sábado, 1 de outubro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Astier Basílio no livro Servir a quem vence

Astier Basílio (foto daqui)


Esquecer
Astier Basílio

Esquecer é
retirar as facas
e colocá-las no lugar
correto.


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Entrega
Astier Basílio

O que eu não tenho
te procura.


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Romance para a moça 
sob o céu da São Gonçalo
Astier Basílio

Aquela que traz o mundo
não nos ombros, mas no abraço.
Que fala por seu olhar
a sépia de alguns retratos.
Como se um tempo de tempos
houvesse somente em algo
seu. E para onde ela olha:
paisagens que dicionários
não tocam, pois sua língua
é mar de amanhãs arcaicos.

Aquela que possui música
quando tenta dizer algo.
E às vezes o que ela diz,
diz com os quadris e os sapatos.
A cheia de fé nos homens,
mas não em deuses de barros.
A com histórias de Holanda
caminhando em meio aos ácaros.
A que compõe carnavais
se houver amigos e álcool.
A que possui palavrões
e um rosário em seus vocábulos.
É Ela – e ao redor o sol
quarando as canções que faço.

Aquela que está usando
no cabelo uma flor do Lácio.
A que possui um sorriso
mais longe do que seus lábios.
Que ri como se estivesse
usando uma lira ou arco.
A que possui travessias
no jeito de olhar de lado.
A que mesmo sem sorrir
tem o sorriso embrulhado.
A que sorri com o corpo
e o sol que causa é descalço.

A que não teme, por vezes,
trazer nas palavras, dardos.
Que tem estrelas nos pés
e os pés como se de fauno.
A que faz girar galáxias
com as luas de sagitário.

A que possui alegria
e o sentimento de trágico.
A que tem um mapa-mundi
a completar, feito um álbum.
A que é filha do samba
nos fins das tardes de sábado.
Que distribui, displicente,
só com o existir, regalos.

A com perfil de rainha,
alheia a trono e criados.
A que cavalga sem bridas
o ir pra frente é seu prado.
A do Mar de Manaíra,
alta quase para pássaros.
A que traz noites velozes
perto ao coração selvagem.
A que mora no que eu penso
e nos céus da São Gonçalo.


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Convite
Astier Basílio

algum dia te chamarei para cinema,
ao japonês. Ao Cabo Branco.
Mas hoje quero colocar luares
relógios do mundo. E num sussurro

embrulho o convite. Eu te convido
para um abraço. Haverá café.
Tarde com Trincheiras e a torre da
igreja de Jaguaribe. Mas hoje

quero tocar na tua vontade e fazer
com que ela cancele o risco de
perder a vaga, de pagar com multa. Eu
te convido para um abraço. Haverá

prazo nenhum pra se voltar pra casa.
Ficar em casa vai ser só isso.
Teus pés. Meus pés. E o mesmo ritmo
capaz de caber o mundo, num abraço.


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Maçã do amor
Astier Basílio

Viver em província
é circular
na quadrilha

nada além
do cio de cães
da mesma
matilha

farejando os cus
uns dos
outros


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"a paisagem é por dentro. O tempo é sobre
labirintos de vidro. E nós? – inúteis,
com as almas no chão. Em cada toque:
fendas, riscos, portais. Um céu se cumpre"


"Eu tenho saudade
de um monte de coisa
com você
no meio:

(...)

da conferência
de vaga-lumes
que seu olhar
consegue
quando uma alegria
está próxima;

de suas pernas
propondo
novos precipícios
e diferentes
maneiras
de pronunciar
a falta
de chão"


"O dragão, tatuado desde as nádegas,
dobra o ilíaco e com sua língua alcança
o final, onde o mundo é uma metáfora
definida por pelos e distâncias.
Cospe fogo, ah, vermelhos, língua ágrafa
de um riso cruel. O riso entranha-
se fio-terra que ao toque desencapa
-se. O lugar é nenhum. A língua é estranha.
O dragão, respirando esta descarga,
rearruma sua sombra e neste mantra
o desejo tem chifres e tem caudas"




Presentes no livro Servir a quem vence (Mondrongo, 2015), páginas 59, 19, 67, 71 e 49, respectivamente, além dos trechos dos poemas Clichê número Um (p. 15), Eu tenho saudade de um monte de coisa com você no meio (p. 81 e 83) e Os emblemas do dragão (p. 43), presentes na mesma obra.



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