Pular para o conteúdo principal

Cinco poemas e três passagens de Astier Basílio no livro Servir a quem vence

Astier Basílio (foto daqui)


Esquecer
Astier Basílio

Esquecer é
retirar as facas
e colocá-las no lugar
correto.


--------


Entrega
Astier Basílio

O que eu não tenho
te procura.


--------


Romance para a moça 
sob o céu da São Gonçalo
Astier Basílio

Aquela que traz o mundo
não nos ombros, mas no abraço.
Que fala por seu olhar
a sépia de alguns retratos.
Como se um tempo de tempos
houvesse somente em algo
seu. E para onde ela olha:
paisagens que dicionários
não tocam, pois sua língua
é mar de amanhãs arcaicos.

Aquela que possui música
quando tenta dizer algo.
E às vezes o que ela diz,
diz com os quadris e os sapatos.
A cheia de fé nos homens,
mas não em deuses de barros.
A com histórias de Holanda
caminhando em meio aos ácaros.
A que compõe carnavais
se houver amigos e álcool.
A que possui palavrões
e um rosário em seus vocábulos.
É Ela – e ao redor o sol
quarando as canções que faço.

Aquela que está usando
no cabelo uma flor do Lácio.
A que possui um sorriso
mais longe do que seus lábios.
Que ri como se estivesse
usando uma lira ou arco.
A que possui travessias
no jeito de olhar de lado.
A que mesmo sem sorrir
tem o sorriso embrulhado.
A que sorri com o corpo
e o sol que causa é descalço.

A que não teme, por vezes,
trazer nas palavras, dardos.
Que tem estrelas nos pés
e os pés como se de fauno.
A que faz girar galáxias
com as luas de sagitário.

A que possui alegria
e o sentimento de trágico.
A que tem um mapa-mundi
a completar, feito um álbum.
A que é filha do samba
nos fins das tardes de sábado.
Que distribui, displicente,
só com o existir, regalos.

A com perfil de rainha,
alheia a trono e criados.
A que cavalga sem bridas
o ir pra frente é seu prado.
A do Mar de Manaíra,
alta quase para pássaros.
A que traz noites velozes
perto ao coração selvagem.
A que mora no que eu penso
e nos céus da São Gonçalo.


--------


Convite
Astier Basílio

algum dia te chamarei para cinema,
ao japonês. Ao Cabo Branco.
Mas hoje quero colocar luares
relógios do mundo. E num sussurro

embrulho o convite. Eu te convido
para um abraço. Haverá café.
Tarde com Trincheiras e a torre da
igreja de Jaguaribe. Mas hoje

quero tocar na tua vontade e fazer
com que ela cancele o risco de
perder a vaga, de pagar com multa. Eu
te convido para um abraço. Haverá

prazo nenhum pra se voltar pra casa.
Ficar em casa vai ser só isso.
Teus pés. Meus pés. E o mesmo ritmo
capaz de caber o mundo, num abraço.


--------


Maçã do amor
Astier Basílio

Viver em província
é circular
na quadrilha

nada além
do cio de cães
da mesma
matilha

farejando os cus
uns dos
outros


--------


"a paisagem é por dentro. O tempo é sobre
labirintos de vidro. E nós? – inúteis,
com as almas no chão. Em cada toque:
fendas, riscos, portais. Um céu se cumpre"


"Eu tenho saudade
de um monte de coisa
com você
no meio:

(...)

da conferência
de vaga-lumes
que seu olhar
consegue
quando uma alegria
está próxima;

de suas pernas
propondo
novos precipícios
e diferentes
maneiras
de pronunciar
a falta
de chão"


"O dragão, tatuado desde as nádegas,
dobra o ilíaco e com sua língua alcança
o final, onde o mundo é uma metáfora
definida por pelos e distâncias.
Cospe fogo, ah, vermelhos, língua ágrafa
de um riso cruel. O riso entranha-
se fio-terra que ao toque desencapa
-se. O lugar é nenhum. A língua é estranha.
O dragão, respirando esta descarga,
rearruma sua sombra e neste mantra
o desejo tem chifres e tem caudas"




Presentes no livro Servir a quem vence (Mondrongo, 2015), páginas 59, 19, 67, 71 e 49, respectivamente, além dos trechos dos poemas Clichê número Um (p. 15), Eu tenho saudade de um monte de coisa com você no meio (p. 81 e 83) e Os emblemas do dragão (p. 43), presentes na mesma obra.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…