segunda-feira, 7 de outubro de 2013

33

Selfie de Emmanuel Mirdad, hoje, ao completar 33 anos


Tem um caqueiro de alfinete na varanda de onde moro em que é comum passarinhos criarem um ninho. Dessa vez, são dois filhotes. Mas o ninho não foi tão resistente, e acabou quase despencando do alfinete suspenso no alto. Ficou literalmente por um fio de palha. Com um dos filhotes dentro.


O ninho foi despencando aos poucos. Não sou especialista e por isso não quis interferir, com receio de que os pais pudessem abandonar a cria por causa de uma mexida qualquer. E hoje ele quase veio abaixo. À tarde, um dos passarinhos chegou com o alimento e se desesperou ao ver a queda iminente do ninho. Pulou para todos os lados, piando freneticamente, mexendo a cabeça, voando em círculos pela varanda, angustiado pela impotência; nada poderia fazer. E eu ali perto, aguardando a luz voltar para voltar ao trabalho, ironicamente lendo "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza, assistindo o desespero do pai/mãe pássaro.


Hoje eu apareço na tão mítica "Idade de Cristo", trinta e três anos. Nesse Maktub pequenino, a luz faltou e a oportunidade de salvar uma vida minúscula alumiou-se à minha frente. O passarinho mãe/pai piava em berros próprios e Sãotomesticamente fixou seu olhar em mim. Pensei: se o Deus humanizado existisse, iria se sentir assim. Ajudo ou foda-se na tua sina? O passarinho "orava" sem joelhos, cada vez mais fixo em mim. Eu tenho o poder de mudar a tragédia. Faço ou o acaso que reja? O Deus homem pensou assim diante da cruz que assassinava teu filho aos 33? Levantei-me.


O passarinho foi embora. Aproveitando a surdina, rapidamente montei o ninho de volta ao alfinete. A cria estava salva. Interferi no livre arbítrio, que é uma farsa, sempre foi. No primeiro dia dos trinta e três, a tão aguardada idade (a outra foi aos vinte e nove), flertei com o ser Deus homem e fraquejei. Fato: não há responsabilidade maior que se resignar em silêncio diante de tanta tragédia, e só homeopaticamente exato, interferir com milagres por respeito à sina programada de quem recebe a benção não por fé, e sim por confirmação Maktub. Ainda bem que sou, como bem disse o padre poeta Daniel Lima, provisório e de passagem.


O ninho recolocado em segurança


3 comentários:

Ana Gilli disse...

Que beleza!

33 no sétimo dia já é sinal de alquimia!

Boa maneira de começar os trabalhos, Mirdad! A luz do coração brilha forte no escuro.

Parabéns e bóra cuidar da Vida que ela cuida da gente!

Beijo doce,
Ana

Mila disse...

O texto me lembrou o trecho de uma música do SOAD, q remonta justamente o momento na cruz q vc citou:

"Father, into your hands
I commend my spirit
Father into your hands
Why have you forsaken me?
In your eyes, forsaken me
In your thoughts, forsaken me
In your heart, forsaken me"

Mirdad disse...

Que beleza, queridas! Um beijo grande!