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Pílulas: Parte 01 - Mar de Azov, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"— O que é ser homem, pai?
O pai pensa.
— Ser homem é assumir a realidade"


"Mas eu teria o direito de trazer de longe, de mais de mil quilômetros de distância, o meu tédio, o meu enfado, os meus pesares e fadigas, as minhas doidas alegrias, a minha violência? Não uma violência que eu porventura cultivasse, mas a violência de ritmo que me foi imposta lá, a violência na qual entrei aos poucos, sem perceber, e que aos poucos tomou conta de mim, ditou os meus humores e os meus atos, transformou-se sem eu perceber em segunda natureza. Teria eu o direito de trazer da cidade grande uma parcela da violência coletiva, indesejada por mim porém absorvida à revelia, e distribuí-la então por pessoas sossegadas, que, pelo menos, aparentavam viver em paz? Teria eu esse direito? De modo algum"


"Juntem o povo em praça pública e ele gritará qualquer coisa, contra ou a favor, não importa o quê, não importa contra quem. Basta que alguém disfarçado na multidão lance o primeiro brado"


"Vou sujar o seu carro", ele diz. "Foda-se o carro", respondeu o vulto. Sentado quase à beira do assento, aprumado e formal como criança que pela primeira vez vai à escola, ele sentia o sangue escorrer da boca, dos lábios, de feridas nas têmporas e perto dos olhos ... Despertou em plena noite numa cama de hospital ... Parentes que montavam guarda viram-no acordar do seu sono traumático, precipitaram-se. "Onde está minha mãe?", ele perguntou. Os parentes entreolharam-se. "Em outro hospital", responderam. "Mas ela está bem?", insistiu. Os parentes entreolharam-se outra vez. "Está reagindo bem", disseram. E então ele pensou: está morta. Nos próximos três dias continuou a pedir notícias da mãe. Disseram-lhe que ela levara uma pancada forte no peito, o médico havia operado. Mas que passava bem. E ele pensou ainda: está morta, sepultada. No quarto dia dos quinze que passou no hospital ele deixou de se informar a respeito da saúde da mãe. Os parentes estranharam, até que um deles, menos paciente, chegou e disse-lhe um dia, à hora em que as luzes se acendiam na cidade: "Sua mãe morreu". Ele nada disse. O parente insistiu: "Sua mãe morreu". Ele encarou o parente e respondeu: "Foda-se"."


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"O mar é um animal gigantesco que arqueia o dorso, rouqueja e bufa, rosna e geme ao seu lado, a seus pés. As ondas erguem-se a poucos metros em forma de vagas, cavalgadas por manchas de espuma que não tardam a quebrar — e ele tem a impressão de correr à beira de um túmulo líquido que poderá levantar-se de repente em forma de muralha e sepultá-lo"


"Já vi tantas cenas iguais, tantos  encontros repentinos, que a repetição deles, embora com interlocutoras diferentes, é um prolongamento do primeiro, e mais que isso: a certeza de que, vivendo uma cena parecida, nesse caso eu existo. Nessas mulheres eu me revejo, nelas me multiplico como num eco, ou em vários espelhos. E na sucessão de refrações, o bosque a ocultar sempre a silhueta enevoada que de súbito à minha frente se incorpora, ruborizada, olhando-me com atrevimento ou de vista baixa, eu colho reflexos de mim mesmo, umas vezes borrados pela superfície toldada, outras vezes corretos e inteiros como se o fundo guardasse o exato modelo de  um corpo submerso"


"Um bosque de cacaueiros contém ao mesmo tempo as quatro estações do ano — nítidas, distintas, autônomas ... dependendo da natureza do terreno, da altura e copa das árvores, do entrançado da vegetação em baixo e em cima, dos acidentes de solo, das cabaças de cacau apodrecidas, das nuvens de insetos, dos jogos caprichosos de luz e sombra, da existência de água ou de terra seca. E das cobras, naturalmente"

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