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O tocador de tuba (Abrupta sede, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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O tocador de tuba
Emmanuel Mirdad

          Há um conjunto habitacional, de prédios quadrados a simular caixotes, com paredes desbotadas e descascadas, rasgos assimétricos de infiltrações, manchas de mofo, muros pichados e protegidos por cacos de garrafas, portões e grades enferrujadas, carros populares estacionados na rua sem saída, situado num bairro periférico, cujo nome homenageia um homem que nenhum morador conhece a sua história — será que houve algum mérito, de fato, que fosse possível justificar esse reconhecimento? —, despencado ao mar da Bahia, do outro lado da orla da cidade grande e desigual, distante dos bairros nobres, no fim da única linha de ônibus disponível, refém dos programas populistas do telejornalismo local. Alguém, ainda no meado dos anos 1980, apelidou-o de “catacumba”, o que permanece, mesmo entre os mais jovens, cuja vontade é prenha de desejos milhares.

          No quarto e último andar do bloco 07, um homem habita o apartamento 45, e o aluguel está atrasado mais uma vez. Sabe-se que se chama Augusto Notários porque faz sempre questão de dizer, de um modo como esse:

          — Bom dia, dona moça, Augusto... Notários... ao seu dispor.

          Caso ostentasse uma cartola, faria o movimento do começo do século passado a indicar a sua educação. Entretanto, disforme com o hábito atual, é motivo de troça. Ele não liga para os apelidos que o depreciam, nem que chamem de “trambolho” o seu instrumento de trabalho.

          O tocador de tuba é um músico incomum, o único da cidade grande e desigual que emana graves de profundidade que beira a imensidão. E este dom o destoa dos demais, além do tolerável para a execução de uma orquestra. Mesmo que pareça, na teoria, que o seu campo de trabalho deva ser farto, devido à pouca disponibilidade de tubistas no mercado, Augusto Notários sofre com o desemprego e demissões constantes. E, na última vez, cabisbaixo, reclamou:

          — Pois não há, no mundo, uma harmonia que me suporte?

          Na sala do 45, Augusto Notários, sentado num banquinho de madeira, acomoda o instrumento e decide reinterpretar “Tuba mirum”, de Mozart, num arranjo inédito, criação do momento, sem partitura.

          As paredes tremem.

*

          Outro dia, nova esperança, rumo ao emprego. O tocador de tuba acorda, a remoer na boca o sonho que o desperta. Presságio. Augusto Notários se cala. Nenhuma saudação, nenhum “bom dia”. Alguém o vê entrar na condução, a carregar o surrado case com o instrumento.

          A semana se passa. Heróis do imundo destilam probabilidades. Dias a mais, e o fim de linha tá cheio. Curiosos e alheios, carneiros de uma investigação que atiça, lembranças da fome enlouquecedora:

          — Cadê o gordo psicopata?

          Enquanto a vizinhança reparte entre si as hipóteses, alguém supõe ritual satânico, animais e crianças. Pronto. Com a polícia, a porta do 45 vem abaixo. Susto. Tudo normal, o banquinho de madeira, algumas roupas no armário, bananas maduras na cesta. Nenhuma pista que comprove a hipótese de crime ou indique o paradeiro do músico. Nenhum alento aos famintos. E a fofoca não termina. Mistério. Conspirações borbulham feito praga, mas o tempo faz o assunto cansar, aos poucos. Até que a vizinhança se esquece do sumiço de Augusto Notários.

          Outras tragédias estreiam, com novos protagonistas.

*

          “O olhar é uma janela que poderia ter me matado”. Augusto Notários lê o verso riscado num muro e discorda. É por essa janela que ele irá se atirar, justamente para não morrer. Entra num boteco porta de rua. No bolso, um envelope com cédulas, a raspa da poupança, o fim da herança da sua mãe cafetina. No balcão, reconhece o alemão discreto, que beberica e disfarça os seus comentários com sorrisos de meia boca. A malícia desse homem é lupina; a sede, de conhaque.
          Coiote.

*

          Em Nova York, vai acontecer a concorrida estreia da orquestra contemporânea Zurfinkgirma, da Áustria, com músicos experimentais de diferentes partes do mundo, todos fantasiados e maquiados, com instrumentos construídos a partir de materiais reciclados, comandada pelo maestro tcheco de origem turca e nome representado apenas por um símbolo gráfico. Só há um único instrumento que é possível ser identificado pela imprensa e público. E é justamente o que está a empolgar o maestro, que se diz um amante confesso da tuba e considera os graves e os subgraves emanados pela execução de Augusto Notários como divinamente satânicos, capazes de gabaritar a sua orquestra a atingir o patamar celestial do inferno.

          O tocador de tuba encontra a sua harmonia.

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