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Pássaros deliram (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Pássaros deliram
Emmanuel Mirdad

          Barulho de tiro, dois. Reconhece o calibre pelo som. Segura forte a coxa da mulher, a esperar por mais estouros. Firme, coração calado, ele processa: foram disparados de dentro de uma casa próxima. A viatura dos seguranças armados deve estar a caminho. Da coxa para o celular. Aciona os comparsas da polícia Matanza e Jacaré, que rondam à caça de gastar bala, mas vão demorar a chegar, por estarem do outro lado da cidade. Do celular à coxa, de novo. Aperta com mais força a esposa, que não acorda. Tudo muito quieto. Não há mais tiros. Nenhum grito, pedido de socorro, burburinho. Considera o silêncio um péssimo presságio. “Cadê a sirene da viatura?” Nenhum barulho diferente, apenas os pequeninos ruídos, da calada da noite, dos insetos à beira do rio que corta o condomínio fechado de casas, longe do centro, da delegacia, de muitas coisas, a inspirar brincadeiras como “Quando você vem para a cidade?”. Minutos são gastos na elaboração mental. A segurança privada parece que é só de enfeite. A viatura mais próxima se situa tão longe quanto Matanza e Jacaré. A sua casa está vulnerável, próxima aos disparos. O que fazer? Aguardar e correr o risco de ser forçado a assistir ao estupro da sua esposa? “Não!” Convencê-la das suas ofertas custou caro, mas a diversão recompensou — ele avalia que, por ser criada no gueto, a mulher despachou a esposa anterior com um suingue e determinação que nenhuma caucasiana tem. “Minha delícia...”, e acaricia as coxas. Por ela, irá à caça.

          Levanta-se no arroubo e escolhe, das quatro armas à disposição, o trabuco que mais esburaca as carnes, filha predileta, para as ocasiões especiais. Julga que é preciso ser um bom anfitrião, a receber os indesejados com balaços na barriga e na cabeça. Armado, de cartucheira, pijama e celular, abandona a espreita e segue do quarto à sala, pelo corredor e escada. Pensa na fragilidade da cozinha. Lança-se ao quintal. Aguça a temperatura da escuridão e filtra as sombras. A ansiedade o faz avançar. Lá fora, só se apresenta o inimigo ancestral: o silêncio noturno, sempre recheado de vultos suspeitos, pirraça do medo. Ele retém o faro à direção do espaço vazio, alagado pela madrugada. E nada acontece. Resmunga. Volta-se à cozinha. Fica a ouvir a noite de dentro. Nada anormal para o horário. Sem estampidos, passos, viaturas. Alucinação? Rompe a insatisfação na porta principal. Quer sentir a vibração do crime, fora de casa, empossado do metal que o faz temível. Fareja sangue, por perto. Desce a rua, orientado pela memória auditiva, mesmo a se alfinetar da possibilidade de que o motivo que originou os disparos fora um vagabundo, e que ele poderia abusar da sua esposa, na sua ausência. Entretanto, a intuição é mais forte. E ela se cumpre.

          Muro baixo, sem cachorros, apenas esculturas. O homem armado adentra o quintal da casa do famoso artista plástico Mark Pierre, o vizinho colecionador de armas — os dois únicos tiros da noite foram disparados da pistola italiana que ele comprara no último verão, e era a sua favorita, atualmente. O silêncio confessa: nenhuma movimentação. Ao pé de uma obra, o homem supõe que o vagabundo poderia estar escondido dentro do que parece ser uma simulação futurista de uma casa da árvore. A hipótese se impõe como certeza, e ele sobe, a esgueirar-se. Do filete de visão que tem, num vão da obra, o vazio, de novo. Entra na peça e percorre os seus cantos. Encontra algo que se parece com uma varanda, que é interligada à casa por uma pequena ponte de metal. Interpreta que o vagabundo invadira por ali e que o artista tentou se defender, a efetuar os dois disparos que ouvira mais cedo. Pela pouca quantidade de tiro, determina que Mark Pierre não conseguiu.

          Sem pestanejar, movido pela pulsão do heroísmo, o homem armado continua a caçada, por dentro da casa. Mais rápido que antes, coração a borbulhar, engatilha a predileta rumo ao piso inferior. De lá, surge um som fluido, esguichos. “Perfurações”, deduz. Esquece-se da prevenção e corre escada abaixo. Na sala principal, um homem mascarado, baixo e forte como um touro, despedaça Mark Pierre com dois facões, a estripar sem lógica, apenas fome. O homem de pijama e trabuco interrompe a ação aos berros e balas. O assassino ainda tenta reagir, largando a carniça e a empunhar as lâminas, mas recebe a descarga da munição, também sem lógica, apenas fome. Diversos balaços acertam o assassino, fulminando-o.

          Silêncio. Fedor. Vísceras. O assassino do assassino arregaça as janelas. Está em êxtase, a arfar e a sorrir, ao mesmo tempo. “Incrível! Num dá pra acreditar!”, celebra, a sós, sujo por respingos de sangue. Meses de trabalho, intensa investigação, vários comparsas na caça e, quem diria, de pijama e pertinho de casa, acaba de empacotar o bandido mais procurado pela polícia.

          Que a imprensa batizou de Monstro.

*

          Surgido meses atrás, o psicopata era prolífico na sua matança. Qualquer pessoa poderia ser a sua vítima, e nunca se viu uma sensação de pânico tão grande na cidade, acostumada à violência já amortecida do tráfico, sequestro e latrocínio. Monstro atacava, preferencialmente, à noite, em qualquer lugar, e sempre conseguia fugir, matando policiais e seguranças também. Era uma esfinge; não deixava pistas e impressões digitais, mesmo com a barbárie que aplicava, numa longa lista de atrocidades. As mais recentes: decepou uma turma inteira de uma universidade; ateou fogo em uma recepção de casamento, a trancafiar mais de trezentos convidados dentro; destroçou alunos de uma escola municipal com ácido, marreta e machado; invadiu uma galeria de lojas e mutilou com facões, indiscriminadamente, quem passava na sua frente. A única similaridade entre os crimes era o ato de matar o máximo de pessoas possível, sem nunca deixar sobreviventes.

          Monstro vestia-se de preto, tinha cabelos compridos e usava sempre uma máscara que parecia o rosto de algum homem primitivo, que a imprensa não tardou em provar que se tratava de um Homo erectus, a comparar a representações encontradas em livros e museus. O Governo estava possesso. Mobilizou recursos extras, homens, departamentos. O crime parou aos pés dessa incógnita. Numa das tantas chefias montadas, nomearam o delegado Mauro, reconhecido por desbaratar e prender um grupo de extermínio — concorrentes do grupo de Matanza e Jacaré, os seus estimados comparsas, envolvidos também com o tráfico de drogas e contrabando.

          “Eu vou pegar esse desgraçado”, prometera.

*

          Esburacado e sangrando, Monstro apodrece. Mesmo morto, atemoriza. Talvez seja o seu legado de psicopata implacável que imprime uma aura de poder satânico, paranormal. Tantas mortes... Desabado, escorado no sofá, com a cabeça pendendo, Monstro é apenas um corpo sem vida, a se esvair em sangue, como qualquer mortal.

          O fedor das vísceras de Pierre impregna o ambiente, mesmo com as janelas abertas. Mauro não se incomoda, pois está empolado: “Ah, eu vou sair na primeira página de todos os jornais... Quem sabe futuro secretário?”. O delegado curte a glória de ter matado o algoz número um da cidade. Matanza e Jacaré avisam por mensagem que já estão próximos ao condomínio. Mauro se contém e não revela a conquista. Aproveita os últimos instantes a sós com o psicopata e se aproxima do corpo, com um pouco de cautela. “Como é forte o desgraçado! Que aberração de músculos!”, e debocha que a condição física não suportou o poder do ferro, da pólvora e da velocidade. Tapinhas na arma preciosa, o delegado chega à face, falando baixinho, para si: “Ah, o prazer de ser o primeiro a ver a sua fuça... Tanto tempo que eu esperava por isso... Que buraco decente, hein, fila da puta?”.

          Mauro arranca a máscara de Homo erectus.

          Susto...

          Um monstro teria um rosto?

          O assassino deveria ser um bicho sem cabeça, por cometer tanta desgraça. Não há juízo que justifique esse legado genocida, olhos que confirmem, cara que esconda ou assuma tanta vergonha. Mas o psicopata Monstro possuía um rosto, sim. Agora, avariado, mas ainda identificável, humano, e até mesmo sereno, morto que era. A tal puta mãe desse filho parira dois. E, naquele instante, o acaso os une.

          Irmãos. O delegado e o psicopata. O nariz é o mesmo, os olhos, parecidos, e mais o sorriso caricato do avô materno, que o acaso brotara, acidentalmente, no defunto. Irmãos. O sangue, que goteja pelos buracos da caça, é o mesmo que movera os dedos da sentença fatal. Monstro, morto, vence. Mauro, atônito.

          Desgraçado para o resto da sua vida.

*

          O delegado é internado num hospital psiquiátrico, em estado de choque, mesmo com o status midiático de herói que desejara. Quem se aproveita é a esposa, presente em cada homenagem, medalha e programa televisivo, a responder por ele. Tanto roda, que até consegue ser contratada para apresentar um podcast. Dizem, por aí, que andou saindo com uns atores de segundo escalão e certos diretores de programa de fofocas. Separa-se quando a mídia se cansa do assunto. Mauro? Transferido para uma instituição pública, vegeta, fora do mundo.

          Os comparsas estranham a dimensão desse choque. Nenhum vestígio de luta. Assassinato claro do assassino, no poder da situação, intacto. “Que diabos aconteceu de sobrenatural naquela noite?”, questionam, sem resposta. Depois da revelação, Mauro não emite mais uma palavra. Sem reação. Letárgico. Resistente à medicação, sem efeito. E, como foi em vida, a esfinge do Monstro persegue e vence as indagações. Ninguém revela a identidade do psicopata, que não possuía impressões digitais, arrancadas por ácido. Então, o Governo dá o caso por encerrado e a cidade, enfim, pode dormir sossegada, com os níveis de violência habituais.

          O absurdo que é amortecido como normal.

*

          A mãe vem da roça para a cidade e resgata Mauro do hospital psiquiátrico, instalando-o numa casa simples, mas confortável — a do condomínio ficara com a ex-mulher. A última vez que viu o filho foi há quinze anos. Na cama, Mauro baba. O enfermeiro, contratado para trabalhar no turno do dia, fecha um baseado no quintal, rodeado por dois terrenos baldios e uma ribanceira aos fundos. Mais ninguém no quarto. A mãe puxa uma cadeira para perto do ouvido esquerdo do filho e diz:

          — Sumimos no mundo. Ideia do seu pai, sabe como é... Senti a sua falta, gostava da cidade grande, onde me criei e casei, mas, por seu pai, tive de partir... E o seu irmão era muito apegado a Ramiro. Ouvia, ouvia, ouvia e virava pra lua e dormia. De repente, se apaixonou pelas lâminas. Ficava na roça o dia inteiro, amolando os facões. Até que se emaluquiou nas ideias do seu pai e voltou pra cidade. Só veio em casa uma vez, depois, dizendo que o trabalho dele era grande demais, e que precisava de você. Dei o seu endereço e ele me deu essa chave.

          Mauro não reage. A baba continua a escorrer. A mãe abre a mão do filho, deixa a chave na palma e a fecha de volta, com força. Beija a sua testa e parte, rumo à roça, onde morava.

          O quarto, vazio, tem o aroma de mato queimado, que entra pela janela. É o enfermeiro, a aliviar o tédio que sente do seu trabalho de acompanhante de inválidos. Mesmo assim, dedica uma atenção carinhosa a Mauro. O psicopata havia dilacerado dois amigos e a namorada em um dos ataques a parques que fez. Por isso, considera o ex-delegado o seu redentor e aceitara o serviço por um preço camarada.

          Ao voltar para o quarto, o enfermeiro nota que a mão do doente está cerrada. Tenta aliviar a tensão, mas, para abrir os dedos, só com o uso da força. Encontra a chave. Aí, a lombra ajuda: ele julga que o objeto é precioso — tanto que, por ele, Mauro teve a primeira reação em meses — e se compromete:

          — Podexá, meu patrão, vou te levar lá, seja onde for.

*

          O chaveiro, quebrado, revela a primeira pista: o nome incompleto de um motel, apenas com três letras visíveis, “Mir”. O enfermeiro procura na internet e não encontra nenhum com essas iniciais na cidade. Fora, até tem. Motel Miragem. Motel Miríade. Motel Miriam. Mas algo lhe coça os instintos. “É aqui, sinto isso!” No gueto, ele pergunta ao seu comerciante de erva. Nada. Recebe a indicação do oráculo da quebrada. Vô Tomé escarafuncha a raspa da memória e sugere um rendez-vous dos anos 1930, “o saudoso Mirandinha”. Fica na parte mais antiga da cidade, cracolândia do búlgaro, rival de negócios do gueto. Ainda funcionaria hoje em dia?

          — Funciona sim, meu fio, ninguém dêxa de metê puraqui...

          O enfermeiro relata o serviço para Mauro e consegue uma apontada e um balbucio — por esses dias, o ex-delegado tivera uma melhora do estado letárgico, incendiado pela curiosidade. Dentro do armário, o enfermeiro remexe a caixa que a mãe de Mauro trouxe da casa anterior e encontra uma pequena agenda com números de telefone. Mostra um a um até o ex-delegado indicar para qual ele deve ligar.

          — É esquema pro Maurão? Tô dentro!

*

          Agente policial, participante de grupo de extermínio e comparsa de longa data, Matanza se apresenta na noite acertada e ajuda a carregar Mauro para o carro. No banco de trás, o enfermeiro, nervoso, acende uma tora para relaxar.

          — Ô, pivete, só libero porque você é corrente, vú? Mas se você queimar um de novo, te sento a mão e enfio o baseado goela abaixo!

          O enfermeiro acha melhor apagar e guardar para outro momento.

          O bairro é considerado pela imprensa como um dos mais perigosos da cidade. Só alguém do quilate de Matanza para poder entrar na área com tanta pressão: carro em velocidade, som alto, a encarar qualquer pessoa. O capanga principal do búlgaro acena um OK de longe. A passagem tá liberada. Mas Matanza exagera: dá tiro para o alto e joga o carro em cima de um viciado, só para apressar a irremediável.

          No final de uma das ruas esburacadas do labirinto de muitas ruelas, o carro para. Terrenos baldios, casarões desmoronados, casas abandonadas e apenas umas três construções a funcionar. Em frente ao último estabelecimento, um largo canal de esgoto, a empestear o ambiente com os dejetos do consumo humano. Letreiro? Apenas o tapete sujo da entrada. Motel Miranda, aberto nos anos 1930. “Salve Vô Tomé! Quem diria que esse pardieiro, refúgio de baratas e ratos, foi o aconchego de tantos casais excitados?”, o enfermeiro pensa. Não se sabe do muito que cada ruína e ruga contêm. Hoje, o “Mirandinha” desmorona, cercado por desolação, escorado por tábuas e algum milagre, habitado por viciados em crack — o sexo é o último dos prazeres na decadência do lugar.

          O trio leva Matanza à frente, com a mão na cartucheira, e o enfermeiro atrás, empurrando a cadeira de rodas com Mauro, que não se mexe nem fala, mas os olhos tilintam. Na recepção, ninguém. Invadir, então. Último andar, escada podre, a carregar cadeira e homem. O enfermeiro desaba, a recuperar o fôlego. Matanza, irritado, exagera a dose na fechadura e quebra a chave. Sem hesitar, arromba a porta com um chute e empurra o ex-chefe a um portal de Alice.

          O quarto é todo branco. Não há móvel algum, só o espaço vazio, límpido, as janelas lacradas por tábuas, pintadas de branco também, e uma caixa de metal no chão, branca, encostada na parede. Matanza, que, de carne, gritos e sangue entende muito bem, e de coisas do sobrenatural, treme feito vara verde, avisa:

          — Ei, pivete, fique com o chefe que eu vou dá cobertura lá embaixo.

          O enfermeiro, ainda esbaforido, intriga-se: “Como é que alguém investe paciência e dinheiro para enfeitar o quarto e mantê-lo limpo e impecável?” A esfinge de Monstro persiste. Mauro, estacionado na porta, levanta o braço direito com muita dificuldade e aponta, a sussurrar:

          — Aaakaichaaa...

          O enfermeiro reluta em pegar o objeto, mas, quando o faz, é sem dificuldade. Estranhamente leve, deposita-o no colo do ex-delegado e destampa a caixa, sem tranca. Há um bolo de papéis amassados e rabiscados com uma letra quase indecifrável. O enfermeiro tenta organizar. Desiste. Cava um pouco mais e encontra uma agenda marrom, lacrada. Mauro ordena, nervoso:

          — Aaaaaaaabrrrrrrrrraaaa...

          O enfermeiro corre os olhos ao redor. Vai até o banheiro, também branco e impecável, e encontra, em cima da latrina fechada, um facão velho, único objeto que não é branco, com marcas de sangue seco. Nem pensa nas hipóteses; usa-o para abrir o lacre. A agenda revela uma letra legível, bonita, repleta de anotações em capítulos, como se fosse um livro.

         — Lêeeeaaaaaa... — Mauro eleva o tom da voz, a suar, doido para se levantar da cadeira de rodas.

         “O ser humano é uma praga, uma doença, um câncer, a anomalia genética da natureza. É a única espécie que não tem intuito, está fora do organismo original. É a falha que altera a equação divina do mundo natural. (...) Tudo o que ele crê é ilusão. Valores, pensamentos, religião, cultura são apenas dispositivos para dar sentido à vida. Só que a vida que ele prega é vazia, não existe sentido. Para que possa viver, inventa-se o que viver. Quem suportaria saber que nada existe, que tudo é inventado pela cabeça do ser humano? (...) É o medo, a necessidade de sobreviver, que faz o câncer Homo sapiens se perpetuar, que o impele a tentar possuir tudo, ter o controle do mundo natural, como se isso fosse possível. (...) Chega! Os biomas já sofreram demais com esse erro genético que conseguiu sobreviver e hegemonizar as suas carências! (...) Não adianta mais acreditar em valores, dogmas, filosofias. São armadilhas do câncer para nos enganar. Somos a escória. Temos que morrer, a qualquer custo. (...) Exterminaremos todos! (...)”.

         O enfermeiro fecha a agenda. Julga que o que acabou de ler é horrível, um pensamento radical, genocida.

         — O que é isso, meu patrão? Quem escreveu isso? O que significa, pelo amor de Deus?

         Ele decide procurar o policial, deixa o ex-delegado sozinho e despenca escada abaixo, saindo do motel. Não encontra Matanza. Na rua, mantém-se próximo ao carro e resolve acender a tora de novo, mesmo a contrariar o que lhe fora advertido — só maconha para o enfermeiro baixar a adrenalina.
No quarto branco, Mauro serenara-se, na tranquilidade que a compreensão preenche de respostas satisfatórias, quando sana as dúvidas e os anseios. Prepara o impulso da sua força interior, revigorada, para gritar:

         — Maaaataaaannnzaaaaaa...

         Logo depois, o comparsa reaparece no apartamento branco.

         — Sim, chefe?

         O ex-delegado, cansado pelo esforço do grito, mas firme como outrora, sentencia:

         — Maaata!

         O enfermeiro observa Matanza se aproximar com a arma nas mãos. O instinto traduz: “Vou morrer!” Ele tenta fugir, mas despenca já no primeiro furo da sua carne, às costas.

         — Sacizeiro duz’infernu, olha pra cá, miséra, tu vai morrer, disgraça!

         Mais dois tiros. E o rapaz empacota mais pelo susto do que pelas pancadas das balas. À frente de quem quisesse testemunhar, Matanza arrasta o resto do enfermeiro para o terreno baldio ao lado do Motel Miranda. Galão de combustível sempre disponível na mala do carro, fogo no corpo. Entra no prédio de novo, para buscar o ex-delegado.

         — Como nos velhos tempos, hein, chefe? Eu bem que não tinha ido com a cara desse pivete aí.

         A pira ilumina os estalos dos ossos. Mauro está satisfeito. O calor das chamas indica o primeiro passo. Aos poucos, renasceria da cadeira. Fisioterapia na cidade, treinamento na roça, o legado da família há de ser preservado. Matanza, peão idiota, será o próximo da lista.

         A esfinge persistirá.

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