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Trinta e cinco passagens de Emmanuel Mirdad no romance “oroboro baobá”

Emmanuel Mirdad no local
onde escreveu “oroboro baobá”


          “Amanhece. Três homens se preparam, na foz do rio Caraíva, para zarpar à lida no mar. Alderico, líder dos pescadores e dono do barco Correnteza, reclama da perda de trabalhadores para a hotelaria. Enquanto arruma a rede, colocada a bordo por Josias, o índio Burianã Pataxó expõe a fratura:
          — Servir turista dá mais dinheiro. No mar, só vai quem ama. Ou se é infeliz.
          O Correnteza navega, paralelo à praia. É cedo, e a paisagem, mesmo camuflada pela rotina, ainda é capaz de inebriar Burianã, que canta sobre uma lenda em que o magnífico se materializa na forma de um ente que distorce o tempo e habita o espaço entre as palavras. Josias reconhece a melodia e tenta acompanhar, mas desafina e desiste; começa a descascar uma cana-de-açúcar. Alderico guia a embarcação, a praguejar contra os forasteiros que investem na Vila de Caraíva.
          O pataxó termina de cantar, e o som reverbera, por dentro, o encanto: no Correnteza, só ele capta, à direção do mar aberto, a forma de uma pessoa, de peito nu, que se mantém, a partir dos joelhos, acima da superfície das águas, a encará-lo, de olhos fechados. Burianã intui o bote à espreita, mas prefere não traduzir o que considera uma miragem, vestida com um saião de cor verde, a serpentear o movimento do oceano; o hábito ambienta as visões à paisagem, sem arroubos, só respeito. O barco passa. O arco-íris emoldura o horizonte.”


          “Nilson recupera a bola e monta o contra-ataque, abastecendo Marcelino em profundidade. Gigante vê o lance: os movimentos são em câmera lenta, vários feixes de luz saem dos corpos como linhas, retas e curvas, formando gráficos, mapeando as ações e os percursos. Marcelino vence Rallex e os demais marcadores, e Gigante decide sair, às pernas do atacante, num bote; a arte, porém, às vezes desqualifica o óbvio e produz o inesperado: a maestria do improviso do craque brota um toquinho por cobertura, que costuma ser indefensável — menos durante a vigência do inacreditável. Numa apreensão da realidade em velocidade supra-humana, Gigante consegue recalcular a nova trajetória do pé e da bola — até mesmo o imprevisto está previamente definido em alguma equação do divino, camuflada entre as probabilidades do caos —, e consegue virar o corpo, impulsionar o braço e ainda triscar na redonda. ‘Milagre!’, Carranca grita. A resvalada faz com que a bola se desvie do sentido para o gol e, melindrosamente, lamba a trave, saindo para escanteio. Nilson comenta:
          — Mas ele não toma gol nem que a porra, Marcelino! Isso não existe...
          O índio mais velho quer celebrar. Em língua pataxó, faz elogios e reforça que o chão da Aldeia Mãe Barra Velha é sagrado, e que Gigante, firme como um coqueiro, ágil como uma ave, vai pegar todas as bolas e barrar todos os gols do mundo. Segundo Kuparaká Auptxuy, as ancestralidades dialogam, límpidas como a água da chuva, sem conflitos ou exigências, irmanadas no astral comum — o índio mais velho não se importa que a contemporaneidade de Gigante não tenha retribuído a boa-fé.”


          “O jornalista se permite ao deleite de um teco das férias e se senta numa barraca da orla fluvial, com os pés dentro do rio Caraíva, a saborear um suco de laranja. Então, contorce o texto a Gigante/Montanha:
          ‘No encanto de uma foz, por um acaso programado na displicência dos traçados de um enigmático projeto, na encruzilhada do extremo sul que as delimita, entrelaçam-se a Bahia feminina das águas, dos sabores, do canto, da inteligência resiliente, da fartura de costumes, credos, sóis e mar de estrelas, e a Bahia pai canalha, exibicionista, do abandono, da opressão, do egoísmo, da falta de responsabilidade, que não acolhe nem protege. Assim, do intangível encontro, na fluidez do mistério que a todos invalida o propósito a favor dos sonhos, eis que surge a esfinge de um ser imbatível.’
          Enlevado pelo sol que se põe, rajado de sete cores, rio adentro, Sanfilippo decide escrever um livro-reportagem sobre o ser que surge de um rio.
          — Quem é você, Montanha?”


          “(...) O tempo se estica como um elástico e quase se parte. Ela está sozinha dentro de casa. Ouve, a se anunciar da rua, um som diferente, percussivo e melódico, de textura doce, que evoca os caminhos distraídos e curiosos da infância, o curso fluvial, o gotejar de óleos escorridos de uma árvore notável, os pingos da lenta infiltração das águas nas grutas, o movimento contemplativo de um visitante nas profundezas do oceano.
          Ela abre a porta de casa e se encanta com a musicista que toca o instrumento, um ser híbrido: a pele do tronco, cabeça e braços, feita de escamas de um marrom-escuro arroxeado, que vai se afinando ao preto conforme se aproxima do pescoço, a lembrar um espécime da cobra Dandarabilla no inverno — a crosta é a sua vestimenta e desenha os dois seios pequenos, sem bicos —; os cabelos, ramos trançados de Acacia nigricans, com diversas florezinhas amarelas; em vez de pernas humanas, tentáculos formados por raízes de Mpingo — a Dalbergia melanoxylon, cujo interior é de um preto intenso, cobiçada para a fabricação de instrumentos de sopro. A entidade Mambezi, a musicista, tem o rosto coberto por palhas secas da palmeira Makalani, afixadas por uma tiara de marfim, e dedilha, com os dois polegares, um lamelofone ancestral, como uma kalimba dos primórdios, feito de teclas finas de metal fundido de um siderito, a ressoar numa gwariva, pequena caixa de madeira de lei, extraída da árvore Mubvamaropa.
          Ela sente vibrar o útero, os seios, o clitóris. Mergulha nas ondas de si e na transcendência do instrumento chamado mbira, e, de olhos fechados, pressente que a entidade vem do fundo da Mosi-oa-Tunya — as cataratas do rio Zambezi —, onde habita, na fronteira entre o Zimbabwe e a Zâmbia, na África Austral.
          O ser híbrido para de tocar. Aproxima-se da mulher e lhe faz uma entrega nas mãos. Ela abre os olhos e o instrumento se transforma em uma criança, nua, que fala, com um timbre sideral:
          — Mãe.”


          “Assim como os demais baobás — das nove espécies catalogadas até então, seis são nativas de Madagascar —, o Adansonia grandidieri tem um papel importante nas cerimônias tradicionais, um dos símbolos basilares das culturas africanas, considerado também uma árvore sagrada, árvore da vida, árvore cósmica. Contudo, diferentemente dos outros baobás, que são usualmente assimétricos, enrugados, a lembrar a textura de tubérculos, caules muito mais gordos do que os ramos, a Renala se assemelha a um mastro, simétrico e ereto, e os galhos se localizam apenas na copa, como uma coroa, a florescer a cabeça, o ponto mais alto da forma fálica, o totem que parece fecundar os céus, a coluna que estabelece o pilar da conexão, o elo entre o imanente e o transcendente, a ponte entre as dimensões, o cordão umbilical entre os mundos possíveis.
          Na maior parte da sua vida, o baobá está desfolhado, e há quem o interprete como ‘a árvore de cabeça para baixo’, pois acha que os galhos secos se assemelham a raízes e, por isso, o aspecto de plantado ao contrário; há lendas sobre essa impressão mítica, inclusive, como a da divindade que, com aversão à árvore a crescer no seu jardim, no paraíso, arremessa-a por cima do muro, que cai no planeta, afunda a copa na terra, e, embora na posição inusual, continua a crescer; ou a que fala de uma punição tirânica ou uma louvável lição: plantado pela divindade maior, o baobá se recusa a ficar parado e continua a andar, até que a irremediável o replanta, de cabeça para baixo, para interromper o movimento — há quem acredite que o que aparenta ser um castigo é, na verdade, um ensinamento; o não-mover, neste caso, é sabedoria.
          A dádiva de ser espectador, receptáculo e antena.”


As duas edições do romance:
a virtual e a impressa


          “(...) surge um buraco, no meio de campo defensivo, o que causa mais um contra-ataque dos lapenses: cinco jogadores contra Chupacabra e Rallex, um atacante entra pela esquerda, Montanha avança e prepara a contenção, mas ele cruza para o outro atacante que está no meio, e que bate, de primeira, para o gol. Como uma serpente que tenta morder o próprio rabo, um baobá cujas raízes são os galhos, Montanha enrosca a matéria e consegue retornar; com a ponta de um dedo da mão esquerda, belisca a bola o suficiente para que ela desvie para fora. Os adversários comentam entre si:
          — É impossível!”


          “Uma mulher, vestida com um terno colorido, a usar vários anéis, pulseiras, badulaques, uma cartola de mágico e duas longas tranças no cabelo, se posiciona à frente e começa a sua fala:
          — Supondo que você não tenha ninguém, que seja solto no mundo, sem mãe, nem avó, irmã, pai, nenhum parente vivo, nada mais... ninguém que possa ter um mínimo de carinho por consideração consanguínea. Ou seja, tirando você, não há nenhuma informação disponível sobre a sua pessoa. Então, quem é você?
          Um pouco longe do aglomerado, Gigante processa as luzes, formas e sons que o colorido, o baile e a cacofonia da arte produzem. Filosofalice desliza entre os artistas e o público, e persiste na intriga:
          — Quem é você sem a referência de onde veio? O que faz você deste aqui e agora sem o rumo iniciado pelo ancestral? Como evoluir a árvore dos seus genes sem a pertença da raiz? Sem as informações nítidas da bagagem que inevitavelmente carregamos, a vida se torna um fluxo retilíneo uniforme, e você, um passageiro sem destino, uma pedra rolando por ladeiras intermináveis, quedas sem fundo, abismos vazios de si...
          Gigante apreende a cena em câmera lenta: a matéria se manifesta como espectros de luzes a bailar em ondas sonoras, os rostos das pessoas são borrões, e a voz de Filosofalice é fragmentada em cristais de microtons:
          — Sem a fluidez das experiências compartilhadas e propagadas, o que resta é a solidez compacta de uma solidão impenetrável, por sobrevivência e preservação do presente. O mundo em que você existe é pura engrenagem!”


          “Fazendeiro de cacau, é capaz de comprar todas as passagens do trem para que a família não tenha contato com quem ele não queira, e faz questão de que as filhas mais novas sejam banhadas em bacias de ouro maciço. É temido como o mais sanguinário ‘coronel do cacau’ da cidade de Ilhéus, sul da Bahia, que estripa pessoalmente os desafetos, matando pelo prazer de tombar quem considera inimigo ou um entrave — na maioria, índios, de tribos distintas, e trabalhadores que reclamam das condições próximas à escravidão.
          Invasões de terra, exploração do trabalho e coações diversas estabelecem a sua fortuna, que é expandida com o lucro de outros negócios, como indústrias de beneficiamento, comércio de bebidas e fumo, imóveis e lojas de tecido. O coronel conquista investidores e convence profissionais a dedicarem as suas competências em prol da ampliação e manutenção do império de uma só família.
          Os casamentos dos seus descendentes, negociados apenas entre os mais abastados, servem para diversificar a riqueza: o coronel atrai uma família de Minas Gerais, entranhada na política nacional, especialista em assegurar os interesses privados na camuflagem do interesse supostamente público. Todos os filhos e filhas — menos os bastardos, que são ignorados ou mortos — do coronel se casam e lhe oferecem tantos netos que se torna complicado memorizar os nomes. Os homens, beneficiados por uma tradição que se empenham em manter, desenvolvem as carreiras no meio empresarial, na política, nos tribunais e na medicina, enquanto a maioria das mulheres cuida do lar e da família.”


          “— Não quero... me lembrar... do canalha.
          — Que canalha?
          A contenção feita no extraordinário não resiste à fragilidade da matéria: Miwa é soterrada pela avalanche do trauma. Chora e soluça, muito. A senhora enfrenta o susto e o desejo de saber os motivos; equilibra-se pela razão, amparada pelo amor, e acolhe a jovem, a permitir as lágrimas em silêncio, sem se preocupar com o constrangimento dos clientes e funcionários da churrascaria, a evitar tanto os egoístas quanto os heróis de plantão. Acaricia as mãos e o rosto de Miwa, tenta confortá-la com um timbre suave, lento, a recordá-la de que é preciso respirar e que ela está segura na sua companhia, nunca haverá o abandono.
          Dona Tonica consegue uma brecha entre os escombros, e a jovem sente o ar menos abafado, os soluços vão escasseando. O abraço é o retorno à superfície, dentro da redoma, de céu escorado e prestes a desabar o entulho que pretende o esmagamento; como o espaço apertado de um beliche, a avistar o fundo do colchão de cima, e há outro colchão acima deste, e outro, e outro, e outro.”


          “Marcelino é o chefe do tráfico no sul da Bahia, que negocia a paz e o intercâmbio entre os sistemas, legal e clandestino, público e privado. É o gestor das mercadorias que chegam por diversas vias, quem manda pagar os intermediários e os agentes da lei, e quem faz os acertos com os demais chefões, fornecedores, distribuidores e compradores internacionais — o empresário é um dos altos executivos do cartel Berço da Nação, o responsável pela célula estabelecida em Porto Seguro.
          A cocaína de Marcelino tem um dono. Assim como os helicópteros que a transportam. E os outros produtos ilegais também. Ninguém sabe. Ninguém comenta. Caso alguém se disponha, a pena é capital e imediata. Com o imperdoável a reger a norma, e a vigilância constante, não há delatores, e o dono, de codinome Pedraluarez, é um homem que a sociedade admira: empreendedor legal, contribuinte, empregador, notório de muitos títulos e prêmios, com muitas posses, investidor da bolsa, amigo de outras famílias milionárias e influentes, entranhado no meio da política e, na medida da ostentação de colunas sociais, midiático. Inatingível e inimputável, celebrado como o ‘homem de bem’.”




          “(...) Sente que precisa se distrair um pouco e bisbilhota, na mídia social da vez, os demais escafandristas que se ocupam em entulhar a rede, à caça de um sinal luminoso de que ainda há alguém, ou algo, que lhes bombeará o oxigênio que resta. ‘Escrever também é apagar’. Curte a postagem. Pensa no quanto que terá de cortar, mais à frente. Prefere não antecipar as etapas do trabalho e volta a escrever (...) Pela janela do quarto do hotel, Sanfilippo tenta apreciar a névoa, a mil metros acima do nível do mar, em Vitória da Conquista. A enxaqueca aperta, o efeito reverso do esperado. Relembra o começo de um poema: ‘O cinza, pra mim, é blues.’ O jornalista minimiza uma aba no laptop, em que acessa uma página sobre o Santuário do Bom Jesus da Lapa; desiste de retomar a pesquisa sobre fotógrafos conquistenses; contempla a foto roubada de Bip-bip, a invejar, outra vez, a melanina da jovem retratada; e, antes de desconectar, gosta da pergunta de um solitário: ‘No totó da sua vida, quem conduz o seu livre-arbítrio?’”


          “De dentro da água salobra, Montanha emerge a cabeça e olha para cima; o mar de estrelas pulsa. Prepara-se para o salto: percorre e decodifica o complexo movimento multidirecional do céu estrelado no breu, para muito além dos pontinhos brilhantes que os humanos enxergam no véu da noite. Montanha mergulha num tecido de formas em deslocamento contínuo, fluindo com a luz estelar como em uma trança de neurônios pulsantes e coloridos, desenhos geométricos interligados, constelações a bailar por estradas, pontes e estruturas conectadas por energia pura. Pois, se for Deus, dança — as interpretações restantes são facções de uma ficção opressora.”


          “Dona Tonica decide usar uma bolsa e, ao arrumá-la, encontra a foto que fizera Miwa extravasar a sua dor em Teixeira de Freitas. A senhora agora sabe quem é o tal canalha. Por um instante, sente a dor das pancadas e se arrepia. Emociona-se. Transfere-se para o lugar da jovem. Quase rasga o retrato, um gesto motivado pela necessidade de justiça — que nunca será suficiente, pois não há como voltar atrás na agressão, reparar a marca de Miwa ter sido violentada. Antes de guardar a foto novamente na bolsa, para entregar à Bartira mais tarde, é fisgada pelo que há de especial nela e se conecta à imagem da jovem, interpretada como ‘a emanação da pureza dos melhores sentimentos’. Num instante, a chaga e a revolta; no outro, a transumância das lembranças de Dona Tonica, do acervo das memórias mais profundas à superfície do coração.”


          “Os escravizadores, a maioria montada em cavalos, vigiam os corpos que consideram produtos da sua lavoura. Ao passarem por povoados, negociam as mulheres e as crianças, que são compradas por outros súditos do Reino do Kongo; serão tomadas como esposas, a ampliarem a prole e o prestígio dos seus senhores, e trabalharão no cultivo, junto às outras mulheres da comunidade. Assimilados pelo novo clã, as crianças serão destituídas dos hábitos, cultura e memória dos seus ancestrais. Mbamba avista a sua mãe e as três irmãs mais velhas serem vendidas, e o pagamento são provisões. No jantar, força-se a engolir o alimento que o manterá de pé, a resistir às lágrimas que escorrem e se misturam ao conteúdo da tigela de barro, e tenta honrá-lo; é preciso caminhar quando amanhecer, e será por elas, as suas amadas, das quais provavelmente nunca mais saberá qualquer notícia.”


          “Ela não é de falar muito nem de gesticular. ‘Ensimesmada’, acusam. Dispensa a leitura, a preferir resolver o que aparece. Não se apieda em público; sofre apenas quando não há alguém por perto. Ao espelho, aperreia-se com a curiosidade: os cabelos crespos são de uma mulher, ou os olhos claros são de um homem, ou o gosto por mangas, herança da mãe ou do pai? E o que fazer com a saudade do que desconhece? Sem acesso à memória das suas raízes, a órfã Benivalda prefere se dedicar à labuta e se sente calejada pelo áspero pertencimento de contar apenas consigo mesma. Para os amigos, quando solicitada, os ouvidos, sem pretender que o outro demonstre gratidão, sem se aproveitar da fragilidade alheia em benefício próprio; e os conselhos, de poucas frases, precisas. É misericordiosa, sem ser fiel a uma religião.”


Arte: Max Fonseca


          “Gigante dispensa a amizade, evita o convívio, prossegue na rotina sem contar com a aprovação do outro e se comunica apenas quando inevitável, o necessário à função, o mínimo. A impressão que provoca: em Alderico, que se move apenas para sobreviver e não se importa em planejar a carreira ou acumular bens; em Guilherme Cornélio, que não se interessa por uma relação afetiva porque não teme a solidão.
          — É trabalhador, isso é que importa! Eu preciso dele, é forte e disposto. Você nunca vai ver outro desse por aí...
          O cego sorri. O pescador retribui e dá um gole na ‘ardida’ — como ele se refere à cachaça. Guilherme Cornélio liga o aparelho de som e permite que um xaxado preencha a padaria.
          — Meu amigo... Gigante é o primeiro a chegar e o último a sair. Tudo que é pra fazer, ele faz, e ainda faz direito. Nunca reclama, não tem chiada... Mas nunca sorri também.
          — Como é que uma pessoa não sorri, Alderico?”


          “Fora das grades, Marcelino abandona a religião, vai morar no distrito de Trancoso e assume a gerência do tráfico de cocaína — e outros produtos — em Porto Seguro. Com mérito, recupera e amplia a produtividade da célula, e consegue pacificar e equalizar as forças do crime e dos agentes públicos, sócios no business que avaliam como vantajoso — desde que todos sejam remunerados, satisfatoriamente, e sem alarde —, o que lhe rende a aprovação dos dirigentes do cartel Berço da Nação. Então, sente-se à vontade para eliminar, de forma cruel e sem vestígio, os concorrentes, os aspirantes e os comparsas de mesmo escalão, inclusive o chefe que o ajudara na cadeia. Torna-se hegemônico, responsável, também, pelas rotas internacionais. Mancomuna-se com os políticos que detêm o poder, não importa qual seja o governo da vez, e se torna influente, um dos homens de confiança do real dono do pó, de codinome Pedraluarez — que, assim como outros chefões do crime, é um notório investidor e empreendedor, milionário, frequentador de ambientes luxuosos ao redor do mundo.
          Inspirado em Pedraluarez, Marcelino se reaproxima da família e se aplica na criação da sua imagem pública: um homem que paga os impostos e emprega muita gente, o que melhora o sossego — prisão, nunca mais; o processo é arquivado. Investe na construção civil e no ramo imobiliário, e, na hotelaria, associa-se a Isidora Menditeguy, empresária argentina, dona de pousadas e hotéis em Caraíva e Trancoso. O pai, a mãe, as irmãs e os cunhados de Marcelino não se esquecem das últimas férias.”


          “Um vento repentino agita as folhas das árvores, produz um barulho réptil, na progressão de se transformar em ventania. Ela traduz o arrepio que sente como um susto, separa-se do abraço e imprime uma passada um pouco mais ligeira. Ele se ouriça e sonda o espaço ao redor. Mais à frente, notam uma pessoa, vinda de onde são prenunciadas a mudança no clima e a chuva da madrugada. Não dá para ver muito do seu rosto, mas os pequenos olhos relampejam, contraditórios: fulguram e são vazios, fogo-fátuo, a ausência de intento mesmo onde há a chama.
          O casal trava. A paranoia da namorada a faz avaliar: noite, sem movimento, com uma pessoa negra a caminhar na sua direção, pés sem calçados e quase dois metros de altura, faz com que ela queira dar a volta e fugir. O namorado também considera a pessoa como uma ameaça, baseado nos dados visuais da cor da pele, do tamanho e do suposto gênero, mas opta por prosseguir, para tentar se mostrar como um valente. O vento ganha substância e fabula cascavéis na folhagem dos coqueiros.”


          “A mulher intui: a entidade talvez represente a figura mais importante de um culto, de aparição excepcional; a força feminina que celebra a virtude de se iniciar uma família, ligada ao equilíbrio do mundo. Talvez, pois Mokamassoulé gira, gira, gira, e também se mostra como dançarino, o movimento das saias a revelar um falo grosso, duro, que aponta à profundidade dos bosques sagrados. O balé reverte o sentido da rotação, e a entidade gira, gira, gira, e se mostra, outra vez; não há mais o pênis, e sim uma vagina a florescer, úmida. O ser híbrido traz, nos seus passos e vibração, a aldeia do coração e da floresta.
          — Sssssss... — Há o sibilo e um novo clarão.
          Mokamassoulé carrega, apoiado em um dos ombros, um longo pano, grosso, de cor verde, entrançado e seguro por duas argolas douradas. Um sling, onde leva, nas costas, um bebê, que é entregue nos braços de Bartira. A dançarina felicita a mulher, com a voz cujo som é o sabor da mata:
          — Yeba-Miwa!
          Ela acorda com o uçá futucando o seu pé. Demora em se levantar da lama; o corpo requer precisão para acomodar o espírito. Entre os caminhos possíveis, intui a direção da cidade e recomeça a andar. Mais à frente, Bartira avista um cesto de vime equilibrado entre as raízes aéreas e o tronco de um mangue-vermelho. Ouve um sussurro. Ou é um sibilo? Aproxima-se. Dentro, um bebê, graúdo, de pele bem preta, dorme, confortado por uma manta de folhas, depositado sobre uma almofada de palha.
          — Miwa? — Deixa escapar.”


          “Mãe e filha, afrodescendentes, recepcionam mãe e filha, herdeiras dos nativos. Em nome de Dona Tonica, a família Santos oferece acolhimento às índias Maxakali. Elas aceitam. Vão ficar em Mucuri o quanto for necessário, e Bartira dará todo o apoio.
          Luzia se sente segura no lar das negras e desabafa. A sua dor comove. A jovem é abraçada, beijada, acariciada, incentivada a reconhecer o seu valor. Benivalda compartilha a chaga da sua história: a experiência de amar um canalha e ter de aturá-lo por quase a vida toda. Nara se sente confortada por saber que o erro não é só seu e que há outras mulheres no mundo que também se sujeitam a uma relação abusiva, não importa a coragem e a inteligência que tenham. E Bartira reafirma a sua fé no reencontro com a filha Miwa e o neto Mbira, desaparecidos.”




          “A menina Miwa estuda, concentrada, e termina a lição de casa, antes da merenda. Ela aproveita para pesquisar sobre países africanos na enciclopédia, e lamenta, mais uma vez, que os verbetes sejam menos detalhados e muito menores em comparação com os que versam sobre os países europeus e americanos. Na escola, os professores não ensinam sobre a cultura afrodescendente nem respondem às perguntas específicas que Miwa faz. ‘Eu ainda vou viajar muito e visitarei a África dos meus sonhos’, consola-se. E as coleguinhas acham engraçado que a amiga não tenha o mesmo sonho que elas: casar e ser mãe, quando crescer.
          Embora nunca tenha contado para a filha a parte fantástica do encontro das duas, Bartira intui que ela deva ser africana, por conta das entidades. A microempresária não rende as especulações de Benivalda, que também não sabe sobre Makonga e as outras. A avó considera inútil essa curiosidade da neta e julga que esse ‘país’ só tem miséria, baseada apenas no que o telejornal informa sobre o continente. As duas, afrodescendentes, continuam sem se interessar pelo que Miwa tenta apresentá-las sobre a África, embora Bartira se esforce para ajudar a filha, dentro das suas possibilidades econômicas, a ter acesso ao que ela almeja.
          (...) Benivalda espera a sirene anunciar o término das aulas, para acompanhar a neta e duas coleguinhas. No caminho de volta, pergunta à Miwa, que desponta como a aluna com as melhores notas da classe — e que não sente falta da ‘figura paterna’ na sua vida —, o que ela quer ser quando crescer.
          — Uma mulher como a senhora e mainha.”


          “Burianã prefere não se envolver com as reivindicações do povo Pataxó — como a questão da Terra Indígena Barra Velha, homologada pelo Governo Federal, que não compreende a totalidade do território tradicional, sagrado e de posse secular, dos Pataxós; as tribos têm de se contentar com a área de recursos mais escassos, dentro do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal —, evita saber dos problemas da aldeia e não participa dos encontros para fortalecer a causa. O que importa para ele é ser aceito como um legítimo morador de Caraíva; porém, Burianã conquistara apenas o respeito e a amizade de alguns colegas de trabalho, e a tolerância de outros, caso se adeque às necessidades alheias ou não cometa deslizes — o neo-brasileiro deprecia e exclui o autóctone, a considerá-lo um desperdício, um estorvo a ser removido, como a árvore que atrapalha o pasto, o animal a ser abatido.”


          “O abneto de Mbamba é assassinado, com dezenas de facadas. A polícia não quer investigar; afirma, extraoficialmente, que é ‘coisa dessa ciganada’. O jornal dá uma nota curta, bem abaixo da manchete sobre a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, classificando-o como um criminoso, a inventar que fora morto por comparsas de bandidagem, provavelmente por dívidas. O grupo fica visado, ocorrem algumas retaliações, e os mais velhos não reclamam o corpo. A jovem tenta organizar o enterro, mas é coagida por um dos ciganos, que a culpa pelo ocorrido e a jura de morte. A polícia, outra vez, nega-se ao seu dever; afirma, extraoficialmente, que é ‘briga de preto com cigano’. Ela consulta a mãe e aceita o conselho: vai para o Rio de Janeiro, morar com o pai, até que o grupo saia de Uruguaiana. Na cidade vizinha de Paso de los Libres, do outro lado do rio Uruguai, dois argentinos planejam uma nova tocaia contra o maneta, pois querem recuperar a quantia perdida nas cartas, e combinam de não matar mais nenhum outro cigano — posteriormente, a família de um desses assassinos abrigará um comandante nazista, que escapará dos julgamentos em Nuremberg e não sofrerá qualquer punição pelos crimes de guerra praticados contra judeus e minorias.”


          “Há uma rebelião. O filho aproveita para fugir da cadeia e da cidade. Sozinho na estrada e sem documentos, é sequestrado e escravizado. De nada valem os argumentos ou as tentativas de resistência; apanha muito. Mesmo machucado, é exposto à venda no mercado, e conhecidos o ignoram. Ele treme as correntes e tenta atingi-los com cuspes e palavrões. É punido, a chicotadas. A sua irmã Bárbara, a acompanhar uma comitiva da recém-chegada corte portuguesa, com a presença do príncipe regente, finge não ver o irmão. Ele clama, berra o seu nome, e a porrada que leva interrompe as palavras. Ela, ao longe, diverte-se com a sina do jovem — de certa maneira, profetizada nas maldições que lhe lançara. Ele desmorona; sente que nenhum castigo é capaz de provocar mais dor do que a renúncia do próprio sangue diante de um pedido de socorro.”


          “Ele toma a iniciativa, realiza o pedido. Ela reorganiza o seu planejamento, licencia-se do emprego e vai testar o romance, nas terras do namorado. Ele a surpreende: é muito amoroso e a quer como esposa. Ela o valoriza, pois essa convicção é semelhante a que o seu pai, engenheiro soteropolitano, dedicara à sua mãe, professora cachoeirana. Ele a elogia e a faz sorrir. Ela sente falta do mar, mas se habitua aos morros e à culinária; adequa-se ao ritmo do interior, mais cúmplice aos novos objetivos de repensar a vida e se refazer como mulher e profissional. Ele apoia e incentiva as suas mudanças. Para ela, o namorado é caprichoso, pois a sua casa é muito bonita e confortável. Ele informa que é a maior de Nanuque, decorada pelas mulheres da sua família, que parecem não se importar com o relacionamento inter-racial, ou estão a aturar, por respeito. Ela, que desde a conquista da independência financeira jamais fora sustentada por um homem, recusa implícita da sua afirmação como mulher capaz, diverte-se com a sensação do ‘por que não?’. Ele admira a sua inteligência e, embora desconheça o tipo de trabalho da namorada — homem de lida prática, compra e venda —, Ranolfo sugere que Antônia não se aparte dos estudos e, sem saber a dimensão do conhecimento da pesquisadora, indica: há os índios Maxakali, habitantes da região do Vale do Mucuri.”




          “— Mão na cabeça! Mão na cabeça!
          Sem mudar a expressão, coloca as duas mãos na cabeça, devagar. O policial quer aplicar o baculejo, mas Montanha não permite: todas as tentativas de Robinson fracassam. Então, ele aponta a arma e anuncia que vai atirar. Montanha o encara e a mão do policial treme. Robinson questiona a vulnerabilidade do alvo e interrompe o tiro. O outro agente, de codinome Corumbá, trajando calça social e camisa de botão, desliga o motor, desce da viatura e se dirige ao alvo.
          — Vai me obedecer, fi da peste, ou prefere morrer aqui, nesse exato instante?
          Corumbá tem o olhar do deserto, imune ao outro, sem a misericórdia dos líquidos. Montanha reconhece que, se esse homem engatilhar o seu revólver, vai disparar, e permite que o policial ponha as algemas. Corumbá faz, sem tocar na sua pele, e abre a porta traseira da viatura.” 


          “São Francisco do Conde domina, desde o primeiro tempo, mas é Porto Seguro que está largando na frente, rumo à semifinal, graças a um único lance efetivo do seu ataque na partida. Os franciscanos não querem perder e atacam com todos os recursos, até o último lance: o armador dribla Lúcio, corta para a direita, toca rasteiro para Johnny Junior finalizar, de primeira, livre da marcação de Rallex. Numa ponte baixa, esteticamente ofídica, Montanha defende, rente ao campo, a inspirar o aroma da grama recém-cortada, e a bola vai para a lateral, empurrada pelas mãos que aparentam, vistas da arquibancada, feixes de luz de sete cores, a fremir as miríades espectrais de uma garoa ensolarada.
          Final de jogo. A torcida é só aplauso e cânticos, esquecendo-se da atuação denunciada pelas vaias, pois o que lhe interessa é o resultado. E o nome da partida corre para dentro do vestiário, sem responder aos repórteres, a desviar dos cumprimentos.
          Bip-bip concentra os seus comentários pós-partida no produto:
          — Montanha, o goleiro que não toma gol, faz história na Toca com uma performance nunca antes vista!”


          “Hedda escuta a enxurrada e, ao se virar na direção do Oceano Atlântico, observa-o se abrir numa cratera, a sugerir o sem fim. Sussurros... sussurros... muitos sussurros... Ao seu lado, uma nobre fala, sem boca, com a voz fria do deserto à noite: ‘A criança é nossa.’ Bate três vezes o cetro, de marfim e ouro, no chão de terra vermelha. ‘Mbira-Miwa.’ A velha não se move. A entidade Mopmadogara se acerca, e as abelhas-africanas da sua coroa zumbem, o leopardo-africano do seu manto rosna. ‘A criança é nossa.’ As pulseiras de ouro, os braceletes de búzios e os anéis de prata tilintam; a bata, as rendas, as saias, o laço e os fios de contas espetam. ‘Mbira-Miwa.’ As esferas translúcidas, que são os seus olhos, refletem as unhas das patas de pantera negra, que são os seus pés, a arranhar o solo. ‘A criança é nossa.’ Hedda ouve um canto, mântrico, que debulha o seu espírito da nuca, entoado pelos índios, em uníssono. Mopmadogara segura as suas mãos e as sacode. ‘Mbira-Miwa.’
          A velha desperta, completamente entregue ao chamado do inefável. A razão? Inútil. O assombro? Total. A última imagem do sonho reverbera a sina em todo o seu corpo: o interno ‘M-23/SKW31’, embalado por um casal de negros, vestidos como antepassados, balbucia, chora e reclama por comida.”


          “O baiano não joga pelada ou racha, e sim ‘bate o baba’ — no masculino, com o verbo de ataque. Pois o baba vai começar na Aldeia Mãe Barra Velha, atração mais esperada pelos moradores. O jogo de futebol para descontrair tem o limite de sete jogadores para cada time, que se enfrentarão no campo de areia. Quase todos estão descalços e a idade é variada; panças a contrastar com a magreza dos adolescentes, o consenso como juiz. As traves não têm rede e não há uniformes: é um time com a camisa que o jogador estiver vestindo, e o outro sem.
          O baba começa sem Marcelino, que dá autógrafos e dribla alguns pedidos de emprego à beira do campo. O cacique chama o artilheiro de lado e solicita o seu apoio na causa da ampliação de terras para a reserva indígena. Ele desconversa, tenta se manter neutro, e a verdade não vem à tona: é partidário dos fazendeiros, contrários à revisão do território, o que provocaria a perda das suas produções de frutas, cacau e café, além dos rebanhos de gado — Marcelino não acredita na capacidade gestora dos índios e considera a reparação uma tolice ideológica; segundo ele, o passado é morto, e o presente não deve pagar a conta.”


          “O motor continua ligado. Miwa desconhece o modelo, que figura ser um crossover de utilitário esportivo com coupé, sem arranhões e amassados; totalmente limpo, inclusive os pneus; sem placas, marcas e adesivos; de cor preta total: lataria, detalhes, calotas, faróis e vidros.
          Sem sair do veículo, a entidade Mensawaggo, a transportadora, abre a porta do passageiro. Com a pele negra e os olhos brancos, sem pupilas, está vestida de poeira cósmica multicolorida e ornada de constelações — as mais evidentes são Mensa, Volans, Dorado, Chamaeleon e Serpens. A entidade se direciona à jovem e, com a voz cujo som é a brisa do oceano, fala:
          — Entre.
          Miwa pressente que a entidade vem do alto da Table Mountain — principal marco da Cidade do Cabo, na África do Sul, também chamada de Huriǂoaxa, na língua dos nativos Khoekhoe —, uma montanha de cume plano, onde habita e costuma observar, a mais de mil metros acima do Oceano Atlântico, a dinâmica da cidade, sem ser vista pelos seres humanos, que visitam o lugar e não a incomodam, e também os movimentos das estrelas, a se comunicar com outras entidades, interplanetárias.”




          “O carro estaciona num descampado; de um lado, o rio, do outro, a mata, onde a rua termina. O único ponto de luz são os faróis acesos. Marcelino bole na arma. Ninguém desce. O técnico vira o rosto à janela; não há como fugir.
          — Patchara, eu te pago muito bem, o serviço é simples... Basta passar recibo do que eu quero pro meu time. Só isso...
          Taca Fogo mexe nos sacos de compras, retira uma barra de chocolate, abre e come um pedaço. Acha bom e oferece para Xandão, que recusa, balançando a cabeça.
          — Mas o que você faz, patchara? Queixão, me confronta na frente dos meus funcionários...
          Marcelino desliga os faróis. Ao redor, alcatrão. O técnico se amaldiçoa por ser um romântico imprudente. Pressupõe a morte e as lágrimas escorrem. Taca Fogo percebe a fraqueza e quebra outro pedaço da barra; o som da sua mastigação se confunde com o barulho dos seres na mata.
          — Você se acha um valente, mas é um mané, uma gazela...
          O capanga ruivo manda Xandão abrir a boca. O técnico sente que o cano da arma tem um gosto de cabo de faca de alumínio.
          — Por sua causa, o meu time quase perde...
          O motorista abre a porta, sai do carro e começa a cortar as unhas das mãos. Faz-se luz, a interna do veículo. O empresário permite a quebra do sombrio na tortura.”


          “‘Parece uma víbora verde de Gumprecht’, Bartira recebe. Ela sobe na cama. ‘É enorme’, Bartira não se mexe. Ela se aproxima. Bartira não teme. A entidade Makonga, a mensageira, manifesta-se.
          Ela percorre o corpo da mulher e, ao vibrar a língua, transmite a mensagem com uma voz cujo som é o sopro de um mosquito a deslizar o sussurro à superfície de um lago:
          — O que amadurece, logo cai... Bacuri! Sssssss... Esse fruto não se colhe, se coleta... Bacuri! Sssssss... O tempo de maturar não se identifica, se pressente... Bacuri! Sssssss... Na foz do mangue... Bacuri! Sssssss...
          Makonga, a mensageira, vem do lago onde habita, um dos mais profundos da Terra — chamado de Niassa, Malawi ou Nyasa, entre Moçambique, Malawi e Tanzânia, na África Austral; costuma manter-se próxima à ilha Chizumulu, para visitar os baobás sagrados —, até as entranhas da imaginação de Bartira.”


          “O prefeito se levanta e circula pelo gabinete. O dirigente prefere um gole de água. Silêncio. Juvêncio recebe, por mensagem, a confirmação da presença de Dom Brito na final, mas não há resposta sobre a reunião com os espanhóis. Romualdo Canindé volta a se sentar e beberica o café. Lamenta o gosto amargo e tem dúvida: açúcar ou adoçante?
          — Não sei...
          — Ô, peste! Você quer o título, fala nisso sempre!
          — E desde quando o que se fala é o que se é?”


          “A divindade Mutujikaka reaparece, dentro da lagoa. Mambezi e as suas vinte e duas percussionistas, Mopmadogara, Makonga e as suas serviçais lhe prestam reverência. Mensawaggo e Mokamassoulé fariam o mesmo, mas ainda não estão presentes neste plano. Todas são obedientes à hierarquia dos regentes extraordinários: a divindade é superior e não se vincula ao mundo material como as entidades, que são seres híbridos, formados pela fusão de compostos imanentes e transcendentes, a habitarem o concreto dentro do invisível ou o suposto dentro da certeza. Mutujikaka se despe do saião verde. Não há genitais. Aproxima-se de Mihasoa.”


          “A torcida lota o Toca do Guaiamum, primeira partida das quartas de final do Amadô (...) Balões são soltos, torcedores pulam, entoam cânticos, abrem cervejas, a tremularem faixas e bandeiras, mulheres e homens na percussão, e os bumbos são batidos com vontade. Os times ainda estão no vestiário.
          Uma mosca dribla os feitos dos torcedores, e a disritmia do seu voo guia a fuga para longe da vibração da massa em êxtase, do que pode lhe ser fatal: alegria, gritos, amor. Da arquibancada, o inseto desce ao campo num rasante e o atravessa, a se refugiar no vestiário da equipe porto-segurense. Na parte dos fundos, pousa próxima a quem sempre se afasta dos gritos de felicidade e das interpretações passionais do que é o amor. Talvez pressinta que este ser não tentará exterminá-la; os braços se agitam apenas para vestir o que falta do uniforme de trabalho — uma camisa amarelo-escura, de manga longa, com faixas pretas nos ombros e na gola, número 23.
          A vibração dos torcedores se irradia pelo estádio e adentra o vestiário. Montanha fecha os olhos e capta a energia da massa, a força que faz do futebol um fenômeno imaterial, também. O capitão Nilson organiza os jogadores num círculo de oração — muito mais um gesto de afirmação do compromisso coletivo do que um culto.
          (...)
          — Chega mais, galalau, é todo mundo junto! — O artilheiro provoca. Montanha não abre os olhos.
          — Ele deve ser da macumba, Deus é mais! — Ramón imita a postura do pastor da igreja que frequenta.
          — E se ele for do axé, é da sua conta? Desinfeta, crente! — Digo Cabral não deixa passar uma fobia sequer, exceto as suas.
          — Ô, porra, calem a boca que é a reza! — Marcelino não permite desavenças entre os jogadores. E ninguém questiona a sua ausência na última partida.
          Dez titulares e sete reservas se abraçam, oram um Pai Nosso. Nem todos são protestantes ou católicos. Nilson gosta de livros espíritas. Marcelino, que respeita o poder dos líderes religiosos e se beneficia dessa influência também nos seus negócios, é ateu não declarado, e reza de olho aberto, cabeça para cima, a pensar na farra depois do jogo, na casa de um amigo empresário, dono de barracas de praia e de puteiros.”


Presentes no romance “oroboro baobá” (Penalux, 2020), de Emmanuel Mirdad, páginas 09, 81-82, 174, 175-177, 233-234, 271-272, 119-120, 37-38, 170-171, 248, 294-295, 311, 210, 22-23, 27, 17, 39-40, 15, 72-73, 225, 94-95, 62-63, 58, 52-53, 45, 192-193, 142-143, 287, 64-65, 158-159, 126-127, 70-71, 264, 243 e 137-138, respectivamente.


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