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Vinte e cinco passagens de Ângela Vilma no blog Aeronauta em 2012 e 2013



“(...) Pai tinha um orgulho danado de ter vindo da roça (...) era um amante da roça, odiava a cidade, dizia que um dia ainda voltaria para o mato, sem luz e sem geladeira. Mãe, eu e minha irmã gritávamos ‘não, não, não’ (...) Pai, que não fazia versos, era um poeta da roça, como Patativa do Assaré. Não queria viver ali, naquele meio de gente ingrata; ele queria era a sua roça, seu pé de milho, seu pé de fulô. Mas infelizmente foi ali ficando, ficando, ficando... Uma ou duas vezes na semana ia para a rocinha que comprou, com muita dificuldade; e plantava alguma coisa, que nunca dava. E que permitia que mãe lhe jogasse na cara: ‘Tá vendo aí, Bino? Pra que roça? Roça só serve para perder dinheiro!’ Ele não ouvia, era um apaixonado. Gostava dos tabaréus e de sua parentalha que lá ficou. (...) Eu era jovem demais para entender isso tudo (...) era metida a besta. Lembro que no lançamento de meu primeiro livro, ele, entusiasmado com a filha, levou para o lançamento todos os roceiros seus conhecidos e os parentes. Aquele povo todo descendo da camionete, numa felicidade, e eu nem ousadia dei. Metida a biscoito de sebo, escritora da cidade, negligenciei a verdadeira poesia: aquele povo ali que, vestido com roupas diferentes e cheiros diferentes, aplaudia a poetisa besta, filha de Bino, este, orgulhoso da menina ingrata, maquiada de coisa nenhuma. Pai sim era o poeta da noite, e eu nem sabia. (...) Esse orgulho das origens roceiras, sertanejas; essa alegria de beber água em pote de barro e de conversar com quem verdadeiramente sabia tudo da vida, pai tinha de sobra. Pai era um sertanejo verdadeiro, assim como foi Patativa do Assaré. Falo isso porque há muito poeta por aí tirado a sertanejo e não é não; esses moram em apartamentos e nunca sentiram o verdadeiro cheiro de sovaco, proveniente de um dia inteiro de alguém repousado sobre um cabo de enxada em tardes de sol quente. (...) Hoje, dia de voto, esse texto é para ele: pai, o único político honesto que conheci. Foi vereador, vice-prefeito e nunca esqueceu seu povo — que o elegeu. Nunca teve dinheiro guardado no banco, e o que mais queria na vida era voltar para sua roça. Morreu na cidade, mas foi enterrado no meio do mato, como pediu, num cemitério de beira de estrada, onde estão seus parentes — todos roceiros. Não atendemos ao seu pedido de voltar para a roça, mas atendemos a esse seu último pedido de voltar à terra de onde veio, de se tornar verdadeiramente terra, o que sempre foi.”


“45. Mudanças no aspecto físico, obviamente. Orelhas: pendem com o brinco. Pescoço: quando gorda, com dobras; quando magra, com pequenas pelancas que se movimentam, como puxa-puxa, quando você fala. Braços: se você fez ginástica a vida inteira, vai ter músculos; claro, se não fez, vai ter sobras: não ligue em dar adeus com vontade! Olhos: ao redor, se desenvolvendo muitas vezes até a face, pés de galinhas de quintal bem articulados, bolsa nos olhos com uma ligeira melancolia roxa chamada olheiras: não se importe, é algo poético, charmoso. (Pior é sempre o botox, corra dele.) Bochechas: caem, caem, óbvio; mas quando você ri elas suspendem: mais um motivo para sorrir, sorrir sempre, seu rosto fica sem aquela marquinha caída debaixo das respectivas bochechas, que sempre parecem tristes. Cabelos: agora frágeis, os fios vão parar no chão do banheiro e descem no ralo, indo embora, para esgotos, talvez. E os fios brancos, aqueles mais rebeldes que despontam fazendo chifres na cabeça? Tem mulheres que arrancam esses rebeldes com ódio. E pintam os outros brancos, pintam de preto, pintam de outras cores, morte declarada aos fios brancos, malditos! (Não, aceito tudo, mas fio branco é demais!) Os seios: há, os seios ficam outonais, há quem goste de outonos... líricos... A barriga com afluentes e pedras amolecidas, dessas que rios antigos passaram muitos e muitos anos sobre elas... As pernas sustentam essa mulher, repleto de marcas. Maduro, seu corpo é um mapa, sobre as águas.”


“(...) Onde moro a vida é de uma dificuldade pavorosa. Não conseguimos ser invisíveis para os passantes: todos nos olham, nos avaliam, veem nossos intestinos. (...) Há muitos, mas muitos carros de som gritando pela cidade inteira, desde as sete da manhã. Tem um correio que não funciona regularmente: as faturas chegam com dois meses de atraso. Tem uma mortificação no ar, os paralelepípedos gemem um choro doloroso, e que não chega a comover. Minha rua, no crepúsculo, lembra as penumbras perturbadoras de Hitchcock, e eu quase vejo, cotidianamente nessa hora, a multidão de pássaros bicando o teto das casas. (...) vivo num tédio assombroso, beirando a esquizofrenia, porque não consigo criar hábitos. Todos por aqui têm hábitos, como em qualquer parte do mundo. Mas a diferença é que em outras partes do mundo as pessoas são vivas, e aqui não. Já foi estatisticamente comprovado que aqui há mais mortos que vivos. Não os enxergam só quem não usa uma discreta lupa invisível, ou nunca tiveram um soluço de mais de vinte minutos, sem cessar. São muitos mortos, todos de sobrecasaca, uns falam de um cinema antigo que houve por aqui, outros de um jornal, todos choram um tempo inexistente e feérico. (...) Tais vivos-mortos têm uma curiosidade mórbida pelos que chegam; principalmente aqueles que não querem ser mortos e entrar na triste estatística da cidade. Só que a azaração do olhar é tão cruel e miasmática, que nós que aqui chegamos cumprimos de imediato outro destino: o endoidamento, a gastura no juízo, e a vontade obsessiva de criar uma sociedade por aqui inexistente: a sociedade dos loucos, dos loucos de pedra, senhores de vestimenta desigual e palavreado estrangeiro, e sair pelas ruas como saltimbancos, rindo de tudo, dançando e tocando Nino Rota em filme de Fellini.”


o poeta da roça (07/10/2012),
o melhor post do blog Aeronauta,
uma belíssima homenagem ao pai morto,
leia aqui

“Éramos bem jovens, numa festa de 15 anos. (...) Nunca vi um salão social tão pequeno e com uma entrada menor ainda. (...) Nossa turma toda sentada na mesma mesa, jovens e famintos. Chegou uma hora em que todos se aventuraram a enfrentar a porta. Ou enfrentariam ou desmaiariam de fome. Eu não, eu disse que não iria não. Ele (...) ao meu lado, tão feio mas tão feio, morrendo de amor por mim. Disse, no seu terno heroísmo mineiro: — Fique aqui quietinha, vou lá dentro e volto rápido; vou pegar um pratim procê. Lembro bem, tocava alto Legião Urbana: ‘... Temos todo o tempo do mundo/ nosso suor sagrado é bem velho que esse sangue amargo...’ Lá vem ele (...) quase maltrapilho, despenteado; parecia vir da guerra. E vinha da guerra com as mãos vazias, como sempre acontece. Antes de eu dizer qualquer coisa, ele tirou de dentro do bolso da camisa uma uva verde, gorda, grande, e me deu. A uva não esmagou, conseguiu passar intacta pela porta espremedor. Ele disse: — Apenas consegui pegar essa uva. Tinha muita gente se esmurrando na mesa dos comes. Nem os garçons conseguem chegar lá. — Como você conseguiu passar na porta sem essa uva estourar? — Eu a protegi com a mão o tempo todo, segurando-a dentro do bolso — falou suado e descabelado. Talvez tenha sido essa a mais delicada declaração de amor que recebi de um homem.”


“Uma grande e vertical solidão é a do professor falando quase que sozinho dentro de uma sala de aula repleta e completamente ausente, sem compartilhar seus abismos e suas perguntas ao mundo. Do lado de lá dessa ponte intransponível, surgem um e outro aluno com o olhar perdido, nadando com você nesse mar fundo. Um ou dois ou três. Se não fossem eles você talvez desistisse e decidisse pelo afogamento. Mas há dentro de nós, professores, sempre uma vontade de não se afogar, e de tentar ensinar como não fazer isso; ou até ensinar a fazer isso, de maneira mais ou menos literária e libertadora. (...) Sempre pensei no grande professor como aquele que não precisa exercer a malfadada autoridade. Porém, na maioria das vezes os alunos não sabem lidar com a liberdade, preferindo e exigindo, inconsciente e conscientemente, que o professor seja autoritário. Isso se dá por que para a maioria das pessoas é mais fácil mandar e obedecer de que tentar estabelecer uma relação de confiança com o outro; de confiança e de afeto; e de compreensão.”


“(...) quando consigo colocar no papel o que quero, o que vem, o que procuro nas palavras, eu me sinto leve, feliz, a despeito até da infelicidade que me moveu a escrever. Se não fosse esse movimento, não sei o que seria do meu desespero ou da minha alegria ou da minha inquietude — elementos que me motivam a buscar o poema. E juntar os poemas, imprimi-los com a ideia do livro é algo parecido com arrumar um filho nascido, penteá-lo e borrifar sua roupa com perfume. Sei o quanto é difícil publicar um livro, e o quanto é difícil divulgá-lo quando o publicamos. Na verdade, os poetas são os mais solitários de todos os homens. O mundo se interessa cada vez menos pela poesia, mesmo constatando a quantidade de poeta que há no mundo. É algo delicado demais um livro de poesia. Requer um público também delicado. Quem escreve poemas, e isso que vou dizer é truísmo, escreve porque não pode viver sem escrever. E quando consegue escrever dois versos, que estavam sobrevoando sua sensibilidade às vezes há meses, sente-se um pouco em comunhão com o divino, aliviado e leve, na bem-aventurança que devem sentir os seres verdadeiramente religiosos. (...) o que importa para o poeta a não publicação de seu livro, a não divulgação de seu livro, quando o que ele mais queria conseguiu realizar? A palavra desceu de sua altura, subiu do seu abismo e o encontrou.”


“Vivi até os 20 anos tendo, como guru, Mariquinha da rua dos Sete Pecados, rezadeira de todos nós. Melhor rezadeira que aquela não existia, não existe e nem existirá. Como sempre fui dada a quebrantos, era só amolecer o corpo que mãe me levava aos seus cuidados. Quando cresci aprendi a ir sozinha. (...) mesmo sem conseguirmos andar direito, tamanho quebranto, íamos eu e minha irmã bater na rua dos Sete Pecados, entrando casa adentro, chamando Mariquinha, ô Mariquinha. Estava ela lá no fundo do quintal. Magra, negra, bonita que só vendo, nos seus oitenta anos, Mariquinha nos levava para o meio do quintal, uma estradinha. E tome-lhe mato e reza: girava o nosso corpo pra frente e pra trás, e com o matinho ia nos dando tapinhas nas costas, no rosto, no cabelo e dizendo: ‘Com três lhe botaram, com dois eu te tiro, com os poderes de Deus e da Virgem Maria’; e até nos pés os raminhos iam. Sua voz fraca e ao mesmo tempo potente com os poderes celestiais, continuava: ‘Se é no calçar, e no vestir, e no andar, com dois eu te tiro...’ ‘Onde Maria põe a mão, Deus põe a vertude’. Essa ‘vertude’ de Mariquinha sempre foi a maior virtude que já encontrei por esse mundo, a mais legítima.”


sobre as águas (11/06/2013), 
as mudanças do corpo ao envelhecer,
leia aqui

“Como disse Tom Zé, há um ‘Tribunal Feicibuque’. É, lá tem um tribunal, tudo é visto, olhado e julgado. Guardas kafkianos na porta, revistam sua roupa, ops, sua escrita. E fazem pontes com a sua vida. E com a de quem leu. E com outras vidas. Tudo assim: preto no branco. E tem condenação. Você vive o tempo todo cerceado. Ora, quem escreve quer ser livre. Quer abrir o verbo, a garganta, contar e inventar e dizer o que quiser. Que se dane o mundo. Sempre fui livre. Mas agora sinto olheiros por todos os lados que vou. Porque além de escrever no facebook, moro numa cidade pequena. (...) Sou altamente biográfica e altamente mentirosa. (...) Por que será que lá ficam olhando texto e biografia? Ficam procurando imagem especular? (...) Blogue é literatura e facebook não? Tudo é literatura, basta você enviesar a palavra e encarnar todos os seres que você quiser ser. Basta você falar aquela estranha língua potencializada, metaforizada. Basta buscar a infância. Basta falar de amor de maneira potente. Aí você está no reino da literatura, não da fantasia, nem da mentira. Mas de uma verdade enigmática, ambígua. (...) Minha vida está e nunca está completamente naquilo que escrevo.”


“Gosto dos loucos que jogam pedra e correm atrás das pessoas; gosto dos loucos varridos, com a língua solta e os parafusos destrambelhados. Pastinha, Priquitinha, Lalu, Louro, Titia, Saburi: todos eles loucos de pedra das ruas de minha infância. Titia vestia roupa de plástico e usava pulseiras de canudo, corria atrás de menino sem-que- fazer; Lalu gritava pelas ruas igual a uma condenada, com sete pedras na mão; Saburi vivia dando papel de loteria pra todos nós finalmente ficarmos ricos, e quando surtava corria atrás de tudo que é gente grande. Pastinha, com sua pasta ensebada debaixo do braço um dia deu uma carreira em mim e em minha irmã na beira do rio. Priquitinha insistia com todo mundo o seu velho mantra católico ‘Maria veve’, repetindo isso exaustivamente pelas ruas como a fazer entender que viu mesmo Maria, ser celestial que ele de fato era. Todos esses loucos foram capturados, levados para a Colônia em Feira de Santana, amarrados e desaparecidos para sempre.”


“(...) Vocês já repararam como as pessoas mudam de postura quando sentadas em estado de reunião? A voz é outra, a expressão facial também; e o que dizem sempre parece pomposo. Só os mais tímidos demonstram, sem querer, o grande fastio, ou um certo medo. Mas a maioria — sempre a maioria — se sente bastante confortável, no manejo fácil das terminologias próprias a esses encontros. E quem não está nem aí para as siglas se perde completamente dentro de um grande universo cifrado. Porque são nas reuniões que as siglas mostram a que vieram ao mundo. Elas se personificam, ganham status humano, são seres viventes (e bem viventes). Quantas vezes não me confundi ao ouvir falarem de um órgão institucional através da sigla e pensei se tratar de uma mulher, ou de um homem? Na verdade são mesmo homem e mulher, pois que atrás de uma sigla sempre tem um homem grandão de paletó ou uma mulher de salto alto. (...) Há vários tipos (...) que presidem uma reunião: há aquele bastante sério e cioso de sua responsabilidade; há o brincalhão, que tenta ser simpático a todo custo; há também aquele de ar blasé, com cara de cult, mas bastante adestrado com as terminologias, os prazos, as siglas, as ordens. Há ainda o bonzinho, tão simples, tão humano, mas que vira fera ao ser desafiado: mostra que não é à toa que está naquele posto. (...) Na plateia, os tipos são interessantíssimos. Desde aquele que tem ar avoado como eu, até o mais pescoçudo: esse opina a todo instante para mostrar seu interesse em todos os assuntos; para mostrar que está com a espada em punho a fim de lutar em prol do desenvolvimento da instituição; não diz verbalmente, porém diz, com seu corpo inflamante e em êxtase, que daria seu sangue por aquela Casa. (...) será que não há algum outro jeito de tornar esses encontros menos terríveis? São horas e horas perdidas de nossos dias, quando poderíamos ganhá-las numa conversa inteligente sobre a vida, sobre os livros, sobre os filmes. Alguém poderá retrucar agora: mas e a vida prática? Como resolvê-la? Respondo: os livros e os filmes dão dicas valiosíssimas; pena que a maioria das pessoas não sabe disso e não está interessada em saber; e continuam falando sobre regimentos, homologações e o escambau, enquanto a carne de cada um morre um pouco; principalmente a carne daquele que mais vibra, o mais empolgado ‘reunista’.”


A cidade dos invisíveis (18/07/2012)
“Onde moro a vida é de uma dificuldade pavorosa”,
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“É preciso muita atenção ao escolher a cidade em que você vai morar. A cidade é como a casa, a família, os pertences mais íntimos. Cada praça, cada paralelepípedo, muro, esquina vão estabelecer uma conexão com os seus órgãos vitais. O estrangeiro que chega a um lugar que nunca viu, logo irá conhecê-lo através desse contato com suas percepções, sua própria história, suas memórias em letargia. Muitas vezes uma mangueira numa dessas ruas sem saída pode ser a salvação de uma vida em exílio. É possível sim ficar em completo exílio numa cidade, mesmo com suas praças convidativas. (...) É bom lembrar que em toda e qualquer cidade (...) há também os mortos, os seus mortos, arquivados. Eles são sempre muitos, guardam seus hálitos em ventos e dentro de alcovas particulares. Os mortos têm sempre muita intimidade conosco, nós que somos novos habitantes de um lugar só deles. Por isso é preciso cuidado, atenção e afeto; afeto, mesmo quando tudo parece hostil. Como poder amar uma cidade que não traz nossos traços, nem nossa memória, e boceja a toda hora em que passamos por ela? Como poder amar suas motocicletas barulhentas, seus carros de som desesperados, suas curvas em precipício?”


“Ah, pai, que saudade eu tenho de seu cheiro. Lembro bem, o senhor me trazendo no colo, aos seis anos, da festa que dancei a noite inteira. Lembro do cheiro de seu pescoço, lembro da maciez de sua ternura, de seu cuidado, de seu zelo. Pai sempre foi a personificação do amor. O amor a todos, sem distinção. O homem que gostava de ajudar todo mundo, não para se mostrar melhor que os outros, mas por puro instinto. O amor nasceu dentro dele, como dentro da gente nasce orelha, boca e nariz, naturalmente: pedaço do corpo. Mãos bem morenas, queimadas de sol, quase negras, unha do dedo mindinho grande (...) cabelos crespos, bigode a la Clark Gable, e um olhar doce, mas tão doce (...) eu lhe perdi ainda na infância, depois daquela festa em que o senhor me trouxe no colo. É a última lembrança de seu afago. Nunca nos separamos, mas nunca mais nos encontramos em afeto encarnado (...) Tenho lhe procurado como louca por onde ando. Já vi mãos iguais às suas, ternuras parecidas, olhares com a mesma extrema doçura. E eles, seres semelhantes, me abraçam, me trazem da festa no colo. Depois vão embora. Uma outra mulher sempre o captura, com a mesma sedução de minha irmã.”


“Os homens adoram as mulheres que escrevem: talvez seja um fetiche, um assombro; talvez percebam uma certa masculinidade na mulher que escreve; ou uma feminilidade exacerbada. ‘Ah, você escreve?’, já ouvi isso de muitos homens, e o tom foi sempre de doçura, principalmente de curiosidade; mais ainda quando eu era jovem e saí de minha província direto para a universidade em Feira de Santana. Se os chegantes na província já ficavam embasbacados de lá encontrar, naquele fim de mundo, uma jovem de cabelo comprido que escrevia e publicara um livro, imagine na cidade grande. Os professores me tratavam de maneira diferente. E eu me sentia especial. (...) Eu era jovem, tinha uma beleza exótica, e escrevia razoavelmente. Era um objeto exótico. Eu chamava a atenção, acredito, mais pelo fato de eu ser uma mulher que escreve, de que pela qualidade daquilo que escrevia.”


“Tive tantos namorados: um que apenas tocou minha mão; outro que sequer me amou, e aquele que, na rodoviária, ao se despedir, me deu um saco de pipoca. Guardei o saquinho, hoje bastante fino e amarelecido, na caixa bordada com laço de fita. Não esqueci não, moço, aquela despedida eterna numa lanchonete de Feira, quando todo mundo passava vivendo em plena manhã de segunda; nunca mais vi aquele mormaço: seu rosto desapareceu nele, assim como todas aquelas pessoas, na multidão sem nome. E o seminarista? E o gari? E o poeta falastrão? Não, nem todos os meus namorados tiveram chapéu. Mas um eu me lembro bem, tinha um paletó antigo, era quase um homem do outro mundo. Em compensação outro era por demais terreno, gostava de carnaval, e de história da religião. Os mais amados foram os artistas, os cabeludos, os tocadores de música. Desses minha alma é devota, em profunda oração.”

“Temos todo o tempo do mundo” (23/07/2013),
“Talvez tenha sido essa a mais delicada declaração de amor que recebi de um homem”,
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“(...) minhas duas grandes paixões, literatura e cinema, andam me rondando a um tempão para um deleite mais apurado. Ofereci nesse semestre a disciplina Literatura e Cinema na universidade. Passei dias e dias comprando muitos livros sobre o assunto, me dedicando, com um prazer imenso, a lê-los. Hoje, primeiro dia de aula. Sala 115. Chego. Abro a porta. Muitas cadeiras. Todas vazias. Espero. Olho o relógio. Nada, nenhum vivente. Daí fui saber no Colegiado se ninguém se matriculou na minha disciplina. Vi no papel dois inscritos. Soube depois que os alunos disseram que correrão de minhas disciplinas por que passo muitos livros para leitura. Ou seja, estão correndo dos livros. E agora, dos filmes.”


“(...) O que será de nós, (...) muitos nascidos no final da década de 1960, que aprendemos na escola e em casa a dividir a merenda, a dividir o brinquedo, a dividir a leitura? Conviver com as novas gerações para nós é muito difícil. O jovem egoísta inteligente dirá que pedirmos o não egoísmo dele já é uma maneira de egoísmo nossa. É a perigosa retórica que lhe habita a língua e o cérebro. (...) alguns (...) são os filhos do divórcio, nascidos nas décadas de 1970 e 1980, que conviveram com o egoísmo exacerbado dos pais diante da separação ‘de bens’, na qual os filhos ganhavam tudo materialmente em troca de uma possível condescendência emocional, a ‘aceitação’ de uma família esfacelada. Muitos desses filhos do divórcio odeiam os pais; porém, acabam reproduzindo, em todos os atos, as figuras paterna e/ou materna. Em contrapartida, nunca saberão, de fato, o que significam palavras como cumplicidade, renúncia, doação. Eles, os egoístas, geralmente adoram essas palavras, mas quando estão diretamente ligadas a eles: quando somos seus cúmplices, quando renunciamos nossas vontades em prol das vontades deles e quando doamos tudo o que temos e o que não temos para o seu bem estar.”


“(...) O homem vive num condicionamento tal, que dificilmente conseguirá se livrar da repetição. A própria sociedade determinará tal condicionamento, e nós, seres patéticos, viveremos sem nem saber que somos e estamos condicionados. (...) Sofri muito com as brigas entre meus pais, brigas feias, ressentimentos que batiam no peito e doíam como pedras pontiagudas. Mas diante de tudo isso o que eu mais tinha medo era que eles se separassem. Rezava todos os dias para que isso não acontecesse. Tenho certeza de que se eles tivessem se separado, hoje teria sequelas terríveis. É o que sinto, é a minha particularidade. Não quer dizer que todos sentiriam a mesma coisa diante de tal situação. E que também não é egoísmo de minha parte esperar que meus pais não se separassem. É egoísmo. Mas quem bota filho no mundo precisa ser magnânimo com ele, com a sua vida. E meus pais, nesse quesito, foram bastante magnânimos. Pensaram em mim e em minha irmã e aguentaram firme, deram adeus à chance aparentemente fácil de um divórcio, ficaram juntos, mesmo infelizes. Ora, há felicidade no mundo? Não. Mas amor acredito que há. (...) Se era amor o que meus pais sentiam um pelo outro não sei. Mas tenho certeza de que era amor o que ambos sentiam por mim e por minha irmã. (...) O fato de saber que meus pais estavam dormindo no quarto ao lado, perto de mim, me deram a segurança, a proteção perante um mundo que me metia muito medo (...) me garantiram uma sólida memória afetiva, construindo-me humana; e essa humanidade se estende ao que há de mais insuportável no mundo: tentar conviver com pessoas que só pensam, exclusivamente, em si.”


“Hoje o que mais se escuta é a frase: ‘Estou deprimida...’ Depressão, palavra banalizada. Na verdade tudo hoje está banalizado, principalmente as doenças psíquicas. Já cansei de ouvir gente dizendo que teve síndrome do pânico e vai contar o que foi quando nitidamente se percebe que foi só um pequeno medo (...) A pessoa que sofre dessas duas doenças está quase que completamente só. Como partilhar sua dor e seu sofrimento com quem nunca sentiu isso? Tais doenças são indescritíveis, imagine se serão entendidas por todo mundo. Nunca, nunca (...) É assim: De repente você sai. Vai fazer aquilo que faz todos os dias. Aí bate o maior estranhamento do mundo. Você se torna estranho para você, tudo se desloca, a realidade não é mais a mesma, as coisas se alteram, e seu corpo começa a sentir-se mal. Você começa a ter um medo terrível, de você e de tudo. O coração acelera e a barriga dói. Uma melancolia como um abismo lhe soterra; você vai descendo um buraco, um buraco enorme, sem coelho e sem Alice. Você se lembra da literatura, a coisa que mais ama, mas nada se transforma, o buraco vai lhe levando. O buraco vai lhe levando, lhe levando, lhe levando. Você não sabe como e se voltará. Aliás, se a sensação for forte demais, você tem certeza de que não voltará. (...) Você sai correndo, é a única saída que encontra... Como uma enterrada viva que quer destroçar o caixão em que se descobre encalacrada.”


conversa de professora universitária (II) (15/05/2012),
“Como conseguir chegar ao aluno sem a ameaça da prova e a contingência da nota?”,
leia aqui

“Lembro que meu corpo congelava, congelava, e eu tremia, tremia muito. Eu sentia dentro de mim a certeza da morte. E o maior medo do mundo, eu me pelava de medo. Sentia que era chegada a minha vez (...) Partilhar a experiência da morte? Como? Com que linguagem? (...) na minha infância mãe respondia me contando aquela história das duas comadres que combinaram contar como é lá quando uma delas morrer. Uma morre primeiro e vem contar como é lá; mas apenas diz: ‘Lá é lá, cá é cá’. (...) não há como partilhar essa experiência, pois ainda não morremos; e mesmo morrendo, acredito, também não contaremos, faremos como a comadre da história. Não há como partilhar o incognoscível.”


“Nesses tempos nossos, ninguém tolera o sofrimento. É providencial que você seja sempre alegre, afinal só quem tem pensamento positivo prospera. Depressão? Nem ouse, esconda-a, esconda seu rosto choroso, jogue um lençol sobre seu corpo. O mundo exige que seu braço seja forte, que sua psique seja vazia, que você ostente apenas um largo e inexpressivo sorriso na cara. (...) Nenhum amigo mais dá seu ombro, como em outros tempos; apenas diz com autoridade que é preciso que você saiba que existem pessoas em piores situações; seu ex-psicanalista diz com a arrogância disfarçada em pedantismo que já passou da hora de você se livrar da carência do outro. Na verdade mesmo, o que percebo com tristeza absoluta (se me permitem) é que a ditadura do egoísmo colocou no mundo seres petrificados e terminologias baratas de felicidade, salvo um ou outro ser que ainda conhece profundamente a linguagem do consolo e da solidão.”


“Mesmo em dias amenos (...) sinto-a ao meu lado, impondo sua presença invisível. Se em estado de deleite, aproveito o mar, ela faz questão de me cutucar mostrando as ondas enormes, não para constatar a beleza indiscutível, mas para lembrar a força esmagadora que têm para me engolir; claro, ela me lembra: você não sabe nadar. Entro num ônibus e ela ri gigantesca, sem dentes: ‘uma balançadinha só nesse treco, nessa curva, e você já era!!!’ Tampo os ouvidos e fecho os olhos, sobrevivo à curva. Prossigo, frágil, com ela ao meu lado, vigilante cruel, mostrando-me sua onisciência e onipresença perversas; mesmo entrando em casa, depois de dias de total perigo, ela me lembra de sua existência enorme, maior que a casa, maior que a vida.”


“Clarice Lispector atormentada, perturbada, criatura com um lago fundo e traiçoeiro dentro de si, conhecedora do escuro mais escuro da noite... Penso como terá sido sua passagem definitiva para o mundo dos estranhos, lugar onde ela pertencia por total merecimento. Como terá sido, pois, a morte de Clarice? E a morte de Quintana? A de Quintana deve ter sido suave, ele pegando a mão de um anjo que lhe chamava de uma nuvem fofíssima, como nunca haverá nesse mundo almofada que se assemelhe. A de Cecília Meireles deve ter sido cantando, cantando, pois que essa mulher cantou a vida inteira, no meio das perdas e dos abandonos. Atravessou, portanto, a linha tênue entre morte e vida entoando sua canção eleita, aquela que sempre falou de nuvem e de mundo, de meninos vistos na Índia, na Holanda, enfim em todos os lugares que passou. (...) E a morte de Kafka?”


verdades dolorosas (11/03/2013),
sobre a banalização da depressão,
leia aqui

“Aos oito, nove anos eu me sentava na porta de casa com um pente na mão e ia chamando todos que passavam na rua, indistintamente, para pentear-lhes os cabelos. Alguns acediam, eu caprichava nos penteados, e não sei como não foi desse modo que peguei piolho. (...) Na escola minha prática de amar era absurda: eu entrava na fila da merenda duas vezes para alimentar minha colega mais gulosa e malvada. Em troca ganhava cascudos. (...) fui assistir ‘Noites de Cabíria’ e, tal como a protagonista, acreditei na conversa bonita do contador; e, tal qual Cabíria, me vi perto do rio descobrindo que ele iria me matar. Deitei na grama, tal Cabíria, morrendo de chorar, me descabelando; também descobrindo que eu era ela, como fui Gelsomina, como sou Macabéa. (...) Sempre fui sem jeito, não sei estar na vida como todos estão, confortáveis como numa festa. Na festa é onde me sinto mais desconfortável: lá a alegria é o mais cruel imperativo. (...) Em toda festa que vou me lembro de Guilherme Arantes gritando querer o escuro de seu quarto à meia noite, à meia luz. (...) Acho que são essas mãos que não ficam bem no bolso, nem soltas. O olhar que não sabe onde se fixa. É sempre tão melhor não ter obrigação de falar. Por isso meu repúdio às reuniões, ao namoro sem interlocução, ao médico diante da consulta.”


“(...) Nasci na madrugada, e cheguei com os pés na frente, e não com a cabeça. Nasci no completo perigo, e foi mãe Isaura, parteira do povoado, quem puxou minhas pernas e eu fui saindo de lá de dentro de mãe, abrindo o berreiro para o mundo. Mãe conta que no alto-falante, naquela hora da madrugada, dava para ouvir a música ‘índia seus cabelos nos ombros caídos, lá, rá, lá, rá, lá’. Na hora das dores, pai estava no bar jogando sinuca e bebendo. E chegou bem na horinha em que eu nasci. Mais tarde ele soltou foguete para comemorar minha vinda, e no chega-chega de tanta gente em casa, providenciaram o ‘xarope de mulher parida’, que todo mundo bebeu e lambeu os beiços. Nasci sem qualquer cabelo, contrariando a música que tocava no alto-falante. Com a carona achatada, uns fiozinhos loiros no cocuruto que fizeram com que meu avô me chamasse de ‘gaza’, nome horroroso, e que ele melhorou para ‘gazinha’.”


“(...) é muito melhor voar numa nuvem do que tentar ajustar nosso corpo compacto numa cadeira e escrever teclando. É melhor escrever imaginando e o imaginário ser o próprio texto, livre de convenções e traumas: deixar finalmente o inconsciente berrar, sem armadilhas de ego e muito mais do superego. Mas o ego existe na escrita, assim como id e superego. O superego eu trato sempre de domá-lo no texto; tanto que depois de muito tempo sem me identificar por causa da opressão desse maledito superego, um dia fui lá e disse alto para todos ouvirem: meu nome é Ângela Vilma! Portanto, dei pancadas no superego. Assumi que habito um lugar no mundo e não me chamo apenas Aeronauta: porque além de nuvens tolero flanar na Terra.”


Ângela Vilma - Foto daqui

Presentes no blog Aeronauta, de Ângela Vilma, postagens o poeta da roça (07/10/2012), sobre as águas (11/06/2013), A cidade dos invisíveis (18/07/2012), “Temos todo o tempo do mundo” (23/07/2013), conversa de professora universitária (II) (15/05/2012), a poesia (23/04/2012), a mais legítima (15/01/2013), nota oficial (18/06/2013), seis personagens em busca de um poema (27/07/2012), os “reunistas” (22/05/2012), cidades (30/06/2012), o meu Clark Gable (26/06/2013), a mulher que escreve (28/09/2012), profunda oração (11/06/2012), meio down (04/04/2012), ode aos egoístas (01/01/2012), família à antiga (numa continuação ao post anterior) (02/01/2012), verdades dolorosas (11/03/2013), de todas as sensações (04/03/2013), tempos cruéis (09/03/2012), crônica de todos nós (11/01/2013), como terá sido (22/09/2012), sábado, no confessionário (16/06/2012), “alegria, alegria” (09/11/2012) e Para Maria Sampaio, o texto de número 1000 (04/07/2013), respectivamente.

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