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Vamos ouvir: A/B, de Vitor Araújo

A/B (2012) - Vitor Araújo




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Release do CD por Tibério Azul, disponível no site de Vitor Araújo:

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Quando Vitor Araújo surgiu pisando no piano muitos estranharam, teceram críticas, outros elogiaram, e tantos acreditaram se tratar apenas de um arroubo juvenil. Não era. Porque Vítor não pisava simplesmente no piano, ele mergulhava no instrumento como um casal adolescente descobre pela primeira vez a vontade de se perder no outro. Naquele ato o artista apresentava tudo o que propunha: imergir sem pudor ou freio. Raiz de toda concepção artística, ele dizia muito mesmo sem saber ao certo.

Agora em novo trabalho o garoto atrevido mantêm o movimento e volta a pisar, só que não mais no piano e sim em um coração ferido. Ele pisa, mergulha e se funde com ele, rasga, acaricia, revira, solta e nos apresenta um disco de puro sentimento, cru, tão sem interferência que decidiu por não cerceá-lo com nomes. O disco é chamado apenas de "A/B", um título que se limita a forma como ele está organizado, com Lado A e Lado B, e deixa livre o ouvinte para suas próprias imersões. Uma obra tão intensa que deve ser ouvida de uma vez só e com longa pausa para a segunda audição.

Logo de partida, A/B nos carrega para um lugar desconhecido e abre a porta do porão onde guardamos (escondemos?) inúmeras sensações. É um convite e caso o ouvinte se apodere do medo é prudente parar por aí, porque Vitor vai mais fundo e já avisa nos títulos das quatro faixas do lado A: Solidão n.1, Solidão n.2, Solidão n.3 e Solidão n.4.

Nas músicas seguintes o sentimento é revirado de um lado para o outro e para o outro para que se expresse e desentranhe de tantos sustos. Araújo solta as amarras do coração que pisa e gradativamente o liberta. Sem julgamentos e de mãos dadas sobe as escadas do porão com uma técnica precisa, vai até a porta já aberta e o apresenta ao mundo como é: debilitado, raivoso, pulsante, vivo… e então inicia o Lado B.

No Lado B ouvimos o sentimento liberto, que oscila, transcende, grita, se expressa como um grito engasgado por décadas ou um sussurro proibido por séculos. Nesse parte Vitor agrega grandiosos convidados como Naná Vasconcelos, na releitura da música Jongo, de Lorenzo Fernandez, e na música Veloce de Claude Bolling com o grupo Rivotril. Aliás, as duas únicas faixas que não são de autoria do próprio artista.

A/B conta ainda com uma poema sonoro do multi instrumentista Yuri Queiroga no final da música Baião e termina de forma inesperada com o grupo de rock instrumental Macaco Bong com a composição Pulp. Além da doutoura em piano erudito pela UFRGS Stefanie Freitas que interpreta a Solidão n.4 e de Guizado, que participa da Solidão n.3 com seu trompete.

Como não podia deixar de ser, o álbum sai de forma independente. Gravado entre Recife, Rio de Janeiro e São Paulo foi mixado por Buguinha Dub e teve a arte gráfica feita pelo artista plástico Raul Luna.

Vitor Araújo já foi considerado um menino prodígio no início da carreira por conta da extrema habilidade no piano. Cresceu em idade e desenvoltura, circulou, lançou o DVD Toc, conquistou público, novos amigos, ganhou prêmios, passeou pela imprensa e televisão nacional, construiu um admirável currículo. Currículo que sem pestanejar larga no canto para jogar-se em uma aventura artística, para fundir-se em um coração cheio de feridas e delas produzir arte.

O destemor dos artistas que marcam um tempo.
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