Alucinação
Emmanuel Mirdad
Acordo azeda. O vômito vem, e eu não seguro. Ainda pulso. No meu verso, o espelho do quarto, quebrado durante a fúria, simula uma composição um pouco mais humana; os fragmentos espalhados pelo chão parecem harmonizar as linhas disformes da minha aparência. A ausência momentânea da autofagia não me assusta. Não há alguém comigo — nem sempre foi assim. Estou sozinha em um cubículo alugado, quarto e sala. O efeito da combinação de ansiolítico com vodca é surpreendente: uma imolação contínua, que não cessa e prolonga o fim.
Eu sou incomum: um nariz em forma de gancho, uma cabeça enorme, cabelo ralo e sem brilho, destacada por um par de olhos caídos e separados entre si, alguns dentes montados, a maioria, caídos. Corcunda, manca pela diferença entre o tamanho das pernas, pés inchados, cardíaca e sem os dedos completos nas mãos, há furúnculos espalhados na pele, e o pus surge aos montes quando respiro, ofegante pela asma. Consideram-me uma poluição visual. Devo estar viva pela falta de um carrasco cego, então.
A vida me borbulha. Sobrevivo à vodca pirata e ao antidepressivo e saio rumo à orla. Escolho morrer no mar, a promover uma batalha entre os meus germes e o sal flamejante, para desinfetar, do restritivo mundo padrão, a minha existência, à vista dos outros, monstruosa. Basta! Resignada, não choro e apenas sigo em passos calmos. Chego bem perto da água salgada. Do calçadão, um berro agudo interrompe o vigor suicida; alguém grita o meu nome, com força e desespero. Uma mulher grande, galopante e pontilhada. Rita. Transfigurada, parece uma morsa, um elefante-marinho, molengo, gotejante e gorduroso, numa versão tropical, enrolada em folhas de bananeira. Linda! Os gritos continuam:
— Ô, sua desgraçada depressiva, por onde é que você andava?!
“Depressiva?”
— Ô, sua maluca, você nem é viva pra se matar, sua doida! Pare já com isso! Venha aqui!
Rita corre atrás de mim. Consigo fugir. De volta ao calçadão, avisto a mulher, escangalhada na areia, buscando ar. Coitada...
Eu a amo.
*
“Ah, Rita, quantos anos se passaram, que saudade dos seus furos...” A mais pesada, a mais valorosa, a arrasa-quarteirão, Rita. Quando trancava tudo, a dobrar para cima dos adversários, era uma farra! Bons tempos dos embates entre a Rua do Caixão e o ponto de táxi do seu Alfredo Bigode. Os desocupados compareciam. Os pobres coitados também. Assim como os pescadores da Vila Serena e o velhote da porteira, figura mítica, remanescente da era dos barões do cacau. Lembro-me dos moleques do colégio municipal, ali perto, que filavam aulas só para assistir ao jogo. Que exclusividade! O futebol sempre esperava.
O dominó proporcionava umas partidas bastante disputadas, com muito empate, um toma-lá-dá-cá danado, não havia favorito. Quem decidia, quase sempre, era a sorte mesmo. Com os jogadores safos, todos escolados, só o azar para vencer os empates e os embates. E as apostas fervilhavam. Todo mundo fazia a sua fezinha. Mas a plateia era obrigada a ficar em silêncio, quase absoluto. Qualquer troço diferente, seja movimentação ou diálogo, era motivo para alguém acusar de trapaça. Dependendo do palavrão, saíam na porrada, sempre respeitando o tabuleiro, sem bulir nas peças. Depois dos socos e apartações, a partida recomeçava. Ninguém comprometia o dinheiro dos apostadores por conta de tapas e murros. Que brigassem o quanto quisessem! Sangue e caras estapeadas depois, o jogo havia de recomeçar, de qualquer maneira. Eram nobres os cavalheiros do ócio.
Estive presente em todos os embates Rua do Caixão vs. ponto de táxi do seu Alfredo Bigode, desde a primeira partida, em 1982, quando os taxistas transferiram o ponto para a esquina da rua mais emblemática do bairro, vizinha à colônia de pesca Vila Serena, a inaugurar o confronto antológico, e o irmão do seu Alfredo comprou o tabuleiro novo, substituindo as peças antigas pela minha turma, todas novinhas e cheirosas. Labutei muito, suor e pancadas, a sofrer com o peso das mãos que mexiam o jogo. Milhares de vezes, tomei porrada de batidas nervosas. Levei até mordida. Até que mataram Rita, impiedosamente. Foi sacanagem.
O jogo desencadeou para uma armação de buchada. De novo, o irmão do seu Alfredo Bigode na cena. Montou todo o estratagema, calculado, peça a peça, até que o desgraçado do seu adversário, um maldito pescador banguela, que nem lembro o nome, fez uma besteira atroz. Em vez de se concentrar no jogo, foi passar o olho numa oferecida, que se mostrava, a passear do outro lado da rua. Pronto. Virou, sem querer, dois ternos, fechando o jogo, bem próximo de mim. Na mão direita do irmão do seu Alfredo Bigode, a minha querida Rita, assassinada, sem querer, por um erro medonho.
Um crime terrível, hediondo, inafiançável. Um absurdo! Mataram a Rita! Irritada, clamei por justiça, mas o que os desgraçados fizeram, foi apenas virar os dados e embaralhar as peças, para o jogo recomeçar. Fiquei furiosa com tamanha impunidade. Aproveitei a mão mole do embaralhador e escapuli, tabuleiro abaixo. Deram conta da minha falta, imediatamente. Suspenderam o embate. Ninguém conseguiu me encontrar. Fugi para o mundo real.
Sem mim, não houve mais partida. Dominó faltando peça é que nem infarto e derrame; fulminam, mesmo com o corpo quase inteiro. Até que os cavalheiros do ócio compraram um novo jogo e aposentaram a minha turma, junto com a Rita.
A bucha de sena mais linda que já foi feita.
*
Sempre fui esquisita, mas era decisiva nas vitórias. Do lado de cá, fora do tabuleiro, já substituída por um clone mais novo e lustrado, não paro de pensar na minha Rita. Amor platônico. Nunca nos colaram, as malditas regras não permitiam. Nas vezes em que ficamos separadas apenas por uma peça — aproximadas pelas alcoviteiras, as minhas primas de 2º grau, com o número seis gravado em uma das pontas —, eu saboreava o cheiro dos buracos da minha paixão, pesada, de maior valor entre nós todas. Com sorte, durante os rodopios antes do recomeço das partidas, ocorria da gente se chocar, se bater, se roçar. Uau! Como isso me excitava! Muitos lasquinês que proporcionei, vieram depois desse rebuliço. Que saudade...
Por um tempo, pensei que, se ela ainda existisse, deveria estar amarelada e sem pino, no mínimo. Aqueles taxistas sebosos sempre foram uns descuidados, horrorosos! O acaso da praia revelou o meu engano. Rita está transfigurada, mas não morta ou sem pino. Linda e viva, o meu eterno amor! E o seu grito me salvou do fim...
Vou criar coragem para reencontrá-la. Eu tive que fugir, achei que ela estava de conluio com os taxistas rancorosos, que ainda não engoliram o meu sumiço por terem gastado o seu dinheirinho para comprar um novo jogo de peças. É isso. Chantageiam a minha querida. Usam-na para me convencer a voltar. Soube que o embate cresceu, deve haver necessidade de mais um tabuleiro, e os taxistas vão preferir recuperar a minha turma em vez de comprar mais um jogo de peças. Por isso, precisam da minha volta. Jamais! Permanecerei aqui, na vida real, no seu mundo, com a minha amada Rita. Ela vai me entender, vamos, finalmente, nos colar, livres das malditas regras, independentes das marcas gravadas no nosso corpo, que identificam, explicitamente, as nossas diferenças matemáticas. Não volto ao tabuleiro, nunca mais!
Prefiro sangrar.
*
Reza-lenda que a peça de dominó Quina-Quadra, feia feito cabrunco, é depressiva e esquizofrênica, desde que sumiu do tabuleiro do seu Alfredo Bigode, durante a semifinal do campeonato de 1991. Pelo menos, é o que dizem, por aí.
Os ilustrados pescadores da Vila Serena.
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