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A veia onde corre o grande amor
Emmanuel Mirdad
A dançar forró, usa um vestido nu. O sangue que a cobre tem uma cor que me faz vibrar. O sabor da sua pele esvoaça cheiros pelo salão e induz fantasias. Só que nenhuma dessas informações sensoriais me deixa faminto como os demais homens, que consomem a musa com os olhos. E ela não repete o parceiro. Dança uma música apenas, agradece e adeus. O jogo de morder e assoprar. Assim, o culto se instala na festa. Todos, de latinha em punho, a esperar a sua vez. Uns, confiantes de que irão durar por uma música a mais, querem impor a sua macheza na disputa. Outros, a saber da explícita condição de bonecos, desejam ralar o bucho e fungar no cangote da musa o máximo que puderem. Já os bestas, anseiam pedi-la em namoro, noivado, casamento. Eu? Atordoado como nunca antes, estou sem chão, sem parâmetro e o máximo que posso fazer é aguardar.
Ela vai se recompor no banheiro. Depois, água mineral no bar. A caminho de volta à pista, surge a minha chance. Nos acordes iniciais do belo xote “Lembrança de um Beijo”, de Accioly Neto, intercepto o braço da musa. Interpreto que, por lascar-me numa olhada, ela deve ter gostado de mim. Só que eu estou nervoso. Muito. É tudo tão estranho. Não sei do que se trata. Encaixo as pernas e o tronco, e ela sorri. Faceira, será? O contato com o seu corpo me relega a prazeres que só conheci na infância. O vocalista destaca o refrão do xote: “Só pra fazer do homem o que bem quer” — o Nordeste transita muito bem com essas coisas de ser profético.
A musa permite que eu a conduza, ao controle da sua vontade. Alguns versos, acordes e pulsações da zabumba depois, as suas coxas testam a minha virilidade. Surpreendentemente, estou frágil, sensível, confuso, e me refugio, muitas léguas, daquilo que talvez seja o que ela precise. Mesmo assim, depois de mim, nenhum outro poderia.
Pela primeira vez na minha vida, eu sinto e permito que o amor transborde, de uma maneira explícita, que me deixa completamente entregue. Ela ouve, não reage e disfarça, bem ensaiada. Talvez pretenda retirar de mim a prova de que a saudade me acompanhará, pelo resto da vida, a ansiar pela próxima dança com ela. E se a musa conseguir esse intento, então me violentará com o vírus-resposta de não o conheço, nunca lhe vi antes, até nunca mais, valha-me Deus, adeus e similares. Vingança.
Desobedeço ao seu roteiro e não cedo o meu rosto aos tapas que a fazem imensa. O medo me resgata. Calo-me e continuo a dançar. Ela? Banguela um sorriso frouxo e se livra de mim, a escorregar-se para os braços da próxima vítima. O xote de Accioly Neto ainda não havia terminado. “O cabra pode ser valente e chorar”. E ninguém ali percebeu que eu fui o único que conseguiu combatê-la. “Ser forte que nem sertanejo e chorar”. Nesta única vez, ela perdeu.
“Só na lembrança de um beijo chorar”.
*
Não voltei mais àquele forró. Tento amortecer o sofrimento com outras cabrochas. Risco os salões da cidade, em vários ensaios dos festejos juninos. Bandas interessantes, lugares confortáveis, parceiras afiadas. Danço muito baião, xote, arrasta-pé, coco e até de quadrilha brinco. E nada adianta. Cada vez que eu volto para casa, a tristeza bate forte. Por que diabos a sensação de viver na superficialidade sempre faz desabar o orgulho quando você se aconchega, sozinho, no lar? Tudo acaba ali, seja qual dosagem for da camuflagem.
As lembranças me pirraçam. Na confusão entre o que é inventado e o que acontece, quem se dana são as cabrochas com as quais não transo. Capricho na dança e encho os seus buchos com promessas. Na hora do vamos ver, nada é visto. Brocha. O sexo, amputado. Corte reto e certeiro da saudade, da lembrança de um beijo que não aconteceu, em protoplasma contínuo. Maldição! Inferno! Arranco as blusas e não reconheço os seios que tanto chupo no paraíso dos sonhos. O cheiro não contém a putaria suficiente para me irrigar. As cabrochas, bonitas ou feias, gostosas ou insossas, cheirosas ou suadas, transformam-se, por feitiço do cabrunco, em poste, porta, vaso de planta, sabonete, boneca de porcelana. O meu sangue empobreceu e ficou ralo, e nada levanta o meu infeliz. Estou envenenado pela chaga do romance, pela sina do amor. A musa perdera naquela noite, mas não faz ideia de que eu também perdi, muito mais, depois. Nenhuma mulher bate aquela desgraçada! Maldição!
Sede que não tem fim.
*
A madrugada se aproxima. Estou estragado, após a queda das nuvens. Passo ferro nas camisas do trabalho, para ver se o tempo passa e o sono se manifesta. O interfone toca.
— Não sei quem é, não conheço.
— Mas é mulher, patrão, e das boas. Se eu fosse o senhor, não dispensava não.
Resolvo acatar a recomendação do porteiro. Quem será a pobre coitada? Deve ter vindo atrás de uma boa empurrada e vai voltar com um rol de desculpas enfadonhas. Por que continuo a persistir com essa tortura de autoengano? Ranço de masoquista... Se eu fosse casado, a essa altura, desejaria ser corno.
Abro a porta. Susto. O mesmo vestido nu, sangue e sabor. Sem pedir licença, a musa invade. Quer revanche. Pôs-se a brigar, exposta. Fecho a porta para ouvir. Ela diz que odeia os homens e as suas escórias-necessidades de macho. Toda a sua volúpia é forjada e destinada a um criterioso método de manipulação: encantar, seduzir, enlaçar, humilhar e destruir. A diversão e o prazer sempre ligados a sentimentos de punição aos homens.
— Eu odeio todos vocês! — berra, o mais alto.
“Saudade já tem nome de mulher”. Ao tentar consumar o amor com a garota que mais amou, fora vítima de uma violência: surra com barra de ferro e queimaduras, por parte do pai. O trauma se agravou e hoje ela não consegue beijar uma mulher. A musa até que tenta: conversa, seduz, mas, quando toca na possível parceira, a pele queima numa dor horrível, vívida como se o pai ainda a estivesse machucando. Não houve terapia que desse jeito. Nada funciona. Restam o ódio e a vingança.
A musa revela: desenvolveu o disfarce de mulher fatal e passou a colecionar famílias destruídas, a explorar a fragilidade dos homens, sem nunca sequer ter transado com eles — a sugestão como arma mais eficiente. Entretanto, o método para preencher o buraco de si está fracassado. E a culpa é minha, o seu pior inimigo. Naquela noitada de forró, derrotei-a com essa arma: dei-lhe o meu amor verdadeiro, que o homem, como espécie funcional que é, só oferece a uma única mulher na vida. A musa conhecia essa tragédia, tão almejada pelo mito burguês, que fizera vítimas entre as suas amigas e parentes próximas, mas que nunca haveria de afetá-la.
Haveria. Da suposição da certeza à surpresa da rasteira: houve. Bem naquela fatídica dança, em que esse cabra valente chorara de verdade. Ela reconhece que o que eu expressei não foi paixão, fraqueza essencial, sempre útil. Foi amor, raríssimo, que ela nunca presenciara de maneira tão próxima.
Amor? Em tão pouco tempo, numa noite vagabunda, em um lugar de putaria e pegação? Dizem que não pode ser, que é inaceitável, besteira tamanha, é impossível. Ainda mais que o cabra é forte, valente, brigador, trabalhador, procriador, fudião. Faz o que só lhe deve e apronta sempre que pode alguma arapuca sexual; basta a mulher ser formosa e ter carnes firmes. Contudo, lá dentro desse cabra, nas profundezas da rígida estrutura funcional da sua sustentação e organismo, há um cantinho minúsculo que comporta um baú de ferro reforçado, lacrado com esmero, subconsciente. Dentro, o perigo: o incontrolável demônio que, ao ser deflagrado, desparafusa as juntas fixas da sólida construção e enlouquece todo o sistema que faz do homem um ser vivo racional.
Amor que pode surgir a qualquer momento, imune a qualquer cálculo, previsão, condição, e que nunca conseguirá ter uma explicação plausível. É a insanidade pura, desmedida, descontrolada, muito mais forte do que a paixão, que também é voraz e maluca, mas é ligada apenas à intenção meramente sexual; conseguiu cumprir, parte-se para a próxima.
Amor. E eu, desgraçadamente infeliz, libertei-o para uma mulher que é lésbica e odeia os homens. Que destino, Senhor! O engraçado é que não consigo ter raiva desse engano, da impossibilidade de existir uma relação, um compromisso, filhos, família. Antes, havia tentado entupir o meu desassossego com uma overdose de farras e cabrochas, além de um reforço no trabalho extra, feijoadas e cachaça, e nada deu certo nem dará. Eu a amo. E ela está aqui, exposta, pertinho de mim.
Amor! E a musa me encontrou, para descarregar a sua fúria num desabafo que abala tudo. Depois do nosso forró fatídico, ela não conseguiu maltratar mais homem algum. Sumiu da noite. Embaralhou-se. O que eu lhe oferecera, provocou um curto-circuito. Maior desgraça para ela: também sentiu amor. E todo esse alvoroço de ambos por conta de alguns minutos, apenas. Quem entende o ser humano?
Da bolsa, saca uma pistola. Começa a tremer. Pede-me desculpas e me xinga. Chama-me de amor e aponta a arma para mim. Parece que vai atirar... “Que segure o chororô”. Desiste, a engasgar desculpas, ajoelhando-se no piso da sala. Cambaleio para a cozinha, assombrado. Choro, com dor. Apoio-me na mesa de passar. A cabeça há tempos que não raciocina direito. Volto para sala, com o ferro quente em mãos, a chorar, muito. Ela me olha como se visse o pai. Acho que vai atirar.
Quem ama, liberta.
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