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Vinte e três passagens de Mayrant Gallo no blog NÃO LEIA! em 2008



“(...) A verdade, se existe, não está nas margens, mas de entremeio, na fronteira difusa entre realidade e delírio.”


“Não é raro que eu me decepcione com uma obra literária que foi para outra pessoa tão importante quanto o próprio dia do seu nascimento. É assim, e não pode ser diferente. Gostar de um romance ou de um poema requer uma história. E uma história compreende experiências pessoais, dias de chuva ou de sol, instantes ganhos ou perdidos, pessoas que amamos e que nos amaram ou que deixamos de amar, sentimentos perdidos ou jamais encontrados, desejos, desfeitas, medos, verdades incorporadas, outras renegadas, proibições terríveis e um punhado de fracassos que ao mesmo tempo detenham nossa presunção e alimentem nossos sonhos. (...) Pois o leitor é um ser que se abandona. Uma substância que se deixa vagar. Quanto mais tentamos controlá-lo, mais ele se desinspira. Se dilui, se tolda, se embota. O leitor deve ir como as nuvens, ao sabor das aragens e do acaso, movimentos capazes de desenhar o impossível.”


“Esta afirmação de Antoine de Saint-Exupéry: ‘O que buscamos vai morrendo conosco’. Diz tudo dos nossos sonhos irrealizados, que são a um só tempo o peso que nos sustenta no mundo e a leveza que nos ergue do chão...”


“Segundo algumas teorias modernas, e outras tão antigas quanto o mundo, a existência é uma repetição enfadonha. E assim será, mesmo que haja outra vida, pois tudo já aconteceu, está acontecendo e ainda acontecerá, infinitamente. E nós, igualmente, seremos sempre os mesmos, pois o futuro já foi, o presente ainda será e o passado está sendo. Eu próprio, em algum momento pretérito, já escrevi este texto e ainda o escreverei, quem sabe quando... Ou seja, continuaremos a ser quem somos, sem déficit nem acréscimo, por toda a eternidade. Consolador, não?”


“Aos que me dizem que olhe o horizonte respondo que olho o horizonte e não vejo senão o horizonte.”


Pensar é tudo
(20/11/2008)
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“(...) no livro Duas existências, de Jean Giraudoux, que reúne suas anotações diárias da juventude e da velhice, há um apontamento que não me canso de ler, há quase vinte anos, embora para algumas pessoas não signifique absolutamente nada: ‘Villegouin, segunda-feira de Páscoa, 1892. Uma bonita nuvem.’ O que tais palavras nos dizem? Que o jovem Giraudoux olhou para o céu e viu uma bonita nuvem, e que isso foi tudo o que lhe aconteceu naquele dia ou talvez o que de mais importante lhe aconteceu, a ponto de merecer uma anotação em seu diário? Talvez. E para mim o que elas significam? Sinceridade, naturalidade, espontaneidade, sensibilidade, poesia. Ou tão-somente a evidência de que muitas vezes a beleza — e o efeito que ela proporciona — não está na invenção, mas na surpresa, na imprevista aparição do simples num contexto em que se espera encontrar o exótico, o frenético. Muito do que escrevo tem esse propósito, mas só muito raramente chego a um resultado satisfatório. Talvez porque a profundidade do simples seja, em si, a mais difícil de alcançar. Bem-aventurados os que conseguem.”


“Não há graça na alegria, se não podemos compartilhá-la com o mundo. O problema é que, em geral, o mundo não a suporta. Mesmo os amigos, e não menos os parentes, são capazes de cobiçá-la por fraqueza ou então desdenhá-la, por inveja. Portanto, alegre-se em silêncio, entristeça-se sem público. Você certamente não será mais feliz, mas se aborrecerá menos.”


“Quando coloco um disco de Elvis Presley para tocar, minha mãe geralmente diz, com enfado: ‘O homem já morreu...’ O mesmo se dá com Elis Regina ou com um filme de Marilyn Monroe. O artista que morreu deve ser esquecido, sepultado com tudo o que fez e criou — parece que esta é a lógica. E não somente de minha mãe, com suas sete décadas de vida e sacrifício. É o que pensa muita gente, e bem mais jovem. It’s new or nothing.”


“(...) Passamos a vida nos esforçando em parecer verdadeiros e, no entanto, só o conseguimos quando, durante as fotografias em família, nos resignamos em ser falsos...”


“As pessoas não nos julgam pelo que somos, mas por não nos parecermos com elas, não pensarmos como elas; por encerrarmos outro ponto de vista, outra memória, outra experiência que elas jamais admitem existir e que, não satisfeitas, pretendem invalidar em favor de si mesmas. Por que Machado de Assis não é Kafka, nem Curzio Malaparte, Dostoiévski? Por que eu não sou você? Nem você é o poetastro que vende seus livretos de mesa em mesa, no bar? O cineasta Ingmar Bergman tem a resposta: ‘Tuas palavras servem à tua realidade; as minhas servem à minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada’.”


Faz sol lá fora
(14/12/2008)
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“(...) As amizades viraram cabides temporários para casacos de inverno molhados... E não duram mais que o intervalo de uma conquista, qualquer que seja ela... Passado o tempo das descobertas e depois o das decepções, das desavenças, elas prontamente morrem. E é bom que seja assim. É preferível. Menos um enigma à nossa volta, menos uma voz, menos uma esperança. Sou dos que caminham melhor sobre os escombros. Talvez por isso os filmes sobre o fim do mundo me atraiam tanto. Todos. É porque, de fato, bem lá no fundo, não acredito no gênero humano. Só acredito no Eu-digo, Eu-faço, Eu-posso, Eu-quero, pois é o que eu ouço e vejo todo o tempo. Só acredito no espírito ególatra, que é a verdadeira assinatura dos homens e a única confissão realmente autêntica, direta e espontânea. Neste momento, estou com dois — ou mesmo três — casos de amizade que vai morrendo. Mas, naturalmente, dois ou três novos se avizinham. Não sei até que nível, nem se vão se prolongar. Provavelmente não. O oportuno encontro de duas pessoas não tem qualquer importância, nem para frente nem para trás. É só um capricho do acaso, uma coisa que o vento traz e depois leva. Um incidente as uniu, outro incidente as afasta — sem piedade.”


“A ideia de um mundo na vida e outro na morte é tão antiga quanto o homem. Viver ou padecer aqui, e desfrutar ou penar além. O mundo dos mortos ou é o paraíso ou o inferno, talvez o desconhecido... O mundo dos vivos, este, de dias e noites, de chuva e sol, de um rosto que nos chama e outro que nos despreza... Mas, para os escritores modernos, uma vez que vamos morrer, já estamos mortos. Não há mais separação, nenhuma linha divisória, os sonhos se fundem. Jorge Luis Borges: ‘O homem esquece que é um morto que conversa com mortos’. Camus: ‘só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis’. E o zombeteiro Stanley Elkin, que pergunta: ‘Quem é que não está morto?’”


“Naquele que foi o seu último livro, Souvenir de deux existences, Jean Giraudoux relembra a visita que recebeu, em 1925, de um suposto jornalista: ‘O visitante entra. Não é um jornalista. Não é ninguém que deseja saber ou venha pedir. É alguém que sabe tudo e que me traz as últimas informações sobre a alma humana. É Rilke. Nós não nos conhecíamos’. Este é talvez, de todos os que já li, o mais sincero, espontâneo e completo elogio a um escritor. Não falta nada: admiração, respeito, lisonja, gratidão. Nem mesmo um certo tom de tímida austeridade, na escolha das palavras, na construção das frases, no encerramento — notadamente lacônico e escusável.”


“Quanta pose no mundo! Quanto teatro! E por nada. Ou por uma ninharia: fama aqui, um cadinho de poder ali, mais ou menos influência (a depender de quem e do momento), dinheiro ou bens materiais, que lambuzam o sujeito de um verniz falso... Impossível, num meio de pessoas assim, não recordar as palavras de Máximo Gorki: ‘Na Terra todos são vagabundos. Ouvi mesmo dizer que a própria Terra vagueia no espaço...’ Pois é.


“Sabe o que somos para os políticos, para o governo? Essas pedrinhas lisas que eles, à beira-mar, em seus momentos de descanso, num arremesso preciso, fazem deslizar sobre a água, para o delírio de seus netos...”


Amizade é coisa séria
(09/12/2008)
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“Um livro não pode ir na íntegra para a tela. Fazer um filme de um romance ou de um conto é preencher vazios deixados por estes e promover outros que eles haviam preenchido. Parece paradoxal, mas não é. O cinema é imagem com imagens, fotografia em movimento; e a literatura, imagem com palavras, com sentidos. O cinema mostra, nos faz ver; a literatura sugere, nos faz imaginar. No cinema há a apresentação de uma realidade; na literatura, a representação, pois as palavras encenam em nossa cabeça o que dizem em seu entrechoque semântico. E essa diferença entre cinema e ficção promove efeitos bem diversos e curiosos. Em São Bernardo, para dar conta da introspecção de Paulo Honório e seu desejo de análise e organização do mundo à sua volta, León Hirsman adensa o aspecto psicológico do romance de Graciliano Ramos. Isso obrigou que um dos romances mais velozes da literatura brasileira se convertesse num dos filmes mais lentos do nosso cinema. Aí está a medida do que o cinema exige e obtém, mostrando; e a literatura proporciona e sugere, dizendo.”


“Minha primeira manifestação artística foi o desenho. Talvez por isso meu olhar, como diria Marques Rebelo, seja mais cinemático, e eu goste tanto de cinema, a ponto de fechar um livro, por mais que o esteja apreciando, para assistir a um bom filme. Não sei, porém, o que isso implica, nem me importo de saber. Esta existência não valeria a pena se não houvesse liberdade, mesmo a mais simples, quase instintiva, de satisfazer a um ou outro desejo. Mas a verdade mesmo é que me tornei escritor por acidente...”


“Há à nossa volta uma permanente melancolia, que é imóvel e transparente como o decorrer dos anos. Nada a apaga ou atenua. Para ela, mesmo os livros, os filmes, uma jovem amante são inócuos. Presente em todos os dias, mas perceptível apenas nos rápidos momentos em que nos ausentamos do mundo ou descansamos de nós mesmos, dilata-se nos domingos, especialmente os de chuva, de pequenos rios verticais a correr nas janelas, ou de céus brancos, libertos daquele azul de verão que hipnotiza até o mais fleumático dos homens. No fim, sua fadiga se confundirá com a nossa, e então, massa inútil e sem futuro, estaremos prontos.”


“Nenhuma frase interessante para transcrever aqui, nem minha nem de ninguém... E nem foi um dia ruim, hoje. Talvez por isso. Uma sucessão de dias bons implica forçosamente uma vida sem palavras, sem ideias, sem sonhos. Uma vida com hora marcada, maleta e sofreguidão, cujo ápice fosse lavrar o próprio testamento.”


O simples
(02/12/2008)
leia aqui

“Freud afirma que as crianças criam mundos quando brincam. Fiz muito disso quando menino: fui soldado, motorista de ônibus, marinheiro, playboy no meu Puma de brinquedo, vaqueiro, índio e até bandido. Aquilo sim era felicidade, e sem danos. Ter crescido me fez descobrir que a idade adulta nem mesmo é exílio, como afirmam os poetas. É pior. É prisão. É inferno. Um quarto escuro onde todos cambaleiam, drogados, se abalroando. Um lugar onde ninguém se respeita e todos se ignoram em favor de seus traumas, seus complexos, suas vaidades, suas neuroses. Um lugar onde impera uma espécie de jogo cujo término é a infelicidade do outro.”


“A originalidade de um romance está em sua forma, entendida esta como a soma de partes bem definidas e ajustadas, e que não se separam senão para análise: as poéticas descrições de ambientes em Camus; a simulação dialética do estilo machadiano; a vida como ultraje em Faulkner; a estrutura em cadeia do João Miramar etc. Quanto ao assunto, depois da Bíblia, dos gregos, dos russos, do cinema e dos Modernos, tudo é reprise, déjà vu.”


“Recentemente, me peguei escrevendo isso a um amigo: ‘Sigo vivendo, lendo e sonhando, que é o que nos resta’. Devo estar no princípio do fim. Naquele momento do entardecer em que a luz começa a se deixar envolver pelas sombras, depois de um dia inteiro de flerte.”


“Às vezes penso que Camus morreu providencialmente, quando colidiu seu carro com aquela árvore... Não que ele quisesse se matar, não é isso, embora apregoasse que o suicídio é o único ‘problema filosófico realmente sério’. Ele apenas se poupou de ver o que o mundo lhe reservava, e de constatar que Hiroshima e Nagasaki eram apenas uma prévia.”


Mayrant Gallo (foto: Lima Trindade)

Presentes no blog NÃO LEIA!, de Mayrant Gallo, postagens Pensar é tudo (20/11/2008), Faz sol lá fora (14/12/2008), Uma verdade (07/11/2008), O sempre (14/11/2008), Autoajuda (11/12/2008), O simples (02/12/2008), O próximo quer nosso osso (11/11/2008), It’s now or never (04/12/2008), Jogo da verdade (28/11/2008), Todo homem é uma vasilha (05/12/2008), Amizade é coisa séria (09/12/2008), Aqui e além (19/11/2008), Elogio de Giraudoux (27/10/2008), Perdidos no espaço (18/11/2008), Folguedo (15/12/2008), Filmes e livros (10/11/2008), O acidente (09/11/2008), Ponto final (07/12/2008), Contraste (25/11/2008), Os dias claros (04/11/2008), O romance (24/11/2008), Lusco-fusco (30/11/2008) e Todos os séculos são úmidos (23/12/2008), respectivamente.

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