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Dez poemas de Carlos Drummond de Andrade no livro A falta que ama



Comunhão
Carlos Drummond de Andrade

Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo,
eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis
pela expressão corporal e pelo que diziam
no silêncio de suas roupas além da moda
e de tecidos; roupas não anunciadas
nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam
escusava resposta,
ficava, parado, suspenso no salão, objeto
denso, tranquilo.
Notei um lugar vazio na roda.
Lentamente fui ocupá-lo.
Surgiram todos os rostos, iluminados.

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A torre sem degraus
Carlos Drummond de Andrade

No térreo se arrastam possuidores de coisas recoisificadas.
No 1º andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato.
No 2º andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos.
No 3º andar — tlás tlás — a noite cria morcegos.
No 4º, no 7º, vivem amorosos sem amor, desamorando.
No 5º, alguém semeou de pregos dentes de fera cacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848.
No 6º, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso.
No 8º, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika.
No 9º, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível.
No 10º, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisópsis na terrina.
No 11º, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades.
No 12º, o aquário de peixes fosforescentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença.
Atenção, 13º. Do 24º baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário.
No 14º, mora o voluntário degolado de todas as guerras em perspectiva, disposto a matar e a morrer em cinco continentes.
No 15º, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa.
No 16º, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças.
No 17º, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos.
Não se sabe o que aconteceu ao 18º, suprimido da Torre.
No 19º, profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico.
No 20º, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap fbi Usaid Cafesp Alalc Eximbank trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais.
No 22º, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas.
No 23º, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biografia e auréola.
No 24º, vide 13º.
No 25º, que fazes tu, morcego do 3º? que fazes tu, miss adormecida na passarela?
No 26º, nossas sombras despregadas dos corpos passeiam devagar, cumprimentando-se.
O 27º é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira.
Do 28º saem boatos de revolução e cruzam com outros de contrarrevolução.
Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29º foi declarado inabitável.
Excesso de lotação no 30º: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras.
No 31º, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas.
No 32º, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima.
No 33º, um homem pede para ser crucificado e não lhe prestam atenção.
No 34º, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio.
No 35º, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.
Um mosquito é, no 36º, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões.
No 37º, a canção
                     Fiorela amarlina
                     lousileno i flanura
                     meleglírio omoldana
                     plunigiário olanin.
No 38º, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações.
No 39º, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo.
No 40º, só há uma porta uma porta uma porta.
Que se abre para o 41º, deixando passar esqueletos algemados e conduzidos por fiscais do Imposto de Consciência.
No 42º, goteiras formam um lago onde boiam ninfeias, e ninfetas executam bailados quentes.
No 43º, no 44º, no... (continua indefinidamente).

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Qualquer tempo
Carlos Drummond de Andrade

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

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Diálogo
Carlos Drummond de Andrade

No banco de jardim
o velho conversando
uma forma de flor.

O amor dos cachorrinhos
oferta-se em exemplo
inútil para o velho
maligno para a flor.

O velho conversando
o banco no jardim
de onde a flor deserta.

O velho conversando-se
é banco de jardim
mas em jardim nenhum.

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Maud
Carlos Drummond de Andrade

Do tempo não visitado surge Maud
e volta
para o tempo não visitado.

Por que chegou, por que partiu
por que ligou seu nome às coisas
por que existiu, canção-intervalo
entre dois blocos de silêncio?

Maud veio dar um recado?
E, tão depressa dado, se foi?
Ou veio ouvir para contar
a uma assembleia distante, ávida
de notícias terrestres que se ocultam
na página mais branca?

Decerto não foi a passeio
que pisou o chão, que viu a paisagem.
Em seu caminhar, a pressa ardente
marca o essencial. Maud vai a serviço.

Porventura sabe que serviço é esse?
É dedicar-se, é manifestar-se
através de outro, nele refletir-se?
De quantos possíveis faz-se uma tarefa,
quantos impossíveis a constelam?
Saber a ordem não é importante
analisar a ordem não é importante
cumprir a ordem é importante.

Cintilação da ordem no desencontro
de um em um, de todos em ninguém
e do encontro maior
de um em dois, no silo do acaso,
galeria onde o quadro não estava exposto
e de repente se criou
rodeado de música,
sonata de Leclair juntando o gosto
francês ao italiano:
o som é cor, a cor, viola-de-amor.

O artista ilumina-se
à rápida, penserosa lanterna
que redescobre, povoa o universo.
Boia, nelumbo, no cristal da Fonte
a palavra-chave
gravada no alto da Torre.
O artista amanhece
entre beatitudes, abismos claros, sóis penetráveis:
doação-minuto
de Maud: sua passagem.

Agora, ei-la retorna,
desintegra-se no carro de fogo,
que a visão reste visão além do espaço.
E tudo tem sentido
e tudo resplandece na Verdade.

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O fim no começo
Carlos Drummond de Andrade

A palavra cortada
na primeira sílaba.
A consoante esvanecida
sem que a língua atingisse o alvéolo.
O que jamais se esqueceria
pois nem principiou a ser lembrado.
O campo — havia, havia um campo? —
irremediavelmente murcho em sombra
antes de imaginar-se a figura
de um campo.

A vida não chega a ser breve.

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Falta pouco
Carlos Drummond de Andrade

Falta pouco para acabar
o uso desta mesa pela manhã
o hábito de chegar à janela da esquerda
aberta sobre enxugadores de roupa.
Falta pouco para acabar
a própria obrigação de roupa
a obrigação de fazer barba
a consulta a dicionários
a conversa com amigos pelo telefone.

Falta pouco
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade
as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar.

Agora que ele estava principiando
a confessar
na bruma seu semblante e melodia.

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Halley
Carlos Drummond de Andrade

O sol vai diminuindo
de tamanho e calor e interesse em teu redor.
Há menos razões de rir e até de chorar.
Alguém toca — talvez — a campainha.
Depressa! Não há mais tempo para te vestires,
o barco sombrio impaciente na rua.
Tudo é como se não acontecido,
pois depois de acontecer — restou o quê?

Ah, sim, restou Halley
iluminando de ponta a ponta o céu de 1910.
O menino Murilo Mendes o contemplava em Juiz de Fora
o menino Marques Rebelo em Vila Isabel
o menino Carlos no mato-dentro de Itabira
os três absolutamente fascinados
como o contemplaria no Brabante em 1302 o menino Ruysbroeck-o-Admirável.

Halley voltará
Halley volta sempre
com a pontualidade comercial dos astros.
Pouco importa sejam outros meninos que o hão de ver em 1986
iluminando de ponta a ponta
a noite da vida.

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Notícia de Segall
Carlos Drummond de Andrade

Segall desaparecido
ressurge no preto e branco
da linha pura
                       lacônica
                                      exata
conta a gravidade do ser
perdido
numa aventura sem explicação
se não existisse o amor 
antecâmara da piedade 
e a poesia
erva renitente no ar sem raiz
poesia que elimina o som
e volta à linha 
como as criaturas voltam a si mesmas
na visão de Segall prospectivo-nostálgica.

A seu gesto
a madeira o cobre o ácido revelam
entre sulcos aquele
que conduz à negação do labirinto
ao essencial das coisas
cicatriz
             relâmpago
tristeza depositada no quarto
de velório              no florir da moça
                                                  no ver
no simples ver o visto todo dia
em seu carvão de rude e mel
no objeto exposto
com desespero contido
                            filtrado
                            pacificado
sobre a dor bíblica intemporal
e a dor contemporânea
que podemos pegar de tão doendo
até pressentir a alegria do conhecimento
solidário.

Somos chamados
a compreender e amar num ato único
as formas as gentes os animais retirados da noite
para a festa de serenidade melancólica
no coração-estúdio de Lasar Segall
aberto em confissão
aos murmúrios da terra.

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K.
Carlos Drummond de Andrade

Uma letra procura
o calor do alfabeto.
Uma letra perdida
no palor da estalagem.
Constante matemática
na teia de variáveis,
uma letra se esforça
por subir à palavra
que não se molda nunca
ou se omite à leitura
na câmara sombria,
carvão cavado em dia.
O ponto segue a letra
em seu itinerário.
Cachorro, escravo, mínimo
ajudante de busca,
fadado a consumir-se
ante constelações
de símbolos multívocos,
ele próprio enganado
a seu amo, no engano
de pleitear a chave
do que é voo, na ave.

K.
Mas o alfabeto existe
fora de qualquer letra,
em si, por si, na graça
de existir, na miséria
de não ser decifrado,
mesmo que seja amado.
O súbito vocábulo
queima de sul a norte
o espaço neutro, e nele
a letra não figura.
A letra inapelada
que exprime tudo, e é nada.



A falta que ama” está incluído em “Nova reunião: 23 livros de poesia” (Companhia das Letras, 2015), de Carlos Drummond de Andrade, donde esses poemas foram peneirados, páginas 374, 385-387, 368, 369, 380-381, 371-372, 382-383, 373-374, 379-380 e 377-378, respectivamente.

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