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Dez passagens de Rita Lee no livro “Rita Lee: uma autobiografia”

Rita Lee - foto daqui


“(...) os Mutas elegeram Bruce Lee o herói da vez e nos matriculamos na academia Ito de caratê, na Domingos de Morais. Tudo ia bem até que uma prima dozmano, recém-chegada não lembro de onde, também se matriculou na mesma academia. Eu sei que La Bellissima (vou chamá-la assim para não ser processada por assassinato de reputação), além de comer os primos e todos os alunos, também seduziu nosso professor de caratê que, desesperado de paixão, abandonou mulher e filhos (...) logo depois do escândalo a academia fechou. O mais hilário dessa história foi descobrir que hoje La Bellissima é monja pura, radical, dessas que mudam o nome, raspam a cabeça, usam batina marrom e pregam castidade. Adoro ex-vedetes convertidas.”


“Um dia a máquina de costura Singer de Chesa engasgou e veio um técnico da firma. Me contaram que eu brincava no chão da copa enquanto minha mãe mostrava pro cara onde a coisa estava enguiçada. O telefone tocou, ela saiu para atender. Quando voltou, me encontrou sozinha no mesmo lugar, olhando petrificada para o cabo de uma chave de fenda enfiada fundo na minha vagina, de onde escorria uma gosma vermelha. O filho da puta do técnico fez aquilo e sumiu do mapa. (...) desse dia em diante as mulheres olhavam para mim como a pequena órfã. A dor delas certamente foi muito, mas muito maior do que a minha. Chesa, Balú e Carú guardaram a tragédia como o grande segredo do fim do mundo de todos os tempos. (...) las mujeres passaram a relevar meus desajustes comportamentais. Nunca me castigaram (...) me tratavam como uma espécie de aleijadinha psicológica. (...) As saias justas pelas quais passei com drogas, prisão, críticas e boatos foram entendidas como ‘a dor que ela carrega na alma por causa 'daquilo',  tadinha’.”


“Nenhuma mulher faz aborto sorrindo. Cabe a elas, e somente a elas, a decisão de interromper uma gravidez, assim como de segurar sozinhas as consequências moral, espiritual e oskimbau. Me refiro ao ‘sagrado feminino’, de nós meninas que temos um buraco a mais no corpo para administrar, do nosso universo complexo demais para machos, religiosos e políticos meterem o bico, esses para os quais prevalecem mais o direito do feto que ainda nem nasceu ao da mãe que não deseja pari-lo por motivos que não nos cabe julgar, psicológicos, econômicos, neurológicos, até mesmo espirituais. (...) Aborto não é uma mutilação no corpo da mulher. (...) Parir e abandonar o bebezinho numa lata de lixo é criminoso. Parir e pôr para adoção é irresponsavelmente confortável. Parir e criar em condições sub-humanas é indigno.”


“(...) Mulheres têm a idade que merecem, homens serão sempre crianças. (...) É um tal de política destruindo a liberdade, de medicina destruindo a saúde, de jornalismo destruindo a informação, de advogados e policiais destruindo a justiça, de universidades destruindo o conhecimento, de religiões destruindo a espiritualidade. Confie em Deus, mas tranque o carro. (...) O pior inimigo da criatividade é o bom-senso, mudar, mudar, mudar, nem que seja para pior. Dói mais sorrir na frente dos outros do que chorar sozinha, mas não devo levar a vida tão a sério porque ninguém sai dela vivo.”


“Quando eu morrer, posso imaginar as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá, colegas dirão que farei falta no mundo da música, quem sabe até deem meu nome para uma rua sem saída. Os fãs, esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão ‘Ovelha negra’, as TVs já devem ter na manga um resumo da minha trajetória para exibir no telejornal do dia (...) Nas redes virtuais, alguns dirão: ‘Ué, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk’. Nenhum político se atraverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. (...) Epitáfio: Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa.”


“Alguns podem achar que deprecio a fatia que cabe aos Mutantes dentro da cena musical daquela época. Ao contrário, sei da importância das modernidades eletrônicas que levaram ao movimento tropicalista contribuindo com a proposta, entre outras audácias, de proibir o proibido dentro da MPB. Hoje, os Mutantes são considerados cult, especialmente a fase da qual fiz parte, o que muito me orgulha. Estávamos sim anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira. (...) Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela. (...) Depois de vários torpedos para voltar aos Mutas e eu debochadamente declinar de todos, rolou o tal ‘retorno’ da banda festejado pela imprensa como o mais fantástico acontecimento do mundo musical interplanetário. Loki numa entrevista se vinga: ‘Zélia é muito mais roqueira do que a Rita jamais foi’. Desejei boa sorte à cantora a quem dei força para integrar a banda e ao mesmo tempo me livrava do mico. (...) O que eu acho de revivals? Um bando de velhas raposas reunidas no que considero ‘como descolar uma graninha para pagar nossos geriatras’. (...) Talvez não tenha sido mesmo o ‘cérebro por trás’ de nenhuma banda de rock da qual fiz parte. Modestamente, eu era a alma, quando uma banda morria, meu santo encarnava em outra.”


Rita Lee - foto Ale Frata/Código19/Estadão Conteúdo


“Sobre a ditadura militar passo batido. Todo mundo sabe que sumia gente pra caramba, que não podia fazer rodinha de amigos na calçada, que até usar chapéu na rua era suspeito, blá-blá-blá. Sim, os meganhas alopravam pra valer. Na minha visão comix, os generais de chumbo eram os Blue Meanies do meu Submarino Amarelo. Aceitei fácil o mantra ‘hay govierno, soy contra’, achava roquenrou, só não queria perder meu tempo lutando contra um filme de horror quando podia fazer da vida uma comédia, mesmo sem arrancar uma risada. À personagem ‘hippie-comunista-com-um-pé-no-imperialista’ acrescentei ‘festeira-fútil’, aquela que tomava ácido e ia às manifestações gritar ‘mais pão, menos canhão’ como se fosse refrão de uma música dos Beatles. Aliás, meu grande plano político para mudar o mundo. Começaria por jogar zilhões de LSDs na caixa d’água da Vila Mariana.”


“(...) Para cantar ‘Todas as mulheres do mundo’, me paramentei de Nossa Senhora Aparecida com um megamanto de veludo azul e coroa. No fim da música, além de declamar os nomes das mulheres porretas, tornei a recitar a ave-maria sob uma pauleira sonora acompanhada em uníssono pelo estádio inteiro, num momento arrepio na alma. (...) assim que eu surgi de Nossa Senhora, a mando do big boss Roberto Marinho, minha apresentação foi imediatamente cortada da Globo, um desrespeito, teria dito o todo-poderoso. (...) Dia seguinte, a Diocese do Rio anunciou minha excomunhão. Que nunca fui santa, não era novidade, mas eu estava lá realmente prestando homenagem como fã sincera da Aparecida, como a melhor representante de todas as mulheres brasileiras, como a mãe divina do país.”


“(...) desembarquei no aeroporto de São Paulo com um mimoso colar de muitas voltas feito com ‘miçangas’ de pedrinhas de LSD coladas pacientemente uma a uma num cordãozinho de algodão. Dessa vez passei invisível pela alfândega. A ideia da nossa ‘família’ era vender a muamba, dobrar o capital investido e partir em nova aventura. Aconteceu que eu, a muambeira, consumi metade do estoque, a outra foi distribuída entre os frequentadores das festinhas de arromba na casa de Guarapiranga, point da crazy people da Pauliceia, com aquela cena manjada de gente desbundada amanhecendo pelos quatro cantos da casa. (...) soube que muitos piraram de vez, tipo achar que é passarinho e se atirar do prédio. Hay que tener cojones para receber revelações espirituais e permanecer calmo. As ‘pedrinhas’ do meu tempo tinham zero anfetamina. Quando o psicodélico batia transformando a existência num caleidoscópio de consciência infinita, o ego despertava do mundo da ilusão dando de cara com o realismo fantástico do Higher Self, onde um mero grão de areia te explicava o omniverso. E você lá de alegre só sendo Deus. Aliás, desde que me decepcionei com religiões não sentia a presença do Divino tão acachapante. LSD não é para maricas materialistas.”


“Lee não é sobrenome de família; meu pai foi o primeiro a acrescentá-lo ao nome das três filhas em homenagem ao general confederado Robert E. Lee. (...) Papo vai, papo vem, e Ronnie [Von] levanta a sugestão de um nome mais contundente para o trio. Os Bruxos era, digamos assim, pobrinho demais. Ele nos mostrou um livro que estava lendo, O império dos mutantes, explicando que eram seres de outro planeta que se transformavam em infinitas formas de vida a título de conquistar a Terra. Plin! Bênção, painho. (...) o début dos Mutas foi anunciado por Ronnie: ‘Eles vieram de outro planeta e estão entre nós para tocar 'A marcha turca de Mozart'. Com vocês, Os Mutantes’.”




Presentes no livro “Rita Lee: uma autobiografia” (Globo Livros, 2016), páginas 104-105, 13-14, 165, 269, 266, 110-141, 145, 231-232, 120-121 e 32-66, respectivamente.

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