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Katherine Mansfield, precisa

Katherine Mansfield (1888-1923) - Foto daqui


“Você acredita que em todo lugar existe uma hora em que tudo realmente se torna vivo? (...) Parece de fato haver um momento no qual você percebe que, muito acidentalmente, parece ter subido ao palco no exato momento. Tudo está pronto para você: esperando por você. Ah, o dono da situação! Cheio de si. E ao mesmo tempo você sorri, secretamente, maliciosamente, porque a Vida parece se opor a lhe oferecer essas entradas de cena, parece estar de fato engajada em afastá-lo delas e torná-las impossíveis, mantendo você nos bastidores até que seja, de fato, muito tarde... Ao menos uma vez você derrotou a velha bruxa.”

“(...) Ela causava o mesmo tipo de impacto que sente quem bebe chá numa xícara fina e delicada e, de repente, enxerga no fundo uma pequenina criatura, metade borboleta, metade mulher, fazendo uma reverência com as mãos escondidas nas mangas.”

“O que fazer se você tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da própria rua, de repente é tomada por uma sensação de êxtase, êxtase absoluto! – como se tivesse engolido um pedaço luminoso daquele sol da tarde e que ardesse em seu peito, irradiando uma chuvinha de centelhas em cada partícula, até cada uma das pontas dos dedos...?”




Trechos presentes no livro 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield (Record, 2016), na tradução de Mônica Maia, páginas 31, 51 e 11, respectivamente.

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