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Dez passagens de André Lemos no livro Objetos da Bahia

André Lemos (foto daqui)


[Saulo, o abadá dos blocos de carnaval]

(...) Se apropriar dos termos é legal. E veja que me foi dado esse nome como uma homenagem a um mestre de capoeira, ou seja, tudo a ver com a história do termo. Eu me sinto um privilegiado de ser assim nomeado. Ainda tem a herança dos Malês, esses heróis da resistência e da luta negra na Bahia. Só orgulho!

Mas um bloco de carnaval é tido como grupo de elite, de brancos (...) Não é contraditório? Não é usar um termo só para surfar na onda da cultura negra?

Colé, rei! Esse é meu nome e tenho orgulho dele. E os blocos de carnaval nada seriam sem a musicalidade, a dança, a moda da cultura negra local. Sou um admirador da cultura local. Me considero negro! Nada a ver essa sua pergunta, na boa! O carnaval é uma festa de todos e deve muito à força e alegria da cultura negra. (...)

Sim, mas os blocos são para quem paga...

E daí? Tudo é pago nessa vida. Tem pessoas que querem sair com a sua galera e curtir um som de alguém específico e isso se acha nos blocos. Não vejo nada de mal nisso.”


[Ritinha, a fita do Senhor do Bonfim]

Quando dão os três nós e fazem pedido você sente dor?

Sinto, pois as pessoas apertam pra valer. Dão duas voltas e os três nós que não podem ser desfeitos sob pena de não realização do pedido. Acho que fazem isso para amarrar bem o pedido e, assim, ter a certeza de que os desejos se realizarão. Pensam que quanto mais apertado o nó, melhor. Vocês humanos são muito carentes. Só pensam em realizar desejos e mais desejos e mais desejos. Bom pra mim que nunca desaparecerei, pois os desejos das pessoas só aumentam. Aliás, acho que vocês são movidos por esses anseios irrealizáveis e gostam mesmo é de desejar, não do objeto do desejo. São seres que desejam o próprio desejo.”


[Janaína, a estátua de Orixá]

Você é uma iconoclasta?

Sou. Acho que essa coisa de venerar imagens já era. Vocês devem me reconhecer não como essa santa de azul, mas como uma força que mantém coesa a sociedade baiana, amiga dos peixes e da pesca, protetora dos pescadores e de seus barcos. Vejam que respondo por mim, mas o mesmo pode ser dito de todos os outros Orixás. Nada de Jesus branco para Oxalá, mas reconhecer nele a força da união, da paz, da harmonia... Precisa de imagem para isso? Sou contra. Mas, por outro lado, ainda bem que estou aqui como imagem. Se não fosse assim, duvido que você fosse me entrevistar nas profundezas do oceano...”


[Flora, o galho de árvore sinalizador de buracos]

Agora é o momento do ping-pong. Um ídolo?
Pinóquio.

Um lugar para viver para sempre?
Dentro de um buraco.

Um desejo secreto?
Virar o próprio buraco.

Uma coisa que detesta?
Asfalto.

O que é Amar?
Entrar em um buraco e não sair nunca mais.

Como gostaria de morrer?
Não gostaria.”


[Maria, a cocada Baianinha]

Você é mesmo muito doce e conformada com a vida. Não tem vontade de se revoltar?

Revoltar para quê? Não tenho, não. Estou satisfeita na minha condição. Vivo bem assim, mesmo que sofra com a saudade, com as mudanças bruscas de temperatura, ou com pessoas que ao me provarem, me jogam no lixo por não gostarem do meu gosto. Elas nem dão tempo para provar direito e me jogam logo fora. É raro, pois sou muito gostosa, modéstia à parte, mas isso me irrita. Mas, mais uma vez, isso faz parte da vida. Todos vivemos isso, não é verdade? Você já não foi descartado e jogado fora sem ter tido tempo de mostrar todas as suas qualidades?”


[Pedroca, o cacau do Nacib*]

Pedroca, você não tem vergonha de ser o que é?

Não, estou bem embalado. As pessoas sabem quem eu sou, mas não fico aí à toa mostrando toda a minha potência e beleza. Não tenho vergonha do meu corpo e da minha forma. Você tem vergonha da sua imagem?

Você não amolece nunca?

(Sorri) Claro que sim, mas é raro. Sou muito potente. Na realidade eu sou mesmo é chupado, comido, enfiado na boca para amolecer lá dentro. Só se me esquecerem no sol eu amoleço. Eu resisto, mas tem coisas que não conseguimos fazer mesmo com toda a nossa força, não é mesmo?”

*Objeto de chocolate na forma de pênis ereto.


[Frida, a figa]

Olá, Frida, esse ano vamos ter mais sorte no país? Estamos precisando!

Depende, se você estiver comigo, pode ter certeza. Para os outros, eu não garanto nada. Só me responsabilizo pela minha ação.”


[Otacílio, o coco da Bahia]

E você quando fala, fala da árvore como sendo você. Você é fruto ou árvore?

Essa divisão é sua. Não entendo isso. Em determinados momentos nos separamos, minhas raízes vão para um canto, minhas folhas caem, eu cresço e tombo, me reproduzo. Eu sou um todo com todas essas partes. Não consigo me pensar como vocês, como individualidades. Na realidade acho que vocês estão é iludidos. Você acha mesmo que é independente de mim, do ar, do sol, das outras pessoas? Você acha mesmo que tem uma vida individual, uma vida pessoal? Só há vida coletiva.”


[Renata, a rede]

O que é um dia perfeito para você? Quando balança alguém, ou quando fica quieta se balançando a si mesma no ritmo das brisas?

Gosto também de me balançar, de pensar na minha própria existência. Se falo isso tudo para você é porque penso. E pensar é balançar, viver é balançar, balanço, logo existo. Um dia perfeito para mim é aquele no qual eu sirvo às pessoas (ou aos outros animais) que querem se reconectar, que querem descansar e parar um pouco o mundo lá fora, e que depois disso resta um tempo para mim mesma, para apreciar o local onde estou (como disse, se for um sítio é perfeito), pensar em mim, analisar como estão as minhas tramas, se preciso de conserto, costura, se minha vida está acabando...”


[Francisca, a carranca do São Francisco]

Como é ficar a viagem inteira olhando só para a frente?

Só olho para frente. Quem fica remoendo o passado ou esperando milagres no futuro são vocês, humanos. Eu gosto de viver o presente, milha a milha, olhando sempre para o que se apresenta no momento. Vivo o aqui e agora. Essa é a melhor forma de viver, imagino. A única que dá sorte e nos livra dos problemas e das preocupações.”


Presentes no livro “Objetos da Bahia” (Mondrongo, 2020), de André Lemos, páginas 48, 25-26, 61, 98, 82, 85, 106, 77-78, 31 e 120, respectivamente.

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