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Despedaço
Emmanuel Mirdad
Um homem do interior se instala na cidade grande, com mar. Acorda cedo, a olhar para um vale de concreto e favela, e se locomove de ônibus, sem se preocupar com o horário, mesmo com os engarrafamentos a enfrentar. Salta no ponto indicado, anda pelas ruas do centro histórico e encontra a faculdade sediada num casarão, a espreitar um estudante de olhos claros, herdeiro de uma tradicional loja que vende tintas. Nem desconfia que, logo mais, o acaso vai provocar o turbilhão.
Com fome e suado, vindo do serviço feito no banheiro da faculdade, ele compra um acarajé e um refrigerante, a pausa que o faz perder o ônibus recomendado; o jeito é seguir em outro, de empresa, cor e rota distintas. É a primeira vez que o homem descumpre a sua rotina previamente estabelecida. Quebra o rito, e o ônibus perde o controle numa curva da orla e bate no poste. Milagre não ter capotado. Dos vinte passageiros, nenhum se fere com gravidade, somente arranhões e pequenos hematomas. A orelha do motorista é que fica inchada por esporros.
Um pouco tonto, por ter batido a cabeça, o homem se afasta do burburinho sem emitir um gemido sequer, pois quer evitar os curiosos e as autoridades; vai andando pela calçada, paralela ao mar, aborrecido pelo transtorno que não previra. Entretanto, o acaso põe para funcionar a sua armadilha, o seu turbilhão: a beleza. O sol, no processo de se despedaçar ao final da tarde, aos poucos forja uma miríade de cores que deixa o homem fragmentado pela revelação: nunca avistara o mar de tão perto, quiçá o pôr do sol no horizonte da baía. Abandona-se na apreciação do espetáculo, na corrosão da carapaça de operário do hábito. Senta-se na balaustrada e permanece até anoitecer o impacto, a permitir a contemplação de tal deleite desconhecido.
Passa a frequentar o pôr do sol. Deveria ter deixado a cidade grande, há novas requisições no interior, mas prefere descansar dos seus fardos por uns dias a mais. Uma partida de futebol acontece na praia, pelada de meio de semana, final da tarde. Normal, numa capital afetada pelo mar. Porém, o anormal surge: um homem de terno caminha, a atravessar o jogo pelo meio de todos. Palavrões, ameaças e quase violência; e ele continua o seu percurso. Passos depois, o homem de terno arremessa a sua pasta para o mar e desaba na areia, de lado.
Basta distorcer um pouco o formato para que os grupos de curiosos se formem, aglomerados num bloco compacto, tribunal e plateia. Na balaustrada desse final de tarde incomum, o consenso: bêbado, demitido e traído. O martelo do coletivo — ou a ausência da responsabilidade do indivíduo — é batido, para celebrar a catástrofe alheia. O deboche dos curiosos alimenta o escárnio, a render e ilustrar o movimento das conversas inúteis pelo resto do dia.
O homem do interior nada cogita. Está sentado, apenas a descansar o olho na beleza em que passou a acreditar. E o choque do inusitado não lhe causa repulsa; é só uma atrapalhação do alheio. Desce à areia, com uma expressão de Tommy Lee Jones. Há algo que o aproxima do caído.
Sem palavras delicadas, alertas, anúncios, o homem do interior se senta ao lado do homem de terno, largado na areia. A poucos metros do seu calcanhar, a cabeça do caído balbucia:
— Eu matei um homem.
Do interior, o diálogo surge, sem filtro:
— Eu também.
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