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Botox
Emmanuel Mirdad
Aveia, linhaça e ameixa. Castanha, pasta de amendoim e absorvente. Mirtilo, azeite de oliva e chia. Marília empurra o carrinho de compras bem devagar. Hoje é terça-feira, e ela prolonga o horário de descanso, após o almoço, como nunca fez. Passeia pelo supermercado do bairro, próximo ao trabalho. Não precisa dos itens que estão no carrinho, mas ela sabe que é necessário levá-los consigo, mesmo que escolhidos a esmo, pois só é permitido usufruir o ar fresco, os corredores vazios e a segurança armada, se o cliente comprar algo. Tudo bem. A mulher compreende e respeita as leis do consumo. São estas que, munidas de nuances e táticas de persuasão, forçam os outros a custearem o seu sustento.
Marília é dona de uma loja de grife, que é referência na cidade, e vende bolsas, sapatos, vestidos, acessórios e identidades exclusivamente femininas. Com mais de quinze anos de trabalho, a empresária cristalizou a sua marca. Assistiu à queda de concorrentes e se mantém firme, especializada no atendimento às mulheres ricas, da alta sociedade, sem constrangimento algum em inflacionar o preço que cobra. No material que expõe, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos localizados nos confins das fronteiras. Então, o balaio de gato cai nas mãos das suas funcionárias, que costuram a preciosidade da coleção: a etiqueta.
É a marca que faz o material chinfrim custar tanto. O que interessa à cliente é comprar, possuir e ostentar o ícone referendado que assina a coleção, do vestido de gala ao chaveiro personalizado. A etiqueta é mais importante que o produto. E condiciona-se o uso da peça pelo impacto que a marca provoca no meio em que será apresentada. “Esse vestido, quem assina?” A resposta é o objetivo final da compra. O pacto que se cumpre. A cliente paga, propaga e é certificada a transitar pela sociedade a compartilhar o mesmo código de conduta e consumo que as demais mulheres ricas, as mesmas regras de comportamento do seu meio social, amparada e legitimada pelas peças que Marília vende.
Chique. Sofisticada. Atraente. Assim, reformulada, a embalagem do pacote de biscoito encanta. Não é preciso ter fome; direto da prateleira para o carrinho. Um? Não: três pacotes, de vez. A força do invólucro bem executado. E a compra cede espaço a pacotes de salgadinhos ultraprocessados e guloseimas com gordura trans. Nesses dias que se tornaram difíceis, a mulher passa a comer de forma compulsiva, sem critério, sempre escondida; ela se arrasta pelos corredores do supermercado, a se sentir pesada. Detém o choro a morder uma barra de chocolate sintético.
Marília é uma pessoa pública, influente, rica e bem-sucedida, cultuada em colunas, paparicada e invejada pelas dondocas, pretendida por aventureiros, empresária e mãe divorciada, bem aceita e resolvida com a sua solteirice. Lágrimas, no meio do supermercado? Improvável. A sua profissão e status lhe exigem sorrisos bem empregados, ar de satisfação, a irradiar positividade como um farol para o rumo de muitas clientes, asseclas confessas. É obrigatório dar e ser exemplo, o molde ideal, busto de praça, algo difícil de suportar e manter com o passar do tempo, mesmo com tantos métodos. Ela conseguira, anos a fio, a sedimentar o prestígio. Contudo, algo acontecera, a forma rachou, e Marília passa a se esconder, aparecer menos. Ninguém sabe o motivo.
No caixa, ela paga as compras com dinheiro.
*
Na ampla loja de Marília, a venda é camuflada. O que importa é a satisfação das clientes, que precisam se sentir confortáveis para que possam falar muito, desabafar as suas angústias e vontades, como se estivessem na casa da melhor amiga, a confidente leal. Há uma vendedora específica para cada consumidora, que é auxiliada por um banco de dados sobre a intimidade e as necessidades da cliente, previamente analisado por uma psicóloga — o perfil é construído desde o primeiro encontro. O discurso e os gestos são roteirizados. Marília comanda o espetáculo de perto, a promover o êxito à venda como num xeque-mate, ao monitorar os atendimentos com a precisão dos seus argumentos, que satisfazem; a solução final, tanto à fragilidade quanto à vaidade das clientes, é apresentada nos moldes de um vestido caríssimo, que provoca a elevação da autoestima.
Marília também atende em sala reservada, a oferecer exclusividade. Acomoda as clientes num sofá e permite que elas despachem as mais variadas angústias e insatisfações: dúvidas existenciais, reclamações cotidianas, relatos de traição e impotência dos maridos, drogas e vagabundagem dos filhos, sessões secretas de sexo com amigas e empregados, entre outros segredos que precisam ser contados, mas nunca se sabe em quem confiar. Ela? “Sim, desabafe, eu garanto o sigilo...” E a cliente aproveita para conferir as tendências da estação. Ao final do processo, todas pagam o preço que for. E as mais abastadas são as que mais procuram esse serviço exclusivo; depois, saem por aí, a propagar. De graça. Assim, a aplicar esse método de acolhimento e manipulação, Marília esmaga as concorrentes locais.
Para combater a influência dos produtos importados, a empresária compra várias peças e as veste assim: destina as europeias e estadunidenses para as saídas ao supermercado, veterinário, visitas familiares e até mesmo para uso domiciliar, enquanto recomenda as suas peças às melhores festas, conferências, salões, casamentos e demais eventos sociais mais relevantes e com maior exposição. Então, aos poucos, a empresária incutira, no subconsciente de toda uma geração de mulheres ricas, a valoração: a sua marca, adorada, e as marcas consagradas do mercado exterior, relegadas a meras coadjuvantes.
Esse valor está tão enraizado que se tornou um hábito.
*
Dentro do carro alemão, estacionado em frente à sua loja, vinda do supermercado, Marília desabafa algumas lágrimas, a se aproveitar da blindagem, dos vidros fumês e dos celulares desligados. Ela reafirma para si que tem muito prazer com o trabalho e que se orgulha das estratégias que montou, do sucesso alcançado, do estilo agressivo, que absorve clientes alheias sem receio, e da rede de influências e contatos estabelecida — é amiga de todas as pessoas importantes da região e detém segredos que podem ser utilizados para obter vantagens ilícitas e subterfúgios. Ela reconhece que é uma mulher com poder, acostumada a celebrar a hegemonia do negócio próprio — não há sócio ou investidor externo; é todo seu. Contudo, agora, está a chorar e se sente assustada, frágil e exposta.
Marília desliga o som do carro. Enxuga as maçãs do rosto e olha para a entrada da sua loja, de rua, uma maison. Vigiada por segurança armada, apoiada por viaturas da polícia militar a rondar pelo bairro nobre, permite-se ao luxo de estampar diversas ricaças na sua porta e nenhum assalto. Só que não adianta esse conforto se há um burburinho não resolvido: o sumiço da empresária provocara um dano, pois as consumidoras estão a criticar a sua pessoa, algo impensável meses atrás.
Quinta-feira próxima será o casamento da filha de Rosana Røkke, cliente antiga e milionária; uma equipe de fora vai produzir o evento num formato magnânimo, sem precedente, com todos os holofotes a mirarem a catedral e a recepção, que será no memorial do convento secular. A alta sociedade borbulha, e as clientes estão ansiosas e chateadas, pois lotam a loja, desde a semana retrasada, e não consomem nada, porque precisam dos conselhos de Marília para fechar a compra — não há argumento condicionado das vendedoras que arremate a decisão.
O clima de insatisfação é péssimo para as vendas. Boatos circulam rápidos, como ratos. Hipóteses mórbidas atacam a integridade de Marília e começam a minar o prestígio da etiqueta numa velocidade perigosa. E como o prestígio é o pilar principal da marca, o metiê vai associar as roupas à decadência da dona, que deixara de fazer os atendimentos exclusivos e de monitorar as vendas pessoalmente. Porém, como ainda não há concorrência à altura na região, as mulheres ricas estão forçadas a comprar por lá mesmo.
— Urubus! — Marília reclama para si.
Ela sabe que, caso continue a se esconder, os pequenos rivais irão perceber a chance e se unirão em torno de um nome só. E a sua marca não terá como enfrentar a novidade, fragilizada em uma espiral de difamação que só fará aumentar o desgaste, até o seu fim. Marília sabe que o casamento da filha de Rosana Røkke é o divisor de águas. Precisa ir, de qualquer maneira. Pior: obrigada a desfilar com o melhor vestido que a sua loja havia produzido — e que nunca foi posto à venda ou sequer exposto —, em um salto pontudo e brilhante, penteada, maquiada e ornada com joias preciosas, como uma rainha sorridente a exalar compaixão às “súditas” que andam lhe traindo. Desta forma, entraria pouco antes da noiva, reluzindo o farol que é. Uma volta por cima aos moldes dos contos de fadas.
A empresária sofre uma pontada fortíssima de dor na cabeça. Mal consegue olhar no retrovisor. Há um envelope do laboratório, no banco de trás.
Sente ânsia de vômito.
*
Marília abre a porta do seu apartamento. Silêncio. Ela chama. Ninguém responde. Não aguenta mais disfarçar, anseia por um colo. A sua pequena família, formada apenas pelos dois filhos — ela é a única descendente de velhos aristocratas, já mortos, com um e outro parente, que moram no exterior, sem contato —, não sabe o que se passa nem desconfia dos problemas na loja. Os filhos mantêm uma compactuada distância da matriarca. Abastecidos de mimos tecnológicos e de babás, quase não têm afeto.
O ex-marido, renomado cirurgião, é um pai ausente, como ela fala: “só entende dessas coisas de médico”. A pensão, não falta, mas a presença, sim — visitas protocolares, nenhuma viagem com os garotos. Marília fez-lhe um favor ao ter requisitado a guarda. Às vezes, ela se pergunta como foi gostar de um homem ao mesmo tempo laureado e ignorante, capaz e insensível. Mais: amou, com tudo que possuía, até secar, por completo. E gerou os seus filhos com ele, a classificar o fato como um “acidente estranho da vida”.
Antes da tormenta provocada pelo envelope do laboratório, a empresária era cúmplice da cisão familiar — a regra da existência contemporânea é cada um por si, o meu primeiro; o egoísmo impera e regula, o recurso financeiro entra e a felicidade é fugidia. Marília vivia bem consigo mesma. Bastava-se. Da família, queria os garotos sadios e estudando. Do ex-marido, que continuasse a pagar em dia a pensão e demais despesas eventuais, requisitadas pelos filhos. Sexo? Trocou pelo glamour, vibradores e chocolates.
Só que viver bem nunca dura. Um dia, o corpo humano destroça as fantasias. E é cruel, a revelar as mazelas de repente, num pedaço de papel com letras impressas. Exame de rotina. Resultado incomum. Suspeita estranha, novo exame, específico. Marília o abre, assim que sai do laboratório. Choque. A tormenta se inicia. Por dias, o envelope mora dentro do carro alemão. A cada manhã, no início da rotina de trabalho, ela se acomoda no banco de couro e relê o exame, a acreditar que o resultado mudaria. Não quer aceitar. Não vai aceitar. Mas está lá, impresso no papel, sem concessão. As dores aumentam, a denunciar a fidelidade da informação, e nenhuma consulta é marcada. O envelope, este sim, continua sendo aberto, inclusive hoje.
Marília desaba na cama king size. Quer romper o pacto, ligar para o ex-marido, pois ele é médico. Não pode, mas precisa. Disputa difícil, entre o mito e a carne. E se acionar os filhos? Não dá; há muito, o cordão fora podado pelo elo do comércio “notas altas = dinheiro extra vs. notas baixas = corte na mesada”. Pensa: “Quanto será que eles cobrariam por um apoio sempre ruim de dar?” — para a empresária, não há quem segure a barra da doença alheia sem levar alguma vantagem com isso.
“Que ironia...”, ela reclama. Relembra que, por várias vezes, acolhera as misérias desabafadas pelas mulheres ricas, e agora está sozinha, sem escape. Marília não pode recorrer a nenhuma das clientes, mesmo atacada por um inesperado estado de carência, desespero à porta; seria a queda, a falência ideológica e financeira, expor a sua decadência dessa maneira. O mito é inabalável, sempre esbelto, saudável e exemplar. Mesmo enferma, não é permitido descer do salto ou perder a pose. E, para Marília, o que é pior, perder dinheiro ou poder? Ambos.
A empresária resiste e arremessa o celular para longe. Abre o closet, organizado por ocasiões; há looks prontos, com sapatos, bolsas, roupas e acessórios expostos na combinação ideal para o evento específico e catalogado. Marília nunca veste de novo o que já usou: ou põe para lavar e coloca na loja para vender — sempre desfila o que vende caro depois — ou, então, repassa a comparsas de outros lugares, que trabalham como ela, e ficam lhe devendo favores, como dicas de depósitos secretos ou o precioso silêncio em maracutaias coletivas.
Em frente à placa informativa Royal wedding, uma atenção especial ao longo prateado, que considera de impecável corte, exuberância e brilho, artefato inédito para arrasar no casamento da filha de Rosana Røkke. Marília retira a proteção de plástico e deita o tecido nos seus braços. Passa a embalá-lo como se fosse um feto, a deixar escorrer, de dentro do seu casulo, um filete de sonho. Sorri, afinal. Em frente ao espelho, molda o vestido em si. Mesmo fora do seu peso ideal, enxerga-se linda, forte, em porte soberano. Arrasará na solenidade e recuperará o prestígio perdido. E o melhor: ofuscará todas as suas clientes, deixando-as babando, inveja a mil, loucas para torrar os reais dos maridos na sua loja, em busca do segredo de tamanha beleza.
Marília deixa o closet mais aliviada. Demora-se no banho. Enxuga-se com os fios egípcios da toalha. Desliza até a cozinha e toma iogurte com granola numa xícara pequena. Na volta, deita o corpo na satisfação do momento e lamenta que o casamento será apenas na quinta-feira.
Poderia ser agora.
*
A ambulância entra pela garagem com a sirene desligada, às nove horas da manhã. No comando da situação, Érica e Roberta, as duas melhores funcionárias da loja, rivais na disputa pela preferência de Marília, acionadas, logo cedo, pela chefe, que mal consegue se mexer. Dentro do apartamento, os socorristas esperam as mulheres terminarem a arrumação da empresária — até mesmo em vias de morrer, é preciso manter a classe. Conseguem transportá-la, de maneira discreta, do apartamento à ambulância. Se alguém tiver visto a movimentação, receberá uma grana para não comentar. Marília, a oscilar entre a dor e a razão, dá a ordem, durante o percurso ao hospital: Roberta é a única autorizada para acompanhá-la — a empresária avalia que, mesmo interesseira, ela é dócil e romântica — e Érica é promovida a nova gerente e responsável pela loja — Marília julga que ela tem o perfil de que mais necessita nesse momento, a combinar ambição, gana para negócios e repertório para agradar.
Érica abre um sorriso destinado à rival. A empresária percebe e, antes de apagar, pede para que Roberta se aproxime. Fala, bem baixo, ao ouvido:
— Vou colocar o seu nome no meu testamento.
— Qué isso! Vai ficar tudo bem...
— Não precisa me agradar, sei da lama em que habito.
*
Roberta acoberta os processos: suborna o diretor do hospital, interna Marília com um nome falso, mas com todas as benesses do plano de saúde, e monta uma equipe exclusiva de atendimento, todos bem pagos e proibidos de falar. Do outro lado do front, Érica forja pequenas provas de que a empresária está a curtir uma temporada em Milão, Paris, Londres e Tóquio, para conferir as tendências da alta costura. As clientes estranham a opção repentina pela turnê euroasiática, mas acham muito chique esnobar o casamento da filha de Rosana Røkke por algo desse porte e passam a aceitar os conselhos de Érica — o desempenho profissional da nova gerente da loja sinaliza uma carreira promissora. Da família, apenas o ex-marido é acionado, que não se presta à cordialidade de uma visita, mesmo a conhecer toda a equipe do hospital, onde trabalhara por vinte anos.
Tarde de sábado. O médico detalha a doença.
— Quanto tempo me resta?
— Depende do tratamento...
À noite, com Marília apagada pelos remédios contra dor, e mais ninguém no quarto, Roberta começa a chorar no canto do sofá-cama do acompanhante, enquanto revê a entrevista de Érica no programa de moda da emissora local.
“Sou eu quem deveria falar na TV”, compara.
*
A morte ronda. Convulsões, vômitos, diarreias, diversos exames, alucinações. Marília não esboça raciocínio há dias. Às vezes, estaciona o olhar no vazio. Outras, deixa a baba escorrer à vontade.
O farol está apagado. A demência é mais que uma sequela da doença: é, também, consequência da alteração brusca dos rumos de uma vida estabilizada na glória e no sucesso. E o efeito devasta mais em quem não possui uma válvula de escape, seja religião, amor ou família. Mesmo mãe, profissional cultuada e repleta de contatos importantes, Marília só pode contar consigo mesma. Desde o início da sua carreira, cuidou de cada detalhe da construção de uma empresária poderosa, a incorporar esta meta como único motivo para seguir viva. Porém, não contara com a fragilidade do corpo humano, e quebrou — a água de si está a escorrer; em breve, por completo.
Ela emagrece. Muito. Mesmo assim, a quimioterapia é iniciada. Os fios do cabelo caem e a pele esturrica.
Marília se torna um cadáver que respira.
*
Roberta está estressada, sente-se muito desconfortável e sensível, confessa à sua mãe que não possui estômago suficiente para a função de acompanhante. Pior: na divisão das tarefas, o azar se impõe, o comando da loja está com a rival, e não presencia testamento algum sendo escrito. Demente, à beira da morte, Marília não vai deixar nada para ela, nenhuma compensação à vista. A raiva se acumula, mas a covardia dos românticos não a deixa abandonar a função.
“Parece um ratinho branco, frágil e vulnerável”, e Roberta cogita disponibilizar uma grana extra para os médicos, para o tratamento se tornar precário, ineficiente, até gerar um colapso súbito, fatal. Com a paciente internada com um nome falso, o corpo poderia sumir, enterrado como indigente ou ser vendido a alguma faculdade. Uma possibilidade que a faz sorrir, mas a acompanhante se desfaz desse pensamento a avaliar que, se o ex-marido da empresária quisesse apurar, chegaria até ela. Assassina? Não, não é o seu perfil. Melhor acreditar que existe um testamento e que o seu nome está entre os beneficiários.
A pequena família de Marília se acomoda na mentira. O ex-marido disponibiliza os recursos financeiros para que Roberta continue a gerenciar a crise. As mulheres ricas se acostumam com os elogios e métodos de Érica — que são, basicamente, reproduções da chefe —, e não notam que a falsa temporada euroasiática está demorando demais. O metiê renova a idolatria com a nova gerente da loja e mais umas três emergentes.
Os dias demoram a passar. Sentada ao lado da cama, Roberta assiste à televisão. Desvia o olhar para a chefe e vibra pelas senhas das contas na Suíça, que ninguém conhecia, só Marília. Nos delírios do início do tratamento, a empresária deixara escapulir o banco e os valores. Roberta aguarda a vez dos números e letras, entediada pela função de paisagem, a escolher um programa de fofocas para assistir — recorda-se do quanto que o seu trabalho na loja exigia um batalhão dessas informações para compartilhar com as clientes, enquanto disfarçava a venda.
Marília está quieta. Não tosse, não resmunga, não baba. Parece estranho, mas os olhos estão direcionados ao aparelho de TV. Será a cor do cenário? Roberta nada percebe. Prefere aguardar o próximo delírio da chefe que a torne milionária.
“Pois é, foi remarcado, finalmente, o casamento mais comentado e aguardado do ano. A filha da socialite Rosana Røkke irá se casar no mês que vem. Depois do inesperado acidente com o noivo, já recuperado, a sociedade volta a se mobilizar para...”
O casamento fora adiado. Marília mexe as pálpebras, estica a pele e amplia o olhar, como se o poço não fosse mais tão fundo.
Roberta boceja, desatenta.
*
A polícia prende quatro fornecedores, a prejudicar os negócios da loja de Marília. Érica chora, escondida no banheiro, arrependida por ter cortado verbas que não deveria. É a regra: deve-se pagar, com assiduidade, para que os agentes da Lei permitam o funcionamento da operação clandestina e ilegal. O sistema está comprometido. E as clientes, mais arredias com a proximidade do casamento — com a nova data, precisam providenciar outro look, pois o anterior já ficou ultrapassado.
Para resolver o problema, Érica aceita a proposta de um contrabandista sem referências, por um valor três vezes maior. Roberta bate firme, contra, à frente de todos. Saem na mão as duas mulheres elegantes e perfumadas, em plena sala da administração. Os gritos são ouvidos no salão da loja. O burburinho se espalha. Érica demite a rival por agressão, justa causa, abre processo na Justiça e ainda faz questão de contar a sua versão para as clientes, que espalham no metiê as difamações, fatais para a credibilidade de Roberta. Só que Érica continua a derrocada. Para cobrir os gastos com os panos contrabandeados, ela demite as costureiras de confiança de Marília, as mais bem pagas, e atrasa os salários das demais funcionárias. Para cumprir o prazo de entrega, determina o aumento da jornada de trabalho, a projetar mais enrolação no pagamento das horas extras. Conclui a equação do fracasso ao empurrar, na marra, looks horrorosos às clientes, que até reclamam entre si, mas são silenciadas pela etiqueta mais valorizada do mercado. Qual das mulheres ricas iria arriscar uma roupa assinada por uma emergente não cultuada no evento mais importante do ano?
A loja ferve: insatisfação geral, confusão, longa espera, mau atendimento, roupas de material vagabundo, mal costuradas, de péssimo caimento, bregas e out. As discussões entre as vendedoras e as clientes expõem um inédito nível de stress, e até roubo de carro, assalto à mão armada e sequestro-relâmpago estão acontecendo em frente à loja — a crise financeira reduzira a segurança a um vigilante desarmado, e as rondas dos policiais foram relocadas para outro local, financiadas por um novo patrocinador.
O casamento da filha de Rosana Røkke é amanhã. As mulheres ricas estarão presentes, pessimamente vestidas com os trapos da etiqueta mais famosa — com um ajuste aqui, outro sem jeito acolá, irão assim mesmo. A loja está no vermelho e, mesmo com o faturamento recente, não dá para saldar o total das dívidas da gestão de Érica.
Ela, exausta e se sentindo horrorosa, pergunta-se: “O que fazer?” No amplo apartamento de um por andar, diferenciado por se assemelhar ao vasto espaço de moradia das antigas mansões, Érica apresenta as suas credenciais a um dos filhos de Marília, que permite a sua entrada. Em uma mensagem falsa, a empresária autoriza o livre acesso da gerente ao seu quarto. O filho não desconfia — não sente saudade nem conhece os números de telefone da mãe para uma eventual conferência —, segue para o quarto e recomeça a partida online de um jogo com muito tiroteio e morte.
O desgaste dos últimos tempos é rapidamente esquecido. Para Érica, estar ali, naquele closet que considera imperial, é um momento único, a glória. Ela, corroída desde o primeiro dia de trabalho pela inveja, pode se apossar do que deveria ser seu, por um mérito que o raciocínio construiu, fantasioso, para o ego inflado de adjetivos nem tão reais assim.
“Eu mereço”, ela celebra.
*
Hoje é o casamento da filha de Rosana Røkke. Érica acaba de entrar na catedral, a estrear o longo prateado em público. Coincidência: ela escolheu a mesma roupa com que Marília pretendera recuperar o prestígio, naquela quinta-feira de sonhos perdidos, tempos atrás. E, como a chefe previra, o longo prateado faz com que a mulher que o porte, ofusque todas as clientes da loja, deixando-as tremelicando e rangendo os dentes, a invejar em níveis infernais. As mulheres ricas, compulsivas e horrorizadas pelo triunfo de tal beleza ficam muito mais fissuradas para torrar o dinheiro dos maridos; afinal, estão todas se sentindo horríveis, bregas, vestidas para morrer, com trapos surrados, estranhos, de péssima qualidade, condição imposta pela idolatria à etiqueta, subitamente revalorizada pela entrada triunfal da sua nova madona.
O casamento é o grande evento do ano da sociedade, mas o espetáculo parece ser resumido a um só ato: a entrada triunfal de uma deusa, a própria Afrodite, que seduz toda a carne amortecida na catedral. Uma covardia com a noiva, coitada, que nem saíra de casa, ainda. Alguém, por favor, telefone para ela não vir mais — isso foi o pensamento do noivo. O vestido longo prateado, moldado às formas de Érica pela melhor costureira disponível — exclusividade remunerada com o desvio da raspa do caixa da loja —, produz uma das visões mais surpreendentes na memória afetiva da região. A magnífica se senta e pensa: “A loja será só minha”. Depois de hoje, pode ser que sim. Enquanto Marília definha no hospital, rumo ao irremediável, Érica fantasia que o closet e o amplo apartamento também serão somente seus: basta seduzir e conquistar os filhos, cujo luto os transformará em caça — a carência inevitável, que surge pela falta da peça que faz a engrenagem continuar a tranquilizar a existência do cotidiano —, e até mesmo o ex-marido ausente, que não se casou mais, solteirão cobiçado na alta sociedade.
Ao lado de Érica, dois lugares reservados. Questionados, os promoters não informam os nomes dos contemplados. Ela, absoluta na sua pavonice, não insiste e continua a reluzir, sozinha no banco — a honra seria de qualquer pessoa que se sentasse próxima dela. Alguém informa que a noiva chegou. Os convidados se levantam, a espichar o pescoço para enxergar; disseram que o cerimonial faria uma entrada avassaladora. Como será possível manter essa promessa depois de Érica?
Todos de pé, os músicos a postos, a ansiedade a circular, Rosana Røkke segura o choro. A ordem é dada pelo coordenador do evento. Dois homens fecham a porta, feita de madeira nobre. Quase. Pelo filete que fica, alguém poderia ter visto o aceite da noiva. Indagações. A porta se abre, a luz foca, mas a música não começa. O vestido é branco, mas não é a noiva. É uma aparição. O susto é coletivo. As feições travam as bocas escancaradas. Olhos arregalados. É Marília, a trajar um longo todo fechado em branco, microdetalhes bordados à mão, com a careca a reluzir. Magérrima, entra na catedral pelo tapete vermelho, amparada por Roberta, vestida com um verde claro básico, figurante. É evidente que Marília está em estado terminal. Porém, a evidência é completamente diluída no mundo disposto de realidades mil, e ela se imprime àquela figuração toda como uma deusa também, só que hierarquicamente superior: ela é Gaia, senhora de tudo que vive e respira.
Marília caminha devagar, moldando o tempo às energias materiais que lhe restam. Ninguém comenta nem sussurra; é confuso presenciar o seu retorno. Para muitas, ela estava a curtir o verão europeu. Outras desconfiaram de uma possível fuga com o manobrista bonitão da loja. Poucas apostaram em um “dar um tempo” que os empresários brasileiros praticam, depois das maracutaias estourarem na imprensa. Opções reais, coerentes. Ninguém apostaria no surreal. Careca? Magérrima? Iluminada.
Marília se senta ao lado de Érica, acompanhada por Roberta, a cumprir a sua reserva subornada. A voz da empresária sai fininha, quase sussurrada:
— Que vestido lindo, querida, você está exuberante!
*
Roberta chega ao hospital, esbaforida, a sangrar por um rasgo feito por unhas pontudas. Julga que é coisa de vadia, do tipo que conhece muito bem o lugar que precisa machucar. No rosto. Da rival, melhor ainda. A vítima, a borbulhar, esbraveja com o médico exclusivo: não vai soltar mais dinheiro, acabou. Ele alerta sobre as consequências. Roberta não quer ouvir, e, suturada e medicada, vai se despedir de Marília. E os milhões? Cansou de esperar.
Final de tarde, o quarto está escuro, cortinas fechadas. Ela estranha. A cama... Vazia? Sussurros:
— Preciso renascer... Preciso de você... Aceita?
Roberta se assusta com a moribunda de pé, raquítica e sem cabelos. Marília surge das sombras, por trás. Ilumina os olhos para cima da funcionária e hipnotiza. Roberta aceita o pedido. Frágil daquele jeito, a chefe aparenta ser uma presa fácil. Para o raciocínio da acompanhante, basta se comportar como uma fiel vassala, sempre presente, atenta a todas as vontades, companheira. A doença progredirá, no seu destino inexorável, e se os delírios não retornarem com a tão aguardada senha, ao menos algo interessante Roberta poderá conseguir.
No testamento.
*
A festa do casamento acontece próxima à catedral, em um convento secular, restaurado, refinado por flores, brilho, luzes, cores e som. E o cerimonial contratado faz jus à fortuna que cobrara: comes e bebes com menu da alta gastronomia europeia, mesas de madeira de lei, decoração delicada e pincelada com pequenas pedras preciosas, atendimento com gentileza, presteza e nenhuma gafe.
A alta sociedade está presente. As mesas ofertam um banquete farto em quantidade, variedade e qualidade, para quinhentos convidados, cobertos pelos holofotes da imprensa de fofocas. E o que as mulheres ricas fariam no momento tão esperado da recepção pós-altar? Devorariam os doces, encheriam a cara com o espumante mais caro, largariam os saltos por aí e despencariam na pista de dança, brigariam com os maridos e flertariam com os garçons, entre outros afazeres regidos pela educação dos mais ricos. Porém, a festa foge do padrão.
Quieta, em pé, Roberta degusta o espetáculo do rebuliço em torno da aparição de Marília: um bolo de clientes aglomeradas, a disputar o lugar mais próximo da figura quase espectral. Querem saber detalhes de tal mudança impactante. Muitas sentem, pela primeira vez na vida, uma compaixão que transborda e sufoca, e uma novíssima fome de piedade e voluntarismo. Querem ajudar, amparar, confortar. Próximas da figura vestida de branco — posta, calculadamente, numa posição de lótus —, confundem as sensações: a solidariedade passa a ser mútua, pois há muito o que aprender com Marília.
Magnetismo. Além das clientes, damas do high society, os demais convidados inflacionam o aperto, movidos pela curiosidade, impressionados pela exibição da fragilidade humana e envoltos, por autossugestão, em uma cerimônia de instantânea canonização — planejada com esmero por Marília desde a clausura no quarto do hospital. Os produtores da festa são rápidos em perceber a atração e logo montam uma fila organizada, com disciplinadores. No clímax da aglomeração, a imprensa posiciona os microfones, máquinas e câmeras. Ao sinal de um bracinho raquítico levantado, todos se calam. A voz sussurrada, amplificada pelo sistema de som da festa, pronuncia a história. Uma comoção exagerada repercute pelo ambiente. O culto acontece.
Os noivos vazaram mais cedo; a aparição livrara os pombinhos dos cumprimentos protocolares aos quinhentos convidados. O DJ desiste de agitar a pista vazia. Do outro lado da romaria e adoração, uma mesa e a sua personagem solitária, vestida com um longo prateado e as feições de um triste rosto bem maquiado. Enquanto a chefe forja o seu retorno às clientes e colaboradores, Roberta se aproxima da rival e alarga uma risadinha, parida do canto da boca. Érica não reage nem revida; ela sabe o tamanho do prejuízo pelo retorno triunfal da chefe que, a essa altura, não retomará a marca. Érica, de desastres empresariais acumulados, fracassa também no casamento. O prestígio se acaba de vez. E isso significa a falência.
Marília sinaliza para Roberta produzir o clímax da sua forja. De dentro de uma maleta, a acompanhante retira flyers em papel semente e os distribui aos convidados: está lançada uma nova marca e um novo conceito.
Todos buscam o endereço da loja recém-aberta.
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Localizada numa galeria com jardins, curvas e caixotes assimétricos, no coração de um bairro nobre emergente, a nova loja de Marília é menor que a maison, mas é aconchegante. A decoração fora pensada em prol do acolhimento espiritual: incensos, tapetes, almofadas, muito branco e azul, visual clean, preocupado em não parecer com os espaços indianos. Tudo a custo zero. Zen.
Um amigo dispensa o aluguel e condomínio por seis meses; outro custeia a decoração e os materiais; outro empresta os seguranças e os manobristas pelo tempo que ela precisar. Os fornecedores mais discretos retomam as atividades e presenteiam a cliente mais eficiente com uma coleção inteira de graça — só na primeira leva, deixam claro. As competentes costureiras de confiança imploram pela vaga. A empresária nem precisa de tantas funcionárias, mas, na negociação, contrata todas, pelos dois primeiros meses de trabalho com um salário abaixo do mercado, e a promessa de aumento depois. Por fim, as mulheres ricas tratam de propagar a notícia e vão todas em romaria ao novo empreendimento de Marília.
A empresária desistiu de vender identidades. Afirma que se elevou. Continua a camuflar a venda de roupas elegantes e caríssimas — mesmo espiritualizada, não há espaço para saiões ou batas —, mas a etiqueta mudou. As mulheres ricas não a procuram mais para desabafar. Enfrentam a angústia da senha e hora marcada e pagam os preços exorbitantes das roupas e acessórios só para ouvir os conselhos da “Fênix Branca”.
Magricela, careca, vestida sempre de branco com detalhes do tal pássaro, Marília atende as aflitas em posição de lótus, a forjar uma atmosfera de mistério e adoração. Fala pouco, baixo, sempre armada de alguma tirada copiada em livros de autoajuda e palestras de espiritualistas no YouTube. E arremata o conselho a rememorar a sua história de sofrimento e superação, sempre com palavras ou pontos de vista diferentes, para não enjoar o assunto. A mulher rica sai maravilhada da sessão, a admirar a mulher resiliente, numa idolatria muito mais apaixonada do que na época dos conselhos para as aventuras sexuais ou deslizes dos maridos.
Do outro lado da cidade, uma gigante desaba. De portas fechadas, papel-metro cobrindo as vitrines, funcionários demitidos, a marca aguarda o desfecho da sua trajetória. Há jornalistas na rua, com as suas máquinas e câmeras a postos. É a decadência que seduz o telespectador. Todos querem cuspir no prato em que já comeram. E a polícia cerca a área. Prepara-se para invadir. Dentro da maison, uma pessoa está trancada na sala reservada, sentada no piso, a abraçar os joelhos: Érica e a sua derrota. O tal contrabandista sem referências é muito pior do que ela pensava. A ficha enumera: traficante, assassino, fraudador, gigolô e estelionatário. E ela, acusada de cúmplice. Associação. Mais: as costureiras denunciaram à Justiça do Trabalho todos os abusos.
Os processos correm sem segredo. A imprensa divulga as provas. As denúncias são ampliadas; quase todas da época das maracutaias de Marília, mas a memória é curta. Arruinada pelo fiasco da última coleção — a imprensa nacional especializada escrachara os modelitos das dondocas no casamento —, Érica não consegue se defender, abandonada por todas as clientes, sem apoio algum. As suas afirmações e denúncias passam ao relento, nenhuma sensibilização ou investigação. Quem iria duvidar da credibilidade do mito, ainda mais agora, divino na forma “Fênix Branca”? A cúpula armara contra Érica, a subornar testemunhas, e ela veio a rodar numa laranjada só.
Arrombam a porta e arrancam Érica à força, que tenta resistir, e é puxada, ilegalmente, pelos cabelos, a protagonizar a foto que sairá na primeira página na edição de amanhã. E ninguém vai relembrar que, seja na imprensa, polícia, metiê, clientes ou concorrentes, aquela etiqueta, marca e loja decadente, fora criada e gerida, por um longo tempo, pela empresária Marília.
Exclusivamente.
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Segunda-feira, véspera de feriado. Roberta há muito está cansada, exaurida pelo trabalho. “Marília é o cão! A desgraçada não morre mais!”, reclama. A empresária continua muito doente, mas o brilho e a energia só fazem aumentar. Os médicos se impressionam: ela ultrapassa, com sobra, o estimado tempo de vida que lhe resta. “É muito azar!” Dizem que é o método exótico do especialista chinês em medicina alternativa que o ex-marido indicara, terapia de impacto, repleta de técnicas corporais e energéticas, ingredientes e acupuntura milenar. Pode ser. Marília está cada vez mais tirana. Comanda, com linha dura, a sua nova farsa de guru. “Até palestra faz, como pode?” E cobra muito caro, um preço sobrenatural. “Só tem otário nessa cidade”, Roberta julga. Mal sabe que ela pode ser incluída nessa avaliação.
“Não quero trabalhar hoje!” Ela está louca para enforcar e curtir o feriado com o namorado novo. Nada feito. Sem negociação. Marília telefonara mais cedo, a exigir a sua presença na loja antes do horário normal de trabalho. Roberta estranha, mas cumpre a ordem, com muita raiva. “Por que não desisti quando pude?”
O cheiro do incenso está mais forte. Na mesa, um calhamaço de papel. Marília começa uma ladainha em tom meloso, quase um carinho, a relembrar a doença, o período no hospital, a última gota de esforço para renascer e a revisão nos seus valores para com a vida, com mais respeito ao amor, à fraternidade e, principalmente, à gratidão. Reconhece a ajuda de Roberta, considerada uma fiel escudeira, companheira, presente, a cumprir, com louros, o papel que a sua família deveria ter feito, sem ter nenhuma compensação concreta à vista. Assim, a empresária entende ser justo recompensá-la. Marília abre o jogo sobre o dinheiro escondido, a cifra milionária que mantinha na Suíça. Oito contas. E quer passá-las agora, por inteiro, para o nome de Roberta.
Alvoroçada, a acompanhante assina, sem ler nem o básico. Na sequência, ela pede demissão e manda Marília à merda.
Na fuça.
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Marília vomita demais por hoje. Talvez não sobreviva na próxima semana. O médico ocidental, caridoso com o seu lucro, tenta ampliar a possibilidade de cura ao afirmar que os tumores são operáveis. “Escroque”, ela o julga e prefere o chinês, que deu a real e voltou para o Oriente. Ela sabe que o bicho se espalhara, tá tudo infectado. Sente nas entranhas o corpo arder, suicidar-se. E a sensação de impotência é muito pior. Mesmo com todos os seus métodos e artefatos de persuasão, não pode dobrar a vontade do acaso. Lamenta que, com tantos inúteis por aí, logo ela tenha sido premiada. Sorte, má.
Resolve variar. Na cozinha, dispensa a plantonista. Sente desejo de ameixa e mamão. Droga. Não tem. Vai ter que ficar no iogurte mesmo. Abre um pote. Desnatado. Senta-se num banco e olha para o aparelho de TV da cozinha. Noticiário. E o acaso lhe rende um sorriso de fartura.
Operação Jiboia Coentro. A PF prende um monte de agiota, doleiro, atravessador, traficante e até juiz e deputado. Mas não adianta. Como todos já sabem, só ficarão presos os laranjas, esses que assinam por aí as coisas dos outros. É tudo isso mesmo? Oito contas na Suíça, dinheiro rastreado do narcotráfico, coisa séria, barafunda. E não é que a repórter se impressiona com o visual da acusada? Tão jovem, bonita, com uma suave cicatriz no rosto. Roberta. “Tão burrinha...”
A empresária desliga a tevê. Quarto. Insônia, muita dor por dentro.
— Não tinha como ela saber das outras contas...
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Marília entra no quarto de um dos filhos, pela primeira vez neste ano. O garoto dorme. O outro é de rua e está na casa de um amigo. Perdeu. Ela se agacha, lentamente, e deita um beijo carinhoso na testa do herdeiro. Com o susto do inusitado, ele acorda.
— Mãe?
Analisa a mulher magrela e careca.
— Eh... Essa viagem lhe acabou...
Estranha.
— Não tá na hora de você botar um botox, não?
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