Pular para o conteúdo principal

Armadilha espetáculo (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui


Armadilha espetáculo
Emmanuel Mirdad

          As minhas mãos estão trêmulas demais. Receio que isso denuncie a verdade que tento ocultar — a omissão faz parte da prudência e, nesse momento, a coragem requer discrição. Estou cercada por ansiedades que me corroem e me obrigam, rodeada de flores e luxo, cerceada pela tradição e por uma numerosa família, a caminhar num espetáculo, ao lado do meu pai. Gostava tanto do meu espaço, dos meus segredos, das minhas manias. Nada escapará ileso da consequência deste ato; o compromisso ressignificará a estrada, sempre a negociar as decisões e os desejos.

          É tão difícil ter de aceitar e prosseguir. Ainda sinto o juízo doído, não previ que estaria tão arrependida assim. Em breve, alcançarei o ápice da cerimônia, o que talvez provoque a eclosão do desespero. Ajoelhar-se perante os símbolos que sacralizam o “para sempre” é demais para as minhas dúvidas; sufocam-me, a reproduzir a maldita certeza de que não há fuga nem opções.

          Foram meses de preparação e intensa dedicação dos meus pais, empolgados com a nova fase que se apresentava a mim — os olhos a irradiarem-me orgulho e admiração, numa emanação muito mais forte do que com as conquistas que obtive na minha carreira jurídica, desde a universidade. Contudo, eles nunca imaginariam que, justamente no momento mais sublime de toda a festa, o meu olhar se estagna no vazio do não-pertencimento e o meu sorriso não encontra necessidade para ser aberto — o semblante cerrado está camuflado pelo véu espesso, graças à sorte do acaso na escolha do traje, que me refugia da responsabilidade de estar feliz nas fotos tiradas agora, de tornar a minha imagem o motivo das lágrimas dos parentes e convidados.

          Atinjo a metade do percurso até o altar da igreja. É um momento crítico. Os olhares que me consomem são caçadores de vaidade; buscam o reconhecimento de serem também parte dessa “magia”. Bobos. Tudo é um enlatado previsível. O pouco que conseguem usurpar não preenche a boca de lobo da inveja. E mesmo que chorem pela minha “felicidade”, de maneira espontânea ou com boas intenções, jamais seriam capazes de intuir ou sequer imaginar que, por trás dos panos e dessa farsa, estou implorando perdão a Deus. Sinto que, em breve, irei desonrar essa instituição religiosa, dissolvendo o sagrado da cerimônia com papéis e advogados.

          Como posso continuar, se aquele que está logo à frente de mim, o homem que namorei para me casar, de beleza maravilhosamente dotada, força sobre mim a sua necessidade de total domínio? O abuso constante, exposto ou sorrateiro, transforma as minhas exigências em futilidades, os meus segredos, em supostos artifícios para feri-lo, e as minhas opiniões, em suporte ou contraste para o seu discurso, pretensamente afirmado como superior e mais capaz — que não passa de um conjunto de manias, baseado por um código de privilégios herdados, e não conquistados por mérito. A merda é que, a essa altura, não posso mais mandá-lo para o inferno. O meu pai me entrega: estou nos braços da armadilha.

          Quero fugir! Odeio esse espetáculo! Parem de me olhar, não estou feliz, será que não percebem?! Ele, ajoelhado, espera que eu também demonstre respeito à religião das nossas famílias. Quer saber... Que se fodam! Vou fugir! É agora!

          Adeus, armadilha.

*

          Viro-me de costas para o altar. E não consigo dar mais nenhum outro passo. O som uníssono do “ohhh” estagna o meu impulso. O burburinho não borbulha por enquanto, pois a surpresa é tamanha que não há espaço para comentar — a mesquinhez é engolida pelo susto do impensável, de modo breve. E eu permaneço parada, de costas para o noivo e o padre. E o desprezo passa a brotar aos poucos, olho a olho, a indignação circula a produzir, enfim, a condenação coletiva.

          Verifico que a minha família não quer ser humilhada. Uníssona, em silêncio, esmaga-me por olhares: repare o espetáculo! Nisto, uma mão pesada, firme, de baixo para cima, garfa o meu antebraço esquerdo num puxão.

          Está certo, armadilha. O que vale é o espetáculo. O resto, depois eu resolvo. Retorno à posição devida e peço perdão ao padre. Conduzo:

          — Pode continuar, foi apenas uma distração.

          Travo as lágrimas e vomito:

          — Eu te amo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinhei...

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...