domingo, 6 de dezembro de 2015

Cinco passagens de João Filho no livro Ao longo da linha amarela

João Filho (foto daqui)


"(...) a pose, sim, a pose, que é o emblema mais elucidativo da psique tupiniquim. Possuidores que somos dessa maldição inerente aos trópicos: a casca como sentido do supérfluo, a evidência do oco tido como essência última. (...) O mal comum – doméstico e público, vulgaridade que é força e não debilidade, feito erva ruim infensa ao jardineiro mais hábil – é que é a labuta mais ranheta. Adianta extirpá-lo pela raiz? O barro de que somos feitos é fértil demais para essa invulgar renitência. Convive-se. E alguns só pensam em podá-lo quando sua ramificação já se tornou intolerável para a fachada externa. A manada é cega para o matagal. (...)"


"Reto nesta cidade nem a linha do horizonte, minha cara. Não há salvação, é crescer e afundar. É tudo tão de quinta que o menos pior é sub-sub. (...) Marinho, o vento explicita o visguento que esta cidade cachorra é. Ladeiras cardíacas onde silvam, junto com o vento, rojões. Os fantasmas sanguissedentos, solitários sempre, nos ossos e baço. (...) o primordial planejamento desta urbe se deu em dois planos estratégicos para defesa e, nunca esqueçamos, massacre, pilhagem e fuga. Nós, humanos, somos interessantíssimos, avançar quase sempre é destruir. (...) O mapa-intestinal que sonhei lograr desimporta. Toda cidade é uma mesma cidade. O que somos não deixará de ser se mudar a paisagem."


"(...) uma solar manhã de domingo desperta algumas linhas da infância que valem o universo; o translúcido desse minuto que respira em tudo. São nesgas que seu espírito e suas pernas trabalham enquanto atravessa. Com toda frieza falha de sua lógica, ele sabe que é inegável: aquilo que apenas suspeitamos, mas é imprescindível para estarmos aqui. Todo negativismo bitolado em decadência é o que ele não quer mais, nem a náusea conceitual e interesseira, nem o enfado do seu século, nem a gula pelo número, nem as filosofias que antecipam, planejam e executam o terror."


"Se não me ocupo, me perco. Vou alinhavando esta trama pelos veios da Soterópolis pra ter algo parecido a sentido, mesmo que a ascese seja para os lados, horizontal, mas aplaca momentaneamente nossa sede de transcendência. Ocupação de certo modo nociva, porque foi pela hipótese que o maníaco que em nós mora queimou gerações (...) Zarpo num coletivo que veloz atravessa a urbe-labirinto que é inferno mais ou menos controlado; cidade a inchar não convulsa de todo ainda, metal-flux a dar contorno ao cimento armado que cresce em suas encostas, baldios, supersubúrbios; cidade banhuda (...)"


"Ao sair da infância (que ele, o mais novo, alongou ao máximo), se encontrou com o turbilhão das possibilidades girando dentro da sua inexperiente cabeça, ele fez sua escolha: a inércia. Não o culpem assim tão depressa, pois o turbilhão era tanto que o coitado ficou imóvel, o que é comum. (...) Meu neto povoou o mundo com seus pesadelos e foi admirado por isso. Se fez disso seu trabalho e subsistência, não podemos chamá-lo de tentativa de ordem, e sim de distribuição utilitária do caos. A negação semeia somente anomalia, não importa se para um indivíduo ou para milhões."





Presentes no livro de contos Ao longo da linha amarela (P55/2009), páginas 44-45, 32 a 35,
08-09, 19 e 10-15, respectivamente.

Nenhum comentário: