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Oito passagens da coletânea de contos “Histórias e histórias da Bahia” [org. Fernando Oberlaender]

 


“(...) em juízo, Dr. Gama defendia a memória de quatro escravos, cujas esposas estavam sendo acossadas por seu senhor, que com elas queria se deitar à viva força. Os quatro maridos juntaram-se e o mataram. Réus confessos, dirigiram-se à delegacia para se entregar e lá foram linchados. Ocorre, porém, que Dr. Gama se recusava a classificá-los como homicidas, conforme estabelecia o Código do Processo Criminal. O juiz municipal que conduzia o caso indagou se o fato de os escravos terem assumido a autoria do crime já não era matéria suficiente para enquadrá-los, ainda que postumamente, na categoria referida, ao que, de imediato, Dr. Gama respondeu, como se já esperasse pela questão: ‘O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa’. Nesta hora, a plateia se pôs em polvorosa. Uns gritaram-lhe ‘louco’, outros, ‘herói’. No auditório, então dividido entre os que corroboravam e os que rechaçavam a tese do advogado, voaram livros e cartolas; uma cadeira de palhinha foi arremessada no corredor, e as bengalas suspensas de alguns homens mais biliosos anunciavam um desfecho dramático. Os guardas não puderam conter a confusão generalizada, boa parte dos espectadores correu para fora do tribunal, e o juiz se viu obrigado a encerrar a audiência.” [por Wesley Correia]


“(...) Aquela gente simples demonstrava nas feições e nos seus modos de ser as marcas de suas origens. Eram filhos e netos da mistura fecunda de índios, negros e brancos pobres, matriz formadora do povo que este país gerou em suas entranhas, e pariu entre dores, gritos e vontade de existir, sobreviver e prosperar. Uma gente forte e resistente aos ferros, aos grilhões, aos tiros, ao estupro, à expropriação, ao assassinato, ao tronco, à forca e às prisões. Sobreviventes da exploração imposta pelos usurpadores da terra e dos sonhos. Eram eles trabalhadores recém-saídos do regime de escravidão e ainda submetidos aos latifúndios, e que não conheciam a mais pálida concessão de quaisquer direitos. Não tinham acesso nem à educação nem ao voto. Não podiam votar nem ser votados. Não contavam como cidadãos nos planos da ordem e do progresso, senão como meros servos da gleba, à mercê das violências oficiais. A eles não era dada a ágora da polis, mas os eitos do trabalho braçal e semiescravo. Eram explorados enquanto detinham força e saúde para servir aos donos da terra, submetidos ao dispor dos maiorais. Depois, se fracos ou doentes, menos produtivos ou excedentes, eram desprezados, deixados ao desemparo e à míngua.” [Aleilton Fonseca]


          “Severino... Parecia que Juliano tinha sonhado com ele, ao acordar no dia seguinte. Teve vontade de parar e conversar uma hora com Severino. Adiou. Mas um resto de mau sentimento ficou no caminho da escola, que lhe trouxe quase um pânico ao entrar na sala e ver seus colegas corados. Afinal, com quem Juliano mais se parecia? Talvez tivesse algo muito errado mesmo em ele estar ali, e o professor de História Clássica estar certo. Cada qual no seu cada qual, ou Severino podia pelo menos só ficar no sobrado, consertando as coisas, ou preparando o carvão na cozinha.
          Juliano não conseguia brincar no recreio, em casa não conseguia brincar com os outros filhos das domésticas, respeitavam-no demais, e os filhos dos cativos nem encostavam, recebia logo ordem expressa das mães, baixando a cabeça para o garoto. Ele não fazia mais parte de nada. Porém, quando abria um livro ao chegar em casa, estava em algum lugar de todos. Tanto faziam se eram as experiências de Pasteur, o Cosmos de Humboldt, as aventuras de Gulliver, os crimes de Edgar Allan Poe...” [Saulo Dourado]


“(...) Praça Castro Alves. A moça se move, e o sol que a iluminava pelas costas passa a mostrar o rosto. É magra. Olhos melancólicos. Eu não a vi há pouco, na sala ao lado, em uma outra foto? Carregava na cabeça um cesto largo com bananas, uma criança nas costas. Não posso ir verificar agora. Quero ver o que o jovem vê. E seu olhar é amoroso para esta moça que arruma frutas em sua banca; os olhos baixos na lida e no alheamento de ser contemplada. Ele lhe pede para dizer não. Custo a entender do que se trata. As coisas são assim, ela diz. Não se pode dizer não. Ela fala de seu lugar no largo, o lugar do jovem no barco, os trabalhos que conseguem. É preciso aceitar o que é oferecido. Ela não diz assim diretamente. Fala de sua mãe, uma liberta, e de como são pequenas as liberdades e do quanto se depende dos outros para ser livre. Um não que se diga pode aprisionar por muito tempo. É preciso aceitar o que se oferece e o que se pede em troca. Ela termina de arrumar algumas bananas em um balaio, coloca-o na cabeça e se afasta.” [Marcus Vinícius Rodrigues]


“Oito de dezembro de 1873. Antes da abertura oficial do Elevador Hidráulico da Conceição, ele pediu para que todos rezassem uma Ave Maria, em homenagem ao dia da padroeira de Salvador, Nossa Senhora da Conceição da Praia. Em seguida, virou-se para os trabalhadores e discursou: ‘As grandes ideias jamais se realizam sem grandes sacrifícios. Pela altura de sua torre e extensão de seu túnel através da rocha viva, eu bem que sabia que a empresa haveria de encontrar obstáculos perante a indústria acanhada e rotineira da província, por falta de conhecimentos teóricos e práticos de uns, pela dúvida e incerteza de outros, e, finalmente, pela descrença de muitos, que, longe de auxiliá-la com seus capitais e influência, consideravam e propagavam ser uma utopia’. Neste primeiro dia, o elevador funcionou até às dez da noite. Transportou sem problemas mais de seis mil pessoas. Aos poucos, o medo de muitos parecia ter se dissipado.” [Suênio Campos de Lucena


“Não sei o que ele viu em Agnese. Em princípio, teve os olhos parados em seus olhos, mas logo os deslocou para as rendas que enfeitavam seu regaço. Estivesse aquele homem no meio de um terremoto e talvez mantivesse o olhar fixo no colo que contemplava. Durante o primeiro encontro, subitamente murmurou: ‘Como é bom, o teu sorriso..!’ Com essa frase única, abandonou a sala. Conforme eu já disse, não sei exatamente o que sentia Castro Alves. Conheço a intimidade da mulher. Fecho os olhos, recordo a menção ao seu sorriso e o universo estremece e ausenta-se. Basta!” [Mirela Márcia Longo]


“Do dia para a noite, eu, o dono da Linha Circular de Carris da Bahia, uma das mais importantes empresas de bondes de Salvador, merecedora de altíssimo conceito e prestígio junto à sociedade baiana, sofreria as consequências funestas de uma condenação que me traria, neste ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1892, a este Asilo São João de Deus, de doentes mentais, onde, aos 44 anos de idade, vejo com infinita tristeza findar os meus dias. Oh, Bahia madrasta!, que paga o gênio dos seus mais brilhantes filhos com a moeda do opróbio e da ingratidão.” [Carlos Ribeiro]


“(...) Ali, sangrava, doendo lágrima a lágrima, debatendo-se entre a dor do ouro fundido atravessando a pele, a carne e o cálculo de um homem que, dizendo-se seu noivo, futuro marido e protetor, derretera as alianças de compromisso misturando-as à pólvora em nome de uma suspeita inafiançável.” [Clarissa Macêdo]


Presentes na coletânea de contos “Histórias e histórias da Bahia” (Caramurê, 2021), organizada por Fernando Oberlaender, páginas 82-83, 99-100, 53-54, 19, 66, 41, 33 e 74, respectivamente.

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