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Sereno aceitar (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Sereno aceitar
Emmanuel Mirdad

          Ele resmunga. Uma hora e quarenta minutos de engarrafamento, a atravessar a cidade de vales e contrastes, de volta para casa, após o trabalho. A primeira parte da viagem é feita em pé, mais um pedaço humano no compacto ônibus entupido. Somente próximo ao seu bairro, na última parte da viagem, que vem a se sentar, mãos a apoiar a cabeça dolorida, encostada no ferro à frente do banco. Vinte anos e nada muda. Sempre de coletivo, salário curto, aparência rude, bigode vasto, impaciente. Os problemas em repeat eterno, decantados em maços de cigarro, a se esquecer de pagar as contas. Cortaram a água. Amaldiçoa o boleto, que sempre se aloja no vão entre a cama de madeira e a parede, perdido. E a cabeça a se livrar dos processos da vida, aos poucos. No fogão, o gás acaba. Outro desleixo; acumula vários por essas semanas pós-velório. Perdera o amigo de infância, Pedreira, confidente fiel, parceiro de cachaça e futebol, vizinho quebra-galho, que sempre lhe dava o que a cabeça se esquecia de comprar, mesmo a contragosto da sua esposa.

          A fome tapa a lágrima. Para apressar o processo de forração do estômago, prefere vestir a polo verde-musgo, sem tomar banho, e pedir ajuda à dona Temerária, do 401. Ir até o último andar custa um suor extra, escadas acima, ofegante. Ao menos, sem muito perrengue, a dona lhe oferece bananas. E só. Estômago tapado, boa noite, boa sorte.

          De volta ao apê, os pelos do corpo fedem. Improvisa a higiene: à vista do espaço comum, no único ponto de água, fora dos apartamentos, sem cerimônia — e nada disposto a subir um lance de escada com o balde cheio —, lava apenas as axilas e o rosto e o pescoço. Enquanto veste novamente a mesma polo verde-musgo, embaralhado pela dificuldade em cobrir a barriga, ouve vários estampidos, comuns nesses tempos. O bairro, suburbano, está infestado de traficantes. E alguém acaba de ser metralhado.

          O espanto zela os suspiros da vizinhança. Mesmo a sentir o receio basilar dos mais previdentes, a curiosidade faminta por tragédias o impele a sair para averiguar, hábito condicionado pela mídia policialesca. Ele pensa: “Quem sabe não sobra uma ponta para mim?” O defunto, um desconhecido de uns trinta e poucos anos, perfurado com balaços na fuça, peito e barriga, porta sapatos luxuosos e vermelhos, dignos de Bento XVI. Enquanto as tripas e fluidos internos borbulham pelos buracos para fora do corpo, ele vislumbra o solado, novinho, ainda com uma marca italiana aparente. Deduz ser grã-fina. Na carteira da vítima, à mostra pela queda, muita grana. Não deve ter sido levada por causa da pressa do serviço, ele avalia. E, em vez de pegar a dinheirama, prefere os sapatos. Raciocina: a bufunfa, os comparsas investigarão; o calçado, ninguém cobrará.

          Mesmo um pouco apertados, servem. Tecido bom ele não possui, mas tem certeza de que os sapatos vermelhos impressionarão os selecionadores, durante a entrevista de emprego de amanhã, uma vaga para portaria de bacana, trabalho tranquilo e melhor remunerado.

          Irradia-se, de súbito.

*

          A manhã raia o novo dia. Mais uma vez, a dona Temerária ajuda o vizinho do térreo. Ela respeita o seu passado, o abandono da mulher e filhos, a sujeira corporal, a moléstia do esquecimento e o bigode que acha horroroso. Quando ele pede, ela dá. E quanto mais ela compreende, mais ele retribui com apertos e juntadas de pés em madrugadas ocasionais — gordo e velho, ainda “dá no couro”.

          Café forte e bolachas secas distraem a fome. Na rua, um friozinho de início do inverno. O ponto de ônibus está cheio. E ele não resmunga. Leva, escondido na mochila, o trunfo para a entrevista: os sapatos vermelhos importados. Sente-se esperançoso e, pela primeira vez, os incômodos da mobilidade urbana não o fazem emitir os resmungos cotidianos.

          O engarrafamento de hoje é pior. Uma manifestação contra a violência policial, pneus queimados, faixas, cartazes, berros e mães às lágrimas, mais um caso de assassinato de jovens e crianças pretas, trânsito bloqueado nas quatro faixas da avenida. Ônibus estancados, trabalhadores furiosos, reclamações, xingamentos e juras de morte. E ele, o costumaz rabugento, está quieto, embebido num universo paralelo, a alimentar, dentro de si, aos poucos, uma histeria inédita. Antes do trunfo, aceitara a entrevista por insistência de Sandro, que gostava demais dos seus bigodes — mantinha-os à distância do amigo, a usufruir o que pudesse ser interessante dessa amizade que enfrentava o tesão de uma das partes. Agora, empossado, pela primeira vez na sua vida, de um bem caro e nobre, acredita que a sorte, finalmente, estacionara a burrinha na sua porta, e se convence de que conquistará o emprego, pois fareja no ar o éter do bom presságio.

          A oficina do credo: para garantir a contratação, não precisará de supérfluos como indicações, títulos no currículo e/ou elogios mentirosos de si — a que todos recorrem nos momentos de crivo —; bastará entrar na sala e mostrar os sapatos de barão ao selecionador. Pronto! Calçado como um fidalgo, o emprego será oferecido na sua honra. “Seja bem-vindo, caro ilustre!” — anunciarão, com aplausos e rosas. Os vermelhos e importados, não mais couro, solado, costura e tinta, transfigurados em mito, desencadeiam a alucinação.

          Quando a polícia consegue liberar uma das faixas da avenida, aturando os xingamentos e ameaças da população só porque todos os telejornais locais estão transmitindo ao vivo, e o ônibus atravessa o protesto, o ar volta a circular. As pessoas deixam de suar e se acalmam; logo estarão imersas na rotina mecânica de sempre. Esquecerão os incômodos pelo sereno aceitar da normalidade: quanto mais quietos, menos perigo, mais vida. Assim, o mundo gira e a máquina continua a devorar e a produzir. Nessa equação, uma incógnita se deturpa: ele.

          Raras vezes se permite algum lazer. Costuma não sorrir nem alimentar esperanças. Sobrevive, como a maioria, sem perspectiva, só ação. Porém, o acaso do assassinato e o surrupio dos sapatos distorcem o rumo da programação. Subitamente, na virada da noite para o dia, o porteiro se incha com o vírus da ostentação burguesa. Portando o objeto que considera de valor, enobrece-se pela via da autoproclamação, sem uma cifra a mais na carteira. Desce do ônibus, a se sentir relevante, um homem de posses. Nos pés, ainda o mesmo sapato velho, surrado da labuta. Não importa. Dentro da mochila, está o trunfo, a legitimar a sua aura de soberba. E ele anda, com a cabeça em riste, a oferecer saudações de bom dia a quem encontra no caminho.

          Apenas um homem e os seus equívocos.

*

          O local da entrevista fica a duas quadras do horário de almoço. Dá para ir sem gastar dinheiro e sem a bronca do cara da faxina, que tira a sua folga. No quartinho de serviço, repete o ritual de lavar as axilas e o rosto/pescoço. E, com orgulho, retira da mochila o trunfo vermelho e importado. Apavona-se. Calça. Rua. Apertados. Em poucos metros, os sapatos transformam os tornozelos em queijo ralado, da cor do couro. Dói muito. Sorte que a distância é pouca. “Tá vendo? Hoje é o meu dia!”, motiva-se.

          Cabeça em riste, adentra a sala. Oito pretendentes. Apenas uma cadeira a sobrar. Julga que é a sorte, de novo. Mesmo com os tornozelos esmigalhados, firma-se na postura. Direciona os pés à vista de todos, com um sorriso por trás dos bigodes, sem mostrar os dentes ou emitir um barulho sequer. Sente-se um grão-duque, repleto de distinções acolhidas no bolo doido de alucinações do mito pedante.

          Os oito pretendentes, altos, bonitos, de porte elegante, gabaritados em boates, não estranham a figura que destoa. Concentrados, mal conversam entre si. Pretendem trocar a badalação das nights pelo conforto do dia comum, na estabilidade de uma portaria com ar condicionado, a apertar botões e a saudar, educadamente, os moradores, abonados por um bom salário e sossego de serviços.

          Ele é o penúltimo a entrar. Senta-se longe da mesa do selecionador e cruza as pernas algumas vezes, apenas para exibir os sapatos vermelhos e importados. Monossilábico, olhar esquizofrênico, deixa a sala de entrevistas quase saltitante, menos de dez minutos depois. Havia transformado a robótica saudação de “boa sorte” em mais um sedimento da sua refazenda do real. Pronto. Se o homem falou com ele tão calmamente, o emprego era seu. Quem resistiria àqueles sapatos?

          Anestesiado pela inédita sensação de que algo dará certo na sua vida, não troca os sapatos, a deixar o couro carcomer mais ainda os tornozelos. Sente-se soberano, bonito, galanteador, playboy. Inferniza a paciência do faxineiro com meia hora de atraso a mais. Quando chega ao prédio, nem liga para os desaforos e palavrões, cravado em marcha lenta.

          Ele e o seu inchaço.

*

          O porteiro abandona o serviço. Dá como certo que, amanhã, será avisado da sua contratação para o prédio novo dos bacanas. Ele, o soberano dos sapatos vermelhos e importados. Em vez de ônibus, segue a pé, na dilaceração final dos tornozelos. A cada passada, um passeio. Exibe-se. E tenta atravessar a cidade de vales e contrastes. É forçado a parar, pela idade, peso e ferimentos. Precisa descansar, mesmo alucinado; o mundo real o estapeia. Como há pouco para se bastar, estagna-se em silêncio por horas, numa praça recém-inaugurada. Toma, bem devagar, umas cervejas, a saborear como se fosse vinho. Imagina o que fará com o salário do novo emprego, a fantasiar que será uma dinheirama. Decide, então, voltar para casa e se despedir da vizinhança. Sente-se preparado para tal fardo e entra pela porta da frente do ônibus. Alega deficiência, a mancar dos tornozelos.

          Não há mais carne disponível para ralar.

*

          Benedito Costa, 36 anos, botafoguense, de carreira notável no crime, decepciona o patrão da boca de fumo ao matar, por acidente de trabalho, o menino de diversão do chefe. Deserda-se para ficar vivo e se refugia Brasil afora. Estabiliza-se pela cidade de vales e contrastes e logo monta um bando. Sempre recluso, não revela o rosto. Esconde-se em disfarces, máscaras, bonés, gorros, endereços, nomes, CPFs. Só os sapatos que são a sua marca: sempre vermelhos, uma homenagem ao apelido de guerra, Pata de Satanás. Dizem que era um atleta, que ninguém o batia na corrida. Tonico Carreira discordará.

          Numa tarde, Pata de Satanás escalda um funcionário, por um erro simples, superável. Porém, na fala, deixa escapar o racismo implícito de quem não é negro e está no comando. À frente do bando reunido, Tonico Carreira, que é orgulhoso da sua cor, engole o cururu do racista e prefere aguardar. À noite, Pata leva uma carreira de Tonico, que mete balaços para cima do chefe, para todo mundo ver e ouvir. Dezenove tiros, vários brocam o traficante. O bando não revida; faz-se de cego e surdo, cansado de playboys e malandros do Sul. O comando voltará a ser local, como antes.

          Do Rio, o patrão fareja o sangue. Quer conferir, ao saber da dica de um infiltrado. A notícia da morte de Pata de Satanás se confunde pelo caminho até Niterói. De lá, ninguém consegue confirmar. Os contatos daqui, todos na “boca de siri” cínica. Para se certificar, o patrão envia, então, os seus melhores assassinos, especializados em chacina. Nenhum deles conhece o alvo, só as dicas: a) os pés, sempre calçados de vermelhos e importados; b) a quebrada, fornecida pelos meganhas por uma merreca de dez mil.

          O job dura apenas um dia — pagamento e localização — e uma noite — passada de régua. O porteiro, no caminho do ponto para casa, suporta a dor nos tornozelos, a pensar apenas na virada que tem certeza que acontecerá: emprego novo, milionária vida nova depois. Nem há tempo de aceitar. Morre sereno, abestalhado de si, fuzilado coincidentemente no mesmo lugar em que Pata de Satanás caíra, bem na maternidade do mito. E lá permanece, brocado, estropiado e só; pior: sem os sapatos vermelhos e importados, anexados pelos assassinos, como prova do compromisso cumprido.

          O mito é mortal.

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