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Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1940 (parte 2)

Clarice Lispector por De Chirico (1945)


“(...) sempre penso, com muita estranheza aliás, que talvez a vida seja a morte e quando a gente morre, acorda e vive, com medo de morrer, quer dizer, de tornar a viver”


“(...) Você disse que não queria que a Marcia fosse artista de nenhum modo. Querida quem faz arte sofre como os outros só que tem um meio de expressão. Se você vê por mim está vendo errado. Eu sofro com o trabalho não é pelo trabalho só, é que além do mais não sou muito normal, sou desadaptada, tenho uma natureza difícil e sombria. Mas eu mesma, com esse temperamento e essa anormalidade de todos os instantes — se eu não trabalhasse estaria pior. Às vezes penso que devia deixar de escrever; mas vejo também que trabalhar é a minha moralidade, a minha única moralidade. Quer dizer, se eu não trabalhasse, eu seria pior porque o que me põe no caminho é a esperança de trabalhar. Mas quem faz arte não é como eu, querida. Qualquer pessoa que escreve, por exemplo, riria disso que eu sou porque não tem nada a ver com arte.”


“(...) Álvaro Lins dizendo que meus dois romances são mutilados e incompletos, que Virgínia parece com Joana, que os personagens não têm realidade, que muita gente toma a nebulosidade de Claricinha como sendo a própria realidade essencial do romance, que eu brilho sempre, brilho até demais, excessiva exuberância... Com o cansaço de Paris, no meio dos caixotes, femininamente e gripada chorei de desânimo e cansaço. Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque tem um temperamento infeliz e doidinho. Um desânimo profundo.”


“(...) O pessimismo passou, mas o bom propósito não: farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor. Espero com Pedrinho não exagerar — serei mais útil a ele assim. Por falar nele, está engraçadíssimo, rindo à toa. Não há na carinha dele nenhum traço que lembre sequer algum meu. Ele é totalmente Maury, ou melhor, a família de Maury. Até traços de d. Zuza ele tem. Acho que me impressionei demais com ela... Às vezes fico com pena, porque passei por todo esse trabalho sem deixar um sinalzinho meu ao menos...”


“Estou com o livro [A cidade sitiada], por assim dizer, terminado. Deus sabe que ele não vale nada, querida. Creio que nuns dois meses posso dá-lo como encerrado. Acontece que vou encerrá-lo porque já tenho nojo dele. Foi o trabalho que mais me fez sofrer. Já são três anos que viro e mexo, abandono e retorno. (...) Esse livro foi mil vezes copiado (...) Um dia desses, pegando numa das cópias mais recentes (bem diferente da de agora) — me deu náusea física à medida que me lembrava de como sofri por cada pedaço (...) Enfim, querida, o livro não presta. Não evoluí nada, não atingi nada. Continuo com os pés no ar, continuo vaga e sonhadora, deslocando de algum modo o sentido da vida. Que Deus me perdoe. Três anos — para chegar a isso. Virei e revirei tanto o livro que já não entendo o seu sentido. Dá vontade de gritar de tanta impotência.”


“(...) Não sei se você sabe que a Agir não quer ou não pode publicar meu livro [A cidade sitiada] — o fato é que a resposta foi negativa. De modo que estou sem editora. Estou com vontade de mandar (...) o livro para o Brasil. Você dê ao Lúcio para ler. Ele talvez arranje editora para mim. Se não arranjar, não tem importância. O que eu quero é que este livro saia daqui. Melhorá-lo é impossível para mim. E, além disso, preciso com urgência me ver livre dele. (...) Não tenho coragem de pedir a você que o leia, querida. Ele é tão cacete, sinceramente. E você talvez sofra em me dizer que não gosta e que tem pena de me ver literariamente perdida...”


“(...) Saiu no boletim do Ministério, saiu que todo o pessoal masculino da Itália foi condecorado com cruz de guerra por serviços prestados à FEB. Então incluídos personagens que chegaram à Itália depois da guerra terminada..., e uma datilógrafa também. O nome de Maury foi excluído, não se sabe por que, talvez porque ele esteja na Suíça; é uma vergonha. Tinham falado que até eu ia ser condecorada pelo trabalho no hospital...”


“(...) Quando se trata de dizer por que gosto de uma coisa, silencio: mas se tudo está como deveria ser, como eu queria que fosse, que mais dizer? Também diante da natureza, grande e completa, não tenho palavras”


“É uma pena eu não ter paciência de gostar de uma vida tão tranquila como a de Berna. É uma fazenda. (...) o silêncio que faz em Berna — parece que todas as casas estão vazias, sem contar que as ruas são calmas. Dá vontade de ser uma vaca leiteira e comer durante uma tarde inteira até vir a noite um fiapo de capim. O fato é que não se é a tal vaca, e fica-se olhando para longe como se pudesse vir o navio que salva os náufragos. Será que a gente não tem mais força de suportar a paz? (...) É engraçado que pensando bem não há um verdadeiro lugar para se viver. Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes. É tão esquisito estar em Berna e tão chato este domingo...”


“(...) Você me pergunta se eu tenho trabalhado. Não sei se tenho trabalhado: meu trabalho não tem aparecido. Acho que ele consiste na maior parte do tempo em me vencer. Em vencer meu cansaço e minha impotência. Acho que meu trabalho de elaboração é tão exaustivo que eu depois não tenho o ímpeto e a força da realização. É um trabalho acima de minhas forças, eu diria, se ao mesmo tempo não visse que o que eu escolho para fazer é a única coisa que posso. (...) O trabalho está desorganizado, está muito ruim, muito confuso. Material eu tenho sempre e em abundância. O que me falta é o tino da composição, quer dizer, o verdadeiro trabalho. Minha tendência seria a de pensar apenas e não trabalhar nada... Mas isso não é possível.”


Presentes no livro “Todas as cartas” (Rocco, 2020), de Clarice Lispector, páginas 307, 228-229, 231, 391, 344, 375, 268, 423, 215 e 241, respectivamente.

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