para mim, a manutenção da opacidade interna de Miwa e de Montanha me fez tirá-los de foco. No caso do jogador, que aparece em muitos (muitos!) capítulos que narram partidas de futebol, sucedeu que, apesar de o livro conseguir dar clareza e ritmo a uma das coisas mais difíceis de narrar por escrito — o futebol —, o fato de não saber jamais o que aquele jogo significa para Montanha, somado ao fato de meu interesse por futebol ser muito pequeno, me impediu de vibrar com a torcida.

Tenho a impressão, inclusive, de que ao optar por ser tão fidedigno à realidade do futebol interiorano — os tipos estão todos lá, do radialista mequetrefe ao prefeito aproveitador, dos patrocinadores escusos aos torcedores verdadeiramente apaixonados —, ao optar por ser tão fidedigno, o narrador abriu mão de fazer essas figuras surpreenderem o leitor que já tem conhecimento de causa ou familiaridade com elas. Noutras palavras, toda sorte de comportamento tosco, dramático, provinciano, preconceituoso, malandro, etc., tudo o que se pode esperar desses tipos se confirma. E a graça da literatura, a meu ver, está também na subversão de estereótipos, na transformação de tipos sociais em sujeitos singulares. Em “Oroboro baobá” isso só acontece ocasionalmente, um pouco com Xandão, o técnico da seleção de Porto Seguro, mas principalmente com Marcelino, o artilheiro do time e seu financiador, empresário e também traficante da cidade.

O foco perdido em Miwa e Montanha foi todo para Marcelino na minha leitura. Dele, o grande antagonista da história, o narrador me ofereceu o melhor perfil, a melhor compreensão psicológica, e me fez entender por que um filho da elite baiana se meteria num campeonato sem visibilidade. Sobretudo me fez entender como, apesar de seu amor pelo dinheiro, lícito ou ilícito, e apesar de seu desprezo pela vida humana, que o leva a mandar matar com a facilidade de quem bebe um copo d'água, Marcelino consegue se emocionar e fazer mesmo sacrifícios quando está em campo. Terminei o romance com a sensação de que, sendo ele um dos poucos personagens de destaque que não integra explicitamente o plano das entidades, é também quem teve mais espaço para me falar (e me mostrar) a complexidade da natureza humana.

E com a sensação de que o escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán teve lá sua dose de razão quando escreveu: “Não me meto nos assuntos de deus e espero que ele me pague na mesma moeda”.

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