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O barão do cagaço (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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O barão do cagaço
Emmanuel Mirdad

          Tem alguém aí? Eu... ganhei...

*

          Quero fumar, mas não sei tragar. Quero beber, e só tem mingau. Já fui e voltei trezentas vezes. Preciso olhar mais uma vez. Não pode, não dá, não, nein, nyet, no! Será? Vou de novo, de novo, de novo. Urubuservo, de ponta cabeça, de lado, de canto, de olhos fechados, de ispa. O peito queima, a boca cospe, tudo pulsa em frenesi. Tremo. Terremoto o chão, saltito, serelepe, num chilique doido. Berro: “Eu ganhei, PORRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...”

          Tosse aguda, incontrolável. Esfarelo a corda vocal. Ando para um lado, para outro, para este, para aquele... Barata tonta. Volto ao computador. Abro quinze abas sequenciais no navegador, todas na mesma página, com a mesma informação atômica. O surto acontece: engulo o cuspe — PQP! — entalo a língua — PQP! — chuto a mesa de centro — PQP! — arranco o cabo do telefone com o dente — PQP! — abro a porta da geladeira para assistir aos legumes agradecerem a Cristo — PQP! — benzo-me — PQP! — chupo-me — PQP! — mordo-me — PQP! — bufo um rastro de merda na cueca — PQP! — fico nu na janela com a luz acesa — PQP! — toco uma bronha-relâmpago — PQP! — ejaculo varanda abaixo — Ahhh... Eu... tô... milionário?!

          Quero mainha...

*

          Continuo descompassado, biruta, ruim das ideias. Forço-me a um banho. Preciso aquietar os berros. Já chamei muita atenção. Mas as quinze abas na internet continuam lá, abertas, com o desenho do gordinho sorrindo e os números iguais aos que eu tenho num pedacinho de papel. Saio rápido do banheiro, feito um gato, agoniado. Deixo várias gotas nas costas. Nem visto a roupa, continuo nu. Ainda sinto o coração disparado, arritmia. Preciso beber. Só tem mingau, porra! Boto para dentro. Aos poucos, embalado pelos goles, a euforia cede o lugar à satisfação.

          Fecho catorze abas e deixo uma aberta. Confiro mais uma vez. Não precisa. Confiro de novo. Já sei. Confiro. Pronto! Estático, de um em um, confiro pela última vez: 08, 17, 18, 23, 31 e 54. Seis números, uma combinação em milhões, que, arrumadas desse jeito, apostadas no concurso de hoje, significam 47 milhões de reais, somente para um apostador.

          Apenas um: eu.

*

          Já é tarde da noite. Com o bilhete na mão esquerda, manuseio o mouse com a direita, a apertar o botão de desligar. Satisfiz as dúvidas. Conferi, por horas seguidas, o mesmo resultado. Quase depredei o meu apê. Alguns vizinhos interfonaram, o síndico bateu à minha porta, mas eu não abri nem respondi. Não estou nem aqui! Não reconheço ninguém. Não tenho parentes. Não fiz amigos. Nunca trabalhei. Não saio de casa há anos!

          Não sei mais quem eu sou.

*

          Quarenta e sete milhões de reais. Quatro sete, seis zeros. M-I-N-H-A-G-R-A-N-A! Só minha. Rico, barão, milionário, rei da cocada preta, o maioral, playboy, futuro jogador de polo. Alguém me pergunta, de dentro da cachola: “Você vai fazer o quê primeiro?” Posso comprar o que eu quiser. Posso ir aonde eu quiser. Posso comer quem eu quiser. Posso. É tanta coisa (PQP!), que eu nem sei por onde começar... Chega! Tenho que dormir. Não consigo... Impossível...

          O telefone não toca mais. Arranquei. O som não funciona. Quebrei sem querer, nos pulos tresloucados. O aparelho de TV foi junto. Ô, sina! Queria ver as especulações. “Quem será? Quem será?” Sou eu. Eu.

          O barão do cagaço.

*

          O bilhete é tão frágil, um reles papelzinho, que não dura nem é resistente. Sinto que qualquer coisa pode estragá-lo. Suor? Resolvo, colocando-o no bolso. De calça, ninguém dorme. Amassa. Ai, meu Deus! Boto na carteira. Ladrão pode roubar. É verdade. Na mesa não dá; pode bater vento e flutuar. Nos livros, pode mofar e a tinta sair. Na pasta, pode se misturar, e, na agonia, parar no lixo, enrolado a algum outro papelote supérfluo. Já sei! A caixa dos óculos escuros. Que nada... Ladrão rouba. Na pochete, o “dono” pode levar também. Vai na cueca? E o suor? E o sebo? E o medo? Se eu me borrar de novo? Eles vão receber o bilhete cagado?

          Merda! Confiro, de novo: 08, 17, 18... Estão todos ali, os seis, com a tinta firme. Um papelzinho que vale uma cifra milionária. Como a vida engana... Ontem, esse quadradinho numerado era só uma suposição, um desejo, um risco. Agora, a aposta materializará a alforria para uma vida de prega, de renda, a torrar em tudo que é porcaria. Herança? Jamais! Não tenho filhos nem quero. Se tivesse, não deixaria nada. Quem conseguiu a cagada não fui eu? Não saí riscando os números aleatoriamente e, aleatoriamente, a sorte me escolheu? Não deixei de comprar pão para jogar no vício? Fodam-se todos! O que eu mais ouvi foi: “Para de jogar, besta, que é tudo maracutaia, já tá acertado quem ganha”. Pois é. Continuei. E, agora, “não estou nem aqui”. Amanhã irei à agência mais próxima e sumirei, sem avisar ninguém.

          Mas qual é a agência mais próxima? Onde fica? Qual é o telefone? Quatro e trinta da madruga. Falta pouco. Do celular, pesquiso na internet. Uhn... Achei! É próxima daqui, avenida movimentada, ruim de estacionar. Vou ter que pagar adiantado para o flanelinha. E ele não pode sequer desconfiar do meu tesouro. Putz, esse trajeto vai ser punk! Como andar tão abonado sem chamar atenção? Já sei! Traje infalível: bermuda, chinelo e camiseta do Mega Fest, aquele evento a que eu fui e ninguém soube, lá no Barafundó Point. E quando chegar à agência, como é que eu faço? Procuro o gerente, deve ser. Entro, descolo a senha e espero, com a maior cara lavada do mundo, como se isso fosse possível. E se, justo hoje, o ladrão assaltar a agência? Eu engulo o bilhete, no seco mesmo. E se a tinta for digerida? Melhor amassar e jogar no lixo. Depois que o assalto passar, me viro para achar. Só não posso levar tiro.

          “Salve, salve, meu gerente, eu sou o mais novo milionário da área! Vamos, quero logo a minha grana!” Que nada! Muita bandeira... Tem sempre alguém que ouve demais. E se ele levar o bilhete para dentro da agência, alegando conferência, xerox, autenticação, sei lá? Será que dá para confiar? E se ele sumir com o meu papel e mandar o segurança me espancar dizendo que sou ladrão, ou até mesmo sumir comigo para não ter provas contra a safadeza dele? Isso é provável. Eu não tenho costas quentes, não tenho ninguém que possa me ajudar, interferir; não conheço os bancários, advogados, matadores de aluguel, enfim, a corja que resolve. PQP! Se o safado quiser, some mesmo com o bilhete! E agora?

          O que eu faço?

*

          Dia claro. Eu, tremendo e abestalhado, não defini ainda o que fazer. Não posso ligar para Simone. Ela é muito murrinha, vai querer pongar fácil e, se eu der mole, leva tudo na maciota. É capaz de armar o mesmo esquema do gerente. E Rodolfo? Não dá também. Tem a língua solta, as pessoas vão ficar sabendo rapidinho, e alguém vai tramar contra mim. Se brincar, até o fofoqueiro entra no jogo! Quando alguém tem, o outro quer ter o dele também. E aí...

          Parente, nem pensar. São especialistas em aparecer nas horas em que precisam de algo e desaparecer quando é a sua vez de cobrar ou pedir. Malditos inúteis, escusos interesseiros por essência. Ao saberem da grana, irão se reproduzir como micróbios, parindo uma dezena de subparentes desconhecidos, amasiados e similares, todos às custas de uma maldita ética sanguínea. Sai, praga! Não sou provedor de gerações! Não caio nesse joguinho arteiro de “temos o mesmo sangue; sobreviva-me, portanto”. Deus me livre dessa escória! Eu sou por mim, geração só, sem fruto. Filho único.

          Que merda que perdi os meus pais...

*

          PQP! Não tem ninguém aí para me ajudar não?

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