Pular para o conteúdo principal

Absoluto (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui


Absoluto
Emmanuel Mirdad

          — Maldito trânsito que não anda!

          Uma mulher aguarda. Quando o sinal abrir, os carros continuarão parados. Às sete da manhã, o friozinho do inverno — que, para um nordestino do litoral, é quase glacial — entedia e provoca mau humor; a garoa promove a constância do cinza e não se resolve como um toró, que desaba e vai embora. E a mulher sente o chamado da chuva: “Acolha-se!” Lamenta que não pode usufruir. No banco de trás, o filho está quieto, a mexer no celular. E a mãe só quer esquecer os horários implodidos. Não dá.

          — Alô, bom dia, aqui é Márcia Madalena...

          Ela é mais conhecida pelo apelido de Madá e só usa o nome completo quando está irritada. Ao mesmo tempo em que usa o celular, tenta rearrumar a sua agenda e se incomoda com a quantidade de reuniões marcadas em uma única manhã. Assessora de imprensa, cria e administra as promoções dos mais variados tipos de clientes. Para os padrões do mercado, ganha muito bem, mas trabalha em excesso e permite que o marido pague as contas mais pesadas.

          O sinal abre e os carros da fila ao lado se movem, e os de trás querem passar por cima. Um buzinaço causa um solavanco na mulher ao celular, que pede para a interlocutora esperar e põe o seu carro para andar lentamente, por pirraça. Mais buzinas. O motorista de uma Kombi consegue passar por ela e vocifera xingamentos. Ela abre o vidro e retribui:

          — Vá se lenhar, corno!

          O trânsito equilibra as diferenças sociais: todos xingam e se agridem. Ontem, Madá levou uma tapa de uma senhora com sobrenome famoso. Sonolenta pelo efeito do domingo à tarde, a assessora de imprensa arranhou, com o seu carro, o sedan importado da senhora, que saiu do veículo e estapeou. Ficou por isso mesmo. Sem a agressora saber, o revide não aconteceu, porque ela foi reconhecida como a mãe do melhor cliente da cidade.

          Madá encosta na frente do colégio em que o filho estuda.

          — Tá bom, eu como pouco hoje.

          Antero Neto, ou apenas Netinho, vai para a aula, a caminhar devagar, prometendo não se exceder na hora do lanche — os seus catorze anos de idade não comportam o peso extra que carrega. A mãe não consegue mais mentir para si; está evidente o descuido da sua criação. Madá entope o filho de guloseimas há tempos — reduz as trocas afetivas a trocas comerciais, o “te dou um doce se você sorrir” —, na carência de agradar para ser notada, à caça de um “obrigado, mãe, você é o máximo” e similares. Somente agora, procura aliviar a sua culpa com pedidos de “não lanche hoje, meu filho”.

          — Arrasta essa caranga, madame! — outro buzinaço.

          — Passe por cima!

          Nos horários de carga e descarga estudantil, a rua do colégio de Netinho sempre fica engarrafada. E não adianta buzinar. Para piorar, à sua frente, um senhor bate num carro mal estacionado. Garoa, frio, burburinho, buzinas, berros. De novo, tudo parado. O senhor quer saber quem é o dono. Não sairá do lugar até conseguir a informação. E falta espaço para encostar o seu carro.

          — Merda de trânsito! Que desgraça!

          Madá arremessa o celular no banco de trás, baixa a cabeça e se sente esgotada, já no início da semana. Eis que um vulto aparece e começa a bailar na chuva, a saltitar e a fazer graça entre os carros. Maquina, com as mãos ágeis, coisas que não existem. Cola o rosto nos vidros e sorri. Madá bota os olhos para fora do ar condicionado. Choca-se com a figura; graças ao acaso, que interfere no óbvio — supostamente, pois há quem acredite que, na tragédia da existência, não há o que não seja óbvio —, uma melancolia enevoada captura o espaço-tempo e arremessa a mulher ao passado, no seu tempo de criança do interior, em que, sentadinha no banco da praça da igreja matriz, era a única plateia do velho Bonorico — palhaço pobre e gentil, narrava fábulas fantásticas e alimentava a curiosidade da pequena, a despertar valores cruciais à inteligência, como a criatividade e a imaginação.

          Madá se diverte, ao comparar as lembranças do querido Bonorico ao desempenho do vulto, a qualificá-lo como encantador. A manhã começa a se transformar de lazarenta a onírica. O vulto, que é um mímico, encosta-se à janela do carro da assessora de imprensa. Elabora muitas faces, a cadenciar as gargalhadas da mulher: sério, bonachão, triste, melancólico, palhaço, poeta, malandro, profeta, romântico, lindo. E o beijo que marca, com o ar quente, uma borra de lábios no vidro da janela. A maquiagem começa a derreter pela garoa, e o mímico se vai — Madá considera a dança desengonçada e hilária, miscelânea de Chaplin com Oscarito.

          Aos poucos, as buzinas e os motoristas discutindo retornam a manhã ao normal, e ela volta a focar na agenda, no padrão que a aferra ao óbvio. Madá ajeita os cabelos, pega o celular e acessa as mensagens, todas a apitar: “Aqui, me veja, obrigue-se, seja responsável, trabalhe e mantenha o sistema”. A rua é liberada — o velho se cansa de esperar e vai embora sem pagar nada, apoiado por todos que queriam sair dali, a qualquer custo —, e a assessora de imprensa dá a partida.

          A chuva aperta. De garoa a toró.

*

          O colégio particular em que Netinho estuda não é tradicional. Opção incomum na cidade, pois, no círculo dos emergentes, é fundamental inserir a cria no mesmo local onde a elite original se formou. Mas a decisão foi tomada pelo marido de Madá — no balaio de trocas dos negócios, conseguiu uma bolsa integral para o filho. Mesmo com apenas cinco anos de atividade, o colégio vem a despontar com bons resultados e aprovações em universidades públicas, as mais concorridas.

          A praça de médio porte, em frente à entrada principal do colégio, foi reformada recentemente e agora oferece espaço infantil, novos bancos de madeira, equipamentos esportivos e banca de revista, além da sombra das árvores. Na hora do intervalo, os alunos têm permissão para frequentar o espaço. Para atender à demanda de segurança por parte dos pais, funcionários ficam de olho nos jovens, e uma empresa realiza a ronda, armada e motorizada. Entretanto, quem quiser fumar um baseado, comprar entorpecentes e matar aula, consegue. Afinal, é inerente aos jovens burlar qualquer geração supostamente preparada para contê-los.

          Durante o intervalo, sempre às quartas-feiras, acontece uma apresentação artística, no centro da praça. Alunos de várias séries, idades, gostos e medos se revezam no círculo central para assistir à encenação do mímico, acomodados pela sombra da grande mangueira. O artista transmuta os elementos do imaginário em gestos e movimentos que hipnotizam pela delicadeza e criatividade. De vez em quando, ele aparece em outro dia da semana, como naquela segunda-feira chuvosa, com técnicas distintas: mágica, dança, malabares, teatro de bonecos, entre outras. Contudo, a quarta-feira é o seu dia oficial; para não enjoar a plateia, apenas dez minutos, uma vez por semana. É preciso regrar a arte, para não deixar de surpreender.

          O tamanho e a variedade de peças apresentadas auxiliam o pocket-show do mímico funcionar para os estudantes. Um dia, o mundo urgente, descartável e eletrônico irá catapultá-lo da praça. Tal sina não preocupa o artista, que acredita sempre haver um espaço disponível por aí, para quem é fluido. Mesmo assim, para extrair o sumo da sua arte, é preciso a paciência da contemplação. Parar para ver. Parar para sentir. Parar para ser envolto pela aura do inefável. Parar. E é isso que Madá passa a fazer.

          Ela alterou os horários e compromissos da agenda, desde o impacto da primeira aparição. Soube das apresentações e criou a sua pausa nas quartas-feiras, meio da manhã. O mímico arma a cena, e a assessora de imprensa se posiciona bem próxima, livre da provável censura do filho, pois sabe que Netinho não gosta nem frequenta o pocket-show. Madá se delicia com o balé silencioso do artista, de apenas corpo e expressão a criar a magia dos gestos. Ela se permite vivenciar a leveza da infância, mais uma vez, a projetar, no mímico, o seu querido Bonorico.

          “Antes arte do que tarde” estampa o vestido azul de Madá.

          Encantada.

*

          Manhã. Netinho entra no colégio. Madá avista o mímico num canto da praça e estaciona o carro bem próximo a ele. Abaixa o vidro e pretende ser gentil:

          — Oi, tudo bem? Será que eu posso dividir com o senhor?

          O café da manhã fora apressado: um copo de leite, duas bolachas. Assim, as três barras de cereais, disponíveis no porta-luvas do carro, não saciarão a fome das onze horas. E ela não se importa. À vista de onde está, o mímico lhe parece mais precisado — é a desculpa de que ela necessita, a justificar às precauções a necessidade de abordá-lo.

          O mímico se dirige ao carro, a simular uma súplica. Madá oferece a barra que considera a mais saborosa das três. Ele rouba um beijo na bochecha da assessora de imprensa, figurando um conquistador barato. Pega de surpresa, ela se assanha, num arroubo interno, fluidificante, e tenta emendar uma conversa. O mímico não responde e continua a interpretar. Não se aproveita da abertura que Madá oferece nem se rebaixa à condição de miserável, que poderia lhe render trocados ou até mais, ainda que seja um pedinte. Apenas gaiata o encontro, faz palhaçada. Não se intimida com a elegância e classe social da mulher e induz, com a sua presença, a limpidez de um cristal — ela acredita que a maquiagem borrada não é uma representação, um personagem, e que não há um ator por trás da máscara; o mímico é ele mesmo.

          Absoluto.

*

          Nas redondezas, ninguém nunca ouvira uma palavra sequer sair da boca do mímico. Madá bem que tentou coletar informações sobre o artista com os barraqueiros, os ambulantes, porteiros, seguranças, carteiros, faxineiros e trabalhadores da região, que poderiam conhecer o mímico de rua. Infelizmente, ninguém sabe onde ele mora, de onde havia surgido, qual é o seu nome, se faz algo além da arte. E a assessora de imprensa desiste de pesquisar sobre os aspectos normais de um artista que é um vulto, um lampejo, um sonho; prefere continuar assídua espectadora das quartas-feiras.

          Madá, quando pode, oferece lanches, pequenos presentes, agrados ao mímico. De um jeito que visa ser carinhoso, vai se aproximando dele, e, de perto, nota as formas do homem: as mãos são pequenas; a cabeça, grande demais para os ombros; a pele ardida, que lembra uma pimenta, não é comum no bairro. Se o nome não se sabe, e a voz não se ouve, a melhor bagagem apresentada por ele é a fantasia, a que escorre pelos dedos ágeis do artesão dos gestos, que tanto transmutam o real em simulacros, epifania.

          Das barras de cereais, quitutes e agrados, ela passa a trazer mantimentos, pratos feitos, cestas básicas. Os encontros aumentam além das quartas-feiras. Madá sente que esse Bonorico tardio merece cuidados a mais, todos os que ela não pôde oferecer ao velho palhaço na sua infância, e que, na sua lógica, favoreceram a morte súbita do ídolo por inanição. Imbuída por um sentimento de compensação, ela aferra o mímico na sua carência, torna-o absoluto, e passa a se descuidar do trabalho, do filho e das obrigações do casamento.

          No lar de abismos afetivos, as guloseimas e os quitutes são suspensos. Nenhum chiclete ou balinha sequer. Netinho logo percebe a diferença e procura a mãe, choroso, a querer colo e doces. Não funciona. Madá transferira o alvo do seu consumo. O absoluto é prioritário. Para uma mulher que restringe o afeto a comércio, Netinho significa prejuízo, isolado na sua bolha, a querer, a querer, a querer, com quase nenhuma retribuição. Já o mímico destaca as qualidades da assessora de imprensa, a elevar a sua vaidade em apresentações exclusivas, construídas a partir dos problemas que ela desabafa, qualquer que seja o peso destes. Mina de ouro, Madá avalia. A vida continua a apertar, como sempre fez e fará, mas a quantidade de válvulas de escape está ampliada. Ao invés do stress recorrente, brigas, mágoas não resolvidas, traumas a corroer os adjetivos do íntimo, Madá apenas compra algo, encontra-se com o mímico, dá o presente e conversa muito, botando para fora tudo o que lhe causa angústia, raiva, medo e tristeza, do jeito que o coração expõe, sem filtros ou palavras regradas. O absoluto ouve. Tudo. Quando ela termina o desafogo, ele se levanta e escorre a arte, ora engraçada, ora apaixonante. Madá gargalha e expulsa os seus demônios. O principal: sente-se leve, como nunca. Aliás, como na infância, quando o Bonorico lhe ensinava que a vida é colorida, sim.

          O filho paga o pato. Os clientes, também — aos poucos, dispensam os serviços da assessora de imprensa. O marido, pagará em breve, quando voltar da sua extensa viagem de negócios. Ela? Nem se abala. Escancara de vez a vida sanguessuga da grana do marido e para de trabalhar. Aumenta a mesada de Netinho e o manda se virar, pois, “aos catorze anos, você já é um homem”.

          Madá vai curtir a presença do mímico, maximizada a uma frequência diária. Nesse dia, ela o toca. Resvala a mão trêmula no seu rosto. Sente as carnes queimarem. O absoluto faz-se homem. E lhe rouba um beijo. Dessa vez, nos lábios, que se tornam uma coisa só:

          Línguas, mordidas e tesão.

*

          O mímico usa um chapéu desbotado, porta uma velha mala marrom e se veste com um macacão escuro, rajado por uma camisa amarela de listras, calça remendada e sapato gasto. Trapos e limpos; humildes, sim, molambos, não. E os seus olhos brilham. Muito. São castanhos, mais claros que os seus cabelos cacheados, e comportam mundos estranhos e sonhos do além. Gosta de dançar. E baila, a recriar os fatos como lendas — a paisagem do que não se engarrafa. Tragado pela respiração da cidade, desaparece ao final das apresentações, a deixar Madá a suspirar, apaixonada, uma bola de fogo radiante.

          Ao surgir, o absoluto era um vulto surreal para a ex-assessora de imprensa. Na praça, foi transformado numa personificação exímia das virtudes de um ídolo querido do passado, que veio à tona novamente, por capricho do acaso. Nos encontros casuais, atendeu às carências maternais por um ser a ser cuidado. Na rotina, foi aceito como um divã e circo, que só se manifestava em palhaçadas, combustível das risadas tão necessárias ao entorpecimento diário das dificuldades. Num ocasional arroubo incontido, correspondeu às súplicas carnais de uma mulher a redescobrir a sua força sexual, que estava amortecida pela repetição de um casamento de tarefas e acordos. Por fim, mantém-se pulsante, endurecido e predisposto, uma foda atrás da outra.

          O atraso de uma década inteira.

*

          Madá oferece umas bananas ao mímico. Ela está diferente, parece mais incomodada que antes. Enquanto descasca a sua fruta, bastam duas palavras, “meu” e “marido”, e ele cai para trás, a simular uma brincadeira de cambalhotas. Prolonga a palhaçada, a sombrear o caminhar de uma pedestre. Madá não percebe, mas o mímico passeia pela praça, a fazer muita graça, apenas com a intenção de percorrer todos os lados com um olhar inquiridor.

          O detetive Betão, conhecido no submundo por práticas homicidas, está dentro de um carro popular, preto, do outro lado da praça. O absoluto se eriça. Aproveita a carona de uma brincadeira e some — a bicicleta do entregador de água mineral serve de disfarce. Nem um tchau sequer; pega a magrela emprestada e pedala para longe, veloz. Madá leva na brincadeira e vai embora também, sem reclamar da saída brusca do artista. Tudo bem. Amanhã, haveria um novo encontro.

          Engano. Betão continua com o seu carro preto parado na praça. Madá também. Por uma semana inteira. E nada do mímico aparecer. Primeiramente, a falta das conversas e os agrados acumulados causam na mulher a birra, em que são cobradas a atenção e as explicações para o sumiço. Depois, como ele não aparece, a bronca é substituída por preocupações com a integridade física. “Será que ficou doente?” Por fim, o desassossego dispara o alerta. Madá une as coincidências: o marido volta de viagem e, logo depois, o absoluto some. Percebe que dera bandeira demais.

          Só uma onça de real, de agrado. O porteiro do colégio de Netinho abre o bico, também por carinho; considera mui belo o amor. E sabe muito bem o que significam Betão e o seu carro preto parado, à espreita. Ela se ouriça e xinga:

          — Desgraçado, miserável!

          Madá se arremessa para casa, em velocidade máxima.

*

          A ex-assessora de imprensa arrebenta o seu apartamento em cima do marido, que assume ter contratado Betão, ao despejar as suas ameaças ressentidas, de traído, e exigir a separação.

          Madá se muda para um apart, sem se importar em deixar o filho e sem responder aos apelos da família e dos amigos. Não aceita nenhum dos agrados de quem soube do divórcio. Passa dias a vagar na praça, à procura do mímico, num comportamento obsessivo que vira chacota dos alunos, o motivo para fazer bullying contra Netinho. O filho se abala ao ver o estado da mãe, a considerá-lo degradante, e cede ao assédio das influências, a encontrar refúgio em outras substâncias.

          Ele troca de guloseima.

*

          Faz um mês que a ex-assessora de imprensa mora num sobrado simples, na parte velha da cidade, a raspar o tacho do que resta das suas economias. Seguira uma pista para encontrar o absoluto, ofertada, a baixo custo, por um vendedor de sonhos de doce de leite e goiabada. A rondar, mais uma vez, pelas ruelas e becos do bairro histórico, passando por uma quebrada próxima à loja de estofados que lhe oferecera um emprego, a intuição lhe belisca. “É ele”, sente. “É ele”, avista. “É ele”, com certeza! Aguça o olhar, ladeira abaixo, e enxerga um vulto, sentado na porta do último casarão à direita, onde funciona um velho hotel, a passear bolas de gude pelos dedos, sem maquiagem nem o traje de mímico.

          — Meu Deus, é ele!

          Madá gargalha e dispara ladeira abaixo, lágrimas ao vento. Agarra o vulto como se grudasse em alguma parte saliente do ônibus espacial depois de um escorrego quase fatal. Ao vazio do espaço? Jamais!

          — É você! É você! Você tá vivo! Tá vivo! Meu amor, meu amor, meu amor! — e beija o seu rosto com tanta saliva que encharca as bochechas do mímico.

          Nem adianta pedir calma: ela se enrola tal sucuri no corpo do homem, a sua posse. Ele compreende que só resta trepar. Dentro do primeiro quarto disponível, comportam-se como animais; é muito atraso para ser tirado, “maldito trânsito que não anda”. Na primeira pausa, o mímico prova que os seus dedos são realmente mágicos, e ela goza aos delírios. Tanto tempo sem dar uma. Tanto tempo ruim na sua vida, engarrafada. E Madá, finalmente, senta-se aonde tanto desejara, o falo duro da possessão. O agouro já era. O amado é vivo, e ele pulsa dentro de si, e, dali, ela não quer sair mais.

          Quatro horas depois, Madá quer saber a causa do sumiço. A resposta fica no ar. Os novos gemidos, produzidos por um homem que sabe fazer uma mulher gozar, importam bem mais. Palavras não servem com o mímico, mesmo assim, nu e sem maquiagem. Os gestos, sim. E, do jeito como mete, rebola e vibra a sua força dentro de Madá, ela interpreta que se trata de um “eu te amo”.

          O calmante eficaz para as angústias.

*

          O mímico está desabado na cama da pequena casa onde mora. A ex-assessora de imprensa perambula pelo ambiente: quarto, banheiro, cozinha. Quer conhecer melhor o lar e o homem a quem entregara a sua existência e julga que o melhor está no armário do quarto — quando ela deseja com ênfase, precisa cheirar as roupas da posse. A mulher puxa a primeira camisa do cabide e se agarra à manga como se fosse o braço do mímico. Aperta contra o peito. Esfrega entre as pernas. Cheira, entregue à sede. Ela pega outra camisa, dobrada. Faz o mesmo. Abre uma gaveta e encontra as cuecas. Lambe. Morde. Funga. A olhar para o homem, desabado de prazer, repete para si:

          — É meu, meu, meu, meu meumemuieueme... — repete até se embolar com as palavras, que nunca saem da boca do mímico e não fazem falta para ela, pois os olhos dizem muito. Os dedos, mais ainda.

          Madá continua a fuçar e a fungar as poucas roupas penduradas e dobradas no armário. Estranha o tecido de uma, encoberta por um casaco. Posta para fora, arrepia. É uma jaqueta de couro. Ela a conhece muito bem: comprara em Milão, para o ex-marido. Bisbilhota os bolsos. Encontra um porta-documentos quase vazio, se não fosse por uma foto tirada há sete anos, no aniversário de Netinho, com a família reunida e feliz. O choque se aguda. No bolso de dentro, papelotes de crack. Vários. Tráfico.

          — O que é isso, meu Deus?

          Ela se desequilibra, como se o chão houvesse sumido. Larga a jaqueta. Tremem as mãos. Arfa. Passa um rabo de olho no mímico e se dirige, a cambalear, à porta. Alguém bate. Mais forte. De novo. Mesmo anuviada, ela reconhece a voz que vem de fora.

          — Palhaço, trouxe mais negócio pra você. Pode abrir que é coisa fina...

          Madá abre a porta, mesmo de calcinha e vestida com uma camiseta. Quem procura pelo mímico é o seu filho, Netinho, a figurar um noiado, na companhia de dois rapazes mais velhos e um pivete conhecido do bairro onde morara. A segurar um colar de rubi, joia que foi da avó Madalena, ele não reconhece a própria mãe, que se amaldiçoa por ter confiado no absoluto. Com voz esganiçada, Netinho manda:

          — Ei, vagaba, chama o cara que eu quero ficar doidão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinhei...

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...