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Absoluto
Emmanuel Mirdad
— Maldito trânsito que não anda!
Uma mulher aguarda. Quando o sinal abrir, os carros continuarão parados. Às sete da manhã, o friozinho do inverno — que, para um nordestino do litoral, é quase glacial — entedia e provoca mau humor; a garoa promove a constância do cinza e não se resolve como um toró, que desaba e vai embora. E a mulher sente o chamado da chuva: “Acolha-se!” Lamenta que não pode usufruir. No banco de trás, o filho está quieto, a mexer no celular. E a mãe só quer esquecer os horários implodidos. Não dá.
— Alô, bom dia, aqui é Márcia Madalena...
Ela é mais conhecida pelo apelido de Madá e só usa o nome completo quando está irritada. Ao mesmo tempo em que usa o celular, tenta rearrumar a sua agenda e se incomoda com a quantidade de reuniões marcadas em uma única manhã. Assessora de imprensa, cria e administra as promoções dos mais variados tipos de clientes. Para os padrões do mercado, ganha muito bem, mas trabalha em excesso e permite que o marido pague as contas mais pesadas.
O sinal abre e os carros da fila ao lado se movem, e os de trás querem passar por cima. Um buzinaço causa um solavanco na mulher ao celular, que pede para a interlocutora esperar e põe o seu carro para andar lentamente, por pirraça. Mais buzinas. O motorista de uma Kombi consegue passar por ela e vocifera xingamentos. Ela abre o vidro e retribui:
— Vá se lenhar, corno!
O trânsito equilibra as diferenças sociais: todos xingam e se agridem. Ontem, Madá levou uma tapa de uma senhora com sobrenome famoso. Sonolenta pelo efeito do domingo à tarde, a assessora de imprensa arranhou, com o seu carro, o sedan importado da senhora, que saiu do veículo e estapeou. Ficou por isso mesmo. Sem a agressora saber, o revide não aconteceu, porque ela foi reconhecida como a mãe do melhor cliente da cidade.
Madá encosta na frente do colégio em que o filho estuda.
— Tá bom, eu como pouco hoje.
Antero Neto, ou apenas Netinho, vai para a aula, a caminhar devagar, prometendo não se exceder na hora do lanche — os seus catorze anos de idade não comportam o peso extra que carrega. A mãe não consegue mais mentir para si; está evidente o descuido da sua criação. Madá entope o filho de guloseimas há tempos — reduz as trocas afetivas a trocas comerciais, o “te dou um doce se você sorrir” —, na carência de agradar para ser notada, à caça de um “obrigado, mãe, você é o máximo” e similares. Somente agora, procura aliviar a sua culpa com pedidos de “não lanche hoje, meu filho”.
— Arrasta essa caranga, madame! — outro buzinaço.
— Passe por cima!
Nos horários de carga e descarga estudantil, a rua do colégio de Netinho sempre fica engarrafada. E não adianta buzinar. Para piorar, à sua frente, um senhor bate num carro mal estacionado. Garoa, frio, burburinho, buzinas, berros. De novo, tudo parado. O senhor quer saber quem é o dono. Não sairá do lugar até conseguir a informação. E falta espaço para encostar o seu carro.
— Merda de trânsito! Que desgraça!
Madá arremessa o celular no banco de trás, baixa a cabeça e se sente esgotada, já no início da semana. Eis que um vulto aparece e começa a bailar na chuva, a saltitar e a fazer graça entre os carros. Maquina, com as mãos ágeis, coisas que não existem. Cola o rosto nos vidros e sorri. Madá bota os olhos para fora do ar condicionado. Choca-se com a figura; graças ao acaso, que interfere no óbvio — supostamente, pois há quem acredite que, na tragédia da existência, não há o que não seja óbvio —, uma melancolia enevoada captura o espaço-tempo e arremessa a mulher ao passado, no seu tempo de criança do interior, em que, sentadinha no banco da praça da igreja matriz, era a única plateia do velho Bonorico — palhaço pobre e gentil, narrava fábulas fantásticas e alimentava a curiosidade da pequena, a despertar valores cruciais à inteligência, como a criatividade e a imaginação.
Madá se diverte, ao comparar as lembranças do querido Bonorico ao desempenho do vulto, a qualificá-lo como encantador. A manhã começa a se transformar de lazarenta a onírica. O vulto, que é um mímico, encosta-se à janela do carro da assessora de imprensa. Elabora muitas faces, a cadenciar as gargalhadas da mulher: sério, bonachão, triste, melancólico, palhaço, poeta, malandro, profeta, romântico, lindo. E o beijo que marca, com o ar quente, uma borra de lábios no vidro da janela. A maquiagem começa a derreter pela garoa, e o mímico se vai — Madá considera a dança desengonçada e hilária, miscelânea de Chaplin com Oscarito.
Aos poucos, as buzinas e os motoristas discutindo retornam a manhã ao normal, e ela volta a focar na agenda, no padrão que a aferra ao óbvio. Madá ajeita os cabelos, pega o celular e acessa as mensagens, todas a apitar: “Aqui, me veja, obrigue-se, seja responsável, trabalhe e mantenha o sistema”. A rua é liberada — o velho se cansa de esperar e vai embora sem pagar nada, apoiado por todos que queriam sair dali, a qualquer custo —, e a assessora de imprensa dá a partida.
A chuva aperta. De garoa a toró.
*
O colégio particular em que Netinho estuda não é tradicional. Opção incomum na cidade, pois, no círculo dos emergentes, é fundamental inserir a cria no mesmo local onde a elite original se formou. Mas a decisão foi tomada pelo marido de Madá — no balaio de trocas dos negócios, conseguiu uma bolsa integral para o filho. Mesmo com apenas cinco anos de atividade, o colégio vem a despontar com bons resultados e aprovações em universidades públicas, as mais concorridas.
A praça de médio porte, em frente à entrada principal do colégio, foi reformada recentemente e agora oferece espaço infantil, novos bancos de madeira, equipamentos esportivos e banca de revista, além da sombra das árvores. Na hora do intervalo, os alunos têm permissão para frequentar o espaço. Para atender à demanda de segurança por parte dos pais, funcionários ficam de olho nos jovens, e uma empresa realiza a ronda, armada e motorizada. Entretanto, quem quiser fumar um baseado, comprar entorpecentes e matar aula, consegue. Afinal, é inerente aos jovens burlar qualquer geração supostamente preparada para contê-los.
Durante o intervalo, sempre às quartas-feiras, acontece uma apresentação artística, no centro da praça. Alunos de várias séries, idades, gostos e medos se revezam no círculo central para assistir à encenação do mímico, acomodados pela sombra da grande mangueira. O artista transmuta os elementos do imaginário em gestos e movimentos que hipnotizam pela delicadeza e criatividade. De vez em quando, ele aparece em outro dia da semana, como naquela segunda-feira chuvosa, com técnicas distintas: mágica, dança, malabares, teatro de bonecos, entre outras. Contudo, a quarta-feira é o seu dia oficial; para não enjoar a plateia, apenas dez minutos, uma vez por semana. É preciso regrar a arte, para não deixar de surpreender.
O tamanho e a variedade de peças apresentadas auxiliam o pocket-show do mímico funcionar para os estudantes. Um dia, o mundo urgente, descartável e eletrônico irá catapultá-lo da praça. Tal sina não preocupa o artista, que acredita sempre haver um espaço disponível por aí, para quem é fluido. Mesmo assim, para extrair o sumo da sua arte, é preciso a paciência da contemplação. Parar para ver. Parar para sentir. Parar para ser envolto pela aura do inefável. Parar. E é isso que Madá passa a fazer.
Ela alterou os horários e compromissos da agenda, desde o impacto da primeira aparição. Soube das apresentações e criou a sua pausa nas quartas-feiras, meio da manhã. O mímico arma a cena, e a assessora de imprensa se posiciona bem próxima, livre da provável censura do filho, pois sabe que Netinho não gosta nem frequenta o pocket-show. Madá se delicia com o balé silencioso do artista, de apenas corpo e expressão a criar a magia dos gestos. Ela se permite vivenciar a leveza da infância, mais uma vez, a projetar, no mímico, o seu querido Bonorico.
“Antes arte do que tarde” estampa o vestido azul de Madá.
Encantada.
*
Manhã. Netinho entra no colégio. Madá avista o mímico num canto da praça e estaciona o carro bem próximo a ele. Abaixa o vidro e pretende ser gentil:
— Oi, tudo bem? Será que eu posso dividir com o senhor?
O café da manhã fora apressado: um copo de leite, duas bolachas. Assim, as três barras de cereais, disponíveis no porta-luvas do carro, não saciarão a fome das onze horas. E ela não se importa. À vista de onde está, o mímico lhe parece mais precisado — é a desculpa de que ela necessita, a justificar às precauções a necessidade de abordá-lo.
O mímico se dirige ao carro, a simular uma súplica. Madá oferece a barra que considera a mais saborosa das três. Ele rouba um beijo na bochecha da assessora de imprensa, figurando um conquistador barato. Pega de surpresa, ela se assanha, num arroubo interno, fluidificante, e tenta emendar uma conversa. O mímico não responde e continua a interpretar. Não se aproveita da abertura que Madá oferece nem se rebaixa à condição de miserável, que poderia lhe render trocados ou até mais, ainda que seja um pedinte. Apenas gaiata o encontro, faz palhaçada. Não se intimida com a elegância e classe social da mulher e induz, com a sua presença, a limpidez de um cristal — ela acredita que a maquiagem borrada não é uma representação, um personagem, e que não há um ator por trás da máscara; o mímico é ele mesmo.
Absoluto.
*
Nas redondezas, ninguém nunca ouvira uma palavra sequer sair da boca do mímico. Madá bem que tentou coletar informações sobre o artista com os barraqueiros, os ambulantes, porteiros, seguranças, carteiros, faxineiros e trabalhadores da região, que poderiam conhecer o mímico de rua. Infelizmente, ninguém sabe onde ele mora, de onde havia surgido, qual é o seu nome, se faz algo além da arte. E a assessora de imprensa desiste de pesquisar sobre os aspectos normais de um artista que é um vulto, um lampejo, um sonho; prefere continuar assídua espectadora das quartas-feiras.
Madá, quando pode, oferece lanches, pequenos presentes, agrados ao mímico. De um jeito que visa ser carinhoso, vai se aproximando dele, e, de perto, nota as formas do homem: as mãos são pequenas; a cabeça, grande demais para os ombros; a pele ardida, que lembra uma pimenta, não é comum no bairro. Se o nome não se sabe, e a voz não se ouve, a melhor bagagem apresentada por ele é a fantasia, a que escorre pelos dedos ágeis do artesão dos gestos, que tanto transmutam o real em simulacros, epifania.
Das barras de cereais, quitutes e agrados, ela passa a trazer mantimentos, pratos feitos, cestas básicas. Os encontros aumentam além das quartas-feiras. Madá sente que esse Bonorico tardio merece cuidados a mais, todos os que ela não pôde oferecer ao velho palhaço na sua infância, e que, na sua lógica, favoreceram a morte súbita do ídolo por inanição. Imbuída por um sentimento de compensação, ela aferra o mímico na sua carência, torna-o absoluto, e passa a se descuidar do trabalho, do filho e das obrigações do casamento.
No lar de abismos afetivos, as guloseimas e os quitutes são suspensos. Nenhum chiclete ou balinha sequer. Netinho logo percebe a diferença e procura a mãe, choroso, a querer colo e doces. Não funciona. Madá transferira o alvo do seu consumo. O absoluto é prioritário. Para uma mulher que restringe o afeto a comércio, Netinho significa prejuízo, isolado na sua bolha, a querer, a querer, a querer, com quase nenhuma retribuição. Já o mímico destaca as qualidades da assessora de imprensa, a elevar a sua vaidade em apresentações exclusivas, construídas a partir dos problemas que ela desabafa, qualquer que seja o peso destes. Mina de ouro, Madá avalia. A vida continua a apertar, como sempre fez e fará, mas a quantidade de válvulas de escape está ampliada. Ao invés do stress recorrente, brigas, mágoas não resolvidas, traumas a corroer os adjetivos do íntimo, Madá apenas compra algo, encontra-se com o mímico, dá o presente e conversa muito, botando para fora tudo o que lhe causa angústia, raiva, medo e tristeza, do jeito que o coração expõe, sem filtros ou palavras regradas. O absoluto ouve. Tudo. Quando ela termina o desafogo, ele se levanta e escorre a arte, ora engraçada, ora apaixonante. Madá gargalha e expulsa os seus demônios. O principal: sente-se leve, como nunca. Aliás, como na infância, quando o Bonorico lhe ensinava que a vida é colorida, sim.
O filho paga o pato. Os clientes, também — aos poucos, dispensam os serviços da assessora de imprensa. O marido, pagará em breve, quando voltar da sua extensa viagem de negócios. Ela? Nem se abala. Escancara de vez a vida sanguessuga da grana do marido e para de trabalhar. Aumenta a mesada de Netinho e o manda se virar, pois, “aos catorze anos, você já é um homem”.
Madá vai curtir a presença do mímico, maximizada a uma frequência diária. Nesse dia, ela o toca. Resvala a mão trêmula no seu rosto. Sente as carnes queimarem. O absoluto faz-se homem. E lhe rouba um beijo. Dessa vez, nos lábios, que se tornam uma coisa só:
Línguas, mordidas e tesão.
*
O mímico usa um chapéu desbotado, porta uma velha mala marrom e se veste com um macacão escuro, rajado por uma camisa amarela de listras, calça remendada e sapato gasto. Trapos e limpos; humildes, sim, molambos, não. E os seus olhos brilham. Muito. São castanhos, mais claros que os seus cabelos cacheados, e comportam mundos estranhos e sonhos do além. Gosta de dançar. E baila, a recriar os fatos como lendas — a paisagem do que não se engarrafa. Tragado pela respiração da cidade, desaparece ao final das apresentações, a deixar Madá a suspirar, apaixonada, uma bola de fogo radiante.
Ao surgir, o absoluto era um vulto surreal para a ex-assessora de imprensa. Na praça, foi transformado numa personificação exímia das virtudes de um ídolo querido do passado, que veio à tona novamente, por capricho do acaso. Nos encontros casuais, atendeu às carências maternais por um ser a ser cuidado. Na rotina, foi aceito como um divã e circo, que só se manifestava em palhaçadas, combustível das risadas tão necessárias ao entorpecimento diário das dificuldades. Num ocasional arroubo incontido, correspondeu às súplicas carnais de uma mulher a redescobrir a sua força sexual, que estava amortecida pela repetição de um casamento de tarefas e acordos. Por fim, mantém-se pulsante, endurecido e predisposto, uma foda atrás da outra.
O atraso de uma década inteira.
*
Madá oferece umas bananas ao mímico. Ela está diferente, parece mais incomodada que antes. Enquanto descasca a sua fruta, bastam duas palavras, “meu” e “marido”, e ele cai para trás, a simular uma brincadeira de cambalhotas. Prolonga a palhaçada, a sombrear o caminhar de uma pedestre. Madá não percebe, mas o mímico passeia pela praça, a fazer muita graça, apenas com a intenção de percorrer todos os lados com um olhar inquiridor.
O detetive Betão, conhecido no submundo por práticas homicidas, está dentro de um carro popular, preto, do outro lado da praça. O absoluto se eriça. Aproveita a carona de uma brincadeira e some — a bicicleta do entregador de água mineral serve de disfarce. Nem um tchau sequer; pega a magrela emprestada e pedala para longe, veloz. Madá leva na brincadeira e vai embora também, sem reclamar da saída brusca do artista. Tudo bem. Amanhã, haveria um novo encontro.
Engano. Betão continua com o seu carro preto parado na praça. Madá também. Por uma semana inteira. E nada do mímico aparecer. Primeiramente, a falta das conversas e os agrados acumulados causam na mulher a birra, em que são cobradas a atenção e as explicações para o sumiço. Depois, como ele não aparece, a bronca é substituída por preocupações com a integridade física. “Será que ficou doente?” Por fim, o desassossego dispara o alerta. Madá une as coincidências: o marido volta de viagem e, logo depois, o absoluto some. Percebe que dera bandeira demais.
Só uma onça de real, de agrado. O porteiro do colégio de Netinho abre o bico, também por carinho; considera mui belo o amor. E sabe muito bem o que significam Betão e o seu carro preto parado, à espreita. Ela se ouriça e xinga:
— Desgraçado, miserável!
Madá se arremessa para casa, em velocidade máxima.
*
A ex-assessora de imprensa arrebenta o seu apartamento em cima do marido, que assume ter contratado Betão, ao despejar as suas ameaças ressentidas, de traído, e exigir a separação.
Madá se muda para um apart, sem se importar em deixar o filho e sem responder aos apelos da família e dos amigos. Não aceita nenhum dos agrados de quem soube do divórcio. Passa dias a vagar na praça, à procura do mímico, num comportamento obsessivo que vira chacota dos alunos, o motivo para fazer bullying contra Netinho. O filho se abala ao ver o estado da mãe, a considerá-lo degradante, e cede ao assédio das influências, a encontrar refúgio em outras substâncias.
Ele troca de guloseima.
*
Faz um mês que a ex-assessora de imprensa mora num sobrado simples, na parte velha da cidade, a raspar o tacho do que resta das suas economias. Seguira uma pista para encontrar o absoluto, ofertada, a baixo custo, por um vendedor de sonhos de doce de leite e goiabada. A rondar, mais uma vez, pelas ruelas e becos do bairro histórico, passando por uma quebrada próxima à loja de estofados que lhe oferecera um emprego, a intuição lhe belisca. “É ele”, sente. “É ele”, avista. “É ele”, com certeza! Aguça o olhar, ladeira abaixo, e enxerga um vulto, sentado na porta do último casarão à direita, onde funciona um velho hotel, a passear bolas de gude pelos dedos, sem maquiagem nem o traje de mímico.
— Meu Deus, é ele!
Madá gargalha e dispara ladeira abaixo, lágrimas ao vento. Agarra o vulto como se grudasse em alguma parte saliente do ônibus espacial depois de um escorrego quase fatal. Ao vazio do espaço? Jamais!
— É você! É você! Você tá vivo! Tá vivo! Meu amor, meu amor, meu amor! — e beija o seu rosto com tanta saliva que encharca as bochechas do mímico.
Nem adianta pedir calma: ela se enrola tal sucuri no corpo do homem, a sua posse. Ele compreende que só resta trepar. Dentro do primeiro quarto disponível, comportam-se como animais; é muito atraso para ser tirado, “maldito trânsito que não anda”. Na primeira pausa, o mímico prova que os seus dedos são realmente mágicos, e ela goza aos delírios. Tanto tempo sem dar uma. Tanto tempo ruim na sua vida, engarrafada. E Madá, finalmente, senta-se aonde tanto desejara, o falo duro da possessão. O agouro já era. O amado é vivo, e ele pulsa dentro de si, e, dali, ela não quer sair mais.
Quatro horas depois, Madá quer saber a causa do sumiço. A resposta fica no ar. Os novos gemidos, produzidos por um homem que sabe fazer uma mulher gozar, importam bem mais. Palavras não servem com o mímico, mesmo assim, nu e sem maquiagem. Os gestos, sim. E, do jeito como mete, rebola e vibra a sua força dentro de Madá, ela interpreta que se trata de um “eu te amo”.
O calmante eficaz para as angústias.
*
O mímico está desabado na cama da pequena casa onde mora. A ex-assessora de imprensa perambula pelo ambiente: quarto, banheiro, cozinha. Quer conhecer melhor o lar e o homem a quem entregara a sua existência e julga que o melhor está no armário do quarto — quando ela deseja com ênfase, precisa cheirar as roupas da posse. A mulher puxa a primeira camisa do cabide e se agarra à manga como se fosse o braço do mímico. Aperta contra o peito. Esfrega entre as pernas. Cheira, entregue à sede. Ela pega outra camisa, dobrada. Faz o mesmo. Abre uma gaveta e encontra as cuecas. Lambe. Morde. Funga. A olhar para o homem, desabado de prazer, repete para si:
— É meu, meu, meu, meu meumemuieueme... — repete até se embolar com as palavras, que nunca saem da boca do mímico e não fazem falta para ela, pois os olhos dizem muito. Os dedos, mais ainda.
Madá continua a fuçar e a fungar as poucas roupas penduradas e dobradas no armário. Estranha o tecido de uma, encoberta por um casaco. Posta para fora, arrepia. É uma jaqueta de couro. Ela a conhece muito bem: comprara em Milão, para o ex-marido. Bisbilhota os bolsos. Encontra um porta-documentos quase vazio, se não fosse por uma foto tirada há sete anos, no aniversário de Netinho, com a família reunida e feliz. O choque se aguda. No bolso de dentro, papelotes de crack. Vários. Tráfico.
— O que é isso, meu Deus?
Ela se desequilibra, como se o chão houvesse sumido. Larga a jaqueta. Tremem as mãos. Arfa. Passa um rabo de olho no mímico e se dirige, a cambalear, à porta. Alguém bate. Mais forte. De novo. Mesmo anuviada, ela reconhece a voz que vem de fora.
— Palhaço, trouxe mais negócio pra você. Pode abrir que é coisa fina...
Madá abre a porta, mesmo de calcinha e vestida com uma camiseta. Quem procura pelo mímico é o seu filho, Netinho, a figurar um noiado, na companhia de dois rapazes mais velhos e um pivete conhecido do bairro onde morara. A segurar um colar de rubi, joia que foi da avó Madalena, ele não reconhece a própria mãe, que se amaldiçoa por ter confiado no absoluto. Com voz esganiçada, Netinho manda:
— Ei, vagaba, chama o cara que eu quero ficar doidão.
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