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Cinco poemas e três passagens de Angélica Amâncio no livro Adagio ma non troppo e outras canções sem palavras

Angélica Amâncio - Foto: Divulgação

Lamento em frame
Angélica Amâncio

Fotografias da África
do sertão
da guerra
da fronteira.
Crianças de ventre cheio
de verme e vazio
ratos em palafitas
mulheres de seios tristes
esgotos
e olhos duros
em homens
que apanham café
cortam cana
domam cavalos.

A pobreza não sabe
distinguir
Nikon de Canon
não quer parede
nem porta-retrato.
A pobreza não se acha bonita.
Se olha para a câmera
é porque
tem fome
tem frio
e clama.

--------

Impressões em fuga
Angélica Amâncio

Numa fortuna
de fotografias,
ainda que tiradas
do parapeito
da mesma janela,
o céu
nunca
se repete.

Nem por palavras
se permite possuir
sendo tantas
as tonalidades
de cinza, laranja ou azul
os acordes
em que se dispõem
as estrelas
a densidade das nuvens
e seu desejo
de cobrir
ou desnudar
o sol.

A lua afogada
na poça de água
é um sussurro
de luz
que não imitam
meu verso
a lábia do amante
nem o piano melífluo
de Claude Debussy.

Se teimo
ainda
em fotografar
o céu,
eu o faço
como quem desenha
retratos de crianças
ou guarda
em livros pesados
flores que,
como as páginas,
amarelarão.

Para lembrar que,
de tudo aquilo
que não temos,
o tempo
é o que menos
menos
nos pertence.

Sua fuga
é o que faz
a vida
tão bonita
tão triste.

--------

Matemática
Angélica Amâncio

Antônio Arlindo Borges,
Tonho,
39,
borracheiro de profissão,
01 mulher desempregada,
04 filhos malcriados,
01 mãe doente no hospital,
nem 01 centavo para os remédios,
nem 01 real para a cirurgia.

Antônio Arlindo Borges,
Tonho,
39,
com a corda no pescoço,
enforcou-se,
em uma manhã de abril,
chuvosa,
ano par.

Os filhos continuaram quatro,
não-criados,
a mulher continuou uma,
mas viúva,
a mãe continuou doente,
mais um pouco,
o dinheiro,
nenhum.

E a Terra
ainda gira na mesma velocidade,
metade lua, metade sol
– mas não para todos.

--------

Quem me dera partir ao meio um relâmpago
Angélica Amâncio

Havia um rato dentro de casa.
Ele roubava a liberdade do pé descalço e da escuridão.
Conseguia estar em qualquer parte,
roendo,
rabiscando,
com suas saliências
de unhas e dentes
uma coragem de duas décadas e meia.

Mataram-no.
A miragem do queijo gratuito.
O impacto da ratoeira enferrujada.
A frustração mais dolorida do que a morte.

Depois,
um banquete servido às formigas
na lixeira.

Também você,
às vezes,
uma miragem de dias felizes,
e o impacto das palavras enferrujadas,
o muro do seu não,
o peso do seu talvez.

Depois,
o meu coração:
um banquete
servido às formigas
na lixeira.

--------

Alegoria da aranha que tece para si mesma a teia do desequilíbrio
Angélica Amâncio

De você sinto falta até da lã que encapa as unhas.

É com você que me arremesso
contra

as paredes de con-
venções
e atravesso
o oceano inteiro
apoiada
numa lágrima
– de madeira
ou de mim.

O meu gozo está até hoje atado ao polegar erguido do menino do triciclo.

Você me ensina agora a me devolver de você.
Esbarra na bílis negra do meu contorno,
mas não entreabre-
-te-
-me-
-roso
do amor sem joelhos
de laisser faire de moi
o verbo intransitivo do seu contexto
o sujeito do seu predicado pulsante.

Por você sinto falta até das mordidas que sofro da claridade.

Preencho com palavras esta palidez
como o condenado que,
à espera do tremor febril do último suspiro,
preenche de assovios a folha pautada da prisão.

Morro
de medo
do medo que sinto
de nunca ser
para você
mais do que a esquina da moldura do seu fim de semana.

--------

"No fundo,
o amor
pouco mais é
que um tombo."


"Pois é desse modo egoísta
que sentimos
pelas pessoas que partem:
a falta daquilo
que elas faziam por nós."


"Escrevo o seu nome na casca do arroz.
Dois anos depois, no entanto,
nunca passou
o texto
do título de um arquivo em branco
dentro do meu computador.
Talvez porque
mesmo engolindo
e triturando a mordidas
o fino grão
seu nome minúsculo
continue
em parcelas
de letras e sílabas
a repetir-se
inteiro
em cada pedaço
de mim."




Presentes no livro de poemas Adagio ma non troppo e outras canções sem palavras (Mil Palavras, 2015), além dos trechos dos poemas A queda, Pouco antes da canção de Cesária Évora e Rio de Janeiro, presentes na mesma obra.

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