Elieser Cesar leu o romance “oroboro baobá”
O jornalista e escritor Elieser Cesar, autor da novela “O azar do goleiro”, entre outras obras, escreveu o posfácio do livro virtual “O enigma de Mutujikaka — A jornada para escrever um romance” (2022), de Emmanuel Mirdad (que conta os bastidores da feitura de “oroboro baobá”). Veja abaixo (após as imagens do posfácio no livro, texto na íntegra):
ITINERÁRIO DE UM ROMANCE
Elieser Cesar, jornalista e escritor.
“O enigma de Mutujikaka — A jornada para escrever um romance”, de Emmanuel Mirdad é o livro de quem está orgulhoso com a cria depois de um parto difícil, muito difícil, quase a fórceps: a gestação do romance “oroboro baobá” (Penalux, 2020), uma longa, tortuosa e brava travessia para escrever uma obra (justamente a iniciação do autor no gênero que exige mais fôlego na literatura) que teimava em driblar o criador como um atacante arisco aos adversários numa partida de futebol.
Aliás, o futebol, que terá sua visibilidade máxima na Copa do Mundo do Catar (escrevo às vésperas do começo do Mundial de Seleções), é o pano-de-fundo de “oroboro baobá”, a história de um goleiro imbatível, de um cyborg entre as duas traves, de um orixá da bola, já que o personagem Montanha é plasmado na venerável religião de matriz africana. Para quem acha que escrever é só sentar e juntar palavras, frases, períodos, parágrafos e páginas, até colocar ponto final, “O enigma de Mutujikaka” comprova a velha teoria do escritor estadunidense William Faulkner (Nobel de Literatura de 1949) de que, para além da inspiração, o ato de criação é, acima de tudo, transpiração. Ou seja: sentar-se diante da página em branco e suar bastante para avançar — às vezes tateando; outras com uma iluminação de profeta — na história que se sabe como começa, mas, em geral, se desconhece como vai terminar, tal o desvio de percurso de personagens que parecem se descolar do pulso firme do autor.
E Mirdad teve muito trabalho, paciência e obstinação para, ao longo de quase uma década (2012, quando surgiu a ideia, a 2020, momento em que deu o ponto final na versão que lhe satisfez). Ponto positivo. Pois, é no aprendizado, no caminhar tortuoso e incerto da arte, que gradativamente se aprende e apreende o ofício de escrever. Escritores (ou candidatos) afobados, em geral, acabam tropeçando numa obra precipitada e pífia.
Neste making of do romance, o leitor se inteira de dados interessantes sobre o processo de criação e de outros pertinentes apenas aos hábitos e à vida pessoal do autor, como preferências literárias, musicais e de filmes, o que fez ou que deixou de fazer durante a jornada longa dias adentro para escrever “oroboro baobá”. Ficamos sabendo, por exemplo, da importância de Emmanuel Mirdad para a consagrada Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) e outras coisas de bastidores como a imersão no romance que o fez perder a festa de aniversário de uma sobrinha querida. Isso demonstra o sacrifício que a entrega à literatura exige.
APOSTA OUSADA
De cara, Mirdad confessa que resolveu se arriscar no gênero porque, segundo ele, “ninguém tá escrevendo romance na Bahia”. E que decidiu encarar o gênero “como um comerciante que escolhe o ponto mais vantajoso para abrir uma farmácia”. Então se dedicou ao remédio para a alma, que é a ação do artista. Sem falsa modéstia... E que escritor é modesto, do mais famoso ao obscuro? Acho que foi Darcy Ribeiro quem disse que a modéstia é uma virtude dos medíocres. Voltando ao assunto, sem falsa modéstia, Emmanuel Mirdad desenha sua ambição ao escrever “oroboro baobá”: “Que conquiste muitos leitores e comentários nas redes, ganhe prêmios e seja adaptado para as telas, e se torne uma referência na literatura contemporânea”. Pouco? Uma aposta ousada. Ora, quem quer pouco se aventura no jogo do bicho, não na literatura ou em qualquer outro ramo da arte.
Em seu itinerário em busca do romance, Mirdad experimentou a angústia da criação (que escritor, por mais profícuo e resolvido, deixou de senti-la?): “A jornada para escrever um romance brota bem antes, duma ideia sem dono, inspiração ou plágio, talvez garimpada do além, por falta de provas na matéria — donde veio esse troço?”. Arrisco uma resposta: do dom de escrever, calibrado pela paciência em busca da melhor maneira de dizer o que se quer ou se tem a dizer.
Para surpresa de alguns leitores, o autor de “O enigma de Mutujikaka” diz que a maior influência para escrever “oroboro baobá” veio de um livro de poesia e não de prosa como seria de se supor: “Estação infinita e outras estações”, do baiano Ruy Espinheira Filho. Tudo a ver, uma vez que a poesia é vida e experiência concentradas. Um só verso pode catalisar o processo de criação de uma grande obra. Um exemplo, Ernest Hemingway (1899-1961) foi buscar num poema do inglês John Donne (1527-1631) o título de seu romance (um idílio abortado pela violência política) que se passa na Guerra Civil Espanhola, “Por quem os sinos dobram”.
Mirdad se sente devedor do que leu durante a travessia para escrever seu romance: “Escrever ‘oroboro baobá’ foi um laboratório, um curso, um aprendizado. E eu não poderia tê-lo produzido, se não houvesse consumido 89 livros fundamentais para a minha formação, entre contos, poemas, romances, ensaios, históricos”.
Sobre a importância da leitura na formação de um artista quando jovem, ele anota uma sentença implacável do premiado escritor Hélio Pólvora: “É lendo que se aprende a escrever, se há vocação. Caso contrário, seria melhor ficar nas leituras, ou vender melancia nas feiras. Um escritor de raça pode deflagrar outro”. Quanta literatice não seria poupada, se muitos escrevinhadores seguissem o sábio conselho?! Felizmente, deflagrado por escritores de raça, Mirdad prosseguiu no bom caminho.
Em um dos momentos de maior entusiasmo ainda com o livro vislumbrado na cabeça, o autor de “oroboro baobá” confessa a um amigo: “A história está pronta, basta só escrevê-la”. Bem, se só faltava escrever, então faltava tudo. Mas Mirdad escreveu-a e é o que importa.
Agradecido, Emmanuel Mirdad reconhece as boas sugestões que recebeu de amigos aos quais submeteu os originais do romance. A destacar as pertinentes observações do escritor Tom Correia, como o excesso de interferência do narrador no julgamento moral dos personagens, comportamento que transforma o leitor num agente passivo, e um certo didatismo professoral “Foi um presente”, como admite Mirdad que, durante toda a jornada de “oroboro baobá”, sempre esteve disposto a ouvir sugestões, acatar algumas e rejeitar outras, numa saudável correção de rumos que resultou na mágica história de Montanha, Oxóssi do gol e Xangô boleiro.
Não vou mais esticar essa conversa como o baobá estica suas folhas ancestrais e o seu tronco imponente. À esta altura os leitores (que desejo numerosos) já devem ter descoberto “O enigma de Mutujikaka”.






Comentários