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Cinco poemas e três passagens de Alex Simões no livro trans formas são

Alex Simões (foto: Marcus Borgón)


respeitar o tempo
Alex Simões

respeitar o tempo
o tempo do tempo
o tempo
o meu tempo
o seu tempo
o tempo de todo mundo
o tempo de cada um.

lograr respeito
por saber que o tempo há tempos
no plural é bem mais tempo
e por isso
Tempo uno
e às vezes
Tempo o.

--------

efeito manada
Alex Simões

lemingues são pequenos roedores
geralmente encontrados no bioma

do ártico, nas tundras, solitários,
no entanto, reproduzem-se, mas tanto,

que, a cada quatro anos, um fenômeno
se repete e controla a explosão

demográfica desses que seriam
talvez em maior número que os ratos

não fosse a natureza e sua ironia
que faz com que esses seres lá do norte

ao se encurralarem entre si mesmos
desesperadamente corram em fuga

por um novo habitat mais confortável,
seguindo os que, na frente da corrida,

geralmente se esbarram em um precipício,
um mar ou um rio em torno às frias tundras.

porém, como não têm guelras nem asas,
se lançam no vazio, seco ou molhado,

promovendo um espetáculo suicida
intitulado efeito manada.

tais como os roedores, nos portamos
por tantas vezes pateticamente,

atarantados por já sermos tantos,
sem sabermos por que nos apinhamos,

que essa vontade de sair correndo
atrás de qualquer um a ser seguido

nos acomete de modo frenético
lançando-nos no vácuo de quem passa

à nossa frente e quer nos liderar
servindo de modelo ou objetivo

dizendo onde e como deambular.
e vamos claudicando nos abismos

resfolegando no fundo do mar,
roendo as unhas, bordas descobertas,

nem sequer entendendo onde estamos
e já querendo estar em outro lugar.

--------

trans formas são
Alex Simões

essa levada é quase um samba quase
equalizado pela dor de ouvido
quase um poema feito por um quase
louco que faz sonetos sem sentido
é quase um manifesto por um quase
negro que é quase um homem quase um filho
caboclo eké orixá santo sem base
de asas nos pés e dedo no gatilho
que nada é feito como antigamente
já foi futuro é só depois presente
e é neste tempo quase que SUSpenso
em tudo que perpassa o derredor
vindo do alto o baixo leve o denso
e o que era imenso ficou bem menor.

--------

42
Alex Simões

o mundo dando voltas e eu pegando
o jeito de ficar rodando em paz
criança inda girando em sua cabeça
pra ver rodando o mundo e o seu redor
segue no seu brinquedo predileto
ser tonto por opção mas com firmeza
vivendo sua tontura com verdade
o mundo é uma roda e nós no meio
o mundo dando voltas nós também
os pés pulando sempre voltam ao chão
não há coisa nenhuma a se ensinar
ou aprender que não dentro da roda
com todo mundo dando-se as mãos
cantando junto o mundo essa ciranda

--------

o sorriso de Laerte
Alex Simões

porque quando nos sonhos parecia
tudo bem melhor
não era
sonho.

parecia
bem melhor
que a vida
e não valia a pena
que escrevia e desenhava
à pena
a duras penas
não valia

a vida sem sentido
dá avisos
há vida pulsando
o tempo urge
e às vezes dói lembrar

então seguir em frente
desenhando esquinas
com a ponta do salto o pivô
sabendo tudo muito sério
inclusive o sorriso estampado
e a lisura do vestido.

a moda agora é sóbria,
nós não podemos ser.

é uma questão política:
o contraste é estratégia
de quem milita a alegria.

--------

“não se trata de quebrar
ou reforçar
antigas convenções

somos todos falsos livres
como falsas são todas as canções”


“quero poder cantar impunemente
sem ter de agradecer por estar vivo
ou problematizar por que se sente
medo de ter tesão, tédio, convívio
onde estão meus amigos, minha gente,
mortos por mil & tânatos motivos
ou quase vivos quando assim de frente
qual das verdades que nos traz alívio?”


“no pai que nunca tive e assim que ele se foi
no dia em que morreu, enfim lhe dei um abraço,
beijei seu rosto e o perdoei e a mim também
e o entendi, como no texto de bell hooks
sobre o amor, pensei que ela também não teve
e não parou ali: pensou e escreveu.”


Presentes no livro de poemas “trans formas são” (Organismo, 2018), de Alex Simões, páginas 27, 58-59, 39, 12 e 77, respectivamente, além dos trechos dos poemas “falsos livres” (p. 36), “mil&tânatos” (p. 16) e “44” (p. 13), presentes na mesma obra.

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