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Seis sonetos de Cyro de Mattos no livro O discurso do rio

Cyro de Mattos


Da amizade partida
Cyro de Mattos

Amigo é quem nunca esquece a sede, a fome
de muitos no rio efêmero da vida.
Põe no prato o peixe, na talha água pura
e nunca espera nada de volta. Tudo

dá com sobras, areia para argamassa
das casas, a corredeira para a roupa
ser lavada, o peixe para o homem vender,
o sol admirando-se nos mil espelhos

que espalhou perto de clarear o dia,
a lua no areal derramando prata,
o balé de borboletas nos barrancos.

Nunca quem passa ligeiro, não querendo
saber desse esgoto onde me jogaram
sem remorso para eu morrer aos poucos.

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Do esgoto a céu aberto
Cyro de Mattos

Ficou claro que as lavadeiras, quando
botavam as roupas para secar,
coloriam as inúmeras pedras
pretas, levando emoção a quem visse.

A cidade sabia que a argamassa
das casas era feita duma fibra
especial: calo, suor e areia.
O peixe fabricava o pão da vida.

O aguadeiro anunciava a água fresca
com uma voz cristalina. O visual
de tão lindo parecia sem fim.

Ficou claro que, de tanto no ventre
virar lodo, o espetáculo envergonha.
Eis que escorre no esgoto a céu aberto.

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Das mãos na goela das águas
Cyro de Mattos

Venho sendo omisso pra refazer
virginais caminhos de água, dizendo
melhor, matei o que era para ser
vivo no seu amanhecer líquido.

Eu me acuso por ser indiferente
ao benefício, sempre abundante,
de água pura que jorrava na fonte,
peixe e rede no orvalho competente.

E como réu confesso que merece
por tão grave delito ser punido,
chegando do que lhe foi natural,

em noite morta, que nunca apetece,
lavro minha sentença, condenado
a viver no abismo do que há no Mal.

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Dos remorsos
Cyro de Mattos

Escuto vozes. Como acreditar?
A mancha nas águas a envergonhar
diz da fuga em desespero, tingida
a manhã do horror na taba queimada.

Por entre sombras do que não se apaga
escorre a dívida que não se paga.
Remorsos não existem nas entranhas
dos que chamam as cenas de façanhas.

A mancha na mágoa que flutua.
De rio que chora. Chacina ecoa
nessa triste música. Escuta a lua.

Saberá quantos ventos entoam
os feixes de lamento que guardam?
Na água, feridas vozes machucam.

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Dos rumores e afagos
Cyro de Mattos

Sai do olho. Desce no fio.
Terra come. Nuvem bebe.
Muda a pele. Vira cobra.
Cai na pancada formosa.
       
Inunda. Derruba. Afoga.
Assombra. A barriga murcha.
Bicos alegres surgem.
No dorso trissam. Triscam.

Tecem fios de ouro e prata.
Andorinhas, andorinhas.
Sutil carícia voa.

Despede-se. Esquece o doce.
Urina o mar. Não me deixa.
Tão ser, tão pedra, tão água.

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Do sol aceso no peito
Cyro de Mattos

Grudou na pele tudo que passou,
Foi lá onde pulsou o coração.
Verdades muitas que foram guardadas
são ternuras de um local esplêndido.

Cada salto era melhor do que o outro,
a disputa coloria o domingo.
Cumpria os deveres do colégio,
era preciso estudar pra ser gente

mas quando nadava no rio tinha
a nota máxima com a flor do sol
acesa no peito. De pedra em pedra,

ultrapassava os poços mais profundos.
Trunfo do amor a cada travessia.
Ganhar e perder risos rendiam-me.


Presentes no livro de poemas “O discurso do rio” (Palimage, 2020), de Cyro de Mattos.

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