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Dez passagens de Cristovão Tezza no romance O professor

Cristovão Tezza (foto daqui)


"(...) eu já passei da fase das amizades, tudo agora é essência bruta (...)"


"(...) O Inspetor Maigret – ele imaginou alguém assim, um homem sutil, discreto, cachimbo à mão, capaz de compreender as finas camadas de realidade que, como chapas delicadas de gelo finíssimo, celuloides nervurados, repousam sob a aparência suja e descuidada das coisas, à espera de uma inteligência que as interprete – conversava com dona Diva diante da mesa da sala, enquanto um outro policial lhe estendia um copo d'água. (...)"


"(...) A idade talvez promova a conciliação universal – a velhice, esta tranquila proximidade da morte (e ele sorriu, misteriosamente vingativo, como se fosse ele a figura da foice, e não sua vítima), nos põe todos às portas da utopia. (...)"


"(...) Eu já disse que ela não era exatamente bela, assim, das transbordantes – era bonita de uma forma estrangeira, ou não conciliada, as linhas talvez retas demais; uma certa dureza de traços, o queixo fino de francesa e sempre ligeiramente arredio, a se livrar de um freio imaginário; o nariz afilado e misteriosamente vivo, como se ele ainda fosse para os humanos um elemento importante no reconhecimento dos valores do mundo, às vezes brevemente empinado, no esforço sutil de apreender o inapreensível. (...)"


"(...) as pessoas se impressionam com os sonhos. A grande vantagem deles é que não são responsabilidade nossa; eles sempre vêm de algum lugar ignoto para atormentar ou iluminar a nossa vida; e guardam um misterioso resíduo pré-histórico, como se alguém muito mais sábio e importante do que nós estivesse mandando uma mensagem cifrada que, corretamente interpretada, abrirá as portas do paraíso. Somos apenas o meio de realização de um projeto cósmico que não é de nossa responsabilidade, que está em outras mãos, por assim dizer (...)"


"(...) Naquele tempo não havia internet, uma invenção que foi solapando e corroendo incansavelmente a hierarquia mundial de todas as coisas, a ponto de esmagar, mal rompe a manhã, qualquer critério de valor. Era democracia que vocês queriam? Aí está. Eheh. Eis o que eu diria, se me perguntassem: é preciso manter o aluno no seu lugar, que aliás é um lugar respeitável e até bastante confortável: alguém que, pelas regras da civilização, é subsidiado para prestar atenção nos outros. Não é tão duro assim."


"(...) O século XX foi, com toda razão, o século das vítimas. Por onde quer que se andasse, montanhas de vítimas. Algumas terraplanadas nuas e secas em covas coletivas. Outras gordas e bem nutridas: vítimas. Vítimas armadas e vítimas desarmadas. Todos vítimas. A maior hipertrofia de vítimas da História da Humanidade. A vontade própria, essa birra adolescente, ou a escolha, esse anacronismo bíblico, ou o livre-arbítrio, essa excrescência filosófica, tudo se refugiou mais abaixo que os subterrâneos. (...)"


"(...) Toda família tem um piadista, alguém leve, sorridente e feliz movendo-se como uma borboleta no meio dos torturados. (...)"


"(...) felizmente nunca me tornei um pedófilo – isso posso garantir. Uma pessoa menos forte teria sucumbido às investidas que sofre um adolescente por um cônego fescenino. Às vezes passará o resto da vida tentando reproduzir a cena soturna (ela é sempre soturna, sussurrada) com os papéis invertidos – eu li alguma coisa assim. (...) Há quem, unicamente por esta breve sinapse interrompida, passe a colecionar pessoas em pedaços no porão das casas, cabeças no fundo de um freezer, mãos enterradas sob um pé de jabuticaba. (...)"


"(...) por que as pessoas não reconhecem a beleza no exato instante em que a veem na frente? Porque a beleza é uma conquista, ele explicou: ela precisa ser descoberta, amada e cultivada. Uma conquista. A beleza não cai da árvore. Professor, mas se a beleza é uma conquista, ela já está pronta, não? Basta encontrá-la. Não seria melhor dizer que a beleza é inventada? Isto é, as coisas estão indiferentes diante de nós, e nós inventamos a beleza. Fez-se outro silêncio no anfiteatro. Um garoto brilhante. Sentiu mais uma vez o travo da culpa, como se o professor deixasse passar um diamante, jogasse-o fora com indiferença. Lembro vagamente de ter dado uma resposta ríspida. (...)"





Presentes no romance O professor (Record, 2014), páginas 12, 43, 67, 102, 116, 62-63, 35, 68, 32 e 10, respectivamente. 




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