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Dez passagens de Dezsö Kosztolányi no livro de contos O tradutor cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti

Dezsö Kosztolányi – foto daqui

“(...) só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós, tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo.”


“O que fazemos? Viramos nossos rostos e rimos silenciosamente. É infame, reconheço. Pois o que diz, mesmo que um pouco exagerado, sempre tem um fundo de verdade. Mas é insensato. Antes chorávamos sua pequena miséria, depois tudo fizemos em seu favor, só agora o abandonamos, justo quando merecia o máximo de ajuda e solidariedade. Mas assim é o homem. Nosso senso de medida não suporta o imensurável. Após um certo ponto, até o sofrimento se torna hilário.”


“(...) notei que curiosa relação temos com os desaparecidos. São criaturas de mau agouro, que vivem uma vida dupla, vivos e mortos ao mesmo tempo, homens e assombrações, cidadãos deste e doutro mundo, e não se sabe a qual pertencem. Ainda estão, mas já não são. (...) Mantêm-nos em constante estado de transtorno. Ora os imaginamos já mortos, se decompondo em algum túmulo, ou no fundo do rio, com os peixes fazendo um banquete com os seus olhos, outras vezes, com a mesma legitimidade, no salão de um pequeno restaurante, jantando um guisado de vitela e limpando a gordura vermelha do prato com pão branco. Tanto podemos pensar em lhes telefonar como acender à noite uma vela pelas suas almas. Nunca sabemos onde vamos encontrá-los, como espíritos numa reunião de mesa branca, ou num café, como clientes que penduram a conta. (...) Essa incerteza é extremamente desagradável. Mais para nós, que ainda não desaparecemos, do que para eles, que já desapareceram. Porque se vivem, eles de qualquer maneira sabem onde estão, e assim não se angustiam, e se já não vivem, então não sabem onde estão, e assim igualmente não se angustiam. Entre eles e os mortos a diferença é que os mortos não estão, mas não sabem disso, e eles não estão, mas talvez saibam disso. (...) A situação dela era a pior. Era esposa (ou ex-esposa), era viúva (ou candidata a viúva) (...) a esposa de um homem morto ou a viúva de um homem vivo. Não podia usar luto, mas nem roupa vermelha, porque ambos eram do mesmo modo ofensivos, premonição maldosa ou ousada do seu destino.”


“(...) Primeiro pensei em orfanatos, asilos de idosos, cegos, surdos-mudos, filhas abandonadas, hospitais. Então naquele minuto apareceu diante de meus olhos espirituais um gordo pilantra que, com o dinheiro dos órfãos, anciões, cegos, surdos-mudos, filhas abandonadas, comprou brilhantes para sua esposa e amantes. Abandonei o plano. Camarada, eu não nasci para salvar a humanidade, que, quando não é castigada por incêndios, inundações ou pestes, organiza guerras e artificialmente cria os incêndios, as inundações e as pestes. (...) Faz muito que me desinteressei da chamada sociedade. Não faço parte dela. Minha família é a natureza viva, irracional, incontrolável.”


“(...) na vida pública só se pode manter a paz e a união se deixarmos tudo ir no seu próprio rumo, se não nos intrometermos nas eternas leis da vida, que não dependem da nossa vontade, e que por isso dificilmente poderíamos modificar. (...) Até agora, na terra, toda a desordem se originou do ato de varrer. (...) a verdadeira maldição deste mundo é a organização, a verdadeira felicidade é a desorganização, o inesperado, o capricho. (...) As guerras e as revoluções são planejadas, por isso são tão horrorosas e pérfidas. Uma facada na rua, o assassinato de um cônjuge, o extermínio de uma família é algo muito mais humano. A literatura também morre pela organização, a camaradagem, o corporativismo, a crítica caseira, que escreve ‘algumas linhas amáveis’ sobre o burro chefe. Mas um escritor, que escreve seus impublicáveis versos sobre a mesinha de lata do sanitário do café, sempre é um santo. Os exemplos provam que a humanidade conduziu à desgraça, ao sangue e ao lixo aqueles que se entusiasmaram pelas causas públicas, que levaram a sério a sua missão, que velaram calorosa e seriamente (...) O fato de o mundo ser dirigido com pouca sabedoria não constitui um problema. O problema é que seja dirigido.”


“Meus amigos, quem dorme sempre compreende e perdoa. Quem dorme nunca será nosso inimigo. Assim que uma pessoa adormece, dá as costas ao mundo, a todo o ódio, todo mal cessa de existir, que nem para um morto. (...) o homem que dorme abaixa a guarda, sua vontade — com sua ponta afiada e nociva — é recolhida, e comporta-se com tal indiferença em relação a nós como quem já há muito começou a se decompor. Quem quer maior boa vontade do que isso na terra?”


“(...) Não precisei perguntar para ninguém onde era o mar. Nas limpas e varridas ruazinhas, precisamente a cada dez metros, havia um elegante poste, nele uma placa branca esmaltada, com uma mão que aponta, embaixo a inscrição: Caminho para o mar. (...) Cheguei ao mar. Lá, fiquei um pouco pasmado. Na areia, a um metro da água, um poste um pouco mais alto, mas totalmente parecido com os anteriores despertou minha atenção, e nele, uma placa branca esmaltada, um pouco maior, mas totalmente parecida com as outras, com esta inscrição: O mar. (...) Para mim, proveniente de um lugar latino, parecia-me a princípio totalmente desnecessário. (...) Mais tarde reconheci que me enganara (...) Era justamente nisso que estava a verdadeira grandeza dos alemães. Isto era a própria perfeição. A inclinação dos alemães para a filosofia exigia que concluíssem a tese e apontassem o resultado (...)”


“(...) Os poetas, que esmolam de todos, até dos mendigos, uma pequena palavra, um pouco de carinho, esmolam só uma estatuazinha na esquina, a esmola da imortalidade dos mortais, esses cabeças de vento, invejosos, pálidos masturbadores, que venderiam sua alma por uma rima, por uma indicação, que expõem no mercado seus segredos mais íntimos, que tiram vantagem até da morte de pais, mães, filhos, e mais tarde, anos passados, ‘numa noite de inspiração’, quebram suas tumbas, abrem seus caixões, e com a lanterna de gatunos da vaidade pesquisam ‘emoções’, como os ladrões de tumbas procuram dentes de ouro e joias, depois confessam e se arrependem, esses necrófilos, esses feirantes. Desculpem, mas eu os odeio.”


“As mentiras querem ser verossímeis — é esse o seu sinal de reconhecimento — e assim, quando as pessoas ouvem um absurdo tão improvável, tão audaz, a última coisa que pensariam é que estão ouvindo uma mentira, porque essas mentiras são tão transparentes (...) Não questiono que no primeiro instante talvez apareça no ouvinte uma sombra de dúvida de que querem fazê-lo de bobo, mas no instante seguinte rejeita indignado tal suposição; afinal, seria até ofensivo imaginar que alguém tenta lhe passar tal conversa (...) Aquele que chega tarde a uma reunião pode jurar que teve uma visita inesperada. Ninguém vai lhe dar ouvidos. Mas se o indivíduo disser que atropelou um cachorro como seu carro (...) e que o levou imediatamente para a Faculdade de Veterinária, e que lá ele faleceu na mesa de operações, apesar de implantes e demais tentativas de salvamento, então a mentira brilhará sob a luz da aventura e da verdade. Só o inverossímil é realmente verossímil, só o inacreditável é realmente acreditado.”


“(...) um poeta rico, entre nós? É um total absurdo. Em Budapeste, quem tem um pouco de dinheiro é considerado um palerma. Se tem dinheiro, por que deveria ter algo na cabeça, sentimento, imaginação? (...) Essa cidade é por demais inteligente. E, por isso, por demais imbecil. Não quer perceber que a natureza é bárbara e imprevisível, e não distribui suas graças através da misericórdia. (...) Aqui, a posição do gênio é conferida como indenização — caritativa — àqueles que nada mais possuem, aos famintos, doentes, perseguidos, mortos-vivos, ou mortos mesmo. (...) Nunca foi meu ganha-pão desafiar a tirânica burrice das pessoas. Curvei-me sempre a ela, como se frente a um poderoso fenômeno natural. (...) sujava minhas golas com tinta. Fiz buracos na sola do meu sapato com furadeira. Iria eu estragar minha reputação de poeta? Além do mais, assim era mais confortável e mais interessante. Se anunciasse minha fortuna, imediatamente me assaltariam, bateriam na minha porta de manhã à noite, e nem me deixariam trabalhar.”




Presentes no livro de contos O tradutor cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti (Editora 34, 2016), de Dezsö Kosztolányi, tradução de Ladislao Szabo, páginas 124, 105, 28-29, 17, 67-68, 64, 50, 65, 35-36 e 15, respectivamente.

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