Maestro
Emmanuel Mirdad
Todo dia ele agradece, mas não diz “obrigado”. A se escorar na parede do açougue, sentado na calçada, faz perguntas sobre o que é claro e inerente. Não há freguês que não seja interpelado pela voz branda, de cantinho, murmúrio sutil, que cativa. Alguém sempre adia o seu percurso e o ouve. E é nesse sempre que alguma migalha surge, seja alimento ou fomento.
De tanto perguntar, brota dum ouvinte a questão:
— Por que você não pergunta sobre algo que não é real?
Ele responde:
— O nosso engano surge ao questionar para além do tato. É inválido o saber do que nunca se pode tocar. — Posiciona-se contra a busca e, a pirraçar os que considera tolos, pergunta o que é óbvio.
O mendigo Maestro é moreno, alto, corcunda, de pés inchados e sóbrio. No bairro, salvaguardado pela condição de ser o “figura”, goza da compaixão alheia com os seus agradecimentos:
— É melhor aqui do que no lixo ou na sua pança — a apontar para o próprio bucho.
A rua principal do bairro é repleta de crentes, por conta da igreja pentecostal situada próxima ao açougue. Nos cultos diários, alguns se divertem com as palmas e os cantos; outros, apenas fofocas e armações; quase todos engajados na jornada messiânica de multiplicar os fiéis. À caça destes, de quando em quando, algum se chega no mendigo e enfrenta o desafio: quem conseguir convertê-lo, será aclamado no círculo fechado das glórias da evangelização — só que nenhum fiel obtém êxito.
“Pregar. Mas como, se pregado está?”, Maestro reflete. O crente se apresenta com argumentos decorados e fala, fala, fala. O mendigo ouve, a dar o espaço necessário ao que considera uma peça, com a cabeça a afirmar as pausas e a mente, distante. De tanto clamar pelo o que não existe, o evangelizador gasta muita saliva e se cansa. Então, com uma risadinha, sem mostrar os dentes, e a postura de quem opta pela razão a cada experiência vivenciada, Maestro despedaça a argumentação que avalia como desprezível, sustentada por um credo vendado, sempre correto e dono de uma hipotética verdade única, que rejeita as demais possibilidades de conexão com o divino. O mendigo nega a oferta e desconcerta a mendicância da pregação. “O que nunca pode ser tocado é ilusão, apenas — o tato sentencia as bordas, o pulso, as carnes e a morte”. Desnudados, os crentes se irritam e o mandam ao inferno. Maestro crespa as vistas dos outros a coçar o saco e a berrar amizade ao diabo:
— Meu parente, deixe bem quente a fornalha, que eu quero fumar um tarugo nervoso e beber o meu sangue ardido!
O inferno não é a sua origem. É tudo chacota com o medo que transborda da ignorância. O humor, a sua marca sacra, seduz as crianças, e, pelo carinho que as emociona com as “(eu)stórias” — fantasias criadas sempre na primeira pessoa —, nota-se bondade, o que o mantém vivo. Maestro não tem mais idade para suportar a rua; curvado, sofrido da coluna e dos pés, mal anda. Mesmo assim, não rasteja. Quando surgiu no bairro, nenhum morador o machucou. Pelo contrário: incorporaram-no ao seu dia a dia, agraciados pela simpatia que ele emana. Dão-lhe água, comida e o mais importante: atenção. E ele sempre agradece, sem dizer “obrigado”. É grato. E protegido pelo dono do açougue, o bruto, ao mesmo tempo funcionário e patrão, que trabalha vestido com um avental sujo, a cortar as peças com maestria. Daí, a semelhança: onde ele mete a faca, o mendigo mete os olhos, a separar os pedaços vendáveis dos dejetos e a produzir a medida certa para ser vendida às famílias e doadas a algum faminto das ruas. O bruto vende carne. Maestro oferece a sua vida.
— Padrinho, me deixa estirar aqui?
Foi o primeiro contato, no dia em que o mendigo se pariu à rua. Simplicidade, olhos-lâminas e melodia vocal em vez de súplicas. Assim, ele fez o açougueiro parar o trabalho e prestar atenção. Um milagre, pois nunca olhava para a cara dos clientes; cortava a carne e arremessava o pacote no balcão. O dinheiro ficava ali mesmo. Porém, nessa única vez, Maestro esganiçou as vísceras-sentimento do bruto. O respeito que ganhou, rendeu um papelão, janta e a permissão para utilizar a calçada do açougue como moradia.
O mendigo passa antes das onze para fazer graça, contando as mesmas piadas. O bruto não é rigoroso nem está a fim de novidades; o seu ofício exige a precisão de antepassados. Além desse apadrinhamento e do fascínio das crianças pelas “(eu)stórias”, Maestro intriga os visitantes. O bairro é pequeno, para contar as casas e a sua gente, gastam-se poucos números, mas o lugar atrai forasteiros. Motoristas perdidos na confusão dos logradouros com dois, três números de identificação. Cobradores, ambulantes, vendedoras de cosméticos e fiscais públicos. Namorados, amantes, drogados, colegas e parentes. Velhos de passeio longo, fregueses e crentes. Polícia? Raridade. E a ameaça celebra.
Penúltima casa da rua principal. Ao lado, um barranco — o bairro se situa no alto de um vale. Sobrado tradicional, antigo como os outros, mas com entra e sai de bacanas. Naquele pedaço, o mendigo não vai. Sabe que a boca tem de ser de siri. Caso desse com os dentes, caixão e vela. Já bastam as maldições dos crentes. Só que, nesse entre e sai de bacanas, um cidadão ilustre resolve esticar a sua estada pelo bairro. Passeando sem rumo, senta-se no bar da Zezé. E, de lá, atiça a sua curiosidade, a fixar os olhos no viver do Maestro. Observa-o com afinco, tanto que a cerveja esquenta, e esquece o troco de presente ao garçom.
O ilustre retorna ao bairro uma vez depois. Devido ao ofício, objetiva o seu tempo; estaciona o carrão próximo ao sobrado e caminha nos passos do Maestro. Sempre de longe, em silêncio. Ouve as suas perguntas. Escuta as “(eu)stórias”. Ri das piadas. Compra carne e vai embora, sem ter encarado os olhos-lâminas do “figura”. Dentro do veículo, anota informações num bloquinho. Parece satisfeito.
Depois dessa visita, manda os seus capangas. E o mendigo, que nunca quis ser fantoche, tem de resistir à hipnose que surge à tarde, de terno, munida de leis e quadrados. Palavreado difícil, impossível de aplicar o mesmo cinismo com que se defende dos crentes. É gente letrada e ladina. Finalmente, Maestro treme. Não consegue mais dominar a situação. O dinheiro é oferecido em gordos maços. Possuem sabor. Possuem cheiro. Possuem. E o mendigo, há tempos, não possuía. Nada além da sua simpatia. Sobrevive do seu teatro. Dilacera a piedade alheia e usufrui da caridade, o necessário para não morrer.
Os homens de terno, cheios de lábia, passam a seduzir também com propostas. Dariam ao Maestro um palco excepcional; basta jurar e mentir e ser feliz. Insistem muito. Querem o seu carisma, que julgam como impressionante, a sua exímia capacidade de despertar a piedade e a compaixão, motor de multidões, vida de gado. Repaginado num visual fino e bem orientado, irá se tornar um ícone, que preencherá o vazio do povo, carente de um líder humanista e simpático. Os homens de terno insistem que ele é um potencial candidato à vitória nas próximas eleições municipais. Contudo...
Manhã de sábado, acontece um rebuliço em frente ao açougue.
— Mataram ele, mataram ele... — o bruto chora e propaga a sua certeza de que o crime foi encomendado.
No meio dos panos sujos, sangue. Maestro está morto. A polícia é chamada. Moradores estão tristes e indignados. E as crianças preferem jogar videogame. Mais tarde, em frente à penúltima casa da rua principal, os homens de terno lamentam a perda inesperada do produto “candidato perfeito”. O poder de persuasão de Maestro se dissolve, enfim. De certo modo, ele já sabia; todo dia agradecia, mas não dizia “obrigado”.
Livre.
*
O telefone toca no escritório da igreja, próxima ao açougue.
— Pastor, está na hora da convenção do partido. O carro vai passar aí em 15 minutos. Você já soube? Perdemos o nosso coringa, assassinado...
— Uma lástima! Que Deus o tenha...
— Pois é... Então, revimos os nossos conceitos e, segundo os nossos fundamentos e ideologia, decidimos aceitar a sua proposta. Queremos acertar a sua candidatura. Pra hoje. Agora. Quanto custa, futuro prefeito?
— Você já sabe o preço. E eu também quero o vice.
— Fechado!
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